Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"Oração ao Pão" - Um Poema de Guerra Junqueiro

in, "Obras de Guerra Junqueiro" (Lello & Irmão) 1972
..............................................................................................................

Como afirma João Grave - o Poeta truculento, adversário da doutrina da Igreja, mas um cultor da Verdade que sempre procurou - num certo dia de uma tarde luminosa de Verão, correspondendo a um convite de Guerra Junqueiro, visitou-o na sua casa da Rua de Santa Catarina, no Porto, e num dado ponto do Prefácio que escreveu para o livro "O Caminho do Céu" que faz parte do livro " Obras de Guerra Junqueiro" afirma que o grande Poeta, arrependido de ter escrito, tal como o fez o seu livro mordaz "A Velhice do Padre Eterno", se terá retratado psicológica e espiritualmente no "Peregrino" de "O Caminho do Céu", um dos seus livros que faz parte da colectânea editada em 1972.

João Grave, no estudo que fez e ao dizer que sofreu uma dolorosa e alarmante impressão, ao ver o Poeta e ao sentir a sua fraqueza em que o seu organismo se ia consumindo, deu-nos, possivelmente, o retrato mais fiel daquela grandeza que se apagava, e que o teria levado a retirar-se para as propriedades que tinha no Douro, onde começou a viragem da sua orientação poética, ao debruçar-se para as coisas da terra e das almas simples, de que a "Oração ao Pão" ao trilhar caminhos metafísicos, é uma antítese do homem anticlerical que lhe granjeara a fama e o escândalo, pelo estilo arrebatado, vibrante e panfletário que havia sido.


Oração ao Pão


 Num grão de trigo habita
 Alma infinita.

 Alma latente, incerta, obscura,
 Mas que geme, que ri, que sonha, que murmura...

 Quando a seara é ceifada, acaso o grão
 Terá dor? Por que não?!

 Um grão de trigo,
 Mil anos morto num jazigo,

 Deem-lhe terra e luz,
 E ei-lo, germina e cresce e floresce e produz.

 Vede lá, vede lá,
 Quanto no eirado o trigo sofrerá!

 Pelo malho batido num terreiro,
 Um dia inteiro!
 E um dia inteiro, sem piedade,
 Coitadinho! rodado pela grade!

 Depois a tulha celular,
 A escuridão sem ar!

 Depois, depois, ó negra sorte!
 Entre rochedos triturado até à morte!

 Ó pedras dos moinhos, mal sabeis
 O que fazeis!

 Quantos milhões de crimes por minuto,
 Pedras de coração ferrenho e bruto!

 E as águas da levada vão cantando,
 Enquanto as pedras duras vão matando!

 E a moleirinha alegre também canta,
 E ri a água, e ri o sol, e ri a planta!...

 Enfarinhada, branca moleirinha,
 É pó de cemitério essa farinha!...
Loiro trigo inocente.
Cuja morte horrorosa ninguém sente !

E é por isso que ao fim do teu martírio
És cor de lua, és cor de neve, és cor de lírio.

Bendito sejas!

Simples por nós viveste,
Puro por nós sofreste,
Mártir por nós morreste!

Bendito sejas I

Perdeste a vida p'ra nos dar vida,
Foste a imolar p'ra nos salvar;

Bendito sejas !

Bendito sejas,
Trigo morto, cadáver fecundante,
Ressuscitando em nós a cada instante!

Bendito sejas,
Bendito sejas,
Bendito sejas,
Trigo! corpo de Deus, — Pureza e Dor
Nossa vitima e nosso redentor.


*

Com quantos grãos de trigo um pão se fez?
Dez mil talvez?

Dez mil almas, dez mil calvários e agonias,
Todos os dias.

Para insuflar alentos n'alma impura
D'uma só criatura !

Homem, levanta a Deus o coração,
Ao ver o pão.

Ei-lo em cima da mesa do teu lar;
Olha a mesa: um altar!

