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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"As pombas" - Um soneto de Raimundo Correia

in, Livro "Sinfonias"
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Era muito jovem  quando conheci este soneto do poeta do Maranhão brasileiro, neto de pais portugueses, descendente por parte do pai dos duques de Caminha e, desde sempre, a música cantante dos seu versos prendeu a minha atenção muito grata ao seu inspirado autor, que só mais tarde com o amadurecimento das ideias, entendi que ele era fruto do parnasianismo a que Raimundo Correia aderira, dando a este belo soneto a sacralidade da forma, e o preciosismo ritmado onde as palavras, por excelência, se moldavam  em  sonetos de linguagem figurada.

"As pombas" são isso tudo, enquanto imagem real das pombas que se vão do pombal à conquista do azul do céu, até à figuração das "pombas" dos sonhos que todos temos, agora ou logo, no azul da adolescência, fugindo muitos deles do que havíamos sonhado, para, numa constatação onde existe a realidade existencial nos dizer que - enquanto as pombas dos pombais regressam ao cair do dia, as "pombas" dos muitos sonhos que soltamos à vida, aos corações não voltam mais...

Como Raimundo Correia tem razão!

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"Os Amigos" - Um soneto de Camilo Castelo Branco


Fac-simile da revista "Azulejos" de 2 de Dezembro de 1907


Este bem conhecido soneto de Camilo Castelo Branco, foi escrito em  1890, um tempo antes do médico oftalmologista Edmundo de Magalhães Machado se ter deslocado de Aveiro à sua casa de S. Miguel de Seide e ter reconhecido que nada podia fazer para devolver a vista ao grande escritor.

Segundo o relato que chegou até nós, no espaço de tempo que mediou o acompanhamento de Ana Plácido à porta para se despedir do médico, ambos ouviram o disparo do tiro de revólver com que Camilo perfurou a cabeça, suicidando-se.

Amigos, cento e dez ou talvez mais... é assim que Camilo começa a desfiar o novelo das suas agruras - vendo-se a braços com a sua cegueira incurável - para culminar num grito de dor, dando conta que daqueles cento e dez, apenas um o visitara, para apelidar os restantes, os faltosos, de cento e nove impávidos marotos!

Foi assim que as cordas da sua lira os viu e a fez vibrar com acordes de lamento!

Que este desabafo sentido de Camilo Castelo Branco nos interpele a todos, e ao pensar nele que o seu eco tenha deixado o seu som nas almas dos nossos amigos, para que, se um dia nos forem precisos não nos faltem, porque como diz o povo - é nas doenças e nas prisões que se conhecem os amigos - precisamente, os que faltaram a visita a S. Miguel de Seide, no momento em que as suas faltas amarguram os últimos dias do escritor, dos mais intensos, produtivos e dos mais puros da Língua Portuguesa do século XIX.

Como são enormes as árvores da floresta!



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

"Onde está o teu irmão?"

Caim e Abel 
Tela de Giovanni Domenico Ferretti
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Num dia que se perde na primeira aurora dos Tempos de acordo com o relato  bíblico a voz de Deus fez-se ouvir em Caim, perguntando-lhe:

- Onde está o teu irmão Abel?

Recebeu do primeiro assassino que a História da Humanidade regista a seguinte resposta, cobardia, fugidia e manhosa:

-Não sei! Porventura sou o guarda de meu irmão?

E foi assim que começou a irresponsabilidade humana de um homem sobre a sorte do outro a que acresce, neste caso, o facto de se tratar de alguém que era irmão de sangue daquele que jazia morto, vítima da sua monstruosidade.
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No tempo que passa, esta história tem todo o sentido, porque o pensamento do homem massificado por uma sociedade que deixou de respeitar os valores que estiveram subjacentes na pergunta de Deus a Caim, parece querer deixar ao abandono a fraternidade humana e, no entanto, continua a impor-se, entre nós a pergunta longínqua de Deus:

- Onde está o teu irmão?

E não vale - nunca mais nos pode valer! - a resposta cobarde de Caim, porque a humanidade do nosso tempo que precisa urgentemente de encontrar referências de Deus,  por enfermar deste mal e, no entanto, na linha humana cada homem está ligado ao outro pelo cordão umbilical da fraternidade e do amor presente desde o primeiro instante da Criação.
Deus, como diz o texto bíblico repreendeu severamente Caim pela resposta que além de ser mentirosa era desumana porque não respondia à questão essencial, ou seja, quando lhe devia dar conta da morte que dera a Abel, perdeu-se em evasivas e subterfúgios.

