segunda-feira, 5 de março de 2018

A Tolerância pode ser uma virtude perigosa?


A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.
                                                         Gandhi (Mohandas)
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Tela de Rubens demonstrativa da entrada acidentada em Paris de Henrique IV

Para ilustrar a tolerância temamos como exemplo o documento histórico do "Èdito de Nantes" de 1598 assinado pelo rei de França, Henrique IV que para subir ao trono se converteu ao catolicismo, tendo concedido aos protestantes calvinistas - huguenotes - a garantia de uma tolerância religiosa após a perseguição movida e o massacre de 1572.

Não foi pacífica a entrada de Henrique IV em Paris com realce para os católicos e que veio a culminar com o seu assassinato em plena rua por um monge agastado com o beneplácito real.

O problema da tolerância ao pôr-se, assim em questões opinativas leva-nos a concluir que estas conduzem o homem a ter sobre ele duas atitudes em confronto, uma de respeito e amor pelo outro ainda que se tenha opinião contrária, e outra de falsa concordância, onde o amor e o respeito cedem cobardemente os seus atributo à falta de complacência.

Entende-se o antagonismo, a partir do momento em que nos dispomos  a reflectir sobre o sentido da palavra – tolerância – pois, o que chega ao nosso entendimento, não é apenas o seu significado académico: consentir, desculpar, admitir, mas a par disto e como sentido plebeu, ela também é entendida como uma  fraqueza, um desleixo, um deixa andar, um não ligar e, até, significando um desinteresse onde falta todo e qualquer sentimento humano.

Tolerância é isto, no bom e mau sentido, mas é algo mais.

Ultrapassa estas duas concepções contrárias, assumindo-se como uma virtude serena do homem calmo, cheio por dentro de uma grande paz interior que advém do equilíbrio que permite estar atento a tudo quanto se passa ao seu redor, donde lhe é facultada a serenidade quanto tem de agir e tirar conclusões justas em questões onde o julgamento humano  - falho como é – tem de ter o melhor dos desempenhos para não ferir a sensibilidade do outro.

Aqui a tolerância está carregada de amor humano ou de simples amizade.

A prudência não pode, por este motivo, de estar presente na virtude de julgar, reflectindo e interiorizando cada acontecimento, sendo a cautela onde ela assenta a sua almofada, tendo-se como certo que todo aquele que age à revelia destes princípios corre o risco de ser um falso tolerante, admitindo o deixa andar ou o não ligar e outros modos, agindo-se por comodismo, fazendo-se da tolerância um engano sobre si mesmo e sobre o outro, e o que é muito grave, fazendo dela uma caricatura.

Tolerar, pressupõe, sobretudo, respeito pelo outro, devendo ser sempre um acto reflexo da amizade ou do amor que obriga aquele que usa de tolerância a raciocinar para compreender o outro na procura de o ajudar. A tolerância é, deste modo, o primeiro dos caminhos para o trazer o à observância do que é aceitável na discussão das ideias e, até, do ponto de vista espiritual, um modo o de fazer vir ao encontro do que é normal na vivência adulta entre pessoas, mas tendo sempre presente que as verdades humanas são sempre relativas, sendo apenas imutáveis os princípios da esfera divina.

É, neste ponto que cabe ao homem tolerante ser alguém de coração aberto.

Alguém, que normalmente esconde uma alma acolhedora, que não repele, mas acarinha, virtudes que estando acima do julgamento sumário – tantas vezes usado -  faz dele um elo humano de tal modo forte que ao aceitar as ideias do outro, embora diferentes das suas, ao agir assim, o faz,  por sentir brilhar nele luzes de sinceridade.

Tolerância é compreender que o outro que caminha ao nosso lado é “ele” com todos os seus defeitos e virtudes, e não um outro“eu”, querendo por força que ele comungue das minhas ideias, mas, ao invés, respeitando as suas diferenças e aceitando-as, fazendo um esforço diário para compreender o porquê das suas opiniões contrárias.

Apesar disto, as expressões “ isso não é comigo” ou “não posso endireitar o mundo” não podem fazer carreira entre os homens, porque uma e outra são sinais evidentes da demissão a que hoje assistimos, tolerando-se  de um modo que é falso -  e que mais não é -  que o resultado de pactos de desinteresse e  de cobardia e, sobretudo, de falta de respeito pelo outro, ao saber-se que um mundo melhor só pode ser construído pela tolerância sadia que ao aceitar as ideias do outro, não deixa, com sentido construtivo, de lhe fazer sentir a opinião diversa, para que do confronto das duas, possam, eventualmente, nascer os consensos necessários à concertação das coisas.

Mas tolerar pela demissão, nunca o façamos, porque é sempre uma fuga que não pode ser consentida ao homem verdadeiramente tolerante, pois é do esforço por compreender e aceitar o outro que crescem as amizades fortes e se enriquece o mundo a começar pela acção isolada de cada um que cumpre no grande palco da vida a sua missão interventiva na sociedade, tarefa de que ninguém está excluído.

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