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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Em lembrança de Raphael Bordallo Pinheiro

in, "O Occidente" nº 939 de 30 de Janeiro de 1905


Faz hoje anos.
Num dia como o de hoje, há 114 anos faleceu Rapfael Bordallo Pinheiro, esse famoso artista que pela sua obra imensa repartida por livros e publicações de cariz político e satírico é uma glória portuguesa, cuja memória se honra aqui na modéstia deste "blogue" por não desejar esquecer o precursor do cartaz artísrico com a sua veia ímpar de desenhador, aguarelista e caricaturista, onde não faltou o pendor político e social da sociedade do seu tempo.

É a ele que se deve a popular figura do Zé Povinho que se tornou um símbolo do povo português com todos os seus defeitos e virtudes, a qual, ainda hoje, continua a ser nossa contemporânea.

Este ícone caricatural apareceu pela primeira vez em "A Lanterna Mágica" no dia 15 de Maio de 1875, um periódico que se destacou por ter sido o primeiro dedicado à crítica social e ao qual deu colaboração Guerra Junqueiro, o "Gil Vaz", de pseudónimo, como os restantes, Bordallo Pinheiro e Guilherme de Azevedo.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Falando de "Justiça" na Suma Teológica

S. Tomás de Aquino
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A "Suma Teológica" é uma Obra imensa dividida em 3 partes, onde se encontram 512 questões. Cada questão tem perguntas individuais. Estas representam os 2669 capítulos onde estão contidas 1,5 milhões de palavras, 1,5 vezes mais que todas as palavras de Aristóteles (1 milhão), o dobro de todas as palavras conhecidas de Platão.
(in, Wikipédia, a enciclopédia livre)

Numa questão dedicada à "Justiça" aparece, naquele famoso Livro, a seguinte pergunta, que faz todo o sentido nesta quadra natalícia em que o comércio menos escrupuloso costuma vender a preços exorbitantes a sua mercadoria

É lícito no comércio vender algo a um preço mais alto do que custar a ser adquirido?
(in, Suma Teológica, II-II, 77, 4)

Esta pergunta é feita pelo autor desse Livro que é a obra mais proeminente de São Tomás de Aquino, um frade, filosofo, teólogo e Santo da Igreja Católica que é considerada uma das principais obras filosóficas da escolástica, escrita entre os anos de 1265 a 1273 e é, ainda hoje, merecedora de consulta.

Para a pergunta que encima este apontamento S. Tomás reponde assim:

É apropriado que os mercadores se dediquem às mudanças das coisas; tais mudanças são de dois tipos: uma, como natural e necessária, ou seja, pela qual a troca de coisa por coisa ou de coisas por dinheiro é feita para satisfazer as necessidades da vida; esse tipo de mudança não pertence propriamente aos mercadores, mas sim aos chefes da família ou aos chefes da cidade, que têm de prover sua casa ou cidade com as coisas necessárias à vida; o segundo tipo de mudança é o dinheiro por dinheiro ou qualquer objeto por dinheiro, não para prover as necessidades da vida, mas para obter algum lucro; e esse tipo de negociação parece pertencer, propriamente falando, àquilo que corresponde aos mercadores. Mas, de acordo com o filósofo, a primeira espécie de mudança é louvável, porque responde à necessidade natural; mas o segundo é com justiça reprovadora, já que, por sua própria natureza, promove o desejo de lucro, que não conhece limites, mas tende ao infinito. Assim, o comércio, considerado em si, encerra certa estranheza, porque não tende, por sua natureza, a um fim honesto e necessário.

Contudo, o lucro, que é o fim do comércio, embora em sua essência não implique algum elemento honesto ou necessário, não implica em essência nada de vicioso ou contrário à virtude. Portanto, nada impede que o lucro seja condenado a um fim necessário ou mesmo honesto, e então a negociação se tornará legal. Esse é o caso quando um homem dedica o lucro moderado que adquire por meio do comércio ao apoio da família ou também para ajudar os necessitados, ou quando alguém se dedica ao comércio para servir ao interesse público, para que eles não percam a vida da pátria. as coisas necessárias, porque então ele não busca lucro como fim, mas remuneração de seu trabalho.


Estas são as palavras lapidares do filósofo cristão - PALAVRAS CONSTRUTORAS DE VIDA - que tecem metas em que o lucro dentro da justiça que o deve reger não é um pecado, ou sejas em termos seculares "um crime", porquanto um lucro assim entendido insere-se na norma da vida de qualquer cidadão que faz da sua honestidade, ainda que comercial, um modo de vida para seu próprio sustento ou para servir ao interesse público.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Faz hoje 263 anos.


Faz hoje 263 anos que eclodiu em  Lisboa, pela manhã, o terrível terramoto e maremoto de 1755 que arrasou a cidade tendo deixado atrás de si, milhares de vítimas, pelo que ao lembrar esta data, dos muitos escritos que sobre ela existem, veio-me à lembrança um vulto da história industrial e comercial daquele tempo - Jácome Ratton -  que teve de fugir do Convento do Carmo onde assistia à Missa de Todos-os-Santos.


Das memórias que nos deixou compiladas em Livro, está a que se segue no cap. 13, sob o título: 

Época e sucessos respectivos ao Terramoto de 1755.

Entre os acontecimentos extraordinários da minha vida não devo omitir a meus filhos o que passei na ocasião do memorável terramoto de Lisboa, que teve lugar no dia 1º de Novembro de 1755, pelas nove horas e meia da manha; e como fosse dia de Todos os Santos, tinha eu sido á Missa á Igreja do Carmo, cujo tecto era de abobada de pedra, e derrubado matou muito povo que ali se achava, de cujo perigo escapei por ter sido mais cedo, e me achar na dita hora nas águas furtadas. Das minhas casas, mostrando a hum comprador numa partida de papel, que nos tinha vindo avariado, e ali se tinha posto a enxugar.

