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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Parábola dos servos inúteis


Parábola dos servos inúteis
Sobre a prática da caridade

Texto do Evangelho de S. Lucas 17, 7-10


Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, ao voltar ele do campo: chega-te já, e reclina-te à mesa? Não lhe dirá antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me, até que eu tenha comido e bebido, e depois comerás tu e beberás? Porventura agradecerá ao servo, porque este fez o que lhe foi mandado? Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer.


Para a vaidade humana esta parábola é difícil de aceitar, se na sua interpretação entrarem apenas julgamentos sumários despidos dos conceitos que estão, apenas, na esfera de Deus.

- Somos servos inúteis?

A parte humana do ser que somos não deixa de ficar intrigada com esta asserção dita tão categoricamente, e logo à primeira reflexão põe-se em desacordo, donde é preciso fazer uma chamada àquilo que em cada um de nós tem reflexos do amor divino.
Deus não usa o homem, para no momento seguinte ao serviço prestado o descartar como este configurasse uma inutilidade, porque o que está dito, passa por uma chamada clara – é verdade – da subordinação do homem à divindade.
Tal como aquele que serve não faz qualquer favor, pelo facto de ter desempenhado uma missão que lhe estava confiada, de igual modo o homem nunca deve julgar-se credor de Deus no momento em que, conscientemente, cumpre uma qualquer obrigação nesta empresa que nos liga a Ele e através d’Ele a todos os homens.
Cumprimos, simplesmente, a nossa missão.

É um dos deveres que temos de respeitar nas relações com Deus, tomando depois de cumprir o que se impõe, uma atitude de humildade perante a divindade e, até, para com aquele a quem a nossa acção foi útil, não se ficando à espera de qualquer favor de Deus nem de uma qualquer recompensa pelo serviço praticado.
Na sua mais íntima essência o homem está orientado para Deus, mas só O atingirá em plenitude quando a sua atitude tiver a humildade de reconhecer o pequeníssimo grão de areia que ele é, em face do seu Criador. O servo inútil é, pois, alguém que leva a vida a praticar por amor ao próximo e a Deus, acções concretas de bens praticados e, após eles se apaga como se fosse uma vela que encheu a casa de luz e ao apagar-se, parece – sem o ser – uma inutilidade.
Cumpriu o seu dever e inutilizou-se, apagando-se.
É este o sentido da parábola.

Feito por amor a Deus um qualquer serviço a favor do outro, o prestador deve remeter-se a um religioso recato, como que inutilizando-se, ou seja, passar despercebido, como se nada tivesse feito.
Fez-se, apenas, o que devia ser feito.
Deus não quer que o homem se ensoberbeça pelo serviço que pratica em prol da comunidade ou do outro, porque fazendo-o por amor d’Ele, não pode existir qualquer obrigação recompensatória traduzida em benesses de se alcançar uma qualquer felicidade desejada de fortuna ou cargo social.
A doutrina evangélica condena esta postura.

Na humildade da sua condição o homem caminha para se atingir a si mesmo e isto só acontece quando o seu ser imperfeito se confunde com a divindade que trabalha dentro dele, devendo por isso, superar-se, julgando a sua inutilidade perante Deus como a maior utilidade que deve ter em todos os serviços que venha a praticar.
É ponto assente que em consequência das acções menos conseguidas, da altivez, da toleima e da contumácia, o homem insubmisso entende mal a sua subordinação a Deus e lhe parece uma ofensa da divindade o chamamento de inútil que lhe é dado,  algo que a sua farronca não pode aceitar pelo facto dele, arrogantemente, julgar que pode pedir contas a Deus.

Mas Jesus sabia do que falava e, sobretudo, para quem falava, precisamente, para os seus discípulos a quem competia continuar a Mensagem que Ele trazia da parte do Pai e deveria pautar-se pela assunção plena e radical da humildade do homem perante Deus, mas que não fosse feita de uma subordinação humilhante com a perda da autonomia e da liberdade, mas de uma subordinação humílima, autónoma e em tudo no pleno uso da sua liberdade pessoal.
O que está em causa é a assunção deste dom.

Jesus foi bem claro na resposta que deu aos filhos de Zebedeu, Tiago e João que eram seus apóstolos, quando estes, talvez pensando nos bons serviços que prestavam e sentindo-se merecedores de um beneplácito especial pediram que estando o Mestre na Sua glória, sentasse um à sua direita e outro à sua esquerda.

