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domingo, 20 de maio de 2018

Quatro purezas!



Uma foto e as suas quarto purezas!

Assim se poderia chamar este instantâneo fotográfico em que na sua quietude o que ele nos oferece é algo que devia ser uma lição para o homem que com a excepção da cor do azul de um céu sem mancha, tudo o resto é obra das suas mãos, como sejam as três cores que resultam do seu labor: o verde da roseira, as rosas vermelhas e o branco imaculado de uma parede.

São quatro purezas e se, na cor azul do céu o homem não interfere, as restantes estão ali postadas para lhe dizer como era bom que as suas atitudes perante a vida pessoal e social fossem pautadas pela pureza daquelas cores que são obra sua, mas esquecida nas cores cinzentas como, por demais, se pinta a vida por onde passam tantos dos nossos passos!

Uma foto e as suas quatro purezas!

Que elas sejam motivo para todos os homens - a começar por mim - para que reaprendamos a viver mais com o coração de criança que todos tivemos e embalou de cores puras a nossa infância, não esquecendo que todo o homem é uma criança que cresceu em obediência à ordem natural da biologia humana.

sábado, 19 de maio de 2018

O meu "Niágara" pequenino!





O meu "Niágara" pequenino fica na minha aldeia serrana onde estive há dias e onde tive o ensejo de captar estas belas imagens demonstrativas que a força da corrente da Ribeira onde ele se despenha num turbilhão cantante de águas límpidas num poço profundo e depois se alarga numa piscina natural que tem servido centenas de gerações, local onde muitos dos meus conterrâneos deram as primeiras braçadas e outros, mais experientes ou mais ousados se lançaram do cimo da penedia escarpada para o fundo das águas do Poço que no Verão, aquietadas, são um encanto pela quietude da corrente e pela moldura campestre dos montes.

Adorei o momento recente que vivi ali, contente pela indiferença das águas da Ribeira, correndo puras e frescas perante a secura dos montes que o incêndio do dia 15 de Outubro de 2017 tornaram cinzentos, embora aqui e ali, aflorem algumas manchas verdes, como se a Natureza me quisesse dizer que nenhum incêndio por maior que seja a pode matar de vez, porque ela teima sempre em renascer das cinzas.

E alegrei-me e ali mesmo dei graças a Deus por, apesar dos anos que vão pesando, ter tido a graça de voltar àquele lugar paradisíaco que começou por encantar a minha adolescência, sempre que nas "férias grandes" demandava a casa da minha avó e, hoje, na minha velhice me continua a encantar.

Por fim, o que ficou deste idílio - do meu namoro perfeito com aquele local - tendo nos meus ouvidos, perfeitamente, ante o silêncio envolvente, o som das águas a quebrarem-se ao nível da muralha e como se fervessem na queda, caírem de cachão borbulhante no Poço, dei comigo a pensar como foi possível que os arredores da minha aldeia - e ela mesma, dentro de si mesma - tenham sido deixados ao abandono para serem pasto de um fogo que só parou onde faltaram manchas verdes.

Para quando o interior de Portugal será parte integrante do seu todo e, em consequência, deva merecer as atenções que merece?
O meu "Niágara" pequenino lá está a reclamar essa atenção!
Só que o barulho das suas águas não chega para acordar as consciências de quem podia e devia agir e isto que escrevo morre por aqui.
Eu sei. Mas fica o meu reparo.

segunda-feira, 19 de março de 2018

A minha Beira - em largos espaços - é assim!



A minha Beira - em largos espaços - é assim!

Baixa, porque acima dela fica a Beira Alta, a minha Beira em amplos espaços como a foto documenta é uma ondulação de montes e vales, de vales e montes, e onde pela lonjura dos horizontes, estes aparecem como que nublados pela intensidade das canículas estivais a deixar que o céu azul se confunda com eles.

A minha Beira - em largos espaços - é assim!

Esquecida endémica do poder central, desde sempre, por não haver nela votos nacionais a conquistar, tem sido votada ao abandono e, porque - como este local sugere - neste espaço os solos bravios nunca foram pródigos para o plantio do eucaliptal, apresenta na sua beleza rude toda a força dos tempos telúricos em que a convulsão da Terra ali deixou a marca indelével, serena e franca onde o meu olhar repousa, encantado, de todas as vezes que passo pelo altos dos seus montes, ou pelos seus vales, como aconteceu, um dia já longe, num passeio matinal em que de um relance compus este trecho poético de amor pelos montes da minha Beira:

ENTRE MONTES 

Nesta manhã
Magnificente
A Natureza é minha irmã
E é assim de toda a gente!