Ao sentir o primeiro abalo me ocorrerão muitas reflexões tendentes a salvar a minha vida, e não ficar sepultado debaixo das ruínas da própria casa, ou das vizinhas, se descendo as escadas fugisse para a rua; mas tomei o partido de subir ao telhado, nas vistas de que abatendo a casa eu ficasse sempre superior às ruínas.

Já quando eu tomei este expediente era tanta a poeira, que, á maneira do mais denso nevoeiro, impedia a vista, a duas braças de distância; só passados alguns minutos, que a dita poeira se foi dissipando, e que eu pude ver o interior das casas vizinhais, por terem caído as paredes fronteiras, até aos primeiros andares, ficando os telhados apenas sustidos pelas paredes divisórias.

Seus habitantes, alguns ainda em camisa, correndo espavoridos de numa a outra parte imprecavam os auxílios do Céu, e dos homens em seu socorro. À vista desta horrível cena, me resolvi descer as escadas, e fugir para a rua, a fim de buscar alguma parte aonde me julgasse mais seguro.

Ao descer as escadas encontrei meus Pais, que aflitos me buscavam nas ruínas de um grande pano da chaminé que tinha caído, e debaixo do qual me julgavam sepultado. Foi inexplicável o nosso contentamento quando nos encontramos; mas eu sem perder tempo lhes pedi que me acompanhassem para o largo mais próximo, que era ao fundo da rua do Alecrim; e encontrando de passagem D. Maria Castre, nossa vizinha, pouco mais ou menos da minha idade, que também fugia, a tomei pelo braço, e seguimos a rua dos Remulares por cima de entulhos, e muitos corpos mortos, até á beira-mar, aonde nos julgávamos mais seguros.

Mas pouco depois de ali ter-mos chegado, assim como muita gente, se gritou que o mar vinha saindo furiosamente dos seus limites: facto que presenciámos, e que redobrou o nosso pavor, obrigando-nos a retroceder pelo mesmo caminho, e a procurar, pela rua de S. Roque, o alto da Cotovia, então obras do Conde da Tarouca, depois Patriarcal, e hoje Erário novo, aonde também vieram ter, por diversos caminhos, meus Pais, e os parentes da dita Senhora, todos na maior inquietação por não saberem hunos dos outros, como acontece a imenso povo, que procurou aquele sitio descampado, então terras de pão, desde o alto da rua de S. Bento até a travessa de Cárdeas de Jesus, havendo apenas algumas casas na rua que vai desde o Pátio do Tijolo, ou obras do Conde de Soure, até a fábrica da seda, que já existia, assim como também a casa de D. Rodrigo, actualmente Imprensa Regia, e o Convento dos Jesuítas, hoje Colégio dos Nobres.

O descampado daquele alto dava lugar a descobrir-se a cidade por todos os lados, a qual, logo que foi noite, apresentou á vista o mais horrível espectáculo das chamas que a devorava cujo clarão alumiava, como se fosse dia, não só a mesma cidade, mas todos os seus contornos, não se ouvindo senão choros, lamentações, e choros entoando o Bem-dito, Ladainhas, e Miserere.

Por fortuna o céu se conservava claro e sereno, e o terreno enxuto; por não ter até então havido chuvas, nem as haver por oito dias mais, o que doe ocasião a fazer cada hum os arranjos, que lhe permitia as circunstâncias.

Na madrugada do seguinte dia me convidou meu Pai para o acompanhar às nossas casas, e ver se delas podíamos salvar alguma cousa, principalmente o precioso, livros, e papéis de maior importância. Não foi sem bastante trabalho, que nos saímos bem desta empresa; por quanto descendo pela rua de S. Bento, ainda com poucas casas, atravessamos do poço dos Negros para o poço novo, tomamos a calçada do Combro, e rua do Loreto, para descermos ao fundo da rua do Alecrim, de cujo lugar avistamos já em chamas a propriedade Pegada com a nossa casa, restando-nos apenas tempo para tirar os artigos acima ditos, que metemos em hum baú, que meu Pai por numa banda, o eu por outra trouxemos, por entre chamas em que ardia as ruas do Alecrim, S. Roque, e S. Pedro d'Alcântara, até o alto da Cotovia, aonde minha Mãe nos esperava.

Dali nos partimos com o baú numa besta de carga, que por fortuna aparece, e nos dirigimos a numa quinta de pessoa de nossa amizade, sita na estrada do Lumiar, adiante do Campo Grande, aonde fomos bem recebidos, e alojados no jardim, debaixo de numa barraca feita de lenções, e alastrada de colchões, sobre os quase dormia promiscuamente, e sem se despir, tanto a gente de casa, como a de fora; porque ninguém se animava a dormir debaixo de telha.

Os hóspedes era muitos, e o pouco, comer porque todos tinha receio de se demorar na cozinha, que havia pago em comum era mal feito; e houve tanta escassez de pão, que meu Pai, e eu fomos com numa besta de Ceira buscar numa carga a Linha – a - Pastora nas vizinhanças de Barcarena.  
Naquela quinta nos demoramos somente os dias necessários, para nos refazer do vestuário indispensável, principalmente roupa branca; visto que não foi possível a cada um salvar, mais do que aquela que tinha no corpo.


Jácome Ratton (nascido Jacques Ratton, em Monestier de Briançon, atual Le Monêtier-les-Bains), 7 de Julho de 1736 - Lisboa, c. 1821-1822) foi um industrial e comerciante luso-francês do século XVIII e início do século XIX. Deputado do tribunal supremo da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação; fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da ordem de Cristo. Sendo francês de nascimento, tornou-se português por naturalização.