Conta S. Marcos que Jesus chamou-os para junto de si e disse-lhes: Sabeis que os que são reconhecidos como governadores dos gentios, deles se assenhoreiam, e que sobre eles os seus grandes exercem autoridade.  Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos(...) (1)
Como a parábola dos servos inúteis foi contada aos próprios discípulos, onde estavam Tiago e João, entende-se que eles, lembrando-se do pedido feito, compreenderam pela voz do Mestre o sentido daquelas palavras, incompreensíveis, apenas, para os homens cheios de si mesmos.



(1)- Mc 10, 42-45

domingo, 27 de janeiro de 2019

"O bom samaritano


 Parábola do Bom Samaritano
Sobre o messianismo de Jesus
  
Texto do Evangelho de S. Lucas 10, 30-37

Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão;  e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar.
 Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?  Respondeu o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Disse-lhe, pois, Jesus: Vai, e faz tu o mesmo.


É uma das parábolas mais conhecidas.
Encerra, para além da atitude de ordem sobrenatural, uma lindíssima e comovente história de solidariedade humana.
Geograficamente existe um acentuado desnível entre Jerusalém (750 m. acima do nível do mar) e Jericó (390m. abaixo). A localização desta cidade herodiana desde sempre permitiu que fosse conhecida pela sua vegetação luxuriante e afamada como a cidade das palmeiras. Nela morreu Herodes, o Grande, que a visitava amiudadas vezes.
A ligar as duas cidades existia uma estrada com cerca de 25 km  comprimento, onde era hábito acoitarem-se salteadores, na procura de interceptar os caminhantes na mira de os espoliar de bens. Jesus sabia desta realidade maléfica que punha bem longe dos corações criminosos o amor ao próximo, que deixava de ter direitos de cidadania naquela estrada.

Na sequência do que havia sido profetizado, Jesus anunciou, definitivamente, o Juízo Final, onde a culpa do homem esquecido das graças oferecidas seria castigada, donde toda a atitude havida em relação ao próximo haveria de por a descoberto a aceitação ou a recusa de Deus.
Aquele doutor da Lei que S. Lucas refere, ao perguntar-lhe: Mestre que hei-de fazer para possuir a vida eterna?(1), sendo como é crível da escola de Gamaliel (2) sabia que os sete últimos Mandamentos da Lei de Deus se referiam no amor que era devido ao próximo e desse modo respondeu acertadamente à pergunta de Jesus sobre o que estava escrito na Lei.

É então que Jesus conta a história em forma de parábola de um homem que descia de Jerusalém a Jericó, tendo sido vítima de um assalto, a ponto dos malfeitores o terem deixado meio morto.
Um sacerdote que vinha pelo mesmo caminho, olhou a cena e o estado em que ficara o infeliz caminhante e fez vistas largas, possivelmente transido de medo não fosse, também ser assaltado e espancado.
O levita (3) que casualmente passou a seguir teve o mesmo procedimento de abandono, sem ter parado um momento que fosse.Viu-o, e passou de largo, não fossem pensar os outros meliantes que se dispunha a ajudá-lo, por isso fez vista grossa.

Mas um homem de Samaria que passou depois de tudo isto, ao ver o estado em que se encontrava o agredido, encheu-se de compaixão;  e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
E fez mais.
Teve o cuidado de pagar a hospedagem e dizer cheio de amor ao hospedeiro: Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar. Aquele bom samaritano ia de viagem e, porque, certamente, teria algum assunto que não podia ser retardado teve a precaução de pagar a quem tratasse o ferido e ajuntar a seguinte recomendação: e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar.
Quando terminou o ocorrido na estrada que levava de Jerusalém a Jericó, Jesus num ímpeto de argúcia fez ao doutor da Lei a pergunta fundamental:
Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores? ao que o interrogado respondeu, dizendo: o que usou de misericórdia para com ele.

