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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Nossa Senhora do Cabo Espichel


NOSSA SENHORA DO CABO ESPICHEL

UMA TRADIÇÃO POPULAR QUE MERECEU A HONRA 
DO ALTAR-MOR DO SANTUÁRIO QUE LHE FOI DEDICADO EM 1707

O culto a Nossa Senhora do Cabo Espichel tem a sua origem mais antiga no ano de 1215 se atendermos à primeira das lendas que lhe deu origem, e na qual ela nos diz que uma Luz vinda do Céu iluminou o espigão do Cabo Espichel, numa noite de vendaval.

“A venerável imagem de Nossa Senhora apareceu cerca de 1215. Pertencia a um frade eremita de S. Agostinho, Hildebrando, que viajava numa embarcação mercante inglesa, que, quando se dirigia a Lisboa, foi apanhada, já noite cerrada, por tão violento temporal que nem o leme manobrava. Nesta aflitiva situação, quando todos se viam já ameaçados de se afundarem ou de se despedaçarem contra os rochedos, o frade pretendeu ir buscar a santa imagem para que, em conjunto, implorassem a divina protecção — surpresa, tinha desaparecido, com as alterosas ondas que invadiam a embarcação. Mas a sua fé naquela representação de Nossa Senhora era tão grande que, mesmo assim, incitou a que todos a evocassem de joelhos e se lhe recomendassem. Eis então que, de repente, forte luz rompeu o denso negrume da noite, como um sol, e amainaram os ventos e sossegaram as ondas. Com bonança, navegaram em direcção à luz e deitaram ferro junto à costa. Ao amanhecer, desembarcaram, curiosos de se inteirarem da origem da estranha e milagrosa claridade, e, subindo a escarpa, lá se lhes deparou, maravilhados, a precisa imagem de Nossa Senhora que havia desaparecido na véspera — fonte do luzeiro e da acção apaziguadora da intempérie. Em sinal de reconhecimento e de admiração, por entenderem que a Senhora tinha eleito aquele local, não a quiseram retirar e, nesse exacto lugar, construíram-lhe uma ermida, que Frei Hildebrando e o seu companheiro de viagem, Bartolomeu, fidalgo e também inglês, conservaram com reverente zelo”.

in, http://www.lendarium.org/narrative/n-sa-do-cabo

Aconteceu isto num tempo em que a Humanidade vivia a Baixa Idade Média ou 2º período, que abarcou os séculos XI ao XV, dirigindo a cristandade o Papa Inocêncio III (1198-1216) e assistindo-se em Portugal à expulsão do poderio muçulmano que desde o ano 711 ocupou as intenções do povo fiel à Mãe de Deus na Reconquista cristã do território, onde o culto a Nossa Senhora por nunca se ter extinguido, desde o século X, conforme  assinala João Ameal no primeiro volume do seu Livro: Fátima Altar do Mundo, o nosso território da beira-mar, entre o Douro e o Vouga, aparece com a designação especial de “Terra de Santa Maria”, que depois se ampliou a toda a terra portuguesa, porque na verdade, a Virgem dominou desde as margens do Minho aos confins do Algarve, de onde, efectivamente o poder muçulmano foi expulso no ano de 1249.

Aquela Luz vinda do Céu e que veio a dar na terra portuguesa a invocação de Senhora do Cabo à Mãe de Jesus foi um prémio com que a Virgem quis saudar a terra portuguesa, que mesmo durante o domínio a que esteve sujeita, nunca deixou de a glorificar, como aconteceu com a invocação no século XI de Santa Maria do Ocidente, em Faro, cuja cidade, consta-se, teria sido fundada na época visigótica e que, a ter em conta o relato de João Ameal, um cruzado que passou pelo Algarve, no século XII diz textualmente: Santa Maria de Faron.

Todo este fervor mariano se ficou a dever ao nosso primeiro rei, Afonso Henriques, que na tomada de Santarém aos mouros, citando,  ainda, João Ameal nos deixa o seguinte documento firmado por ele mesmo: Desejando agora ter também por advogada junto de Deus a Bem-Aventurada Virgem, coloco-me a mim, ao meu reino, ao meu povo e aos meus sucessores sob o amparo e protecção de Santa Maria de Claraval, como é sabido, uma invocação que ia em direcção a S. Bernardo de Claraval (1090-1153) monge da Ordem de Cister e fundador da Casa “Clairvaux” – Claraval - e que viria a ser a figura mais marcante da Ordem de Cister para quem aquele rei mandou construir em 1152 o Mosteiro de Alcobaça dedicado a Santa Maria.

Podendo afirmar-se que a Reconquista cristã no território português foi obra da religião e patriotismo, não tardou o trabalho da reorganização eclesiástica sob a autoridade moral e religiosa da Santa Sé em obediência ao magistério espiritual do Papa e se antes da fundação da monarquia portuguesa – conforme relata o P. Miguel de Oliveira na sua “História da Igreja” – já tinham sido definitivamente restauradas as dioceses de Braga (1070), Coimbra (1080) e Porto (1114), seguindo a leitura do historiador cristão. no reinado de D, Afonso Henriques, restauram-se as de Lamego (1147?). Viseu (1147?), Lisboa (1147) e Évora (1166); no de D. Sancho I, a egitaniense, na Guarda (1203?) e a ossonobense em Silves (1189), tendo esta sido confirmada em 1253 depois da conquista definitiva do Algarve.