Avezitas que cantais
Com sonhos de mais além...
Vede:
- Somos iguais
No modo como damos à vida
E sempre de boa fé
O nosso canto
De aves sem guarida...

Somos iguais... iguais!

1956

Penso, hoje, neste tempo longo que a vida me tem concedido que valeu a pena ter dado á vida - de boa fé, como as aves - o meu canto sem guarida, porque a vida me pagou cem por um por ter agido assim, sem grandes cálculos que não fossem o de a construir com o ar sadio que bebi nos montes e vales da minha Beira Baixa.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Coisas aldeãs...


COISAS ALDEÃS
  
Ah! A claridade do Céu da minha terra!
O azul sem mancha...
Belo e transparente!
O ar sereno que nos afaga o rosto
Mansamente...
A luz do Alto, cortada pela serra!

O ar pachorrento dos bois do lavrador
E o seu olhar doce, sereno e bom
Puxando de manso o carro - rom...rom...
É uma alegria
Que fecha o dia, no Sol-por!

As gentes da minha terra são sadias!
Crêem em Deus
E rezam com fervor.
Têm a fé dos Santos
E é cheias de amor
Que se descobrem às Avé-Marias
Numa pureza doce...
É sempre assim, no ocaso dos dias!

Erguem-se cedo... ainda horas mortas.
São robustos...
Corados como rosas!
Andam serenos
E têm maneiras carinhosas
Na salvação que trocam pelas hortas!

1956
De um livro a publicar sob o título "Vela ao Vento"
....................................................................

Este poema é muito antigo.

Na minha terra - ao tempo e que ele foi escrito, era tudo assim "sem  por nem tirar" - pelo que o poema é um retrato que hoje não existe, mas dizer que era assim o bulício dos tempos em que a visitava pelas "férias grandes", é uma homenagem de amor que eu faço à minha aldeia serrana, escondida no fundo de um vale ameno.

A imagem que escolhi para "enfeitar" o poema retrata aquilo que era uma cena habitual no tempo outoniço em que se arrecadavam nas lojas do quinteiro as palhas dos cereais para sustento no Inverno dos animais e são, para mim, hoje, uma grande saudade, como são os bois de que digo: "O ar pachorrento dos bois do lavrador"...

Era assim mesmo.
Um ar de paz. que me dava muita paz!

É essa paz que eu desejo neste NATAL a todos os que me lerem neste apontamento de alguma saudade, mas de uma verdade bucólica que se perdeu e jamais voltará!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Berço!




BERÇO...

A minha terra de penedos
E de silenciosos pinhais
Sem ter casas alinhadas,
(Feitas por mestres-pedreiros)
De ruelas estreitas, acanhadas
- Com se fossem brinquedos -
Tem nas noites de invernia
Sempre um encanto a mais:
- A lareira!
Onde se contam coisas tais
Que vão p’la noite inteira!

Na minha terra
Vale mais um só pinheiro
Que todas as árvores da cidade
Por inteiro!

À sua volta, na lareira,
O tronco que deu pinhas
E deu pão ao resineiro
Aquece a casa inteira
Como se fosse um braseiro!

Ó minha terra
De urzes e matagais...
De penedos ciclópicos
Fazendo equilibrismo...
E de mansas ribeiras
Rindo entre salgueirais!
Tu és pequena
Mas grande na saudade...
Porque vens lá do fundo
-Da minha antiga idade-
Com o teu cheiro de açucena
Até aqui, a este mundo...

À vida nem sempre amena
Da grande cidade!


1968

(De um Livro a publicar sob o título VELA AO VENTO)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Cristo-Rei da minha aldeia!


O Cristo-Rei da minha aldeia ergue-se no cimo de um monte, numa pequena mas acolhedora esplanada que bordeja a curva da estrada e da qual é possível ver em toda a amplitude o velho povoado onde vi o azul do céu e me maravilhei, quando a idade o permitiu com as águas das suas duas ribeiras, dos campos de milho e dos socalcos dos montes aproveitados para o sustento dos seus naturais, a começar pelos meus avós.

O Cristo-Rei da minha aldeia é obra de dois amigos meus que viram naquele local um meio eficaz de render homenagem ao Cristo Redentor dos homens, aos quais rendo a minha gratidão: José dos Santos Veiga e José Henrique Martins de Almeida.
Ambos sonharam com aquela Obra tendo em mente a "Pedra Filosofal" o que disse o seu feliz autor, o Poeta António Gedeão ao afirmar que "O sonho comanda a vida".