E respondeu bem.
Vai e faz tu, também, do mesmo modo – despediu-o, Jesus.
Sobre o tema do próximo o Concílio Vaticano II teceu a seguinte consideração, que é um alerta para os homens de hoje, cujos afãs quotidianos nem sempre deixam margem para pensar no amor que nos deve merecer o outro: o Concilio recomenda a reverência para com o homem, de maneira que cada um deve considerar o próximo, sem excepção, como um “outro eu”(...)(4)
É esse “outro eu ”a que Jesus se referiu ao responder a um dos fariseus, após lhes ter constado que Ele tinha calado os saduceus, pensando que O embaraçavam sobre qual era o maior dos mandamentos: Mestre, qual é o grande mandamento na lei?  Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento.  Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.(5)

Esta parábola do amor que é devido ao outro, resume-se, finalmente no grande ensinamento do Mestre: Tudo quanto quiserdes que os homens vos façam, fazei-lho, de igual modo, vós também.(6)
O encontro com o próximo é um dos que maiores consequências produz e, ao mesmo tempo, um dos mais inevitáveis. O “eu” está ordenado para o “tu” da comunidade. (7)
O eu e o tu tendem, deste modo, a ser o “outro eu” vendo-se o próximo com o amor como nos vemos a nós mesmos.
O samaritano da parábola foi um fiel intérprete deste sentimento.



(1) - Lc 10, 25
[(2)- Gamaliel é conhecido na história como um dos melhores professores da Lei que orientava o povo de Israel. Era um homem temente a Deus. Foi professor de Paulo. Ele não era fechado nos seus conceitos como muitos outros "doutores da lei", mas sempre se mostrou aberto ao diálogo e tinha capacidade de perceber a verdade que está nas pessoas com pensamentos e tradições diferentes
(3)- O levita era um membro da tribo de Levi, entre os hebreus. Levi foi o terceiro filho de Jacob e de Lia. Nos seus descendentes foi perpetuado o sacerdócio de Israel.
(4) - GS, nº 27- 
(5) - Mt 22, 36-40
(6)- Mt 7,12
(7) - in, A Essência do Cristianismo, de Michael Schmaus

domingo, 28 de fevereiro de 2016

A figueira estéril do Evangelho deste Domingo - 28 de Fevereiro de 2016


Leitura do Evangelho segundo São Lucas (13, 1-9) do III Domingo da Quaresma 
28 de Fevereiro de 2016

Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante. Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».



Neste III Domingo da Quaresma a Igreja lembrou pela pena do Evangelista São Lucas a Parábola da Figueira Estéril, toda ela foi dirigida pela pregação de Jesus ao povo judeu, que apesar da espera que lhe foi concedida por Deus, relativamente ao Messias esperado não deu frutos.de conversão à Boa Nova.

É uma parábola expedita.

Breve, concisa e muito ao jeito – corrente no ensinamento do Mestre – de dizer Verdades alinhadas com comparações da terra e da arte do seu cultivo como acontecia com o uso pelestiniense de se plantarem figueiras no meio das vinhas.
Um pormenor que Jesus não deixou escapar.

Na sua pregação havia dois pontos fundamentais: conversão e penitência, sendo que neste caso Jesus apresentando a conversão como uma necessidade absoluta, dá tempo para que tal aconteça e, por isso, o encarregado da vinha não esteve de acordo com o proprietário que numa ânsia dendroclasta queria a todo o custo cortar a figueira, há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro; corta-a, para que ocupa ela ainda a terra inutilmente?
Magnânimo, Deus não esteve de acordo.

Era preciso dar algum tempo.

A conversão é um processo interior que necessita tanto dele como a figueira que de estéril que era se lhe cavassem derredor e lhe deitassem estrume, poderia muito bem renascer interiormente e voltar a dar frutos sazonados.
Jesus tinha presente, neste passo, o que se diz de Deus no Livro da Sabedoria: Vós, porém, de todos vos compadeceis, pois sois todo-poderoso, e fazeis vista grossa aos pecados dos homens para os converter (...)  

Jesus fez o mesmo, ante a figueira estéril, imagem de um povo rude que tudo fazia para passar ao lado daquilo que lhe era anunciado sobre o Reino de Deus, que tivera a complacência de o escolher para nele anunciar a Boa Nova aos homens.
Era mais uma chamada e uma admoestação ao povo hebreu sobre a penitência que era preciso fazer em ordem à sua conversão, na certeza que tinha de ninguém escapar ao juízo de Deus, no dia final.

É para ele que se dirige Jesus, chamando a atenção para o abuso que era feito da Sua paciência, pois já havia já três anos que procurava fruto naquela figueira – a imagem do povo hebreu - e não o encontrava.

Esta lição é universal.
E dela devemos tirar todo o proveito.
O povo hebreu pode ser um de nós.
Mas Deus espera.