Os seus pais vieram para Portugal, onde já tinham familiares (Jacome Bellon,um tio seu mantinha actividade mercantil no Porto) e Jácome Ratton segui-os, chegando a Lisboa em 7 de Maio de 1747, onde continuou a sua educação, sempre orientada no sentido do comércio. Em 1758 casou com Ana Isabel Clamouse, filha do cônsul francês no Porto, Bernard Clamouse. Em 1762, durante a Guerra dos Sete Anos, naturalizou-se português.

No quadro das políticas de fomento industrial pombalino, em 1764 projectou uma fábrica de tinturaria, outra de chitas, outra de papel e ainda de chapelaria, em Elvas e Lisboa; ao mesmo tempo investia na exploração das salinas de Alcochete e à plantação de árvores exóticas em Portugal (foi ele o responsável pela introdução do Eucalipto e da Araucária em Portugal).

O seu Palácio em Lisboa (Palácio Ratton), é hoje em dia a sede do Tribunal Constitucional.

Fonte: Wikipédia, a Enciclopédia livre

domingo, 28 de outubro de 2018

"Honra e Justiça a Cavaco Silva"


Honra e Justiça a Cavaco Silva

Tanto quanto julgo saber, disse um dia Aníbal Cavaco Silva que, “Não somos donos da terra, mas apenas os seus hóspedes transitórios”.

Frase sábia e bem demonstrativa da maturidade do homem que mais tempo e com maior sucesso governou na história da democracia portuguesa. Goste-se mais ou menos disso, esta é a realidade. A realidade pessoal e política de um homem que ao contrário dos de hoje marcou a sua época. Daqui a 50 anos todos continuarão a saber quem foi Cavaco Silva. Por sua vez muitos dos seus detratores, julgo nem virem a constar das notas de rodapé da história do nosso país. Posto isto, sem querer desvirtuar o sentido da citada afirmação do ex. Primeiro Ministro e Presidente da República não resisto ainda assim a fazer-lhe uma adenda.

Cavaco Silva não foi dono da terra, foi também ele um hóspede transitório da legitimação por sufrágio, mas uma coisa é certa, o que nunca foi nem é transitório é o impacto que tudo quanto diga e faça tem nos restantes atores políticos. Cavaco já não manda, mas como sempre ainda os mói. O recalcamento de muitos, por verem nele, o que gostavam de ser ou ter sido e não são, continua como sempre a fazê-los espumar de raiva. Mas terão de espumar até que sejam atingidos por um qualquer esgotamento nervoso. Começa a ser, portanto, a meu ver, ridícula a forma como todos “malham” em Cavaco sempre que este diz alguma coisa. Escreveu um primeiro livro de memórias, o que a maior parte dos políticos importantes fazem, caiu o Carmo e a Trindade com José Sócrates, entre outros, em horário nobre, a lançar tiros de pólvora seca por todo e para todo o lado.

Algum comentário que faça, surgem logo os arautos da verdade ou os papagaios amestrados dizendo que com eles demonstra falta de sentido de Estado. Pergunto: Qual é político que hoje o demonstra? Estimado Carlos César, diga-me, é o Senhor? Se comenta algo sobre a postura da atual presidência é uma deselegância para com o atual titular do cargo e os que já o foram. Pergunto de novo: Os outros não o faziam? Mais: E porque não o devem poder fazer? E não satisfeito ainda pergunto: Estou enganado ou Marcelo Rebelo de Sousa passou anos e anos, semanalmente a fazê-lo e, agora, parece não lhe agradar que outros o façam? Podem dizer. “Bem, mas o Marcelo aí não era Presidente”. Pois não! E Cavaco também já não é! Chega desta palhaçada.

Cavaco Silva como qualquer outro político fez coisas boas e menos boas, tomou decisões mais e menos acertadas, os seus últimos anos foram de facto cinzentos, mas ainda assim um cinzento verdadeiro ao contrário do falso cor de rosa com que muitos hoje pintam a cara e com ela aparecem em público. Aníbal Cavaco Silva foi e continua a ser o político mais influente e com maior poder formal e informal no país. Em quarenta e poucos anos de democracia, destes, governou em vinte. Merece, portanto, respeito. Foi o único homem que enquanto primeiro ministro fez obra e lançou o país para a frente. E não me venham com o argumento de que “ah, obrigado, com o dinheiro que nessa altura vinha lá de fora também eu.” Tretas! Depois disso veio na mesma e o descalabro está à vista.

Transcrição “ipsis-verbis” e com a devida vénia de um texto de Rodrigo Alves Taxa, in “Jornal i” de 26 de Outubro de 2018
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"20 valores com tendência para subir".

Era assim que se manifestava um saudoso professor de Português que eu tive, e que se manifestava sempre deste modo quando uma redacção lhe agradava.
Sendo, apenas, um modo de expressar a satisfação que tal leitura lhe dera como docente e leitor - sabia a turma - que o professor fazia desse hábito um incentivo ao grupo que lhe estava confiado, e que o aluno que lhe merecia aquele louvor iria ter boa nota.

Faço o mesmo a este texto de Rodrigo Alves Taxa, porquanto, subscrevo na íntegra tudo quanto diz, lamentando não ser eu o autor de tão asisadas palavras, na certeza que tenho que os maldizentes de Cavaco Silva - um homem que se fez a pulso - não sendo filho de gente rica e por isso não ter nascido "num berço de oiro", quando se escrever a História dos primeiros decénios da Democracia Portuguesa, o seu nome passadas as paixões políticas do tempo que passa, não vai ser esquecido.

"Honra e Justiça a Cavaco Silva".

