domingo, 22 de abril de 2018

"Ressurreição" - Um soneto de António Carneiro

Soneto captado de "A Revista Nova" - 20 de Maio de 1901
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A  "Revista Nova" publicou-se, segundo as fontes que tenho, apenas entre os anos de 1901 e 1902 e contou com colaboradores de "primeira água" como Afonso Gayo, António Patrício - António Carneiro, o autor deste soneto - Ernesto da Silva, João de Barros, João de Deus Ramos, João Grave, João Lúcio, Manuel Laranjeira, Mayer Garção, Miguel de Unamuno, e Tomás da Fonseca, e ainda que fosse efémera a sua publicação, teve o condão de guardar páginas brilhantes, como esta onde do soneto - Ressurreição - é um título a condizer com a substância literária que ele encerra.

Ao ter a data do mês de Maio, sou levado a crer que António Carneiro, foi um autor sensível ao florir da Primavera, quando diz a abrir o soneto - "Pelos campos ideais da fantasia" - associou a sua mente à ressurreição da Natureza no seu acordar anual e do mesmo modo associou a esse facto a ressurreição da sua própria mocidade "que fugia" e que ele queria de novo agarrar, apelando para uns certos olhos - os da Natureza que se abria ante si mesmo para lhe trazer "a felicidade" - e a quem pede, num murmúrio íntimo, dirigindo-se-lhe: "Não me roubeis, por Deus, mais esta esperança!", utilizando neste verso a liberdade poética que lhe permitiu falar com aquela Natureza ressurgida.

Penso - seja qual seja a nossa idade - temos o dever de pedir por este tempo, à Natureza, agora aberta na sua Primavera - que tal como ela, haja ressurreição nas nossas vidas para mais um ciclo, e com ele possamos subir mais um degrau com alegria e dizer como António Carneiro: "Não reste da Ventura uma Saudade", porque onde há saudade há ausência e o desejo que nos deve levar até ao fim tem de se a nossa presença em tudo aquilo que ao nosso redor, neste florir da Primavera vai tingindo de cores o Mundo que temos e devemos sentir e viver, vendo-o ressurgido em nós mesmos.

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