Faz vista grossa aos pecados dos homens para os converter!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Parábola dos Espíritos Imundos



Sobre a recusa de Israel 
em receber Jesus como Messias

Texto do Evangelho de S. Mateus 12, 38-45 (O sinal de Jonas)

Intervieram, então, alguns doutores da Lei e fariseus, que lhe disseram: «Mestre, queremos ver um sinal feito por ti.» Ele respondeu-lhes: «Geração má e adúltera! Reclama um sinal, mas não lhe será dado outro sinal, a não ser o do profeta Jonas. Assim como Jonas esteve no ventre do monstro marinho, três dias e três noites, assim o Filho do Homem estará no seio da terra, três dias e três noites. No dia do juízo, os habitantes de Nínive hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque fizeram penitência quando ouviram a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é maior do que Jonas! No dia do juízo, a rainha do Sul há-de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora, aqui está alguém que é maior do que Salomão!» «Quando o espírito maligno sai de um homem, vagueia por sítios áridos, em busca de repouso, e não o encontra. Diz então: ‘Voltarei para a minha casa, donde saí.’ E, ao chegar, encontra-a livre, varrida e arrumada. Vai, toma outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, instalam-se nela. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá também a esta geração má.» 




Esta parábola tem como tema principal o anúncio do messianismo de Jesus que haveria de ser glorificado na sua Paixão, Morte e Ressurreição - culminando os últimos três dias e noites da sua vida terrena, tantos como os dias e noites que o profeta Jonas esteve engolido pelo peixe - e começa com uma invectiva de Jesus contra os fariseus a propósito dum pedido destes que queriam, para O crer, um sinal da Sua divindade.
Conhecendo-lhe os propósitos, sem se intimidar e sem desejar dar-lhes um sinal na hora por eles assente, respondeu-lhes com a bem conhecida pergunta cáustica: Raça de víboras, como podeis dizer coisas boas, sendo maus? (Mt 12, 34)

Se à boca chega tudo aquilo de que o coração está cheio, Jesus sabia que as palavras desta seita judaica eram os frutos malsãos da malícia que empregavam em tudo quando diziam e faziam em desfavor da Sua missão.

Foi deste modo, que no momento em que estes conjuntamente com alguns escribas lhe pediram um sinal prodigioso - usando neste pedido todo o embuste de que eram capazes - Jesus, num assomo, lhes respondeu: Uma geração má e adúltera pede um prodígio; nenhum prodígio, porém, lhes será dado ver, senão o do profeta Jonas. (Mt 12, 39)

Este profeta natural da Galileia, oito séculos antes teve como missão o anúncio iminente da destruição de Ninive, a grande e poderosa capital da Assíria, que vivia dissolutamente, mas por ter duvidado e temendo o insucesso da profecia subtraiu-se à ordem de Deus, fugindo para Jafa e dali para Társis, no limite extremo da navegação do Mar Mediterrâneo.

Durante o percurso sobreveio uma tremenda tempestade, de tal ímpeto que a marinhagem se viu obrigada a alijar a carga. Tendo o chefe da equipagem dado com Jonas escondido no fundo do navio, invectivou-o: Levanta-te, invoca o teu Deus! Talvez esse Deus queira pensar em nós e não pereceremos. (cf. Jn 1, 6) 
Por fim, julgado como o causador da tempestade, após se ter declarado como hebreu e amigo de Javé e depois de terem perguntado: que havemos de fazer de ti para que o mar se acalme? , Jonas ao ver que o mar recrudescia de furor e vendo nisso um sinal de Deus contra ele, cheio de remorsos, pediu aos marinheiros: Pegai-me e lançai-me ao mar, que ele se acalmará para vós. (Jn 1, 12).

Jonas quis pagar com a vida a salvação dos seus companheiros de viagem, mas Deus misericordioso não aceitou o seu sacrifício voluntário. Usando da sua bondade fez que um peixe enorme o engolisse, salvando-o de um afogamento certo, tendo o profeta nas suas entranhas proferido palavras arrependidas e de amor a Deus, que por fim o vomitou na areia seca de uma das praias.

Ao sinal que os fariseus pediram e tendo Jesus respondido com esta passagem do Antigo Testamento, testemunhou que nunca poderia submeter-se à sua vontade fazendo um prodígio num momento por eles estabelecido, chamando de má aquela geração por ter rompido o pacto com Deus, e ao fazer valer o facto de Jonas ter estado três dias e três noites nas entranhas do peixe, tal acontecimento seria o sinal que iriam receber - quando Deus o quisesse - relativamente à Sua Paixão, Morte e Ressurreição, de duração igual ao do salvamento de Jonas.