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Um pedaço da História do último quartel do século XIX


No dia 7 de Março de 1880, tendo como pano de fundo o Ultimatum inglês de 11 de Janeiro de 1890, Antero de Quental foi convidado e aceitou a presidência da LIGA PATRIÓTICA DO NORTE e superintender na feitura dos seus Estatutos, começando, no Preâmbulo do discurso que proferiu, por dizer: 

Meus senhores, creio firmemente que a fundação da «Liga Patriótica do Norte» será a primeira pedra do edifício da restauração das forças nacionais. Não será esta porém uma obra de momentâneo entusiasmo, mas de aturada paciência, de patriótica e esclarecida perseverança.

Já em pleno acto discursivo, num dado momento, disse o seguinte:

A vida actual, para ser autónoma e independente, tem de ser remodelada. A nação tem de emendar erros profundos e numerosos, acumulados durante muitos anos de imprevidência, de egoísmo, de maus governos e de corrompidos costumes públicos. Esta situação é tanto mais grave, quanto gradualmente se foi estabelecendo entre a nação e os governantes um verdadeiro divórcio, divórcio à muito latente e que a crise actual veio apenas patentear em toda a sua cruel realidade. Os governos, em Portugal, deixaram há muito de representar genuinamente os interesses e o sentir da nação. Nem por isso, porém, a acção da «Liga» será revolucionaria. Pelo contrario, a «Liga» considera um tal divorcio como uma calamidade, e a sua acção tenderá a restabelecer a natural harmonia entre o pensamento nacional e o seu órgão, o Estado. Fora das competições da falsa política, que nos tem dividido e enfraquecido, mas por isso mesmo no terreno da verdadeira política, que é a dos grandes interesses nacionais, fora dos partidos, porque superior a eles, a «Liga» fará ouvir aos poderes públicos a voz da nação: e essa voz persistente, firme e cheia de autoridade obrigá-los-á, por muito inveterado que seja o seu endurecimento, a converterem-se á sua verdadeira missão, que é a dos representantes e zeladores dos interesses da nação, e não só dos interesses materiais, mas dos mais elevados, os interesses morares, e entre estes proeminentemente o da dignidade nacional. A moralização dos poderes públicos, tal é a primeira condição do renascimento e integridade da vida social portuguesa.

A Liga não vingou, como se sabe.

Li, há dias, sobre este assunto um texto de Amadeu Carvalho Homem - que se reproduz com a devida vénia -  e que no seu último parágrafo diz assim: 

Eça de Queirós designou a Liga como o “derradeiro Fantasma” de Antero. E, com efeito, Antero iria tropeçar em mais uma desilusão, em mais uma razão para o motivo depressivo que o haveria de matar. Mas ninguém matou a Liga; ela feneceu porque o Portugal do tempo lhe virou ostensivamente as costas. É provável que o mesmo viesse a acontecer, se tal fosse o caso, no nosso tempo. Portugal é assim, é isto! E novamente daremos a palavra a Eça para que ele nos descreva não tanto a verdade objectiva da morte da Liga, mas a representação simbólica do seu fim: «Na sessão em que se leram os consideráveis Estatutos só havia, na vastidão dos bancos, quinze membros que bocejavam. E numa outra final, como ventava e chovia, só apareceram dois membros da Liga, o presidente que era Antero de Quental, e o secretário que era o Conde de Resende. Ambos se olharam pensativamente, deram duas voltas à chave da casa para sempre inútil, e vieram, sob o vento e sob a chuva, acabar a sua noite em Santo Ovídio», lugar onde vivia o Conde. E numa carta escrita em Vila do Conde, dirigida a Henrique das Neves, com data de 22 de Julho de 1890, é o próprio Antero de Quental a apresentar assim a certidão de óbito da Liga Patriótica do Norte: «A Liga morreu afinal de pura inanição porque ninguém, no fundo, queria saber nem de colónias, nem de desforra, nem de reformas sociais. O que passou durante este Inverno é a prova mais cabal do estado de prostração do espírito público entre nós».
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Digo eu, a terminar, que há nas palavras de Antero de Quental - esquecido o motivo que gerou a aparição inglória da Liga - uma verdade, como esta:

Esta situação é tanto mais grave, quanto gradualmente se foi estabelecendo entre a nação e os governantes um verdadeiro divórcio, divórcio à muito latente e que a crise actual veio apenas patentear em toda a sua cruel realidade. Os governos, em Portugal, deixaram há muito de representar genuinamente os interesses e o sentir da nação. 

Isto é uma verdade.

Verdadeiramente, ninguém sabe o nome do representante do círculo político que representa no Parlamento um dado pedaço da Nação portuguesa onde cabe um determinado número de cidadãos, porquanto, os deputados são escolhidos por cada um dos Directórios dos partidos a quem ficam sujeitos, pelo que, ou um dia mudamos isto ou, então, caminhamos a passos largos para o "divórcio" de que falou Antero de Quental, entre a Nação e os governantes.