A cena, com outros contornos acontece, hoje, suspensa de uma pergunta que nos devia inquietar:

- Que fizeste do teu irmão?

Não o matei, diremos... e falaremos verdade...
Porém, se ponto de vista social em nada contribuímos para lhe darmos uma vida melhor seremos culpados pela morte prematura dos seus ideais, dos seus sonhos, das suas aventuras.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cansaços...

Capa do Livro "AS PALAVRAS DE CADA DIA" do Padre Eloy Pinho
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Eis um livro precioso que tem impresso, página a página uma reflexão que é na sua essência uma oração a Deus, muito profunda e bela do amor humano que se ergue como uma luz da alma para o seu Criador.

Numa dessas páginas o autor deixou, entre outras, estas palavras comovidas e de grande significado humano:

 HOJE, SENHOR,
QUERIA PEDIR-TE
POR TODOS QUANTOS ESTÃO
CANSADOS DE VIVER...

Hoje, ao reler aquela página fiquei a pensar nas pessoas - algumas, quem sabe? - que se cruzaram comigo, sentindo-se cansadas de viver.

- Talvez aquele pai de família saturado de doenças, que deixou de ter confiança no futuro...
- Ou aqueles pais de tal modo preocupados com o filho mais velho a quem proporcionaram depois de muitos sacrifícios um curso superior e por não conseguir empregar-se - há anos de desilusão em desilusão - anda taciturno, com a fé perdida e sem confiança...
- Pensei, ainda, naqueles jovens drogados que em momentos de lucidez se sentem fracassados com  o amargo pensamento de sentirem fechadas as portas dos seus destinos...
- E veio-me ao pensamento aquela mãe de família, que ao pequeno almoço dos filhos não consegue dar-lhes o pão suficiente... e, muito menos, certas guloseimas próprias das idades juvenis...
- E aquela outra, que já não consegue servir um prato de carne em cada semana...

Há, de facto, muita gente cansada de viver!

Senhor Deus, escuta esta minha pequena oração:

Intercede por por todos nós, mas muito especialmente, por todos aqueles que a sociedade mercantilizada do nosso tempo esqueceu e a quem as próprias entidades estatais - que não têm rosto - não chegam com a devida atenção da solidariedade social, mesmo em muitos casos sabendo das dificuldades económicas que se atravessaram nas suas vidas, criando-lhes angústias existenciais e sentindo-se presas fáceis dos cansaços que os atormentam. Amen!

Ser santo...


Nos Actos dos Apóstolos, concretamente no Cap. 9, versículo 32, o seu autor que é crível tenha sido S. Lucas, diz assim:  Pedro, que andava por toda a parte, desceu também até junto dos santos que habitavam em Lida - uma cidade que tem hoje o mesmo nome e é sede de um importante aeroporto internacional de Israel - não ia ao encontro  de homens que podiam ser chamados de – SANTOS -  como aqueles que a Igreja eleva, hoje, aos altares, mas simplesmente de homens firmes na defesa de valores morais e espirituais.

Homens bons.

Por isso, ser santo – como aqueles que S Pedro ia à procura em Lida – é uma  tarefa ao alcance de todo o homem, desde que tenha como meta o estabelecimento de ser caminho para outros seus iguais, deixando de ver no seu semelhante um rival mas um companheiro embarcado no mesmo barco e ao qual se deve dar a ajuda necessária para que este possa passar a salvo por cima das procelas do mar da vida.

Ser santo, assim, é, por isso, uma tarefa ao alcance de cada um de nós...

O importante é saber que a correcção humana que nos é pedida por Deus é para que Ele nos possa ajudar à santidade  e, desse modo, sermos no mundo um espelho da graça , caminho, porto de chegada e de partida de todos aqueles que vindo um passo atrás  precisam do  passo daquele que vai um pouco mais avançado na caminhada ao encontro da meta final.

Os SANTOS dos altares é por aqui que começam!

Que nunca esqueçamos que toda a criatura traz consigo no acto do seu nascimento o potencial divino de ser semelhante a Deus e é, por isso, que qualquer acto contrário a esse selo divinal é uma afronta que se faz à ordem natural da Criação dos seres humanos.