Nesta parábola, Jesus dá mais um passo no sentido de se apresentar aos homens como o Messias, contra as condições impostas por Israel, que obstinadamente se recusa a aceitá-l’O, sem cuidar que tudo ficaria bem pior, porque Satanás voltaria à antiga morada que encontraria desocupada, varrida e adornada, e não satisfeito de ter conseguido tal feito, chamaria para a habitar outros sete espíritos piores do que ele, com o sentido de reforçar a posse da morada de onde havia sido expulso.

Mestre que era e conhecedor do mundo, Jesus não deixa sem reparo o facto comum do homem mau se juntar a outros do mesmo jaez de que resulta, que em vez de reformar e emendar o rumo da vida, faz que esta continue como estava ou se degrade muito mais.
Assim iria acontecer com Israel, como Jesus predisse: Assim acontecerá também a esta geração tão perversa, deixando ficar um recado eloquente a todos quantos se esqueciam ou não queriam entender as Suas palavras.

Hoje, continua a haver os que continuam a pedir a Jesus um feito espectacular para crerem n’Ele, sem contudo meditarem que o sinal do profeta Jonas está dado e é preciso meditar nele e naquilo que ele simboliza.
Começa todos os anos na quinta-feira santa e finda com a Ressureição do Senhor.
Este é o grande Sinal.
Velhinho, já passa de dois milénios mas sempre actual e prodigioso.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Parábola do Pai de Família ou do Senhor de Casa Virtuoso





11 – Parábola do Pai de Família
ou do Senhor de Casa Virtuoso

Sobre o uso das coisas antigas à luz da coisas novas,
que sem as abrogar as tornam mais válidas

Texto do Evangelho de S. Mateus 13, 51-52

Entendestes todas estas coisas? Disseram-lhe eles: Entendemos. E disse-lhes: Por isso, todo o escriba que se fez discípulo do reino dos céus é semelhante a um homem, proprietário, que tira da sua despensa coisas novas e velhas.


Este texto é uma conclusão do famoso Sermão em Parábolas que S. Mateus regista no capítulo treze do seu Evangelho, onde cabem as seguintes: a do semeador, a do trigo e o joio, a do grão de mostarda, a do tesouro escondido e a da pérola preciosa e a da rede.

 Existe nele –sendo embora pequeno - algo de doutrinário pelo doseamento que deve ser feito entre as coisas velhas que não podem deitar-se fora, todas elas, e as novas que se traduzem por uma mudança, como aconteceu com a Mensagem de Jesus.
É uma mensagem fundamental.
Assim, antes de terminar O Sermão –    dos mais concorridos de toda a Sua pregação - Jesus que havia falado em sete parábolas, todas elas de tramas diferentes e, necessariamente, de conceitos enquadrados nessas mesmas diferenças, perguntou de um modo directo com o jeito de quem queria obter uma resposta adequada a tudo quanto havia dito desde o barco para onde subira, falando para aquela multidão apinhada nas margens do mar da Galileia.

Entendestes todas estas coisas?

Jesus fazia questão de ser entendido, porque nisso residia a certeza de que a Sua Mensagem estava a atingir os fins propostos.
Ouvindo aquele Entendemos, dito com modos de quem sabia ouvir e discernir, fez questão de acentuar algo que fez muitas vezes durante o seu ministério, para que os que o ouviam, especialmente os seus discípulos entendessem definitivamente o que Ele se propunha fazer.
Concretamente, acentuou o seguinte conceito:
Não viera para abolir a Lei antiga, mas tão só para integrá-la, aperfeiçoando-a na Lei Nova de que era portador, com a missão de a realizar concretamente com a Sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição.

Nele se cumpriam todos os vaticínios dos profetas que ao longo dos séculos haviam predito a vinda do Filho de Deus.

que Ele viria da tribo de Judá (Génesis 49.10).
que Ele descenderia da casa de Davi (Isaías 11.1; Jeremias 33.21).
que Ele nasceria de uma virgem (Isaías 7.14).
que Ele viria ao mundo em uma pequena aldeia chamada Belém (Miquéias 5.1-2)
que Ele morreria em sacrifício (Isaías 53.1-2).
que Ele perderia Sua vida através de crucificação (Salmo 21.1-21).
que Ele ressuscitaria dos mortos (Salmo 16.8-11; Isaías 53.10-12).
que Ele voltaria à terra (Zacarias 14.4).
que Ele apareceria nas nuvens do céu (Daniel 7.13).