Os últimos dias de Alexandre Herculano testemunhados por Bulhão Pato


Este texto dolorido de Bulhão Pato que foi um incondicional amigo de Alexandre Herculano vale por dois motivos fundamentais:
  • Por ser uma prova do poder da amizade quando ela é - como devia ser - um dos bens maiores que os homens podem der entre si.
  • Por ser um texto magnífico e único que nos dá conta da morte de um dos maiores vultos da Língua Portuguesa.
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Casa de Alexandre Herculano em Vale de Lobos


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OS ÚLTIMOS DIAS DE ALEXANDRE HERCULANO

Sábado – 8 de Setembro de 1877 – depois de jantar, saí da casa, onde então morava – Calçada da Estrela, próximo ao largo –, e fui visitar o meu amigo Zacarias d'Aça, que habitava na Rua de São Félix, à La
Eram dois passos. Ia conversar e convidá-lo para darmos, no dia seguinte, uma volta de caça pelo juncal da Costa. Ia com o ânimo desafogado, bem disposto, como vulgarmente se diz.
Estava uma tarde magnífica, iluminada pelo Sol, ainda vivo, do declinar do Verão.
Quando entrei em casa do meu amigo, achei-o preocupado e triste.
Perguntei-lhe se tinha alguma coisa. Respondeu-me que não. Em seguida propus-lhe o nosso passeio à Costa. Calou-se um momento: depois disse-me, com certa precipitação:

-É verdade, o Alexandre Herculano está doente. Parece-me ser coisa grave. O Reis (Henrique Augusto de Sousa Reis, tenente-coronel de artilharia, amigo de Herculano) já partiu para lá com o dr. Alves Branco.
Apertou-se-me o coração, que estava expansivo e alegre, dizendo comigo:
– O mestre está morto!
Escrevi um bilhete a minha irmã, e saí imediatamente. Zacarias d'Aça acompanhou-me.

Chegámos à Livraria Bertrand, onde encontrei Augusto Saraiva de Carvalho. Perguntei-lhe novas.
– No telegrama que recebo agora, diz-se que é uma perniciosa – respondeu-me ele.
Segui para o caminho-de-ferro. Tinha-se aberto a porta. A casa estava deserta. Entrei a passear de alto a baixo. Os viajantes vinham confluindo. Eu acotovelava este, pisava aquele...

Há horas em que nós quase perdemos a consciência do mundo exterior.
Minutos antes de partir o comboio apareceu à porta o dr. José de Avelar.
Fiz-lhe logo uma série de perguntas importunas. Supunha, alucinadamente, que o médico me pudesse consolar!
– Sossega-te. Eu não sei nada. Lá veremos o que há.
Chegámos a Vale de Lobos às 11 horas da noite, pouco mais ou menos.

Estavam lá o médico assistente, dr. Pedroso e Alves Branco. As fisionomias de ambos não me influíram ânimo. Outro tanto me sucedeu, quando José de Avelar voltou do quarto do doente.
Alexandre Herculano estava no pleno uso das suas faculdades, porém, extremamente agitado.
Sobre a madrugada partimos. Poucas palavras trocámos. José de Avelar disse para o seu colega Alves Branco:
-Não gosto disto.
– Nem eu! – respondeu Alves Branco.

Depois começaram a falar, na linguagem da ciência. julguei perceber que o mal não estava ainda bem caracterizado, mas que o prognóstico era mau.
Não me atrevi a perguntar nada.

Num telegrama de domingo – 9 – havia algumas palavras um nadinha animadoras.
Uma carta de José Basto, escrita ao irmão João Basto e datada de domingo à noite, dizia que o doente tomara os caldos com menos fastio e até pedira uma colher de Vinho do Porto, coisa que até aí lhe repugnava grandemente.
Fui, a correr, levar esta notícia a Henrique Reis e José de Avelar, que esperavam por mim na Tabacaria Lusitana. Naquelas circunstâncias esta notícia deu-nos alma nova.

Reis disse-me:

– Daqui por meia hora devo ter telegrama em casa. Se as notícias forem boas, vamos dar um passeio ao campo e depois de jantar partimos para Vale de Lobos.
Passada meia 'hora acompanhei Henrique até sua casa, em frente da Biblioteca. Fiquei à espera no largo. Bastou-me vê-lo sair da porta, com o telegrama na mão, para me convencer que as novas eram lastimosas!
Não me enganei.

António da Silva Túlio, extremamente comovido, tinha corrido ao Paço a pedir a Magalhães Coutinho que acudisse com a sua ciência e grande talento ao amigo de tantos anos.
Mandou-se pôr um expresso. Ás seis e meia entrávamos na estação. Lá estava Magalhães Coutinho. Partimos. Éramos cinco: Magalhães Coutinho, João Galhardo, sobrinho de Alexandre Herculano por afinidade, Henrique de Sousa Reis, José de Avelar e eu.
xpresso silvava constantemente, cortando o terreno, como as aves cortam os ares. Pareceu-nos que ia devagar!

Chegando a Vale de Lobos Magalhães Coutinho não auscultou o doente. Tomou-lhe o pulso, e disse-lhe algumas frases vagas. Falou-lhe, com insistência, de um alto personagem, que se interessava pelo seu estado.
Quando Magalhães Coutinho saiu do quarto, Alexandre Herculano, muito comovido, disse para José de Avelar:
– Isto dá vontade de a gente morrer.

Era a frieza desconsolada do médico e do amigo? Seria sentir que o homem de superior talento, talento que ele apreciava tanto, não lhe podendo já acudir com a ciência, queria, àquelas tardias horas, consolá-lo com a satisfação das vaidades humanas?
Fosse o que fosse, alguma coisa acerba lhe atravessou o espírito nesse atribulado momento!
Dali a pouco, recobrando a sua habitual serenidade, disse-me:

– Os de casa, coitados, andam com a cabeça perdida. Dê uma vista de olhos àquilo lá por baixo, para que arranjem a ceia. Veja os melões. Este ano são magníficos.
De madrugada regressámos a Lisboa.
Nesse dia à noite – 11 – José de Avelar voltou a Vale de Lobos.

