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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"O Amor e o Tempo" - Um poema de António Feijó


O AMOR E O TEMPO


Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!

António Feijó, in 'Sol de Inverno'


António Feijó foi um Poeta de rara inspiração lírica que teve a arte dela estar presente em cada um dos seus poemas de fino recorte literário que ficaram a marcar no tempo, o modo - de uma profunda análise humana no campo da moral filosófica - como ele penetrava nos sentimentos dos seus leitores.

O AMOR E O TEMPO é um destes exemplos.

Vemos estampada ante os nossos olhos uma montanha alcantilada, como ele no-la apresenta e esta montanha é a nossa própria vida.

Sobem quatro personagens: o Amor, o Tempo, a Amada e o Poeta,

Num dado passo, o Poeta deu-se conta do passo adiantado do Amor que caminhava à frente e tendo visto que o Tempo acelerava o passo interpela o Amor pedindo-lhe para ir mais devagar, sentindo que a sua Amada dava mostras de lhe custar a subida da montanha... e ao criar esta imagem literária o Poeta põe-nos a pensar que na subida da montanha da vida cada um de nós - homem ou mulher - tem o seu passo e só o Amor o pode emparelhar.

Analisando o poema, era a Amada que tinha dificuldade em acompanhar o Amor e este que já tinha interiorizado a fuga não quis ouvir o rogo do Poeta - Amor! Amor! mais devagar! Não corras tanto assim, ainda suplicou ao Amor, mas este de combinação com o Tempo abrem as asas trémulas ao vento e à pergunta: Porque voais assim tão apressados?,  o Amor, volta-se para o Poeta e responde mal encarado, pedindo-lhe resignação: Eu sempre tive este costume / de fugir com o Tempo... Adeus! Adeus! 

Termina desta forma o sentido do poema, dizendo-nos às claras o Poeta que é sempre assim: o Amor: costuma fugir com o passar do Tempo.

Análise profunda é a que nos dá este belo poema de António Feijó, hoje, infelizmente, realizado em toda a nudez da sua verdade, pois, quando a montanha da vida se inclina um pouco mais, é o momento do Amor se ir embora, pela simples razão de um não fazer o sacrifício de acompanhar o passo do outro, o que devia acontecer quando se sente que o Amor - às vezes por motivos fúteis - abre as asas e vai-se embora.

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