Era nisto que residia a Promessa.
Ele era o Messias anunciado e que desde um dado momento, tendo-se apresentado aos homens como tal, fez das parábolas um meio eficaz para dar a conhecer a doutrina do Pai.
Nesta parábola, Jesus utiliza sabiamente a figura patriarcal de um pai de família – ou senhor de casa virtuoso – que, naturalmente, tem nos seus armários e guarda-roupas os mais variados objectos e vestes precisas para poderem ser usados e usadas em tempos julgados convenientes.

E como sempre acontece, tem à sua guarda coisas novas e velhas, que mais não são que as riquezas doutrinais da Velha e da Nova Lei.
Jesus e a Sua doutrina são universais.

Como o pai de família usa o velho quando este se coaduna com uma dada situação, do mesmo modo trata o novo. E com isto queria dizer que os homens durante a vida terrena deveriam utilizar para se comportarem como justos e rectos perante Deus, os preceitos antigos que não tivessem sido abolidos e todos os outros inaugurados pela sua pregação.
Assim, enquanto na parábola de rede – a última do Sermão - estamos já na fase do julgamento com os maus a merecem o castigo adequado, nesta parábola o uso das coisas novas e velhas é algo querido por Deus, tendo em vista a salvação dos homens.

O pai de família, cumprindo isto, é um senhor virtuoso.
É para aqui que aponta a parábola.
É uma chamada de atenção para nós, viventes e para o modo como gerimos a nossa vida

  

Parábola da Rede




Quadro de Jan Luyken na Bíblia de Bowyer


10 – Parábola da Rede

Sobre a liberdade do homem de conhecer, ou não,
a Verdade, e das contas que dará a Deus


Texto do Evangelho de S. Mateus 13, 47-50

Igualmente, o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanhou toda espécie de peixes. E, quando cheia, puxaram-na para a praia; e, sentando-se, puseram os bons em cestos; os ruins, porém, lançaram fora. Assim será no fim do mundo: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes.



Com esta parábola encerra-se o tríduo dedicado à explicação da natureza do Reino do Céu, começado com as duas anteriores: a parábola do Tesouro Escondido e a da Pérola 
Preciosa, fazendo dela a chave importantes com que Jesus quis fechar nos corações dos apóstolos o ensino explicativo da sua missão messiânica.

Mais uma vez a faina piscatória do mar de Tiberíades e a sua realidade entra no ensinamento de Jesus, deixando bem claro aos seus ouvintes e especialmente aos seus discípulos a obra que lhes pedia e que como acção fundamental – sendo eles pescadores de homens – o dever de lançarem as redes sem olhar à qualidade do peixe pescado, pois só no juízo final, seria feita a escolha.
É a última das sete parábolas a que Jesus recorreu junto ao mar de Tiberíades e registada por S. Mateus.

É, pelo contexto, uma parábola intrigante, cheia de sombras escuras.
E se nela existe como que um novo olhar sobre a parábola do trigo e do joio, a diferença não está só em ser mais breve mas ser mais radical quanto ao julgamento.
Constitui uma lição fundamental da doutrina que Jesus que de modo algum podia deixar sem acentuar uma da condições da Humanidade: que no mundo que hão-de continuar a existir os bons e os maus, uns perfeitamente visíveis e, outros, como neste caso, ocultos como acontece com os ruins peixes do mar, mas sobre os quais nunca deixará de estar presente a misericórdia de Deus, dando-lhes tempo de se regenerarem, ou ao invés, serem lançados fora e onde haverá choro e ranger de dentes.
É, de algum modo, um radicalismo que Jesus não omite.
Pai da Verdade não deixou jamais de falar às direitas.

Os homens – nos seus julgamentos, quantas vezes, primários - podem afastar de si aqueles de que não gostam e lançá-los fora como peixes ruins como fizeram os pescadores da parábola, mas é a Deus que espera sempre pela hora da conversão que pertence a derradeira Palavra.
Ele é O Juiz da hora final e como afirma S. Pedro: 

Ora pois, já que Cristo padeceu na carne, armai-vos também vós deste mesmo pensamento; porque aquele que padeceu na carne rompeu com o pecado; a fim de viver durante o tempo que lhe resta de vida na carne, não mais segundo as paixões humanas mas segundo a vontade de Deus. Porque é bastante que no tempo passado tenhais cumprido a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borrachices, glutonarias, bebedices abomináveis idolatrias. Eles estranham agora que não os acompanheis nos mesmos desregramentos de libertinagem e, por isso, vos cobrem de calúnias. Mas prestarão contas Àquele que está pronto para julgar os vivos e os mortos. (1)