Por tudo quanto se expende somos levados a concluir que a lenda que nos fala o aparecimento milagroso da Imagem da Virgem no Cabo Espichel foi um testemunho com que a Santa Imaculada quis distinguir as Terras de santa Maria e que a Luz vinda do Céu que o frade Hildebrando e toda a marinhagem da nau que se dirigia para Lisboa e se viu acossada pelo tremendo temporal pela altura do Cabo Espichel naquela noite tormentosa, foi a mesma que viu no ano de 1410 aquele habitante de Alcabideche que “desde a serra de Sintra viu um a luz intensa como uma estrela no cimo do Cabo Espichel”, como o assevera um relato deste evento secular.

Ou seja, e em conclusão, a Virgem esperou pacientemente, enquanto ia amparando no seu regaço de Mãe que o povo português lhe desse naquele Promontório desabrido uma morada condigna, o que só veio a acontecer com o início da sua construção em 1701 e foi concluída e sagrada no ano de 1707 pela Casa do Infantado criada em 1654 pelo rei D. João IV, dando-se, então, a trasladação da Imagem da Senhora da Ermida da Memória para a sua nova Casa.


A actual Ermida da Memória, elemento arquitectónico inserido no perímetro do Santuário situa-se no topo da escarpa sul da Baía dos Lagosteiros, no Cabo Espichel.


Segundo uma carta régia de 14 de Abril de 1366, de D. Pedro I, este local onde existiu a primitiva ermida de Santa Maria da Pedra Mua construida neste mesmo ano, era já um local de grande romaria popular.

sábado, 17 de novembro de 2018

"Pôr as barbas de molho"

in, Jornal "Expresso" - 1º caderno - 17 de Novembro de 2018
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Com este aviso - focando-o nas "crises internas" - Rui Rio "pôe as barbas de molho" o que no rifoneiro português quer dizer: "ficar de prevenção" ou "acautelar-se", fazendo, assim, um aviso aos apoiantes do Partido Social Democrata (PSD), e este aviso leva-me até outro rifão espanhol que diz assim: "quando você vir as barbas de seu vizinho pegar fogo, ponha as suas de molho", querendo significar que todos devemos aprender com as experiências dos outros.

O que fez até agora, Rui Rio?
Aprendeu alguma coisa com os outros?

Não senhor. 
Não aprendeu nada e se nas próximas eleições - como se prevê o PSD alcançar o pior voto popular da sua história a ele se deve por ter sido um opositor fraco ao governo que está em funções, pelo que "pôr as barbas de molho", não é apenas um aviso, é uma confissão de impotência política que tem levado um partido charneira da política nacional, fundador da democracia, a esvair-se, um mal que não deixa prever - sem mudança de timoneiro - que se possa remediar, razão mais que suficiente para que tão depressa quanto possível se mude a agulha deste comboio que vai por aí "sem eira nem beira" - ou seja - "ao Deus dará"...

Que pena eu tenho deste partido... tão partido... que, ou lhe acodem ou desaparecesse de uma vez para sempre ao perder a importância que teve na política de Portugal.

Rui Rio tem culpa?
Tem, sim senhor!

"Disciplina de voto" e ditadura


A "disciplina de voto" que o Chefe do partido impõe numa votação parlamentar aos deputados da respectiva bancada, como não raro tem acontecido em Portugal, é ou não uma ditadura em  que o mais forte deseja ser obedecido?

A resposta tem de ser SIM, porque se coarta ao deputado a sua maneira de agir violentando-lhe a consciência, donde se pode concluir que a democracia, neste caso, deixa que o Chefe do partido se comporte sem respeito pela vontade alheia dos seus correligionários com o intuito de satisfazer a sua - tendo por detrás com as "costas largas" o bem geral -  levando isto a a pensar que um voto assim "arrancado" tem  similitudes com o antigo voto "a bem  da Nação" de triste memória.

É pena que a democracia se deixe vencer, impondo a vontade de um à do grupo, quando a "disciplina de voto" faz valer o seu direito enviezado, que se não é, até parece, deixar entrever aqui algo que retira a liberdade a quem a quer exercer em obediência ao seu direito natural, o mais genuíno de todos os direitos da criatura que o senso comum assevera estar no  uso pleno das suas faculdades mentais.


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

"O mais difícil...



"Acipreste verde e triste"...



António Bersane Leite nasceu em  Lisboa em 1770 e faleceu no Rio de Janeiro alguns anos após a promulgação da Constituição brasileira, tendo-se sido no Reino de Portugal escrivão das décimas n a freguesia de Bucelas e como poeta teve alguma aura a sua colaboração n o "Almanaque das Musas" e mais, acentuadamente com a publicação em 1804 do livro "Quadras Glosadas" que é hoje uma raridade bibliófila e ele dedicou à Condessa de Oyenhauser. D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, mais conhecida pela Marquesa de Alorna.

