O AMOR E O TEMPO
Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre
companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.
Da minha Amada no gentil
semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.
— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão
ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»
Súbito, o Amor e o Tempo,
combinados,
Abrem as asas trémulas ao
vento...
— «Porque voais assim tão
apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse
momento,
Volta-se o Amor e diz com
azedume:
— «Tende paciência, amigos
meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus!
Adeus!
António Feijó, in 'Sol de
Inverno'
António Feijó foi um Poeta de rara inspiração lírica que teve a arte dela estar presente em cada um dos seus poemas de fino recorte literário que ficaram a marcar no tempo, o modo - de uma profunda análise humana no campo da moral filosófica - como ele penetrava nos sentimentos dos seus leitores.
O AMOR E O TEMPO é um destes exemplos.
Vemos estampada ante os nossos olhos uma montanha alcantilada, como ele no-la apresenta e esta montanha é a nossa própria vida.
Sobem quatro personagens: o Amor, o Tempo, a Amada e o Poeta,
Num dado passo, o Poeta deu-se conta do passo adiantado do Amor que caminhava à frente e tendo visto que o Tempo acelerava o passo interpela o Amor pedindo-lhe para ir mais devagar, sentindo que a sua Amada dava mostras de lhe custar a subida da montanha... e ao criar esta imagem literária o Poeta põe-nos a pensar que na subida da montanha da vida cada um de nós - homem ou mulher - tem o seu passo e só o Amor o pode emparelhar.
Analisando o poema, era a Amada que tinha dificuldade em acompanhar o Amor e este que já tinha interiorizado a fuga não quis ouvir o rogo do Poeta - Amor! Amor! mais devagar! Não corras tanto assim, ainda suplicou ao Amor, mas este de combinação com o Tempo abrem as asas trémulas ao vento e à pergunta: Porque voais assim tão apressados?, o Amor, volta-se para o Poeta e responde mal encarado, pedindo-lhe resignação: Eu sempre tive este costume / de fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!
Termina desta forma o sentido do poema, dizendo-nos às claras o Poeta que é sempre assim: o Amor: costuma fugir com o passar do Tempo.
Análise profunda é a que nos dá este belo poema de António Feijó, hoje, infelizmente, realizado em toda a nudez da sua verdade, pois, quando a montanha da vida se inclina um pouco mais, é o momento do Amor se ir embora, pela simples razão de um não fazer o sacrifício de acompanhar o passo do outro, o que devia acontecer quando se sente que o Amor - às vezes por motivos fúteis - abre as asas e vai-se embora.


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