Ei-lo, o vigor dos braços teus,
O pão de Deus !

Ei-lo, o sangue e a alegria
Que teu peito robora e teu craneo alumia!

Ei-lo, a fraternidade,
Ei-lo, a piedade,
Ei-lo, a humildade,

Ei-lo a concórdia, a bem-aventurança,
A paz em Deus, tranquila e mansa !

Comer é comungar. Ajoelha, orando,
Em frente d'esse pão, ou duro ou brando.

Antes que o mordas, tigre carniceiro,
Ergue-o na luz, beija-o primeiro !

Depois devora! O pão é corpo e alma
Em corpo e alma
O comerás.
Tigre voraz!

São dez mil almas, brancas, cor de lua,
Transmigrando divinas para a tua!


*

Sepultura do pão! boca de humanidade!
Sob o infinito azul da imensidade
Prega a Verdade!

Boca harmoniosa, augusta voz da natureza.
Canta a Beleza !

Boca divina, boca em flor,
Verte o perdão, sorri à Dor, unge-a d'Amorí

Beleza, Amor, Verdade,
Eis a Trindade!

Três Deuses, juntos afinal
N'um só Deus imortal.


*

A humanidade é seara imensa em chão de areia,
Que Deus recolhe e Deus semeia.

E cada homem, quer o rei, quer o mendigo,
É na seara de Deus um grão de trigo.

E a toda a hora, a todo o instante, há milhões d'anos,
Searas sem fim de espíritos humanos

Brotam, florescem, crescem, são cortadas,
E entre as mós do destino trituradas.

E eis a farinha ideal, o frumento de dor,
Que alimenta a Verdade, a Beleza, o Amor!

De maneira que vós, homens pigmeus,
Na terra sois o pão de Deus!

A vossa alma é a claridade
Que ilumina a Verdade.

É a hóstia de luz, no mundo acesa
Pela Beleza.

É o nectario da roxa e dolorida flor,
D'onde goteja o mel do Amor.

Homem!

Pela Verdade, intrépido e sereno,
Emborca a taça do veneno!

Pela Verdade inteira.
Dá teu corpo ao baraço, ao cutelo e à fogueira!

Pela Verdade, sem pezar,
Teus filhos deixarás e deixarás teu lar!

Homem !
Pela Beleza sacrossanta,
Adora e canta !

Pela Beleza, musica de Deus,
Une-te a Deus !

Pela Beleza ideal, ideal eucaristia,
Faz do universo Espírito e Harmonia !

Homem !

Dá pelo Amor ao triste e ao desvalido
Teu coração, teu pão e teu vestido!

Pelo Amor, com teus lábios virginais
Beija lepras e cancros d'hospitais!

Pelo Amor, pelo Amor, como Jesus,
Sorri à Dor pregado n'uma cruz !

Beleza, Amor, Verdade,
Eis a Trindade,
Eis o teu Deus.

Homem!

Vive por Deus !
Sofre por Deus !
Morre por Deus !

E bendito serás na eterna paz.
Porque ao fechar os olhos teus,
Trigo de Deus, absorto em Deus descansarás


*

Oremus:

Trigo d'Abril, riso e verdura,
Dá-nos a candura !

Trigo d'Agosto, oiro que alumia,
Dá-nos a alegria!

Trigo da foice, trigo da grade,
Dá-nos a humildade!

Trigo da azenha, poeira de lírio,
Dá-nos o martirio!

Trigo do trigo, trigo da mesa,
Dá-nos o amor e a dor, a paz e a fortaleza !

Trigo, dá-nos a candura!
Dá-nos a alegria !
Dá-nos a humildade!
Dá-nos o martírio!
Dá-nos o amor e a dor, a paz e a fortaleza !

Dá-nos ao corpo tudo isto,
Dá-nos á alma tudo isto,
E faremos de nós o pão de Cristo,
O pão de Deus, o pão do Bem,
O pão da Eterna Gloria, o pão dos pães, amen

1893.
........................................................................................................