Segundo se pensa - mas sem grande segurança histórica - teria embarcado na comitiva do rei D. João VI na sua fuga para o Brasil em 1807, levando por companhia a sua filha Maria Vicência que havia sido noiva do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage, mas segundo outra fonte, a sua ida foi posterior, num tempo em  que embarcaram para o Brasil 15 a 20 mil pessoas, porquanto, na comitiva régia teriam seguido, apenas, 500 pessoas.

António Bersane Leite é hoje, um poeta completamente esquecido, mas não deixa de continuar a ser um prazer a leitura das "Quadras Glosadas", um género poétiico que naquele tempo tinha fama e cuja aparição literária em  Portugal remonta ao "Cancioneiro Geral" de Garcia de Resende (1516), em que os chamados poetas palacianos deram uma aura muito significativa àquele género literário.

Não foi o caso, no aspecto fidalgo, de António Bersane Leite que teve, apenas, como fonte inspiradora esta escola literária do século XVI.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Ensina-me, barqueiro!


                                              ENSINA-ME, BARQUEIRO

Feliz barqueiro
Que andas à bolina
O dia inteiro...
Bela é, companheiro
A tua sina!

Ah! Barqueiro rude
Mas cheio de talento;
Vendendo saúde,
És dono de estrelas,
Do sol e do vento:
Ensina-me o modo
De eu ser como és
Assim tão sábio...
Ensina-me a ler
O teu astrolãbio
E a conhecer
Todas as marés!

Ensina-me, barqueiro...
Tenho um barquito
E até tenho um mar...
E é, por isso que em ti que fito
O meu olhar!
Quero, como tu...
- Porque a vida ensina -
Em cima do mar da vida
Andar à bolina!

"O serviço que prestamos"...



segunda-feira, 12 de novembro de 2018

"Mudam - se os tempos"...


https://www.publico.pt/2018/de 12 de Novembro de 2018
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"Conforme se toca assim se dança" - diz o rifão popular - e isto pode-se aplicar a António Costa que em  Abril de 2010 na praça de touros do Campo Pequeno condecorou o cabo José Luís Gomes dos "Forcados Amadores de Lisboa" com a Medalha de Mérito Municipal por "sensibilidade e valentia próprios" da "arte taurina" conforme relata o Público desta data, e, agora, numa carta dirigida a Manuel Alegre que o abordou em "carta aberta", discordando de um ataque latente à continuação das touradas em Portugal, lhe diz que "a tourada como manifestação pública de cultura de violência ou de desfrute do sofrimento do animal" o chocam, mas que o seu camarada de partido não veja nele um "mata-toureiros".

Mas não. 
Não se aplica neste caso o rifão popular... "conforme se toca assim se dança"...porque "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e António Costa, mudou.

É só ver o que se passa desde as eleições legislativas de 2015.

"Somos o que fazemos"...



domingo, 11 de novembro de 2018

Não há sereias


"Canto de Sereia" - Tela de Jaroslaw Kukowski
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NÃO HÁ SEREIAS

A voz que ouves ao longe
por cima das ondas do mar que inventaste
e onde o teu barco humano baloiça,
tem cuidado meu tonto marinheiro de águas paradas
e escuta bem:
É a voz do teu mar estranho que não dominas
e que julgas no teu sonho vir de lá
como se fosse a voz duma sereia
como a das velhas figuras da mitologia 
que tinham como missão com o seu canto
encantar
todos aqueles que se faziam a um mar traiçoeiro
num dia de temporal 
para ali 
num namoro endoidecido
os destroçar!

"Se o autoritarismo"...



Uma crónica assisada


Preclaro, como acontece nas suas crónicas, o escritor Miguel Sousa Tavares deixa entrever na sua prosa acutilante e cheia de sentido social o facto da assunção das diferenças de gostos marcar a baliza entre o autoritarismo e a liberdade de pensar e agir, com o seu texto: "O Suicídio da Esquerda Democrática" publicado no primeiro caderno do Jornal "Expresso" de 10 de Novembro de 2018, que é na sua análise assisada um aviso sério àquilo que está a acontecer ante os nossos olhos, em que, paulatinamente, a coberto da democracia, a imposição de gostos de satisfação pessoal - como aquele que tomou de assalto a actual ministra da Cultura fazendo-os valer para o colectivo como regra -  são um despautério, porque se escondem neles imposições radicais de uma opinião pessoal para impor uma política de tom moralista e civilizacional contra os que não pensam como a detentora da pasta da Cultura e todos fossem - onde me incluo - uns incivilizados.

Vem  tudo isto a propósito da ministra ter dito, a propósito da tauromaquia que "não é uma questão de gosto, é uma civilização", donde se pode concluir que a imposição na generalidade  de uma ditadura de gosto é descriminatória e, logo, violadora da letra da Constituição, pelo que ao não querer baixar o IVA para a tauromaquia para os 6% - admitindo-o para os outros espectáculos ao ar livre - disse "alto e bom som" que "todas as políticas públicas têm na sua base valores civilizacionais que partilhamos e as civilizações evoluem". 