"A felicidade está no semear e não no colher!"


Alguém disse que a felicidade está no semear e não no colher.
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Para tanto, que eu - e tu, meu querido companheiro desta jornada breve -  ponhamos sempre com amor no mais fundo das leiras humanas as sementes da nossa humanidade, renovada em cada dia para que possam render abundantes colheitas.

S João, no cap. 4, versículos 37-38, quando nos fala da alegria comum que deve existir entre o semeador e o ceifeiro, ao afirmar: um é o que semeia e outro é o que ceifa quer dizer, precisamente, que a felicidade começa quando se põe a semente na terra pois só assim é possível que aconteçam os sorrisos  - embora em tempos distintos - daquele que semeia e daquele que recolhe os frutos.

Nem sempre, com efeito, o semeador é o ceifeiro.

A nossa vida deve ser da mesma sorte, porque da sua duração nenhum de nós tem a medida, mas só o Deus Eterno, dono por excelência dos "campos humanos" onde cada um de nós tem - e de graça - uma leira para ser cultivada com a diisponibilidade de que sejamos capazes, cientes que viemos a este mundo para sermos mais lavradores que ceifeiros.

Que este pensamento fique connosco neste dia e que no seu silêncio germinem dentro de cada criatura as sementes do amor humano para que a vida ganhe sentido e seja mais aprazível.

E que Deus nos dê  a todos a felicidade de sermos campos férteis onde o arado possa abrir as leiras fundas do amor, de tal modo, que não se perdendo nenhuma das sementes, estas possam um dia dar os frutos esperados, para quem Deus determinar!

"A tua roca" - Um poema de amor de José Simões Dias


A tua roca

Quando te vejo à noitinha
Nessa cadeira sentada,
Xaile cruzado no peito.
Na cinta a roca enfeitada;

Os olhos postos na estriga,
Volvendo o fuso nos dedos,
Os lábios contando ao fio
Da tua boca os segredos;

Eu digo, sem que tu oiças,
Pondo os olhos na tua roca:
Se um dia fosse estriga,
Beijaria aquela boca!

Que eu nunca te vi fiando
Sem invejar os desvelos
Com que desfias no linho
Os brancos, finos cabelos!

E aquela fita de seda
Com que enleias o fiado.
Irmã de lacinho verde
Que trazes no penteado?

Parece aquilo um abraço
De um amor que é todo nosso.
A trança do teu cabelo
Em volta do meu pescoço!

É por isso que eu murmuro
Vendo a fita que se enreda:
Quem me dera ser estriga
E ela a fitinha de seda!

Eu já não sei o que sinto,
Se tristeza, se ventura.
Mal que suspendes a roca
Da tua breve cintura!

Penso que fias nos dedos
Os dias da minha vida.
Ao pé de ti sempre curta.
Ao longe sempre comprida!

Pareces-me um ramalhete
Sentada nessa cadeira.
E a fita da tua roca
A silva duma roseira!

Meu amor, quando acabares
De espiar a tua estriga,
Se ouvires por alta noite
Soluçar uma cantiga,

Sou eu que estou a lembra-me
Da tua divina boca.
E penso que em mim são dados
Os beijos que dás na roca!

José Simões Dias
in “Peninsulares” - parte intitulada "Mundo interior"



Eu tenho por este retrato literário do Poeta da Benfeita, uma terra nobre do Concelho de Arganil, vizinho territorial do meu, Pampilhosa da Serra, uma paixão que muitas vezes me leva até ao seu livro "Peninsulares" para encher a alma do prazer de uma leitura sadia que foi beber ao parnasianismo ultra-romântico do autor, que dividiu a sua cultura literária entre o conto e a poesia de um realismo puro em que a mente se prendia a uma imagem para tirar dela todo o proveito próprio, para o dar aos seus leitores.

A ele se deve, enquanto deputado nos tempos do rotativismo da Monarquia Constitucional, militando no Partido Progressista, a lei que veio a transformar o aniversário de Luís de Camões em "Dia de Portugal" como se comemora ainda hoje, provando assim, que no político havia a chama e o influxo da Poesia imorredoira do épico.