Damos-lhe agora a palavra:
«Meu querido Bulhão Pato. – Para completares a tua triste narrativa, queres que reconte o que se passou, desde o dia em que tiveste de retirar de Vale de Lobos e eu tive de ficar ao lado do nosso nobilíssimo e chorado amigo, na qualidade de enfermeiro, qualidade que nunca ultrapassei, como sabes. Vou cumprir as tuas ordens, e em breves palavras direi os poucos e melancólicos episódios que a minha fraca memória não deixou escapar.
No dia 12 resolveram propor ao enfermo que aproveitasse a presença do tabelião – que era seu respeitoso amigo e que o vinha visitar – para fazer o seu testamento, ao que ele acedeu sem a menor hesitação, demonstrando, todavia, bem acentuadamente num quase desdenhoso sorriso, que não acreditava na coincidência daquela visita.

Assisti ao acto como testemunha.

Ditou tudo, palavra por palavra, com a maior serenidade, e sem diferença de tom na voz, quando falou das disposições do seu próprio enterro, que deixava ao arbítrio e vontade de sua viúva.
Fui eu e Santos que o amparámos, para se sentar na cama e assinar o testamento. Como a primeira pena – que era de ave, e com essas é que sempre escrevia – não servisse, por estar ressequida e com os bicos revirados, por não ter uso havia alguns dias, fui ao escritório procurar outra, que preparei rapidamente, molhando-a na tinta, e colocando-lha entre os dedos.

Com estas curtas demoras, e na posição que conservava – ainda que amparado nos braços de Santos – tinha-se afadigado extraordinariamente; a respiração era já muito frequente e curtíssima, porque a maior parte dos pulmões não funcionava e só com muito esforço e vigor de vontade conseguiu – a muito custo e com letra muito tremida e deformada – assinar o seu – A. Herculano.

A palavra que, decerto, o grande escritor traçara sempre com menos atenção e quase automaticamente, foi a última que escreveu e com tantas dificuldades e cansado trabalho, como quem realmente grava no bronze eterno a rubrica da própria imortalidade!
Deixou-se cair, ofegante, sobre as almofadas, com a respiração estrídula e fervorosa de quem já não tinha força para expectorar.
Disse-me ainda que os rapazes – os seus testamenteiros – poderiam publicar uns cinco volumes de opúsculos com os manuscritos, que deixava, e os artigos dispersos nos jornais.
Depois ficou num torpor de repouso aparente, e nós deixámo-lo como a dormitar.
Estava exausto; poucas horas tinham de decorrer para começar a agonia.
De noite voltaste, e como não o desamparaste mais, melhor do que eu sabes como se passaram os últimos momentos do homem, do grande e inimitável historiador!
Teu velho amigo
José de Avelar

Os telegramas do dia 12 eram cada vez mais aterradores.
Henrique de Sousa Reis estava descoroçoado, mas queria ainda levar o dr. Alves Branco a ver o seu amigo.
Era um fio de esperança; agarrava-se a el
No comboio da noite partimos.
A viagem foi soturna.
Quando chegámos a Vale de Lobos e entrámos no quarto, Alexandre Herculano olhou para Henrique e abraçou-o.

Era um agradecimento mudo pela sua solicitude.
O dr. Alves Branco observou detidamente o enfermo. Não despregávamos os olhos dele. O habilíssimo médico forcejava por aparentar a máxima serenidade, falando afectivamente com Alexandre Herculano, que lhe dizia:
– Ainda que chegasse a levantar-me daqui, como ficaria eu? Valeria a pena esgotar os recursos da ciência com um homem, que já nada poderia produzir? Estou cansado, doutor, tenho trabalhado muito!
Quando entrámos no escritório, Alves Branco sentou-se, esteve alguns momentos calado e depois, como respondendo à nossa ansiosa expectativa, disse-nos, com as lágrimas nos olhos:

– É um homem irremediavelmente perdido!

Meia hora depois Henrique, morta a esperança, voltava com o doutor para Lisboa. Eu ficava.
Abraçámo-nos sem trocar palavra.
Sobre a madrugada desci à casa de jantar, sentei-me numa cadeira de braços, e adormeci. Dali a pouco acordei sobressaltado.
Cantavam os pássaros, vinha rompendo a manhã.
Subi ao quarto. Eduardo Galhardo, sobrinho de Herculano, filho de sua irmã, estava ali.
A luz, que entrava pelas frinchas da janela, sobrelevava já ao darão mortiço da lâmpada acesa no quarto próximo ao do enfermo.

Alexandre Herculano disse:
– Abram a janela. Quero ver as árvores.

Eduardo abriu as portas da janela. O orvalho, aos clarões vivos e virginais da alvorada, brilhava como pedras preciosas, correndo em lágrimas pelos vidros empanados.
Eduardo limpou os vidros com o lenço. Nesse mesmo momento tinham entrado no quarto José Bastos, José Cândido dos Santos, um dedicado amigo de Vale de Lobos, hoje morto, a Exª Srª D. Mariana Hermínia Meira, e as amigas íntimas, que a acompanhavam. Não me recordo de algumas pessoas mais.
A luz da manhã crescia em ondas. Alexandre Herculano estava extremamente pálido. O queixo inferior, que de ordinário, quando falava, tremia um pouco, agora tremia constante e fortemente.

Não havia nem lágrimas nos olhos, nem palavras na boca de ninguém.
Nada às vezes é mais eloquente, do que o completo silêncio!
Herculano, vendo entrar as senhoras, olhou fixo para sua mulher, que ele amava extremosamente, com expressão dolorosa e afectiva.
Depois, estendendo o braço, disse com energia:

– Levem daqui as mulheres. Mulheres não são para ver isto!

Que se passaria naquele forte, e ao mesmo tempo amantíssimo coração, ao proferir estas palavras em tal instante e com tal hombridade! ?
O médico assistente, dr. Pedroso, chegou pelas oito horas. Na consternação da sua boa e inteligente fisionomia lia-se a sentença fatal!