Na crónica a que aludimos o escritor Miguel Sousa Tavares a este propósito, num dado passo quando desqualifica a ministra "para a pasta que acabava de tomar em mãos", acrescenta o seguinte, que transcrevemos com a devida vénia (sic): "recomendava-se à ministra que entrasse com pezinhos de lã nas suas funções. Mas não: ela, literalmente, resolveu sair à arena e entrar numa tourada para que ninguém a convocara e para a qual não estava preparada, nem política nem intelectualmente. Podia a ministra ter deixado o IVA sobre as touradas como estava, sem dar explicações; podia ter dito que as touradas são um espectáculo rico (o que não é verdade, mas talvez enganasse os tolos); podia ter dito que não são um espectáculo cultural (o que seria objecto de uma discussão sem fim); podia ter inventado muitas e variadas justificações" 

E, mais à frente com a argúcia que o caracteriza, diz mais isto:

"Mas o que não podia nunca era ter invocado o seu gosto e a sua opinião pessoal sobre as touradas para justificar uma política fiscal sobre os espectáculos — e se ela não gostar de circo ou de ballet? E,sobretudo, não podia nunca tê-lo feito num tom moralista e ‘civilizador’ sobre os que têm opiniões diferentes da sua e que arrogantemente despachou como incivilizados, bárbaros, selvagens — e que por ora castiga fiscalmente e que amanhã, em podendo, tratará como foras-da-lei e perseguirá criminalmente. Manuel Alegre tem toda a razão: são atitudes destas que fazem nascer os Bolsonaros. Mas eu vou ainda mais além: não vejo diferença alguma entre atitudes destas — só porque, alegadamente,vêm de uma esquerda urbana e auto declarada civilizada — e as atitudes de um Bolsonaro. Em ambas existe a mesma fé na missão de educar o povo, de lhe impor uma ditadura de comportamento e de gostos e de lhe impingir as novas ‘verdades’, sejam as das redes sociais, sejam as do politicamente correcto — que mais não são do que expressões de um terrorismo ideológico, que dispensa as pessoas de pensar por si próprias".

Atenção, pois.


Não é admissível que o Partido Socialista - de génese fundacional livre e respeitador dos gostos de todos os portugueses - para agradar aos seus parceiros da esquerda totalitária, mormente o BE e o PAN, cujos votos lhe podem fazer falta numa futura eleição, entre por esta deriva de querer impor o gosto de um qualquer dos seus ministros ao colectivo da Nação, que é lá que se têm de arranjar as amas para os combates contra os extremismos por demais emergentes, na actualidade, pelo que neste ponto sirvo-me de novo da prosa viva, sentida e muito firme da parte final da brilhante crónica de Miguel Sousa Tavares, quanto à defesa que é preciso fazer e é tarefa de todos nós:

O nosso Partido Socialista pode pensar que nada disto o deve preocupar. Que a classe média está encantada com os indicadores económicos da conjuntura, com as Web Summits, os ALD, o crédito barato e tantas outras ilusões que no passado nos saíram tão caras. Pois, talvez sim e talvez não. E se estiver apenas adormecida e um dia acordar virada para a direita? E a única direita que houver para a acolher for a que por aí abre caminho?    

sábado, 10 de novembro de 2018

"Aprende a ler"...



Diz, sensatamente, o "Autor Desconhecido: 
"APRENDE A LER NAS SOMBRAS DA TUA VOZ" 

E este conselho deixou-me a pensar naqueles momentos em que é preciso esconder em tudo aquilo dizemos os sons mais ásperos provindos da parte emocional, por vezes incontrolável, do ser imperfeito que somos e onde afloram no mais aceso de uma discussão palavras de que depois nos arrependemos.

Pelo que, é necessário que aprendamos "a ler nas sombras da nossa voz", porque é aí que devem ficar acobertadas - numa defesa sensata - as palavras que não merecem fruir do sol da temperança, porque é sempre quando perdemos esse dom que surgem as lutas estéreis e o desforço do outro que se sentiu ofendido pelas palavras menos próprias que feriram a sua sensibilidade..

Os meus parabéns a este "Autor Desconhecido"!

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

"Sobre as Ondas" - Um poema de Mário Barreto França



A cena bíblica é amplamente conhecida, tendo como "pano de fundo" o Mar da Galileia.

Relata-a o Evangelista S. Marcos (4, 35-41), deste modo: À tarde daquele dia, disse-lhes: “Passemos para o outro lado”.Deixando o povo, levaram-no consigo na barca, assim como ele estava. Outras embarcações o escoltavam. Nisso, surgiu uma grande tormenta e lançava as ondas dentro da barca, de modo que ela já se enchia de água. Jesus achava-se na popa, dormindo sobre um travesseiro. Eles acordaram-no e disseram-lhe: “Mestre, não te importa que pereçamos?”. E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: “Silêncio! Cala-te!”. E cessou o vento e seguiu-se grande bonança. Ele disse-lhes: “Como sois medrosos! Ainda não tendes fé?”.Eles ficaram penetrados de grande temor e cochichavam entre si: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”. 