Quando me interrogo porque razão tendo Guerra Junqueiro escrito este Poema em 1893 - contava então 43 anos de idade - num tempo em que a sua luta andava acesa com o clero, e a sua publicação só ocorreu em 1902, sinto nisto um sinal que o Poeta naquele tempo já tinha abandonado os temas revolucionários, sucedendo-lhe as temáticas metafísicas de cariz panteísta de crença num Deus abrangente e imanente, uma prova evidente do caminho espiritual de Guerra Junqueiro e do encontro com a Verdade que ele desejou encontrar.

É, por isso, que eu me curvo perante a sua memória!

domingo, 4 de dezembro de 2016

"Canção de Outono" - Um poema de Cecília Meireles

Cada uma destas folhas secas do Outono,  no poema de Cecilia Meireles 
simboliza uma pessoa, a folha seca que é preciso levantar do chão.

É no primeiro verso deste poema de Cecília Meireles, quando a poetisa diz: Perdoa-me, folhe seca que eu encontro toda a beleza da "Canção de Outono" porque me deixa a pensar que todos nós viemos para cuidar de tudo o que nos foi entregue - até da folha seca que é uma imagem criada pela poetisa e que pisamos no Outono da sua vida - e nos esquecemos que aquilo que está seco é por culpa nossa, pois todos viemos para amar neste mundo e nos esquecemos dessa condição natural.

Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...

Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles , Poesia completa:
Volume 2.


Obrigado Cecília Meireles!

Grato pela "Canção de Outono", porque quantas vezes eu choro pelo que não fiz e podia ter feito, como ajudar a levantar do chão a folha seca, que mais não é que uma imagem dos homens e mulheres - folhas secas - que podíamos e devíamos ter levantado dos Outonos em que, quantas vezes, por nossa culpa, são pisadas pelas nossas desatenções e das que a sociedade se encarrega de fazer?

Obrigado Cecília Meireles!

Que a sua "Canção de Outono" - escrita num tempo em que viveu entre nós - seja um motivo que nos leve a não pisar as folhas secas dos nossos companheiros e companheiras de jornada e, tenhamos a força de as levantar dos Outonos em que caíram as suas vidas.

"Só enfia o barrete o barrete quem quer".


http://24.sapo.pt/de 4 de Dezembro de 2016
.................................................................................................

João Oliveira - o líder parlamentar do PCP - disse no decorrer do XX Congresso do PCP, hoje encerrado, que o PCP "não é força de suporte do Governo"... mas, então, o que é?
Não foi com o PS que foi estabelecido um acordo que se mantém activo e garantiu o acesso ao poder  do Governo de António Costa?

Ou será que António Costa teria formado Governo sem ter o apoio do PCP?
Claro que no dizer do povo - de que o PCP enche a boca - "só enfia o barrete quem quer".

Com esta política de enganos, Portugal ou arrepia caminho e encontra gente adulta, politicamente falando, ou arrisca-se a perder o caminho.
Tenho esperança que não o vamos perder e aquilo que estamos a viver foi um percalço que aconteceu nesse tal caminho que urge retomar logo que possível, porque este por onde vamos é, simplesmente, um atalho que teve de ser talhado à medida certa de um fato que foi preciso vestir por quem a todo o custo quis ser Primeiro-Ministro... tendo perdido as eleições!

E como é evidente, o PCP faz parte do "arranjinho"...
Eis, porque, "só enfia o barrete quem quer".
É assim que fala o povo... e o povo tem sempre razão!

Qual foi a mais bela flor...


Pregões... que já não há!

Gomes Leal 
(caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro)


in, Revista "ARGUS" de Maio de 1907
........................................................................

Que saudades eu tenho dos velhos pregões que enchiam, na minha juventude, as ruas de Lisboa!