O criado Manuel, que Alexandre Herculano tivera em sua casa de pequeno e mandara educar, veio trazer-lhe um caldo.

Herculano fez um gesto repulsivo.
Manuel insistiu solicitamente.
O doente respondeu:
– Bebe-o tu, coitado, que necessitas, eu já não preciso de nada!

Às onze horas da manhã chegou o duque de Palmela.
O duque, desde muito rapaz, tivera relações íntimas com Alexandre Herculano.
Quando ele entrou no quarto, Alexandre Herculano estava deitado sobre o lado esquerdo. Sem proferir palavra, estendeu o braço direito, e lançou-o em volta do pescoço do seu amigo.
O duque fez grande esforço para conter o ímpeto da comoção; ainda assim não o pôde conseguir.
Nas largas e aflitivas horas daquele dia – horas negras que, por uma antítese cruel, contrastavam com o aspecto do Vale, cujas árvores e vinhedos, batidos pelo Sol magnífico, pareciam nadar num banho de luz – houve para mim um momento de singular consolo.
Vendo que a respiração do doente era por extremo anelante, o que me oprimia o peito, perguntei-lhe, como – maquinalmente:
– Custa-lhe muito a respirar?
-Não, não, respiro bem, muito bem.
Disse isto com tanta convicção e naturalidade, que eu fiquei aliviado de um grande peso!
Queixava-se muito de dores no lugar do cáustico. Pediu que lho tirassem. Como houvesse hesitação disse:

– Tirem, tirem. Agora para que serve?

Os olhos, que ele tinha de um grande brilho, apesar da terrível enfermidade, não haviam amortecido muito; conservavam a sua expressão reflexiva e boa.
O semblante estava dolorido, macerado; mas não havia sombras, que as não tinha, aquela alma límpida e serena!

Não cabe aqui nestas linhas o retrato moral desse homem verdadeiramente superior.
Um dia, talvez em breve, tentarei fazê-lo, narrando factos da sua vida particular, factos característicos – eloquentes! Ã falta de arte haverá verdade e sinceridade. Conheci muito de perto aquela vida imaculada no decurso de trinta anos.

Volto à minha narrativa.
A respiração continuava anelante, porém, menos ruidosa. Cada vez maior dificuldade de expectorar.
Tinha alguns minutos de aparente sonolência; depois, estremecendo, abria os olhos.
Seriam três da tarde. Interrompendo um longo silêncio, disse, apontando para os pés:

– A morte já aí vem a subir.

Em seguida, levando a mão à testa ampla e proeminente, bateu repetidas vezes, acrescentando:
– Isto ainda está bom. Foi muito rijo.
Esteve alguns minutos – fitando-me e continuou:
– Agora, vocês é que ficam sendo os velhos!

Nas horas em que estive ao pé dele, durante a enfermidade, foi nesse momento que, pela primeira vez, lhe vi os olhos húmidos de lágrimas.
A tarde começou a declinar.
Eu estava no gabinete de trabalho próximo do quarto. Eduardo Galhardo chegou-se a mim.
– Olha, o tio recitou agora alguns versos, mas eu não pude perceber bem.
Abeirei-me do leito e falei-lhe.

Respondeu:
– Ainda lhe comprava mais dois centos.
Tornei a falar-lhe.
Repetiu as mesmas palavras e, passado breve espaço, acrescentou:
– Tanchões de oliveiras.
Os olhos haviam tomado expressão diversa – espantados, desvairados!

Estava em delírio.
Saí, ou antes, fugi do quarto.
Quando vi transtornada aquela soberana razão que desde os meus dezasseis anos me habituara a venerar e a admirar, em diurna convivência, perdi completamente o ânimo.
Sem me despedir de ninguém meti-me com o duque de Palmela numa caleche e parti.
Dali a pouco mais de duas horas, Alexandre Herculano estava morto

Voltei no dia seguinte – 14 à noite. Não achei condução na Ribeira de Santarém, e só na cidade, de madrugada, pude obter um trem, que me levasse a Vale de Lobos.
Era a última despedida.
A alma humana, sob qualquer forma, há-de tender sempre para estas manifestações, ter estas exigências, por mais que os espíritos positivos lhes chamem puerilidade.
Não foram, há pouco ainda, os comunistas da França, que não acreditam em Deus, levar coroas de perpétuas à vala, onde haviam caído, trucidados pela reacção aterrada e enfurecida –, o medo é feroz! – milhares dos seus camaradas?

Eram vermelhas as coroas.
A cor que importa?
Quando entrei no Vale, vinha clareando a manhã.
As duas enormes faias do eremitério, meneando-se e acurvando-se com a aragem viva da madrugada, pareciam chamar, convidando o recém-chegado a que viesse comemorar com uma lágrima a solidão em que as deixara a perda do seu amigo!

O Sol, crescendo em torrentes de luz, inundava dali a pouco a paisagem.
No ar, onde rutilavam colunas de pó doirado, nos claros das alamedas, zumbiam os insectos com uma vibração alegre – irónica e cruel para a alma dos tristes!

As folhas de terra do fundo do vale e as encostas de bacelo, denunciando próspera colheita, estavam ali para confirmar a solicitude e mestria da mão que as cultivara.
Vale de Lobos, nos últimos anos, foi uma granja modelo, onde até os mais contumazes na rotina vinham estudar e aprender.
Era ainda um serviço prestado por aquele homem de eleição, entre tantos que fizera ao seu país.

