domingo, 9 de outubro de 2016

De um sermão sobre a morte do Padre António Vieira



No sermão pregado em 1649 no Convento de S. Francisco, em Xabregas, por ocasião das exéquias de D. Maria de Ataíde, filha dos Condes de Atouguia, que a morte ceifou aos 24 anos de idade, o Padre António Vieira ergueu com o seu verbo culto e acertivo entre muitas outras as considerações que lhe mereceu a morte daquela dama palaciana, as seguintes, que são na sua aparente frieza de análise, um modo como devemos encarar a foice com que a morte é representada.
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Queixa-se a idade contra a morte. Se se queixam os oitenta anos de Davi, se se queixam os cento e quarenta e sete anos de Jacó, se se queixam os duzentos e setenta anos de Jó, como se não hão de queixar os vinte e quatro anos de D. Maria de Ataíde?(...)

Apareceu uma vez a morte ao profeta Hábacuc, e viu que ia andando no triunfo de Cristo: Ante faciem ejus ibit mors (13). Apareceu outra vez a morte a S. João no Apocalipse, e viu que vinha pisando sobre um cavalo: Et ecce equns, et qui sedebat super eum, nomen illi Mors (14). Apareceu terceira vez a morte ao profeta Zacarias, e viu uma foice com asas: Vidi, et ecce falx volans (15). De maneira que temos a morte a pé, morte a cavalo, e morte com asas.

A vida sempre caminha ao mesmo passo, porque segue o curso do tempo: a morte nenhuma ordem guarda no caminhar, nem ainda no ser. Umas vezes é uma anatomia de ossos que anda, outras um cavaleiro que corre, outras uma foice que voa. Para estes vem andando, para aqueles correndo, para os outros voando.

Se a morte, ou para todos andara, ou para todos correra, ou para todos voara, era igual a morte. Mas andar para uns, para outros correr, e para mim voar? Oh! morte, quem te cortara as asas. Mas bem é que bata as asas, para que nós abatamos as rodas. Pinta-se a morte com uma foice segadora na mão direita, e um relógio com asas na mão esquerda. Se alguma hora foi assim a morte, troque-se daqui por diante a pintura, que já não é assim. Ecce falx volans.

Tirou a morte as asas do relógio da mão esquerda, e passou-as à foice da mão direita, porque é mais apressada a foice da morte em cortar que o relógio da vida em correr. Ainda quando a morte não voa, corre mais que a vida.
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(13) A morte irá diante da sua face (Háb 3, 5).
(14) E apareceu um cavalo, e o que estava montado sobre ele tinha por nome Morte (Apc 6, 8)
(15) A Vulgata traz volumen, livro e não falx, foice: E eis que vi um livro que voava (Zac 5, 1).

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