Oh! viva da costa.
Olha a sardinha, que é vivinha da costa.
Ó freguesa leve-as todas. É fresquinha a minha sardinha.
Fava rica, que quer almoçar.
Quer figos quem quer almoçar?
Olha o figo da capa- rôta.
Olha a laranja é da baía.
Olha o feijão carrapato, há alface, há repolho.
Oh freguesa veja os meus tomates .
Olha a boa couve lombarda, é para o bacalhau.
Olha o alho reconchudo.
Olha o gelado, fruta oh chocolate, há baunilha .
Olha o rajá fresquinho.
Olha o cone sorvete
Cá está o amolador, concerto guarda chuvas.
Tachos panelas e alguidares, olha o funileiro á porta.
Está cá o ferro velho .
Quem tem trapos, ou garrafas p'ra vender.
Olha o Século, olha o Diário de Noticias .
Olha a Capital, Republica ó Popular.
Diário de Lisboa, olha o Popular, trás o desastre.
Olha a sorte grande, amanhã anda a roda.
Só sai a quem joga, olha a sorte grande.
Cá está o petrolino.

E não me recordo de outros mais, mas ficam estes para matar a minha saudade e homenagear o Poeta Gomes Leal, que de um modo literário como ele soube fazer, até viu e sentiu que as musas, essas entidades mitológicas, para além da capacidade de poderem inspirar a arte, apregoavam uvas e maçãs!

O que pode fazer a imaginação humana!

Grão de incenso - Um Poema de Augusto Gil



Sempre que leio Augusto Gil, é nele que encontro como em nenhum outro Poeta português a arte buriladora do verso, tratado como se fosse o resultado final de uma obra de arte que o cinzel mais hábil do escultor houvesse trabalhado.

Neste GRÃO DE INCENSO acontece isso precisamente esculpido nas duas figuras ajoelhadas em que, se sente vibrar em silêncio - a Igreja é um lugar de silêncio - o ar piedoso das duas personagens em que, uma delas, apaixonadamente, dirige calado mas a falar bem alto dentro de si, uma oração sentida - que aos anjos também se reza... - para no fim, num desabafo de alma - compreensível - ao ver na mulher requestada tanta reza, que foi até - manhã dentro, manhã alta - naturalmente, desiludido, faz a si mesmo a pergunta - também compreensível - se tendo sentido nela tanta fé, apesar disso, lhe faltou a caridade de sentir que ao lado, ajoelhado como ela, estava uma alma que pedia o amor daquele "anjo"?

Poesia de um lirismo simples, lúdico e profundamente bela é este GRÃO DE INCENSO, denunciador da alma - também simples - de um grande Poeta português que bem merece não ser esquecido.

II Domingo do Advento - Ano "A" - 4 de Dezembro de 2016


EPÍSTOLA DE S. PAULO AOS ROMANOS

E a verdade é que tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e pela consolação que nos dão as Escrituras, tenhamos esperança. Que o Deus da paciência e da consolação vos conceda toda a união nos mesmos sentimentos, uns com os outros, segundo a vontade de Cristo Jesus, para que, numa só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Unidos no mesmo louvor - Por conseguinte, acolhei-vos uns aos outros, na medida em que também Cristo vos acolheu, para glória de Deus. Efectivamente, digo que foi por causa da fidelidade de Deus que Cristo se tornou servidor dos circuncisos, confirmando, assim, as promessas feitas aos patriarcas; por sua vez, os gentios, dão glória a Deus por causa da sua misericórdia, conforme está escrito:  Por isso te louvarei entre as nações e cantarei em honra do teu nome.

(Rom 15, 4-9)
.............................................................................................

Neste texto, S Paulo dirige-se aos convertidos do paganismo.
Sabia muito bem que a decisão tomada pelos romanos que se tinham aberto à doutrina pregada por Jesus exigia perseverança e, por isso, convida-os a encontrar nas Escrituras os motivos encorajadores e os sinais a atender, porque tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, disse.