Retoma esta cena Mário Barreto França, o poeta brasileiro do Recife que a par das suas funções docentes de professor e de militar de alta patente, conseguiu produzir uma vasta obra literária com acentuado pendor para a poesia de que este soneto é um exemplo do seu acrisolado amor à figura excelsa e única de Jesus Cristo, fazendo-nos lembrar a acalmia da tempestade operada  pelo Mestre. que tendo deixado as margens seguia embarcado naquela barca de pesca, quando surgiu a tempestade.

A cena - é, apenas - uma imagem que nos deve animar e servir para nos mantermos sempre à tona de água, porque como diz o Poeta "Inda hoje o mar do mundo se encapela" e pode até acontecer como ele diz, que o nosso barco da vida, quantas vezes segue "sem vela", restando-nos, apenas, a figura de Jesus para acalmar as nossas tempestades e é, por isso, que a fé - como a esperança - não pode deixar de viver dentro do coração de cada criatura.

"Quando"...



Eu gostava...


Eu gostava de continuar a ser livre e responsável com as minhas atitudes de poder continuar a ver os espectáculos com os quais me identifico, mesmo com as touradas que são um valor da nossa identidade nacional se as medirmos pela ancestralidade que elas têm na historicidade do nosso povo, que valha a verdade, não confunde todos os que gostam do espectáculo taurino com os velhos "marialvas" de vida ociosa e dissoluta provindos de um certo escol de famílias que já nem sequer existem.

Eu nunca fui desses... e jamais o serei.

Mas gosto de touradas e do espectáculo que lhes dá vida, cor, alegria e um certo modo de ter no presente os ecos de um passado, na certeza que tenho que um povo que abjura o seu passado histórico, incluindo o das touradas, apressa-se a amortalhar a sua identidade nacional.

Eu gostava de continuar a sr livre e responsável!

Gostava de continuar a poder escolher os meus espectáculos favoritos e, por isso, não posso admitir que um partido político como o Partido Socialista que sempre foi um partido livre, agora amarrado para sobreviver politicamente com partidos que não defendem a sua génese, me queira cortar, um dia, a minha liberdade de escolha, pondo em causa o espectáculo da tourada.

Não!

Que o Partido Socialista volte a ser o que era, ou seja, defensor de todas as minhas liberdades conforme as define a Constituição da República Portuguesa, mormente as alíneas "d" e "c" do artigo 9º que me permito sublinhar:

d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efetivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais;

e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um correto ordenamento do território;

O meu sublinhado assenta no seguinte:

Alínea "d" - Se o Estado me retira o dever da minha igualdade real entre os portugueses, ao querer proibir as touradas está a entrar dentro de um domínio que só a mim me compete admitir ou recusar, ao igualar-me - à força - aos que querem proibir as touradas.

Alínea "e" - O sublinhado diz tudo, porquanto o espectáculo da tourada faz parte do património cultural do povo português, se atendermos que em muitas cidades do território nacional existem "Praças de Touros" integralmente dedicadas àquele espectáculo taurino.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

"Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe"

https://www.publico.pt/2016
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Quando em Junho de 2016 o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o Primeiro Ministro, António Costa, viveram durante três dias em França uma cooperação perfeita de que a cena do -"guarda - chuva para dois" é emblemática - num dado momento, ao falar para o povo português emigrado num recinto a céu aberto da região de Créteil, nas redondezas de Paris, o Presidente da República - sem se afastar da chuva que caía - depois de ter dito: “Somos grandes, os portugueses, porque nos fizemos sempre contra o vento e contra a chuva – e eu vou manter-me aqui à chuva para verem que o Presidente está convosco”, num ímpeto,  António Costa aproxima-se para o proteger com um grande guarda-chuva e ao receber o sorriso deste, remata: “Reparem que quem tem o guarda-chuva é o primeiro-ministro de esquerda. E quem é apoiado [é] o Presidente que veio da direita”.

E continuou: “Portugal agora tem prioridades e estas exigem uma grande estabilidade e uma grande convergência dos órgãos de soberania. Em relação à Europa, temos de estar juntos para estarmos mais fortes. (...) E depois há diversidades: “Eu vou à missa e o primeiro-ministro não”, tendo António Costa afinado pelo mesmo tom: “Nós temos de nos habituar a que os órgãos de soberania tenham uma saudável cooperação e trabalhem em conjunto, em vez de criarem problemas uns aos outros”, rematando assim: “a relação com o Presidente da República é objectivamente muito saudável, muito sólida”, para num ar de muito acerto sobre a questão religiosa, dizer que as relações institucionais “têm de superar essa relação pessoal
                                          
  Fonte do itálico . Jornal Público daquela data

Foi bonito de ver.

E se, no momento, por causa do assunto do roubo das arma de Tancos parece não haver motivo para reeditar a cena do  "guarda.chuva para dois ", fazendo valer o bem conhecido provérbio português: "Não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe", bom seria que estes dois homens de costas voltadas - um gesto mais nítido no Presidente da Republica - tenham viva a primeira parte do provérbio, tendo em conta que o mal que envolveu o Presidente numa teia estranha, não pode nem deve durar muito.

