Dia de Portugal, de Camões e das
Comunidades
Santarém, 10 de Junho de 2009
António Barreto
(…)
Senhoras e
Senhores,
Dia de
Portugal… É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas
também pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez.
Várias vezes
este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal,
da Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades.
Com ou sem tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo
que se festeja: os Portugueses. Onde quer que vivam.
Há mais de cem
anos que se celebra Camões e Portugal. Com tonalidades diferentes, com ideias
diversas de acordo com o espírito do tempo. O que se comemora é sempre o país e
o seu povo. Por isso o Dia de Portugal é também sempre objecto de críticas.
Iguais, no essencial, às expressas por Eça de Queirós, aquando do primeiro dia
de Camões. Ele afirmava que os portugueses, mais do que colchas às varandas,
precisavam de cultura.
Estranho dia
este! Já foi uma “manobra republicana”, como lhe chamou Jorge de Sena. Já foi
“exaltação da raça”, como o designaram no passado. Já foi de Camões, utilizado
para louvar imperialismos que não eram os dele. Já foi das Comunidades, para
seduzir os nossos emigrantes, cujas remessas nos faziam falta. E apenas de
Portugal.
Os Estados
gostam de comemorar e de se comemorar. Nem sempre sabem associar os povos a tal
gesto. Por vezes, quando o fazem, é de modo desajeitado. “As festas decretadas,
impostas por lei, nunca se tornam populares”, disse também Eça de Queirós.
Tinha razão. Mas devo dizer que temos a felicidade única de aliar a festa
nacional a Camões. Um poeta, em vez de uma data bélica. Um poeta que nos deu a
voz. Que é a nossa voz. Ou, como disse Eduardo Lourenço, um povo que se julga
Camões. Que é Camões. Verdade é que os povos também prezam a comemoração, se
nela não virem armadilha ou manipulação.
Comemora-se
para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para
reinterpretar o passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para
invocar um herói que nos dê coesão. Para renovar a legitimidade histórica. São,
podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à tentação de nos
apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências
contemporâneas.
Não é possível
passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E
simplicidade.
Garantimos com
altivez que Camões é o grande escritor da língua portuguesa e um dos maiores
poetas do mundo, mas talvez fosse preferível estudá-lo, dá-lo a conhecer e
garantir a sua perenidade.
Afirmamos, com
brio, que os portugueses navegadores descobriram os caminhos do mundo nos
séculos XV e XVI e que os portugueses emigrantes os percorreram desde então.
Mais vale afirmá-lo com o sentido do dever de contribuir para a solidez desta
comunidade.
Dizemos, com
orgulho, que o Português é uma das seis grandes línguas do mundo. Mas
deveríamos talvez dizê-lo com a responsabilidade que tal facto nos confere.
Quando se
escolhe um português que nos representa, que nos resume, escolhe-se um herói.
Ele é Camões. Podemos festejá-lo com narcisismo. Mas também com a decência de
quem nele procura o melhor.
Os nossos
maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito
insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e,
algumas vezes, pela tolerância. Infelizmente, foram tantas vezes utilizados com
o exacto sentido oposto: obedientes ou símbolos de uma superioridade obscena.
Ainda hoje soubemos
prestar homenagem a Salgueiro Maia. Nele, festejámos a liberdade, mas também
aquele homem. Que esta homenagem não se substitua, ritualmente, ao nosso dever
de cuidar da democracia.
As
comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o
excepcional. O carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos,
hoje, os limites dessa receita nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e
festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e consciência. No nosso
passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção entre
o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária
capacidade de resistir, base da “persistência da nacionalidade”, como disse
Orlando Ribeiro. Mas que isso não apague ou esbata o resto. Festejar Camões não
é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua obra maior, mas é perceber
o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber o que
fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a
guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade.
Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.
Fizemos a
democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação,
mas ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos
abandonar a mitologia absurda do país excepcional, único, a fim de nos
transformarmos num país como os outros. Mas que é o nosso. Por isso, temos de
nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo.
Há mais de
trinta anos, neste dia, Jorge de Sena deixou palavras que ecoam. Trouxe-nos um
Camões humano, sabedor, contraditório, irreverente, subversivo mesmo.
Desde então,
muito mudou. O regime democrático consolidou-se. Recheado de defeitos, é certo.
Ainda a viver
com muita crispação, com certeza. Mas com regras de vida em liberdade.
Evoluiu a
situação das mulheres, a sua presença na sociedade. Invisíveis durante tanto
tempo, submissas ainda há pouco, as mulheres já fizeram um país diferente.
Mudou até a
constituição do povo. A sociedade plural em que vivemos hoje, com vários deuses
e credos, com dois sexos iguais, com diversas línguas e muitos costumes, com os
partidos e as associações que se queira, seria irreconhecível aos nossos
próximos antepassados.
A sociedade e
o país abriram-se ao mundo. No emprego, no comércio, no estudo, nas viagens,
nas relações individuais e até no casamento, a sociedade aberta é uma novidade
recente.
A pertença à
União Europeia, timidamente desejada há três décadas, nem sequer por todos, é
um facto consumado.
A estes trinta
anos pertence também o Estado de protecção social, com especial relevo para o
Serviço Nacional de Saúde, a segurança social universal e a escolarização da
população jovem. É certamente uma das realizações maiores.
Estas
transformações são motivo de regozijo. Mas este não deve iludir o que ainda
precisa de mudança. O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que
correu mal.
A Sociedade e
o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais
persistem para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça
também. 0 favor ainda vence vezes de mais o mérito. O endividamento de todos,
país, Estado, empresas e famílias é excessivo e hipoteca a próxima geração. A
nossa pertença à União Europeia não é claramente discutida e não provoca um
pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.
Há poucos
dias, a eleição europeia confirmou situações e diagnósticos conhecidos. A
elevadíssima abstenção mostrou uma vez mais a permanente crise de legitimidade
e de representatividade das instituições europeias. A cidadania europeia é uma
noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é
uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um
sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica
sem tradição cultural, espiritual ou política. Os Estados e os povos europeus
deveriam pensar de novo, uma, duas, três vezes, antes de prosseguir caminhos
sem saída ou falsos percursos que terminam mal. E nós fazemos parte desse
número de Estados e povos que têm a obrigação de pensar melhor o seu futuro, o
futuro dos Portugueses que vêm a seguir.
É a pensar
nessas gerações que devemos aproveitar uma comemoração e um herói para melhor
ligar o passado com o futuro.
Não usemos os
nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem
efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.
Pela justiça e
pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições
morais.
Pela
honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem
mais do que de sermões.
Pela eficácia,
pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os
portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.
Pela liberdade
e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo
do que com declarações solenes.
Contra a
decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do
que com discursos pomposos.
Pela
recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o
exemplo com mais elevado sentido de justiça.
Mais do que
tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus
melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos
afortunados, cujas responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua
fortuna. Dos sabedores, cuja primeira preocupação deveria ser a de divulgar o
seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para quem lhes deu o poder.
Dos que têm mais responsabilidades, cujo “ethos” deveria ser o de servir.
Dê-se o
exemplo e esse gesto será fértil! Não vale a pena, para usar uma frase feita,
dar “sinais de esperança” ou “mensagens de confiança”. Quem assim age, tem
apenas a fórmula e a retórica. Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível,
e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a
corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação
reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a
economia sentirá os seus efeitos.
Políticos,
empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos
de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais
vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem
consideração por quem trabalha, poderão melhor atravessar as crises. Se forem
verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.
Em momentos de
crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções
empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções
milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país.
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