Com o altear do dia foram chegando os que vinham para o acompanhar no préstito
O firmamento sem uma nuvem, de um azul vivo e profundo, ostentava a sua serenidade olímpica sobre as lágrimas e misérias deste mundo!
As águas da mina, refervendo, desciam por encanamentos, para irem regar a várzea; as vacas turinas, com a barbela pendendo em dobras, o pescoço recachado, os úberes túrgidos, repletas e descansando, deitadas no ervaçal, voltavam vagarosamente a cabeça, a reparar para a linha negra e taciturna dos convidados, que seguia pela bordada do vale, e fitavam, estremecendo, a orelha velosa, como atónitas de verem na sua alegre paisagem aqueles inusitados e sombrios vultos!

Na clareira do vale, e no fundo verde escuro do outeiro, ressaíam as casas da aldeia com as chapadas de luz da força do dia.
Entre os que seguiam no préstito um homem de verdadeira ciência e talento – António Augusto de Aguiar – proferiu, à beira da sepultura do grande (historiador, algumas palavras notáveis e comoventes. Não as ouvi, porque não fui ao cemitério.
Os camponeses ofereciam ramos de oliveira às pessoas que tinham vindo de Lisboa.

As oliveiras, que ele lhes ensinara a tratar!
Prestavam esta homenagem, na sua rústica e afectuosa sinceridade, não ao escritor que não conheciam, mas ao amigo de tantos anos, que respeitavam, porque lhes acudira sempre com o conselho e com o remédio.
Daqui a poucos dias completam-se três anos – 13 de Setembro que desapareceu a luz de um dos mais elevados engenhos que tem tido Portugal e acabou para mim um grande amigo

Estas linhas são um desafogo.
Creio que o País não verá com indiferença a história, religiosamente verdadeira, das últimas horas e das últimas palavras do seu mais ilustre cidadão.

Agosto 30, 1880.

Fonte: "Projecto Vercial"


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Há textos que não têm idade... e dão que pensar!




“Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações. 

A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse. 

A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. 

A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva. À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.”

                                                                                                    in 'Distrito de Évora” (1867)

domingo, 21 de outubro de 2018

"Flores Murchas" - Um poema de Laurindo Rabelo




Laurindo José da Silva Rabelo (Rio de Janeiro, 8 de julho de 1826 — Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1864) foi um médico, professor e poeta romântico brasileiro, patrono na Academia Brasileira de Letras.
Nasceu Laurindo Rabelo de família pobre, filho do miliciano Ricardo José da Silva Rabelo e de Luísa Maria da Conceição.
Apesar da origem humilde, conseguiu com dificuldade vencer as barreiras sociais, e formar-se em Medicina. Antes, porém, chegara a cursar o Seminário de São José, ainda no Rio de Janeiro, pensando em tornar-se padre. Vítima de preconceito e perfídias pelos colegas, decide abandonar o internato. Almejou a carreira militar, mas da mesma forma desistiu.

Na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro iniciou o curso, que c
No ano seguinte ingressa no Corpo de Saúde do Exército, seguindo para o Rio Grande do Sul, onde permanece até 1863. Em 1860 tinha se casado com Adelaide Luísa Cordeiro. De volta ao Rio, leciona no curso preparatório para a Escola Militar as disciplinas de História, Geografia e Português.

Apreciava a vida boêmia, gozando de grande talento satírico e capacidade de improviso, fazendo repentes e composições de modinhas - o que lhe granjeou grande popularidade e a alcunha de "Poeta Lagartixa" - dada sua constituição física, "magro e desengonçado", como informa Manuel Bandeira (vide Crítica e análises, abaixo).
Rabelo teve morte prematura, de problemas cardíacos, com apenas trinta e oito anos de vida.

Crítica e análises
É considerado por José Marques da Cruz como um dos quatro poetas maiores da segunda geração do Romantismo no Brasil, ao lado de Álvares de Azevedo, Junqueira Freire e Casimiro de Abreu. Marques da Cruz assinala: “Autor das “Meditações” , poesias sentimentais onde chora a perda de pessoas queridas, e de versos satíricos de grande merecimento, que lhe valeram muitas inimizades.” (in: História da Literatura, Melhoramentos, São Paulo, 8ª. ed.)

Manuel Bandeira (in: "Apresentação da Poesia Brasileira", Ediouro), regista que sua "alegria exterior escondia porém uma funda mágoa das dificuldades e desdéns que encontrava na vida, e essa tristeza se reflete em acentos comoventes no poema "Adeus ao mundo"."

José Veríssimo (em A Literatura Brasileira, ed. PDF, www.dominiopublico.gov.br, Brasília), consigna que a primeira fase do romantismo "pode dizer-se findo pelos anos seguintes a 1850, quando surge uma nova geração de poetas que dão ao nosso romantismo outra direcção, com inspiração despreocupada de patriotismo ou sequer de nacionalismo, porém por isso mesmo talvez mais pessoal, de um sentimentalismo mais de raiz, e menos religioso ou moralizante, admirador de Byron e de Musset e dos poetas satânicos, como em Franca lhe chamaram, do segundo romantismo europeu. Desses poetas, quatro ao menos, Laurindo Rabelo (1826-1864); Álvares de Azevedo (1831-1852); Junqueira Freire (1832-1855); Casimiro de Abreu (1837-1860), todos publicados de 1853 a 1860, são verdadeiramente notáveis por dons de sensibilidade e de expressão que sem ter o acabado artístico dos futuros parnasianos, lhes traduzia com esquisita felicidade os sentimentos."

Mais adiante, o mesmo autor consigna que "Os mais populares poemas brasileiros, alguns quase adoptados pelo nosso povo como sua poesia, na qual parece rever-se, são destes poetas incluindo (…) Dois Impossíveis, A Minha Resolução, Saudade Branca, de Laurindo Rabelo;".
Por sua obra satírica recebeu, ainda, o epíteto de "Bocage Brasileiro".

Fonte: Wikipédia, a Enciclopédia livre