A nós compete lançar a rede e pescar todos os peixes.
E não julgar, sobretudo, de ânimo leve.
Só Deus é que porá a luz final sobre todas as coisas, pondo a claro o que andou envolto em trevas, porque deu a todos os homens a possibilidade de O conhecerem.
S. Paulo, um dia, ao falar ao povo de Corinto foi bem claro neste aspecto:
Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deu, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Sempre dou graças a Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus; porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento. (2)
Na sua plena liberdade o homem recusa ou pode ser dono de todo o conhecimento, sem esquecer aquele de que falou S. Paulo, sabendo-se, e todo o homem sensato não pode deixar de ter isto em consideração, que é só por meio dele que pode ser escolhido o melhor dos caminhos que apontam para Deus.

Assim o que a parábola da rede nos diz é que o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanhou toda espécie de peixes que andaram por bons e maus caminhos, advertindo, no entanto para a diferenciação que há-de existir entre eles no julgamento final.
Sobre isto não deixa saída.





(1) - 1 Pd 4, 1-5
(2) - 1 Cor 1, 3-5

Parábola da Pedra Preciosa



Quadro de Domenico Fetti
Kunsthistorische Musem - Viena
(in, Wikipédia)

9 - Parábola da Pérola Preciosa

Sobre o triunfo da missão messiânica
ao apontar ao homem a entrada na Casa do Pai

Texto do Evangelho de S. Mateus 13, 45-46

O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola.


Prosseguindo a mesma linha de pensamento, Jesus reforçou a anterior parábola com esta, que tem alguns cambiantes bem diferentes, pois não era crível a repetição de uma ideia já assente.
O Mestre nunca se repetiu.

Foi sempre diferente e de um modo que deixava boquiabertos os seus próprios amigos e desconcertados os inimigos que O ouviam sempre na esperança de O embaraçarem, não se coibindo de lançar a confusão nos ouvintes mais atentos e que solidamente se iam aproximando.
Nesta parábola, Jesus antevê o triunfo próximo da Igreja que Ele veio fundar.

É a pérola de grande valor.

Se na parábola do tesouro escondido também isto se pode entender, nesta, a pérola de grande valor ganha outra dimensão por ser, ainda naquele tempo, a peça mais cara de qualquer tesouro, tendo o dom de fascinar os homens, como hoje acontece como o diamante. Havia explicações misteriosas que tendiam a justificar a sua formação, de tal forma, que os mercadores antigos percorriam o mundo na busca das pérolas mais preciosas.

Diz Jesus que o homem tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra-a, sem que para a sua decisão tenha concorrido qualquer vontade estranha, mas tão só a decisão própria provinda de uma vontade firme de saber que de posse daquele bem, tinha uma fortuna em casa.
Assim terá de ser o Reino do Céu.
Ter uma fortuna em casa.
Uma compra por decisão da vontade de cada homem, que para tanto se deve empenhar em possuir aquele Bem maior.
Jesus não obrigava ninguém.
Exercia o poder do convite, deixando a decisão a cargo daqueles que eram alertados para a Boa Nova que Ele trazia à Humanidade.

Aborrecia-O a desilusão que podia causar, como aconteceu quando ia com os seus a caminho de Jerusalém e alguém abeirando-se d’Ele lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores. Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. (1)
Jesus não tinha bens pessoais onde pudesse reclinar a cabeça, mas tinha bens para dar de graça a todos os homens de coração puro.

Por isso, a pérola preciosa de que Ele falou é este Bem que está ao alcance de todos e se resume em segui-l’O, especialmente os homens arrependidos, na certeza que Ele deixou, quanto ao preço que é pago para entrar na Casa do Pai não se fundar em coisas palpáveis mas naquele bem muito maior que mora por dentro e na intimidade de cada um.
 A pérola sendo uma imagem, esconde bem dentro a afeição do homem pela escolha que este, livremente faz de Jesus, no momento em que encontra escondida no seu campo – ou seja, na sua vida – a pérola de grande valor que nada custa e tudo dá de graça.