Mas, se vier a acontecer  - e o mal perdurar - que o Presidente da República provoque a queda do Governo por ter desvalorizado o assunto de Tancos, como se o roubo e tudo quanto se lhe seguiu tivesse sido um acto de pouca importância, porque não foi.

E, portanto, porque não há "bem que se não acabe", se já não pode haver "um guarda.chuva para  dois" que cada um se defenda da chuva que vier, pois todos sabemos que é do "temporal que vem sempre a bonança".
Paz podre é que não vale!

"Casa é"...



domingo, 4 de novembro de 2018

Até onde chegou a teia!


O roubo das armas de Tancos é uma vergonha nacional e cai, directamente em cima deste Governo que o tentou desvalorizar, como se esta facto não fosse dos mais graves que algum dia aconteceu em Portugal, sendo - para agravar a questão - o País um membro da NATO como um dos membros fundadores da Aliança Atlântica no ano de 1949, donde resulta que um País que é parte de tão importante Organismo internacional tem acrescentados deveres a cumprir, sendo um deles, como o mais primário a salvaguarda das armas militares.

Eis, porque, um Governo que se comportou como o actual não merece estar no poder.

E como se já não fosse pouca a sua falta de sentido de Estado o que se passou, recentemente, com uma possível alusão - que as sombras teceram - de envolver o Presidente da República neste facto lamentável, no Funchal onde estava de visita de Estado, reagiu a uma informação avançada pela RTP de que a Presidência da República tinha conhecimento do "encobrimento" e que teria havido contactos entre Belém e a Polícia Judiciária Militar, donde surgiu a sua reacção pronta: 

"Se pensam que me calam não me calam" 

E ao alertar para o aparecimento de uma "nebulosa" que tem como fim de não esclarecer o caso grave de Tancos, afirmou claramente:  “Estranho que quem me queira atribuir o que quer que seja o tenha feito sem me ouvir previamente. É o mínimo para qualquer  cidadão” para depois deixar mais clara a sua ideia:  “Nunca falei com o director da Polícia Judiciária Militar”.

É demais!
Até onde chegou a teia!

"É necessário"...



sábado, 3 de novembro de 2018

Só Deus...


 

Só Deus tem o poder soberano de salvar o homem que perdeu o norte do sentido da vida e para onde devem caminhar os seus passos, ao inspirar esta Verdade a Jesus que num certo dia em resposta aos fariseus e saduceus que o provocavam à frente dos seus discípulos, virando-se para eles, disse-lhes: "Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome a sua crus e siga-me" (Mateus 16, 24.

Esta assunção da renúncia a "si mesmo" que Jesus pediu, muito longe de querer tirar ao homem a sua personalidade, coisificando-o, era um modo de inculcar nele a sua responsabilidade moral, tornando-o uma  pessoa capaz de por sua livre vontade abandonar erros passados e tomar para si mesmo um novo sentido de vida, seguindo-O, ou seja, tomando como um fanal a moral e a honra de viver.

E é com o pensamento na cidade de Jerusalém onde pontificavam os tais fariseus e saduceus - duas hordas que enchiam os outros de Palavras de Deus sem eles as cumprissem - que Jesus voltando à carga havia de dizer num outro tempo: "Jerusalém, Jerusalém” que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes". (Lucas 13, 37)

Num e noutro passo o que encontramos são palavras que Jesus semeou , sabendo de antemão quão difícil era o terreno da sementeira, sem contudo, ter deixado de o fazer num convite ao querer do homem que tem dois ângulos a atender: o que procede da natureza e o outro que deriva da sua decisão, ou seja, o querer que todo o homem tem no seu coração como um fruto a precisar de ser sazonado e o querer que despoleta do fruto amadurecido e leva o homem a tomar uma decisão quanto ao usufruto que deve fazer para tirar um melhor proveito da sua vida.

Fica assim de pé, esta certeza: é ao homem que cabe a última palavra.

Todas as outras que ele possa ler e meditar dos Evangelhos ou de ouvir de amigos seus interessados no modo como Jesus se apresentava e em nome de Deus, salvar o homem ao tirá-lo dos seus erros, são, apenas, pistas e não imposições. porque na sua ampla liberdade humana, Deus não interfere, mas é bom que todos saibamos que só Deus é que tem o poder soberano de salvar o homem, se este assim o entender.

Na segunda "só cai quem quer"

O pequeno texto é uma captura do parágrafo inicial de um artigo do "Expresso" 
 inserto na página nº 16 de 3 de Novembro de 2018
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Santana Lopes diz o óbvio: "Costa não pode fazer a mesma fita que fez em 2015" ou seja, como se diz nas palavras finais acima apresentadas: "(...) que se candidate sem esclarecer que acordos está disposto a fazer para garantir a permanência no poder" , porquanto, em 2015, para garantir o poder que não ganhara em eleições, no dizer de Santana Lopes - e no meu apagado dizer, mas cheio de razão - "Costa não pode fazer a mesma fita que fez em 2015!" - ou seja, sem dizer antes das eleições quem eram os seus eventuais companheiros para se alcandorar à cadeira do poder, aliou-se com O PCP + Verdes+BE para de derrotado se tornar "vencedor".

