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sábado, 7 de setembro de 2013

Fausto Guedes Teixeira (1871-1940)


 
Estátua do Poeta, em Lamego - Jardim da República


Fausto Guedes Teixeira nasceu na cidade de Lamego em 1871 e ali faleceu em 1940. Filho do visconde Guedes Teixeira que o não queria ver entregue à poesia, até à morte do pai em 1890, assinou os seus trabalhos com o nome Fausto Guedes e só depois lhe acrescentou o sobrenome Teixeira. (1)
Num dado tempo, viajou até ao Brasil com a intenção de ali fixar a sua actividade, mas, saudoso, não demorou o regresso a Portugal e à sua terra natal.
Frequentou e concluiu o Curso de Direito na Universidade de Coimbra, onde conviveu com os poetas do Simbolismo (2) o que lhe viria a granjear uma aura de grande admiração de que foi expoente, Augusto Gil, que não regateou louvores merecidos e que ele soube merecer desde a publicação, aos 18 anos do seu primeiro livro: "Náufragos", onde o lírico admirável assentou arraiais que vieram a perdurar no tempo.
Poeta de um cunho idealista onde o amor abriu as asas em cantos perfeitos ou, embrenhando-se em louvor dos oprimidos e de motivos políticos, do seu punho saíram sempre, burilados com maestria na "pedra" em que escrevia os seus versos, composições de extrema beleza artística, pesassem, embora, algumas liberdades poéticas que aqui e ali impregnaram a sua obra, que cronologicamente é assim apresentada:
"Náufragos" (1892), "Livro de Amor" (1894); "Mocidade Perdida" (1896); "Boa Viagem" (1898); "Esperança Nossa" (1899); "Carta a um Poeta" (1899); "Saudades do Coração" (1902); "Alma Triste" (1903); "O Meu Livro" (1908) "Maria" (1918); "Sonetos de Amor" (1922);
Todo o visitante do Penedo da Saudade, em Coimbra, pode ver uma lápide com a invocação de Fausto Guedes Teixeira e um dos seus sonetos:


Há no lindo Penedo da Saudade
Dessa Coimbra que eu gosto tanto,
Uma tristeza quasi soledade
Mas que alivia quasi como o pranto.
 
Canta o Mondego ao fundo,  o mesmo canto
Com que ele embala cada mocidade,
Levando ao mar o seu eterno encanto,
Banhando a terra de felicidade.

Salgueirais, choupos, numa e noutra margem,
Vão seguindo os caminhos que eu segui…
O luar, como o sol, doira a paisagem.

E relembro nas suas oliveiras
As primeiras saudades que senti
E quero crer também que as derradeiras.


 

in, publicação do 50º da morte do Poeta Lamecence
 
 

Da sua religiosidade bem vincada pela "escola literária" a que aderiu o seu estro brilhante de ideias e sentimentos, ficou como um marco a delimitar o seu caminho de vida a composição: "Cruzeiro do Sul", fazendo lembrar aquele espaço da arquitectura religiosa que nos templos sagrados intercepta a nave central com o transepto, e que ele situou a Sul, no local onde recebia a comunhão, tendo-lhe merecido este belo soneto:
 
Por mais original que seja o canto
Que celebre a ventura ou a desgraça,
Todo o livro de amor tem sempre tanto
Do que o inspira como do que o traça.
 
Sou eu, bem sei, que junto do altar santo
Ergue a hóstia nas mãos; mas, sem a graça
Do céu, em vez dum Deus, o que levanto
É qualquer coisa que se extingue e passa.
 
Pois neste livro o que ele tem de belo
Dera-mo todos os que eu amo; assim,
Não fui só eu apenas a escrevê-lo.
 
E no Cruzeiro eu vi distintamente
Os braços que se abriram para mim,
E os meus braços, que abri a toda a gente.
 
É comovente a inspiração do Poeta ao dar-nos conta do homem religioso que havia em si e do modo como havia entendido o sinal "escondido" que está presente na hóstia da comunhão, em que sem a graça do céu, em vez dum Deus, a hóstia seria algo sem qualquer valor e, depois, a confissão de ter visto, distintamente, nos braços abertos de Jesus pregado na Cruz  os seus próprios braços, que diz ele, se abriam a toda a gente.
Eis como neste trabalho poético, existe uma bela lição cristã em que o profundo sinal da comunhão através da hóstia recebida - e sentida - se espelha, como tem de acontecer, em todos os semelhantes, crentes ou não.
 

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(1) in, artigo da brochura do 50º da morte do Poeta, da autoria de Dr. Fernando Lemos Quintela.
(2) - Simbolismo foi uma tendência literária, poesia e outras ates, surgida em França em finais do século XIX, em oposição ao Realismo que então assinalava a época, opondo-se-lhe com os valores do misticismo, do sonho, fé e religião, que passaram a "terçar armas" em busca destes novos caminhos.
 

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