"A tua roca" é um feixe de quadras simples de sete sílabas onde perpassa leve, mas profunda a veia poética deste serrano de gema que é um orgulho da sua terra natal que vê nele um filho ilustre que nunca esqueceu e muito valorizou os aspectos campestres em muitas das suas composições que tiveram o condão de não ter sido sepultadas com ele, porque, como esta, ficaram vivas a atestar o cidadão exemplar que ele foi.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Uma árvore contorcionista


Passei por um dos jardins da cidade...

Descuidado do afã da vida, naquele dia, mas atento à flora que me ia enchendo o olhar passei ante esta árvore contorcionista e fiquei ali pregado ao chão a pensar nas voltas do seu caule que vergou ao até ao chão mas teve a força de se levantar à procura do Sol, em defesa da folhagem de um verde escuro, muita densa, que o caule açoitado pelo vento trazia escondida e era para mostrar a quem passasse.

Meditabundo, segui o meu caminho...

E vieram ao meu pensamento algumas vidas extraordinárias que eu conheço que a adversidade quis mandar ao chão e se ergueram para o Sol da Vida!


De pedra em pedra...


De pedra em pedra
Correndo,
As águas do rio
Têm sempre uma canção diferente!
São como certas criaturas
Que conseguem ter em cada dia
Uma palavra de coragem
Para qualquer amargura!

No rio da vida todos nós somos água que corre!

E bom seria que à semelhança das pedras do rio que fazem cantar a água que corre, o nosso canto fosse assim, mesmo quando uma qualquer dificuldade nos obriga a passar de lado da pedra que surge… e, como as águas do rio quanto uma pedra maior acontece passam  a ter uma canção diferente, assim acontecesse connosco, ou seja, tendo para cada dificuldade uma atenção serena norteada pela alegria de sabermos que Deus está ali, na pedra maior que surge, atento para nos ajudar – embora como um canto diferente – a ultrapassar qualquer percalço, razão porque não pode haver no caminho por maior que seja a pedra um motivo para calarmos o nosso canto de amor à vida.

No rio da vida todos nós somos água que corre!

E havemos de correr alegres, cantando de pedra em pedra, porque é no embate com elas que afinamos o tom que havemos de ter… e vencer, especialmente naqueles momentos em que das margens da vida rolam para o leito do rio que somos as pedras maiores que tornam mais urgente o passar adiante para chegarmos à foz da Terra Prometida, onde desaguam os rios de todos os homens.

Por isso, agora, logo, amanhã ou depois procuremos continuar a cantar a nossa canção em tom mais alto ou mais baixo quando aparecer uma qualquer dificuldade… que às vezes é, apenas, uma pedra maior que aparece no caminho porque gosta de nos ouvir cantar num tom diferente.

"Sabedoria do Mundo"


Se pudéssemos ter consciência do quanto nossa vida é passageira, talvez pensássemos duas vezes antes de jogar fora as oportunidades que temos de ser e de fazer os outros felizes. 

Muitas flores são colhidas cedo demais. 
Algumas, mesmo ainda sem botão. 

Há sementes que nunca brotaram e há aquelas flores que vivem a vida inteira até que pétala por pétala, tranquilas, vividas, se entregam ao vento. Mas a gente não sabe adivinhar por quanto tempo estará enfeitando esse Éden e tampouco aquelas que foram plantadas ao nosso redor. 
Por isso não devemos nos descuidar de nós e nem dos outros. E o tempo passa... Mas ainda é tempo de apreciar as flores que estão inteiras ao nosso redor. Ainda é tempo de voltar a Deus e agradecer pela vida física, que embora passageira, se perpetua em nós espiritualmente.
                                       Autor desconhecido
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E se dedicássemos, hoje, um pouco do nossos tempo a este "Autor desconhecido" e a este pequeno texto - que é grande na substância e rico de humanismo - e tendo na devida conta como a "nossa vida é passageira" pudéssemos sentir o hálito da flor que somos e das que vivem ao nosso redor?

E se, depois, de um exame de consciência nos puséssemos a meditar de como temos de agradecer a Deus a vida física que anima o nosso corpo e a vida espiritual da nossa alma que fica eternamente viva, quando de nós nada mais houver que a lembrança do que fizemos  e deixamos?

Este "regato" que somos...