Foi estribados nesse sonho que a obra se tornou realidade, tendo ficado ali como sentinela de um mundo rural que se perdeu, mas com o intuito de deixar para as gerações mais novas a lembrança de uma nova aldeia que sucedeu ao bucolismo do antigo povoado, cheio de encanto, especialmente nas gentes que eu tive a felicidade de conhecer e com quem convivi nos tempos em que "nas férias grandes" ali as passava para aprender como eles o esforço do trabalho e a felicidade que havia na sua alegria simples.

Inaugurado e benzido de acordo com o ritual da Igreja Apostólica Romana no dia 17 de Agosto de 2013, para o Acto que fez reunir no local os habitantes da localidade e todos os visitantes, seus naturais, que por aquela altura não se esquecem de visitar Praçais para honrar Nossa Senhora do Desterro e o Padroeiro S. Tiago Maior, escrevi e declamei o poema que fica aqui como a minha melhor homenagem ao Cristo-Rei da minha terra que tem sido ao longo da minha vida o esteio aonde me arrimo nos bons e maus momentos que tenho vivido.


Como se fosse uma Lei
Que em mim tine e ressoa
De tantos caminhos que andei
O melhor é o do Cristo-Rei
Que a minha aldeia abençoa!

Bem haja quem aqui fez Luz
No meio de tantos pinhais.
E de ter erguido ao Bom Jesus
A Imagem que nos seduz
E dá um abraço a Praçais!

Todos havemos de passar,
Só Cristo-Rei permanece!
Quem aqui vier rezar
Ponha em Jesus o olhar
E erga ao Céu uma prece!

Que seja assim.

Quem por ali passar lembre-se que a Imagem de Cristo-Rei está ali a olhar a velha Capela da aldeia onde Ele vive, há séculos, e ao qual os nossos avós ergueram preces e cânticos de amor, na certeza que todas as orações que ali fizerem são prendas para as suas almas e hinos de amor Àquele Cristo que um dia, vergado ao peso do ódio de uns tantos malfeitores, no Calvário, pediu a Deus por eles: "Perdoa-lhes Pai, que não sabem o que fazem"

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Para memória futura

No dia em que subi ao monte para fotografar "O Cristo-Rei da minha aldeia" - 19 de Agosto de 2017 e que aqui se publica - cerca de duas horas depois com o intuito de alindar e encaminhar sobre uma latada as vergônteas de um roseira vermelha que cresce a cerca de 2,5 metros de altura, da escada por onde trepara, caí desamparado e muito embora tenha ficado muito magoado, senti que "O Cristo-Rei da minha aldeia" me amparou na queda, deixando-me intactos órgãos vitais de locomoção, sem contudo, nas marcas que ficaram me ter deixado um aviso quanto à minha desandada mobilidade.
A minha idade impôs, naquele momento, a sua lei. Assim o entendi.
Foi um aviso. 
Dou graças por isso, ao Cristo-Rei da minha aldeia!

sábado, 3 de setembro de 2016

Origem



ORIGEM

Venho de uma árvore humana
muito bela
que moldou meu destino,
e que há muito tempo
Deus lá tem.

Venho de um ninho verde...

A cor do xaile de merino
que embrulhou cheio de amor
o meu corpo de menino.

Venho desse ninho verde...

Desse xaile de merino
que todo inteiro me aqueceu
ao colo de minha Mãe!

domingo, 15 de maio de 2016

O meu velho moinho

Um pedaço do Mapa Escolar da Porto Editora de 1962

A minha aldeia - que linda é! - fica aninhada entre as Serras da Gardunha e da Malcata
 e, ainda, recebe os ares sadios que sopram do alto da Serra da Estrela

Recordo-me...

Na Ribeira que percorre a todo comprimento a minha aldeia, traçando nela um fio de água cristalino ainda lá está o velho moinho que conheci na minha infância, hoje desabituado de moer o grão de milho que deu pão aos meus avós e a minha mãe e a mim mesmo das vezes que a visitava nas chamadas "férias grandes".

Num dia - já longe - ao lembrar as antigas visitas da minha infância, num dos passeios que dei por aquelas bandas, calcorreando uma das levadas de onde o via de cima, dei comigo a olhar o "velho moinho" que deixou de moer por falta de braços da antiga e desprezada lavoura dos ondulantes milheirais que eu adorava ver na minha infância, e num impulso de saudade rabisquei um poema que depois burilei com a arte que me foi possível.

Aconteceu isto em 1998.

Fica aqui o poema como recordação daquele passeio campestre, do qual sinto ainda hoje, o perfume das madressilvas, das giestas e a visão dos silvedos com as suas amoras pretas a convidar à sua apanha e à qual não me fiz rogado.


