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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Fé: O que é?


"Quem crê, diz Tomás de Aquino, crê, antes de tudo, na palavra de outrem. Por isso, em qualquer forma de crença, a pessoa em que se crê precede à palavra na qual se crê. A , portanto - antes mesmo de ser uma adesão a uma palavra - é um ato pessoal, no qual uma pessoa se fia na palavra de outra pessoa:

Ora, como o que crê adere à palavra de outro, considera-se como principal e fim, em qualquer espécie de crença, aquele em cuja palavra assentimos; e, como quase secundário, aquilo que admitimos por querermos assentir à palavra de outro.

Desta feita, no ato de fé, aderimos à palavra, não em virtude de termos atestado, demonstrativa e evidentemente a sua veracidade, senão porque, quem no-la diz, é digno de nosso assentimento:

Nesse género de fé, que, em oposição à anterior, poderemos chamar de autoridade, o motivo que determina o assentimento não é a evidência de que o testemunho é verdadeiro e de que aquele que o prestou, actualmente, no caso concreto, não faltou à verdade, mas a autoridade habitual da testemunha que, pela sua ciência e veracidade, tem direito a uma adesão dócil das nossas inteligências.

No caso da fé cristã, ocorre algo análogo

Com efeito, o crente cristão, não é senão aquele que adere, por um ato da vontade, a Cristo e, por isso mesmo, a doutrina de Cristo. Antes de aderir às palavras, o ato de fé implica, portanto, um assentimento à pessoa de Cristo. Em outras palavras, quem aderiu às palavras de Cristo é porque já assentiu, ipso facto, à pessoa de Cristo. Em uma palavra, em Cristo inseparáveis são a pessoa e a doutrina. Ele é, pois, o fundamento da nossa . O original latino, não deixa dúvida quanto a isso: “Sic igitur recte fidem Christianam habet sua voluntate assentitChristo in his quae vere ad eius doctrinam pertinent.” (“Assim, pois, aquele que possui a verdadeira fé cristã adere ao Cristo por sua vontade, naquilo que verdadeiramente pertence à doutrina de Cristo”)

Ora, a doutrina a testemunhar não é apenas teoria senão vida, e vida que consiste em aderir a outra vida: a vida pessoal de Cristo. A pessoa de Platão ou de Aristóteles, por exemplo, distingue-se de sua doutrina. Não assim Cristo: ‘Eu sou o caminho, a verdade, a vida’, diz ele (Jo 14, 6). Aderir à verdade cristã, é aderir à pessoa de Cristo, é viver de Cristo, ter em si o pensamento e o amor de Cristo. (...) Logo, testemunhar o cristianismo não pode reduzir-se a repetir fórmulas cristãs, nem mesmo a aceitar essas fórmulas. Testemunhar, é aceitar a pessoa mesma de Cristo, entregando-se a ele, observando o que ele prescreveu."

in, A teologia da Inquisição segundo Santo Tomás de Aquino - II
Por Sávio Laet de Barros Campos

Este pequeno excerto do estudo do Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (Brasil) tendo como fonte o pensamento preclaro de S. Tomás de Aquino dá-nos - na minha opinião - uma nova claridade sobre a fé que o homem adquire - ou não - na Pessoa de Jesus Cristo.

Logo, no começo, este ilustre académico, citando o pensamento de S. Tomás de Aquino,  começa por dizer: "Quem crê, diz Tomás, crê, antes de tudo, na palavra de outrem." e é por aqui que relativamente à aceitação da fé cristã, que tudo começa. 

Crer na palavra de outrem.

Crer, portanto, na Palavra de Jesus Cristo, não porque atestamos demonstrativa e evidentemente a sua veracidade, mas porque, quem  no-la diz, é digno de nosso assentimento e esse alguém, não se trata de uma só pessoa mas, no mínimo, de quatro: os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João.

E é nestas palavras de outrem que relatam os passos de Jesus e os seus ensinamentos a que o homem adere - ou não - por um acto de vontade e por assentimento à figura. de Jesus Cristo, observando o que Ele prescreveu.

Contam-se por muitos milhares de milhões de homens e mulheres que por crerem na palavra de outrem tem seguido ao longo dos tempos Jesus Cristo e n'Ele têm sabido encontrar o caminho da Fé, como acontece neste testemunho poético que é uma visão do homem sobre este atributo, que se é feito da imaterialidade que o forma esta tem o seu assento na humanidade de quem a viveu de perto e a sentiu actuante.

                  

As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os cânticos da terra.

No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira bússola nos seja,
Senhor, tua palavra.

A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que há de abrir à estância eterna
O fulgido caminho.

Ah!! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;

Quando das glórias frias
Que o tempo dá e o mesmo tempo some,
Despida já, — os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos lábios,
No coração, na mente põe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.

Machado de Assis
in 'Crisálidas'    

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