No seu livro “DEVERES” diz, Sertillanges: 

O regato não precisa de transbordar para servir, porque tudo quanto se lhe pede é que corra e banhe as margens.
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Este avisado conselho que o Pensador foi buscar à Natureza dos campos agrícolas, fê-lo a pensar em nós, homens e mulheres, pois, quantas vezes na ânsia louvável de servir nos sentimos ultrapassados pelas nossas próprias forças?

Sejamos como o "regato".
Refresquemos as margens do rio da vida por onde correm "as nossas águas"!

E, ainda que sempre  a correr – isto é, sempre actuantes – levemos aos outros a carícia da nossa humanidade - uma marca d´água comum - e, assim, nos ambientes por onde havemos de passar, refresquemo-los, deixando atrás de nós sem ser preciso ultrapassar a normalidade de viver com moderação e prudência, acções positivas que sejam na “paisagem humana” pontos referenciais da nossa passagem.

Que sejam a “frescura” que pudemos e soubemos dar!

E isto basta, ao invés dos que têm o hábito de com a sua presença imposta e impertinente costumam “secar tudo à volta deles”, não deixando condições para que as flores que os outros trazem – e todos as trazemos para as dar à vida – não possam nascer por causa das nossas vaidades de afirmação, tolas e falhas de humanismo.

Tenhamos, pois, atenção ao modo com deixamos correr o “regato” que somos!

sábado, 13 de janeiro de 2018

Conselho... ou talvez, não?



Pela pressa de muitas viagens que temos feito ao longo da vida que os nossos passos, por demais alargados, não sejam a causa de toparmos, agora ou logo, com caminhos proibidos criados por nós mesmos... e que ao olhar para trás - temendo que apareçam novos caminhos proibidos -  fiquemos com medo de dar mais um passo em frente.

Não vale! É preciso seguir...

Continuemos, pois, a caminhar, mas com um propósito mais atinado, criando silêncios e pausas e, até, tomando um assento de vez em quando, ainda que seja em cima de um dos marcos do caminho.

E havemos de ver como passam por nós as criaturas que cumprem os seus fadários - e quantos deles mais complicados que os nossos - mas com a compostura que por vezes as nossas pressas não têm sentido... pela simples razão de termos dado às nossas vidas apenas um único sentido - sempre em frente e com pressa - quando, afinal a vida é uma realidade com muitos sentidos havendo em todos eles homens e mulheres que passam... sem entender as nossas pressas...

Uma lembrança de Nino Salvaneschi


Nino Salvaneschi, viveu cego os últimos dez anos da sua vida e foi nesse estádio vivencial que escreveu algumas das suas obras, entre elas,  SABER CRER, um livro magnífico que reflecte em cada página um momento de abertura da sua alma aos homens, seus irmãos, e é quando fala dos caminhos que cada um é chamado a percorrer no cumprimento do destino, que se expressa deste modo:

Não me julgues mais afortunado do que tu
por haver descoberto um pequeno atalho...

E isto bastou para numa rendida homenagem ao escritor, pela verdade e sinceridade do que ele quis transmitir tenha escrito assim:

Estas palavras são para nós um aviso,
para que não mostremos orgulho de termos descoberto
o atalho que nos ajudou a encontrar o caminho.
É que se agirmos assim, aqueles que nos pedem ajuda
sentem maltratada a auto-estima, que é um bem humano
que não morre nunca no homem
por maiores que sejam os desaires da jornada.

Há, por isso, que ter cuidado.

E assim, ao estender a mão àquele que encontramos
à beira do caminho, há que indicar-lhe, com amor,
o pequeno atalho... aquele, precisamente,
que nos serviu, num certo dia,
porque sendo o homem caminheiro de todos os caminhos
está sujeito a perder-se...

Pois, quantas vezes, acontece,
que aqueles, que estão hoje na mó de cima
são os próximos que hão-de ficar à beira do caminho
à espera da mão estendida a indicar a rota perdida
nas muitas sombras da vida!


Por fim, que nos fique como exemplo esta sua afirmação a que ele chamou - BREVIÁRIO DE FELICIDADE - cheia de uma humanidade rara, onde o alto espírito do escritor italiano deixou a marca indelével do ser especial que ele foi.

Muitos homens são obrigados a abrir os olhos para ver.
Devo confessar-me que nunca mais vi tão bem desde que fiquei cego. E só agora percebi que muita felicidade humana reside ao ver tudo bem.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"Raízes" Um poema do exílio de Sidónio Muralha


Canta Amália Rodrigues

Raízes

Velhas pedras que pisei
saiam da vossa mudez
venham dizer o que sei
venham falar português
sejam duras como a lei
e puras como a nudez.