AO MEU MOINHO

Lembrando o "Moinho do Poço" da Ribeira de Praçais, junto ao qual no poço profundo cavado na rocha e no solo pela queda da água da Ribeira - foi nesse "niagara" pequenino - que muitas gerações aprenderam a nadar.


Recordo-me bem da tua graça
Meu lindo e velho moinho
De pedra tosca e simples traça
Coberto de um pó branquinho
Como se fosse uma manta!

 Ainda te vestes de era
Com um donaire que encanta
Quando chega a Primavera!

Estás às claras de quem passa,
Bem no fundo... no teu ninho.
Mas ao ver-te, hoje, na cor baça
O meu olhar que te enlaça
Lembra-se do velho moinho!

Dantes... era noite e dia.
O teu rodízio era uma asa...
Sempre de roda se ouvia!
Lá dentro a tua mó moía
E dava pão à minha casa.
Benzia-o a minha avó
E a sua mão de santinha,
Tinha a força da tua mó
E a brancura da farinha!

Tudo está longe e perdido..
Ó meu moinho de outrora!
Como tenho vivo o sentido
De um tempo que foi embora!

Mas o álamo vive, ainda,
E o sussurro da cachoeira
Tem a mesma canção linda
Ao borbulhar na ribeira...
E continua a haver juncais
E madressilvas onde moras!
E há giestas e silvas tais
Que dão enormes amoras!

Mas tu perdeste a canção
Que acordou muitas auroras
Em tempos que já lá vão!

 - Porque foi que a perdeste
Se há perfumes no caminho?
- Porque foi que emudeceste
Meu lindo e velho Moinho?


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Uma lembrança antiga!



       BERÇO!

A minha terra de penedos
E de silenciosos pinhais
Sem ter casas alinhadas,
(Feitas por mestres-pedreiros)
De ruelas estreitas, acanhadas
- Com se fossem brinquedos -
Tem nas noites de invernia
Sempre um encanto a mais:
- A lareira!
Onde se contam coisas tais
Que vão p’la noite inteira!

Na minha terra
Vale mais um só pinheiro
Que todas as árvores da cidade
Por inteiro!
À sua volta, na lareira,
O tronco que deu pinhas
E deu pão ao resineiro
Aquece a casa inteira
Como se fosse um braseiro!

Ó minha terra
De urzes e matagais...
De penedos ciclópicos
Fazendo equilibrismo...
E de mansas ribeiras
Rindo entre salgueirais!

Tu és pequena
Mas grande na saudade,
Porque vens lá do fundo
-Da minha antiga idade-
Com o teu cheiro de açucena
Até aqui, a este mundo...
À vida nem sempre amena
Da grande cidade!


De um livro a publicar sob o título
VELA AO VENTO

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Coisas aldeãs...




COISAS ALDEÃS

Ah! A claridade do Céu da minha terra!
O azul sem mancha...
Belo e transparente!
O ar sereno que nos afaga o rosto
Mansamente...
A luz do Alto, cortada pela serra!

O ar pachorrento dos bois do lavrador
E o seu olhar doce, sereno e bom
Puxando de manso o carro - rom...rom...
É uma alegria
Que fecha o dia, no Sol-por!

As gentes da minha terra são sadias!
Crêem em Deus
E rezam com fervor.
Têm a fé dos Santos
E é cheios de amor
Que se descobrem às Avé-Marias
Numa pureza doce...
É sempre assim, no ocaso dos dias!

Erguem-se cedo... ainda horas mortas.
São robustos...
Corados como rosas!
Andam serenos
E têm maneiras carinhosas
Na salvação que trocam pelas hortas!

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De um livro a publicar sob o título
VELA AO VENTO
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Eis um poema recordatório da minha juventude nascido da análise que então fiz da vida quotidiana da aldeia que me viu nascer. Cenas encantadoras cheias de um sentido humano que ia beber nos costumes aprendidos à lareira, nos velhos serões da catequese familiar que não dispensava ir buscar à espiritualidade dos ensinamentos eclesiais este hábitos que pouco a pouco se têm perdido na voragem inclemente dos dias.

Recordo-me bem de tudo isto: do passar lento dos bois do lavrador ao fim do dia... do toque dos sinos nas Ave-Marias, quando homens e mulheres se descobriam e inclinando o corpo rezavam a oração breve... na troca das saudações do encontro quando se cruzavam pelos caminhos ou por entre as caneiras do milheiral...

Costumes que mal - ou nada - se vêem, hoje.
E cabe perguntar:

- Serão as pessoas melhores, mais alegres, mais carinhosas, tendo abandonado estes costumes simples?