(1) - Lc 9, 57

Parábola do Tesouro Escondido




Quadro de Rembrandt (1630)
Museu das Belas Artes de Budapeste



8 – Parábola do Tesouro Escondido

Sobre a necessidade de deixar o supérfluo 
e guardar o bem precioso que é a Palavra de Deus


Texto do Evangelho de S. Mateus 13, 44

O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo; o homem que o encontrou, esconde-o e, fora de si de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo.

Do Antigo Testamento, Livro dos Provérbios:

Filho meu, se aceitares as minhas palavras, e entesourares contigo os meus mandamentos, para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido, e para inclinares o teu coração ao entendimento; sim, se clamares por discernimento, e por entendimento alçares a tua voz; se o buscares como a prata e o procurares como a tesouros escondidos; então entenderás o temor do Senhor, e acharás o conhecimento de Deus. (1)


A parábola do tesouro escondido é pequena, mas tão profunda no seu ensinamento que prova quanto é maravilhoso alcançar o Reino, comparando-o a um tesouro, que o é – e de tal modo – que todo aquele que o alcança deixa tudo para o não perder.
Estamos a ouvir O Mestre.
Naquele tempo o direito judaico reconhecia como um direito adquirido qualquer tesouro que o proprietário encontrasse escondido no seu terreno. Por esse motivo, se qualquer trabalhador durante as tarefas quotidianas do amanho das terras encontrava qualquer tesouro escondido, fazia tudo para adquirir o campo.
Isto não é de modo algum uma ficção.

Na Palestina, as desordens e as guerras impuseram a alguns homens fugas tão apressadas que estes enterravam os bens que não podiam ou não deviam levar, na esperança de um dia os virem a reencontrar. Aconteceu que muitos dos foragidos nunca mais voltaram, tendo os campos mudado de dono e passado para aqueles que não tinham conhecimento destes factos.
No património comum da sabedoria popular registado no Livro dos Provérbios, a propósito de ser acolhida a palavra sábia, diz-se: se a procurares como a prata e a desenterrares como os tesouros(...) (2) donde, se conclui que a prática do tesouro enterrado era um costume comum.

Jesus, conhecedor desta realidade, serviu-se de uma comparação que ia beber directamente no hábito costumado dos seus conterrâneos onde estava bem patente o amor destes pelas coisas terrenas, hábito que de todo não está erradicado do comportamento humano.
Qual o porquê deste procedimento?
Muito simplesmente, porque a natureza do homem o que procura ao adquirir um tesouro é a conquista da felicidade terrena, em primeiro lugar, acontecendo, muitas vezes, que tendo-se ficado prisioneiro da riqueza, tudo o resto deixa de interessar, ou seja, o bem maior que é a riqueza do Céu passa para um lugar secundário e aqui entra a sabedoria antiga que vinha desde o tempo do Livro dos Provérbios, esse património comum da sabedoria popular que já chamava a atenção para a necessidade de inclinar o coração ao entendimento e então entenderás o temor do Senhor, e acharás o conhecimento de Deus, como um bem precioso.
É por esse motivo que Jesus compara o Reino dos Céus semelhante a um tesouro escondido no campo, devendo todo aquele que tem a felicidade de o achar, fazer deste bem a prioridade entre todos os bens que a vida lhe possa dar.

Deste modo, tal como o felizardo descobridor do tesouro enterrado na terra se o quiser adquirir não pode deixar de entrar na posse do campo onde ele está escondido, assim todo aquele que quiser entrar de posse das riquezas evangélicas, precisa como condição fundamental entrar dentro da Mensagem de Jesus, um tesouro que estava escondido antes d’Ele aparecer no meio do homens.
Jesus nesta breve parábola não deixa, no entanto, de tecer um acção que é em todos os casos necessária ao homem para conseguir alcançar o que pretende.
Referindo-se ao descobridor do tesouro, Jesus, diz: fora de si de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo.

É aqui que reside o ensinamento vital que está implícito na comparação que é feita para ilustrar a alegoria que foi apresentada.
Compete ao homem agir depressa e bem.
Vender tudo, ou seja, deixar tudo aquilo que o torna escravo da conquista de bens – especialmente de todos aqueles que se tornam supérfluos e o não deixam ver claro os bens que hão-de salvar a sua alma – e entrar, definitivamente de posse da grande riqueza que Jesus passou a oferecer a todos os homens desde o momento da sua pregação sobre o Reino dos Céus.
Esta é a primeira das parábolas sobre a natureza desse Reino sobrenatural.



(1)  - Prov  2, 1-5
(2) - Prov  2, 4