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sábado, 4 de novembro de 2017

"O ouro" - um conto para a Infância, de Guerra Junqueiro



O ouro

Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de ouro, empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande fome no país.

Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias, todas de ouro fino; e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao princípio qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazê-los nas minas à busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens, estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro aparecesse em abundância.

A rainha tinha juízo.
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A este grande homem das Letras Portuguesas, um transmontano de gema que ficou conhecido literariamente por Guerra Junqueiro e que os seus pais sonharam destiná-lo para abraçar a carreira eclesiástica - que longe estavam de tal vir a acontecer! -  deve a Literatura Portuguesa o inestimável trabalho "CONTOS PARA A INFÂNCIA" cuja aparição ao público resultou do facto de Portugal - em meados do século XIX - se encontrar social e economicamente num estado deplorável, mercê de uma política fraudulenta levada a cabo por homens corruptos, para os quais as crianças de pouco ou nada contavam e, por isso, eram relegadas para um abandono social e cultural 

Constatando esse facto, o tema das crianças  é uma constante em toda a produção literária de Guerra Junqueiro, por causa do seu esquecimento a vários níveis, e isto bastou na sua consciência para ele lhes ter dado a importância da sua formação integral, tendo em conta a construção de um Portugal mais consentâneo com a Europa.

Embora muitos dos contos deste livro não sejam integralmente da sua autoria, mas sim, adaptações de contos tradicionais da sua Província transmontana, e outros,  o que Guerra Junqueiro nos legou foram flores de amor para as mães recitarem à noite no momento de adormecerem os seus filhos, constituindo, para além de importantes meios pedagógicos de formação mental das crianças, um motivo que levou o feliz autor a falar deste modo no  Prefácio do livro:

A alma de uma criança é uma gota de leite com um raio de luz.
Transformar esse lampejo numa aurora, eis o problema.
A mão brutal do pedagogo áspero, tocando nessa alma, é como se tocasse numa rosa.
Para educar as crianças é necessário amá-las. As escolas devem ser o prolongamento dos berços. Por isso, os grandes educadores como Froebel, têm uma espécie de virilidade maternal.

Eis, porque, nestas reflexões a abrir a Obra dedicada aos mais pequenos, o grande homem das Letras Portuguesas não desdenhou de escrever para elas estes ramalhetes de flores olorosas, pondo em cada um deles a sua alma de Poeta e de pedagogo, num tempo em que, em Portugal, poucos se importaram das crianças abandonadas por um Poder obsoleto, ridículo e coxo de valores sociais.

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