Minha lágrima salgada
caiu no lenço da vida
foi lembrança naufragada
e para sempre perdida
foi vaga despedaçada
contra o cais da despedida.

Visitei tantos países
conheci tanto luar
nos olhos dos infelizes
e porque me hei-de gastar?
vou ao fundo das raízes
e hei-de gastar-me a cantar.

Sidónio Muralha

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Amália Rodrigues com a sua voz ímpar deu vida a este poema inspirado do Poeta Sidónio Muralha, que viveu numa sociedade marcada pela pobreza e desigualdade social a que se agigantava o autoritarismo imposto pelo Estado Novo a partir de 1933.

Por esse tempo como aconteceu com outros intelectuais Sidónio Muralha exilou-se voluntariamente e acabou por se fixar no Brasil.

Ao sentir muito difícil o seu retorno a Portugal, o exílio e a saudade ditaram o poema "Raízes" que é na sua temática um grito de alma que o leva a desafiar as pedras dos caminhos que pisou em Portugal para que falassem e o fizessem em  português antigo, longe da ditadura que o levou a verter a sua lágrima salgada, caída no lenço da vida, como aconteceu com tantos outros homens da cultura.

Vale a pena ler e ouvir este poema de desgosto pátrio cantado por Amália Rodrigues em cuja voz a saudade do Poeta é um ariete lançado contra um tempo padrasto que Portugal viveu, e como diz o poema, foi uma vaga despedaçada / contra o cais da despedida, porque, como aconteceu com o Poeta nascido no bairro da Madragoa, em plena Lisboa que o não soube acarinhar se finou. exilado, em terras do Paraná, desse Brasil que o acolheu.

Lembro, pois, com todo o carinho, Sidónio Muralha e atrevo-me a pedir a quem me ler que vá atrás da escrita que ele nos deixou e, com ela, reviva um homem grande do século XX português atiçando a memória dos que o esqueceram.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O problema da "Virtude"


A Igreja chama "Virtudes Teologais" a:
  • Fé 
  • Esperança
  • Caridade
e "Virtudes Cardeais" a:
  • Prudência
  • Justiça
  • Fortaleza
  • Temperança
A Filosofia ao falar da "Virtude" diz assim :

A virtude é a realização máxima do espírito humano no campo da moral. As condições básicas para bem julgar são as seguintes:

- O conhecimento da verdade;
- E o hábito que faz com que nos lembremos dela sempre que a ocasião requer.

O conhecimento da verdade pode ser alcançado pela vontade, única criadora de uma actividade correta da inteligência, tanto na ciência que conduz à certeza, quanto na moral que conduz aos melhores juízos possíveis.

Sendo o homem uma união da alma e do corpo, ele é dominado por ideias confusas onde a moral se apresenta como uma aplicação da virtude. A virtude está não apenas no esforço de praticar o bem sob a orientação da inteligência, mas também no esforço de bem pensar no que se refere ao bem. A virtude não é uma prática infalível do bem, mas o esforço para realiza-lo da melhor forma possível. Em outras palavras, a virtude é o impulso da alma que nos induz a praticar o bem.

Temos, assim, que a Filosofia não renegou os ensinamentos milenares da Igreja neste campo comportamental do homem perante a sua evidência social e moral enquanto agente responsável a quem cabe a condução e transformação da sociedade através da virtude que o leva a agir tendo a "Verdade" como fundamento e esta, tanto está na "fé", como na "esperança" ou "caridade", enraizadas na Teologia que assenta no estudo crítico da natureza do divino que cerca o homem e com o qual tem de se relacionar, como a "prudência", a "justiça", a "fortaleza" e a temperança" são qualidades cardeais que o homem deve tomar como uma assunção de virtudes centrais, fundamentais e orientadoras que se entroncam no campo da moral, constituindo-se como os "pontos cardeais" que a Geografia ensina de referência para a localização do homem sobre a superfície terrestre.