Estas palavras ao apontar para as Escrituras deviam ter ressonância no tempo que passa, porque sendo elas Palavras Eternas de instrução e conhecimento deviam ser respeitadas, como são outras, que não tendo sentido eclesial, marcam o tempo que vivemos sem nos lembrarmos que a actualidade secular - sem o suspeitar - está cheia de tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, porque é neste Mundo ainda em grande parte inconvertido a Deus, que a todos os homens é dado num dia qualquer, como aconteceu com os velhos romanos convertidos, louvar entre as nações o Espírito de Deus que paira suspenso e desejoso de chegar a todos os homens.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Uma Oração-Confissão?


Oração ao DEUS desconhecido.

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para a frente, uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti de quem eu fujo. A Ti das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar. Sobre esses altares estão gravadas em fogo palavra s: "Ao Deus desconhecido". Teu, sou eu, embora até o presente tenho me associado aos sacrilégios. Teu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servir-Te.  Eu quero -Te conhecer, desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero te conhecer, quero servir só a Ti.

Friedrich Nietzsche

É sabido que Nietzsche foi um eminente homem da cultura universal, pois para além de filósofo - como é mais conhecido - foi poeta e escritor de textos críticos sobre religião, moral e cultura pela metáfora, ironia e pelos aforismo, e cujas ideias mestras incluíam a afirmação da vida que envolvia a morte de Deus, em que a superação do individual que tiveram uma grande influência em pensadores nos aos finais do século XIX.

Acometido aos 44 anos por uma perda completa das suas faculdades mentais, viveu os seus últimos anos entregue aos cuidados maternos e depois aos de sua irmã, até à morte que veio em 1900.

Desconhece-se a data desta sua Oração do DEUS desconhecido, mas ela, parece, ser o fruto de um momento raro de encontro como o homem nascido numa família que professava o credo luterano, descendentes de avós que haviam sido pastores protestantes e que, num dado momento da sua juventude o teriam influenciado em ser torna seu seguidor, crença que veio a rejeitar ainda na adolescência, tendo a filosofia afastado o seu pendor religioso, cujos estudos em 1864-1865 iniciou na Universidade de Bonn em filologia clássica e teologia evangélica.

De toda esta sua formação intelectual, esta Oração ao DEUS desconhecido é, na sua essência, somente isso: uma Oração ou é, ao mesmo tempo, uma Confissão da sua luta íntima?
Não o saberemos jamais.
O que sabemos e sentimos é que em toda ela existe a alma do homem a abrir-se a um DEUS desconhecido, que contudo, jamais deixará de o interpelar num momento qualquer da sua vida.

Primeira Fábrica de Bolachas em Portugal


 

Amassador das massas
Preparação das massas em lâminas
Fornos
Toda a informação captada in, Revista "O Occidente" 11 de Março de 1902
....................................................................................................

Localização da Fábrica 
.....................................................................................................................

Esta Fábrica de Bolachas começou a laborar no ano de 1872, alcançando-se pela Travessa dos Brunos, a direita de quem sobe a Av. Infante Santo,  com sede no Alto da Pampulha, de que hoje resta a Calçada da Pampulha e tinha acesso pelo então chamado Aterro da Boa Vista iniciado em 1855 que ligou o Cais do Sodré a Alcântara conquistando terreno ao rio Tejo, e por onde corre, hoje, o traçado da Av. 24 de Julho.

Coube a Eduardo António da Costa lançar mão à construção desta unidade fabril que não tardou em merecer prémios, tendo arrecadado em Viena de Áustria uma Medalha de Mérito e na Exposição de Filadélfia em 1876 um galardão semelhante, distinção que se veio a repetir na Exposição Universal de Paris de 1878 e em Lisboa, em 1884 o prémio atribuído às bolachas e biscoitos que produzia, distinção que se veio a repetir em 1888 com a Medalha de Ouro, na Exposição Industrial Portuguesa.