Sim. Essa "fita" não se pode repetir.

Numa, como diz o povo, que foi apanhado desprevenido "qualquer cai, mas na segunda só cai quem quer"

A vida não é curta"...


Se Portugal fosse...


in, Jornal Económico - in, https://www.sapo.pt/ de 3 de Novembro de 2018
 
in, Jornal Público de 3 de Novembro de 2018
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Velho português que sou - e vivendo uma hora de desencanto pelo caminho que a "Res pública" tomou, vivendo este mesmo desencanto pela figura do Senhor Presidente da República - ao ver, ontem, na Televisão a sua justificação de nada saber sobre o roubo das "armas de Tancos", agindo, assim, a notícias postas a correr da Presidência da República ter sabido deste acto, tive pena de ver o "mais alto magistrado da Nação" e por inerência do seu cargo o "Comandante Supremo das Forças Armadas" a negar, justificando-se, com ar compungido, como se fosse - que Sua Excelência me perdõe - um infantil que tivesse sido apanhado em falta

Tive pena, confesso.

 E ao ler, hoje, o que diz o jornal Público na sua 1ª página: "Se pensam que me calam, não me calam" dei comigo a pensar que algo vai muito mal na "Res pública" porque quem assim fala deixa subentender que terão havido forças perversas que - estando o poder civil sediado no Governo e o militar envolvidos numa trama a que a Justiça tenta desatar os nós - quiseram envolver o Chefe do Estado.

Sou de opinião que o Chefe do Estado tem culpa. Não no facto em si mesmo - que era só o que faltava! - mas no facto palpável das Instituições não estarem a cumprir perante o povo as suas missões de soberania, e se Portugal fosse um País de direitos e deveres a cumprir, a começar pelos mais responsáveis, este Governo já devia ter sido demitido, pelo que o adir constante ao Chefe do Estado da verdade sobre o "roubo de Tancos" passou a ser uma afronta.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

"Tantas coisas"...



Faz hoje 263 anos.


Faz hoje 263 anos que eclodiu em  Lisboa, pela manhã, o terrível terramoto e maremoto de 1755 que arrasou a cidade tendo deixado atrás de si, milhares de vítimas, pelo que ao lembrar esta data, dos muitos escritos que sobre ela existem, veio-me à lembrança um vulto da história industrial e comercial daquele tempo - Jácome Ratton -  que teve de fugir do Convento do Carmo onde assistia à Missa de Todos-os-Santos.


Das memórias que nos deixou compiladas em Livro, está a que se segue no cap. 13, sob o título: 

Época e sucessos respectivos ao Terramoto de 1755.

Entre os acontecimentos extraordinários da minha vida não devo omitir a meus filhos o que passei na ocasião do memorável terramoto de Lisboa, que teve lugar no dia 1º de Novembro de 1755, pelas nove horas e meia da manha; e como fosse dia de Todos os Santos, tinha eu sido á Missa á Igreja do Carmo, cujo tecto era de abobada de pedra, e derrubado matou muito povo que ali se achava, de cujo perigo escapei por ter sido mais cedo, e me achar na dita hora nas águas furtadas. Das minhas casas, mostrando a hum comprador numa partida de papel, que nos tinha vindo avariado, e ali se tinha posto a enxugar.

Ao sentir o primeiro abalo me ocorrerão muitas reflexões tendentes a salvar a minha vida, e não ficar sepultado debaixo das ruínas da própria casa, ou das vizinhas, se descendo as escadas fugisse para a rua; mas tomei o partido de subir ao telhado, nas vistas de que abatendo a casa eu ficasse sempre superior às ruínas.

Já quando eu tomei este expediente era tanta a poeira, que, á maneira do mais denso nevoeiro, impedia a vista, a duas braças de distância; só passados alguns minutos, que a dita poeira se foi dissipando, e que eu pude ver o interior das casas vizinhais, por terem caído as paredes fronteiras, até aos primeiros andares, ficando os telhados apenas sustidos pelas paredes divisórias.

Seus habitantes, alguns ainda em camisa, correndo espavoridos de numa a outra parte imprecavam os auxílios do Céu, e dos homens em seu socorro. À vista desta horrível cena, me resolvi descer as escadas, e fugir para a rua, a fim de buscar alguma parte aonde me julgasse mais seguro.

Ao descer as escadas encontrei meus Pais, que aflitos me buscavam nas ruínas de um grande pano da chaminé que tinha caído, e debaixo do qual me julgavam sepultado. Foi inexplicável o nosso contentamento quando nos encontramos; mas eu sem perder tempo lhes pedi que me acompanhassem para o largo mais próximo, que era ao fundo da rua do Alecrim; e encontrando de passagem D. Maria Castre, nossa vizinha, pouco mais ou menos da minha idade, que também fugia, a tomei pelo braço, e seguimos a rua dos Remulares por cima de entulhos, e muitos corpos mortos, até á beira-mar, aonde nos julgávamos mais seguros.