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Este povo de onde venho...




Provenho de uma gente
E de um povo
Que para seguir em frente
Do velho moldou o novo...

Provenho do culto antigo
Que entre as alvas penedias
Fazia  crescer o trigo
E até os próprios dias...
Provenho da raça dura
Das gentes da Serra, sadias,
Que matavam  a’margura
Com as poucas alegrias!

Provenho das suas raízes...
Daquelas que iam ao fundo
Beber a força da vida.
Provenho daí, dos matizes
De uma vivência sofrida
Na terra dura de antanho...
Provenho daí, desse mundo!

É desse povo que venho
Que da força que guardou
Fez com amor o presente
Sem matar o que passou!

E é esta viva lembrança
Terna, firme e comovida
Que trago desde criança
E levo ao limite da vida!




Este povo de onde venho, durante, pelo menos cinco séculos arroteou as terras que haviam e ainda há - mas incultas - no fundo do vale e, com a força que foi necessária para agricultar o sustento, aplanou as encostas dos montes, criando aprazíveis socalcos, para os quais num obra rudimentar de engenharia agrícola, conduziu através de levadas, pela lei da gravidade, as águas da ribeira que iam buscar a centenas de metros em cotas mais elevadas, deixando-as depois correr para ao nível do povoado, para ali irrigarem a amplitude farta das terras da várzea.

Este povo de onde venho, iletrado mas sábio, ensinou-me de como é possível viver feliz entre montes a ouvir na Primavera o chilrear dos pássaros e no Inverno o uivo dos ventos.

Este povo de onde venho - onde nunca se constou haver um ladrão ou um assassino - ensinou-me que a honradez é a primeira das virtudes seculares e que todas as outras se honrarem a primeira, permitam que se viva feliz - e até poder sonhar como novos mundos - levando para eles o arreganho bebido nos primeiros ares que chegaram purificados pelo atravessamento das agulhas dos pinheiros.

Este povo de onde venho que pastoreou rebanhos de gado, que teve carros de bois, que se descobria ao toque das Trindades, que cantava "modas" singelas e que aos Domingos, depois de cumpridos os deveres de honrar o Senhor Deus, se juntava ao fim da tardes num dos terreiros para dançar ao toque da "gaita de beiços" ou da concertina, já não existe, mas é destas lembranças que continua a viver, porque é desse influxo - como se fosse um mistério - que os actuais descendentes se irmanam em sentimentos que só a força dos avoengos explicam no tempo que passa.

Este povo de onde venho, não o quero esquecer, e é lá, naquele pequeno espaço ali plasmado entre montes que ainda hoje - já velho - costumo ir para lembrar coisas que passaram, para com elas revigorar, não só lembranças antigas mas para me sentir uma raiz ali fundada e que nunca se deixou transplantar, porque foi no chão sadio da minha casa da aldeia - hoje remodelada - que eu sinto que a árvore humana que sou continua a viver pela seiva que a raiz lhe continua a dar.

Este povo de onde venho não é só uma saudade...
É uma Oração que ficou!

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O velho carro de bois



Gravura publicada pela Revista 
"Occidente" de 1 de Agosto de 1878


Quase até ao fim do século XX - e, hoje, ainda, embora, residualmente - os carros de bois foram utilizados como um meio precioso no transporte de cargas pesadas, de tal sorte que em muitos lados de algumas aldeias de Portugal, os seus rodados ainda são visíveis nas marcas que deixaram nas fragas dos carreiros por onde passaram no recolher das colheitas, embalando os naturais com o seu som bem característico.

Há quem afirme que este transporte existiu durante 12.000 anos, algo que não sei precisar, sabendo, embora, que os conheci, num tempo em que nas aldeia da Beira Baixa de então, todas tinham os seus lavradores que os utilizavam para levar o estrume para as hortas, os matos silvestres para o empalhe das sementeiras e tudo o mais, fazendo os velhos carros a que se atrelavam os pachorrentos animais - depois de domesticados -  o serviço que hoje é feito pelos modernos tractores mecânicos.

Hoje, os velhos carros de bois estão arrumados ou constituem numa praça qualquer um motivo de enfeite público.

Já não há que faça os "estadulhos"; as "engarelas", e "eixo" e as "rodas", bem como as "caniças" a "rabiça" e o "soalho", que obedeciam a medidas rigorosas do desenho costumado que vinha dos tempos avoengos, tendo o "estadulho", a "caniça" 0,90m e a"rabiça" 1,60m, variando o tipo de madeira consoante as partes do carro,  entre o freixo para os"estadulhos", bem como as "rodas", que nalguns lados eram feitas de negrilho.