Vivia-se,então, um tempo em que a letargia fabril portuguesa começara a acordar de um sono profundo que ao não ter conseguido acolher o ímpeto da primeira industrialização de Portugal que coube ao III Conde da Ericeira, Luís de Meneses (1632-1690) porque àquela data o Estado ao fazer do ouro vindo do Brasil a sua maior riqueza esquecia a mentalidade do desenvolvimento económico assente numa estabilidade política, fazendo daquele bem que vinha de além-Atlântico o equilíbrio da balança comercial, ao mesmo tempo que mantinha a opulência da corte e a dos seus vassalos, garantindo uma falsa projecção de Portugal na cena internacional, algo que veio a ter no reinado de D João V a sua expressão maior, algo que só veio a esmorecer com o declínio da exploração aurífera em terras brasileiras.

A tudo isto se veio a juntar o Bloqueio Continental, as Invasões Francesas, a fuga da Família Real e depois as Guerras Liberais, de que adveio a escassez de pagamentos dos bens importados,  como aqueles que garantiam a indústria naval e a compra de lanifícios, sedas e outros bens afins, com o vidros, pelo que urgia promover o desenvolvimento da indústria nacional - fechado o ciclo do ouro do Brasil e os endividamentos a que Portugal ficou sujeito - donde surgiu a necessidade do Estado refrear as importações e promovendo as indústrias internas que conseguiu uma produção, ainda que regionalizada, como aconteceu com a Fábrica de Bolachas da Pampulha, que teve em Eduardo António da Costa o seu grande impulsionador.

Lembra isto, hoje, é um modo de render homenagem a um homem, entre outros que no século XIX - finalmente - com a sua tenacidade e sentido patriótico deram continuidade a uma ideia que tinha tido no século anterior a sua génese no tocante à industrialização do Pais e que não produzira os bens que lhe augurara o III Conde da Ericeira, cuja memória não pode ser esquecida, porque em cada tempo hão-de existir homens que cuja visão de Estado está para além do tempo em que viveram.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Os combates são por dentro que se fazem!

http://www.sapo.pt/ de 2 de Dezembro de 2016~
........................................................................................................

Se há homens em Portugal merecedores do respeito geral, um deles é o Dr. António Arnaut, pela obra do Serviço Nacional de Saúde que em boa hora implementou e à qual ficará para sempre ligado.

Tem a minha sincera homenagem.

Mas tenho um senão a apontar-lhe, sinal que todo o homem é uma construção imperfeita dentro da muita sabedoria que tem, como é o caso de tão respeitável figura de cidadão.
Diz, agora, conforme a notícia que ao ver a corrupção "fui-me embora", algo que me leva a pensar - e peço desculpa para a minha franqueza de beirão - fez mal, porque é por dentro que se gerem os combates, muito embora, eles possam ser desgastantes por serem contrários à nossa educação e sensibilidade, o que me faz pensar que depois da Revolução de Abril de 74, têm faltado homens para dar  "um murro na mesa" e por tudo mais limpo.

É este o meu ponto de desacordo com o dr. António Arnaut.

"Vi a corrupção e fui-me embora. Fui mais útil ao PS saindo do que ficando" é a frase deste respeitável cidadão, que só me resta ler, meditar e deixar o senão apontado, porque a corrupção tem de ser combatida em nome de Portugal, porque "Portugal Está Primeiro", como já vi em tempos de campanha eleitoral esta frase escrita em letras garrafais num comício do PS.

O Castelo de Santa Maria da Feira


in, Revista "O Occidente" de 11 de Janeiro de 1889
............................................................................................................................

Perdi-me, um dia - e que saudades eu tenho! - de ter andado pelas salas e corredores deste invulgar Castelo, deliciando o meu olhar pela configuração da sua linda Torre de Menagem, pela Alcáçova e pela invulgar profusão de defesas, cuja construção ao ligar-se ao início da nacionalidade, nele se sente vivo e presente o peso da História de Portugal pela força do imaginário que se sente a voar do tempo actual até ao tempo que já lá vai.