Ao fim e ao cabo o que é o homem à face da Terra  senão um ser que deve viver orientado e como diz a Filosofia em busca do "conhecimento da verdade" e esta conduzida pela vontade enquanto "única criadora de uma actividade correcta da inteligência" que é, afinal, o desiderato para onde aponta a Igreja quando nos fala das "Virtudes Teologais" e "Virtudes Cardeais", umas e outras apontadas para a inteligência do homem, mesmo no campo de "Fé" onde a Igreja pretende que esta seja orientada pela "Razão", como amplamente os últimos Papas o têm dito e escrito.

Bem sei quão pequeno é este apontamento, mas sei que a tanto obriga a razão que deve sobrenadar acima de todas as "Virtudes" na procura da "verdade" que cientificamente leva  o homem à certeza das coisas, como se deve atender ao campo da moral por se saber que é só através dela que se pode fazer do Mundo que nos rodeia o melhor dos juízos com estes centrados no bem do homem, que ou vive com as virtudes ensinadas pela Igreja e justificadas pela Filosofia, ou se arrisca a viver de viés perante a Vida.

"Fado das andorinhas"

Canta António Menano

Passarinho da ribeira
Não sejas meu inimigo
Empresta-me as tuas asas.
Quero ir voar contigo.

Ao longe cortando o espaço
Vem um bando de andorinhas
Que te levam um abraço
E muitas saudades minhas
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O Doutor António Menano, natural de Fornos de Algodres - terra a que me prende uma das minhas velhas amizades - foi, possivelmente, depois de Augusto Hilário uma das vozes mais ouvidas e preponderantes da canção de Coimbra, como este "Passarinho da Ribeira" cuja letra de fino recorte literário e de não menos inspiração poética é das mais belas composições que se fizeram para serem cantadas aos serões ou nas reuniões académicas onde as guitarras e as vozes ganhavam maviosidades que ficaram para sempre.  
                  
Alguém me disse em tempos que já lá vão - e que não voltam mais - que aquele "passarinho da ribeira" cantado pelo famoso cantor António Menano, não era uma ave canora, mas uma letra dedicada em honra duma tricana das muitas que enchiam de beleza feminina as ruas de Coimbra - muitas delas lavadeiras das margens do rio Mondego - e que naquele eram a causa de muitas serenatas que a estudantada lhes cantava, de rua em rua, pela noites luarentas.

E deu-me esta velha gravura que guardei e aqui reproduzo em sua homenagem póstuma.

Revista "O Occidente" de 1 de Maio de 1879
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Deus sabe se o meu amigo tinha razão.

Mas estes "passarinhos" podem ou não ser os cantados há muitas dezenas de anos pelo famoso cantor de Coimbra, mas foram no tempo devido nas margens do rio Mondego - ou fora delas - sons e modos de viver que inspiraram poetas e cantores.

Ser "o da Joana"!

in, jornal "i" de 11 de Janeiro de 2018
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A propósito das declarações da Ministra da Justiça - fora de tempo, mas com propósito - sobre a não recondução no cargo que só acaba em Outubro da detentora do cargo da Procuradoria Geral da República, o Presidente da República, de acordo com a capa do jornal "i" faz lembrar a este governo que a Constituição não é "o da Joana".

Ser "o da Joana" é um dito que remonta ao século XIV e adveio do comportamento descuidado e lascivo da condessa da Provença, que veio a ser a Rainha Joana I de Nápoles a quem se imputou o propósito de querer assassinar o marido, de que resultou ter-se refugiado em  em Avignon, em França, onde aprovou um decreto que regulamentava os bordeis da cidade, aprovando e defendendo as mulheres que viviam desse negócio imoral, donde ser "o da Joana" passou a ser um sinónimo de prostíbulo.

Este é o dito mais impúdico.

O menos gravoso é quando a expressão - isto não é o da Joana -  é usada para designar um lugar desarrumado ou desalinhado ou quando as pessoas se comportam com pouca educação ou decoro, ou seja, o dito perdeu a sua conotação sexual e passou a ser, apenas, uma designação para quando se vive no meio da desordem e confusão.

Eis, assim, como ao referir-se ao caso pouco asisado de como a Ministra da Justiça se comportou numa entrevista que deu - e como António Costa tratou o caso -  que merecia do ponto de vista político outra atenção dado o acordo existente firmado em 1997 de revisão constitucional entre o PS e o PSD, que prevê a renovação do mandato da PGR, pelo que. publicamente. devia ter desautorizado a Ministra, ao Chefe do Estado não restava outra opinião que não fosse a que teve e hoje é conhecida.