Mas pouco depois de ali ter-mos chegado, assim como muita gente, se gritou que o mar vinha saindo furiosamente dos seus limites: facto que presenciámos, e que redobrou o nosso pavor, obrigando-nos a retroceder pelo mesmo caminho, e a procurar, pela rua de S. Roque, o alto da Cotovia, então obras do Conde da Tarouca, depois Patriarcal, e hoje Erário novo, aonde também vieram ter, por diversos caminhos, meus Pais, e os parentes da dita Senhora, todos na maior inquietação por não saberem hunos dos outros, como acontece a imenso povo, que procurou aquele sitio descampado, então terras de pão, desde o alto da rua de S. Bento até a travessa de Cárdeas de Jesus, havendo apenas algumas casas na rua que vai desde o Pátio do Tijolo, ou obras do Conde de Soure, até a fábrica da seda, que já existia, assim como também a casa de D. Rodrigo, actualmente Imprensa Regia, e o Convento dos Jesuítas, hoje Colégio dos Nobres.

O descampado daquele alto dava lugar a descobrir-se a cidade por todos os lados, a qual, logo que foi noite, apresentou á vista o mais horrível espectáculo das chamas que a devorava cujo clarão alumiava, como se fosse dia, não só a mesma cidade, mas todos os seus contornos, não se ouvindo senão choros, lamentações, e choros entoando o Bem-dito, Ladainhas, e Miserere.

Por fortuna o céu se conservava claro e sereno, e o terreno enxuto; por não ter até então havido chuvas, nem as haver por oito dias mais, o que doe ocasião a fazer cada hum os arranjos, que lhe permitia as circunstâncias.

Na madrugada do seguinte dia me convidou meu Pai para o acompanhar às nossas casas, e ver se delas podíamos salvar alguma cousa, principalmente o precioso, livros, e papéis de maior importância. Não foi sem bastante trabalho, que nos saímos bem desta empresa; por quanto descendo pela rua de S. Bento, ainda com poucas casas, atravessamos do poço dos Negros para o poço novo, tomamos a calçada do Combro, e rua do Loreto, para descermos ao fundo da rua do Alecrim, de cujo lugar avistamos já em chamas a propriedade Pegada com a nossa casa, restando-nos apenas tempo para tirar os artigos acima ditos, que metemos em hum baú, que meu Pai por numa banda, o eu por outra trouxemos, por entre chamas em que ardia as ruas do Alecrim, S. Roque, e S. Pedro d'Alcântara, até o alto da Cotovia, aonde minha Mãe nos esperava.

Dali nos partimos com o baú numa besta de carga, que por fortuna aparece, e nos dirigimos a numa quinta de pessoa de nossa amizade, sita na estrada do Lumiar, adiante do Campo Grande, aonde fomos bem recebidos, e alojados no jardim, debaixo de numa barraca feita de lenções, e alastrada de colchões, sobre os quase dormia promiscuamente, e sem se despir, tanto a gente de casa, como a de fora; porque ninguém se animava a dormir debaixo de telha.

Os hóspedes era muitos, e o pouco, comer porque todos tinha receio de se demorar na cozinha, que havia pago em comum era mal feito; e houve tanta escassez de pão, que meu Pai, e eu fomos com numa besta de Ceira buscar numa carga a Linha – a - Pastora nas vizinhanças de Barcarena.  
Naquela quinta nos demoramos somente os dias necessários, para nos refazer do vestuário indispensável, principalmente roupa branca; visto que não foi possível a cada um salvar, mais do que aquela que tinha no corpo.


Jácome Ratton (nascido Jacques Ratton, em Monestier de Briançon, atual Le Monêtier-les-Bains), 7 de Julho de 1736 - Lisboa, c. 1821-1822) foi um industrial e comerciante luso-francês do século XVIII e início do século XIX. Deputado do tribunal supremo da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação; fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da ordem de Cristo. Sendo francês de nascimento, tornou-se português por naturalização.

Os seus pais vieram para Portugal, onde já tinham familiares (Jacome Bellon,um tio seu mantinha actividade mercantil no Porto) e Jácome Ratton segui-os, chegando a Lisboa em 7 de Maio de 1747, onde continuou a sua educação, sempre orientada no sentido do comércio. Em 1758 casou com Ana Isabel Clamouse, filha do cônsul francês no Porto, Bernard Clamouse. Em 1762, durante a Guerra dos Sete Anos, naturalizou-se português.

No quadro das políticas de fomento industrial pombalino, em 1764 projectou uma fábrica de tinturaria, outra de chitas, outra de papel e ainda de chapelaria, em Elvas e Lisboa; ao mesmo tempo investia na exploração das salinas de Alcochete e à plantação de árvores exóticas em Portugal (foi ele o responsável pela introdução do Eucalipto e da Araucária em Portugal).

O seu Palácio em Lisboa (Palácio Ratton), é hoje em dia a sede do Tribunal Constitucional.

Fonte: Wikipédia, a Enciclopédia livre