Nesta postagem, propositadamente, incluiu-se a imagem e a prosa da autoria de Manuel M. Rodrigues, um colaborador da Revista "O Occidente", natural da cidade do Porto e que teve a arte de descrever com pormenor uma notícia do célebre Castelo, ex-libris da Cidade da Feira, fazendo-se, hoje, a publicação ipsis-verbis. para não deslustrar a escrita de profunda, séria e abalizada análise histórica a que me apraz juntar o seguinte texto, como um simples e despretensioso complemento da velha notícia publicada há 127 anos.


Reza a História que no ano de 1095 o Conde D. Henrique de Borgonha, pai do nosso primeiro Rei, recebeu as terras do Condado Portucalense que incluíam, entre outras as terras do Castelo de Santa Maria que se alargavam por um extenso domínio que iam das linhas do curso do rio Douro até Ovar e Oliveira de Azeméis, tendo este formoso Castelo sido incluído no testamento do Rei D. Sancho I para um eventual refúgio da Rainha, se ficasse viúva e das infantas suas filhas.

Toda a restante informação histórica fica ao cuidado de quem tiver a dita de visitar tão digno monumento histórico, que é a todos os títulos um momento de rara beleza cultural e um modo de se conhecer a arte e o engenho dos nossos esforçados avós para manterem viva e perene a terra de Portugal.

Um pensamento de Bernard Shaw


A democracia muitas vezes significa o poder nas mãos de uma maioria incompetente.
George Bernard Shaw
........................................................................

Porque hoje faz 66 amos que morreu o autor desta frase - um intelectual irlandês rendido ao socialismo seguido pela Sociedade Fabiana que foi buscar a sua origem a Fábio Máximo - como o seu mentor antigo acreditava na gradual evolução da sociedade através de reformas e cuja ordem esteve na origem do Partido Trabalhista em 1906, tendo sido um acérrimo denunciador da exploração da classe trabalhadora e ardente defensor dos direitos iguais para homens e mulheres.

Neste dia 2 de Novembro que assinala a sua morte em 1950, a máxima que lhe pertence e tenho a honra de publicar, se exprimiu o seu tempo o que ele pensava da democracia, infelizmente, é ainda hoje, actual.

Basta pensar um pouco...

É, no entanto, o melhor dos males políticos, mas que tem de merecer de todos nós a melhor atenção e cooperação para a melhorar, não a entregando ao primeiro que apareça a prometer a lua.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Porque me posso esquecer...


Porque me posso esquecer... que isto, às vezes, como diz o nosso povo - o diabo tece-as! - quero registar que no passado dia 29 de Novembro, na Assembleia da República, parte importante de deputados do Partido Social Democrata (PSD) com a sua abstenção permitiram que fosse aprovado um voto de pesar pelo falecimento do ditador cruel Fidel de Castro, restando uma parte que se demarcou e a quem teço o meu louvor,

Para estes abstencionistas o meu repúdio.

Lembro, a propósito o socialista Sérgio Sousa Pinto que teve a coragem de dizer: Não me vou prostar em homenagem a um ditador, e com esta frase pequena disse tudo contra a figura perversa de um homem que calcou os direitos humanos dos seus próprios concidadãos.

Porque me posso esquecer, eis que declaro que quem se absteve portou-se sem brio e respeito pelos mortos que pesam no regime que Fidel de Castro implantou em Cuba em obediência cega a cartilhas estranhas a um povo que tem nas suas raízes outros sentimentos e outras práticas humanas que se não coadunam com o ódio dos revoltosos do marxismo-leninismo que lhe serviu para impor a ditadura que ele gerara nos contrafortes da Sierra Maestra, onde nas sombras das quebradas foi urdindo a noite sombria da sua ditadura de que foi um chefe supremo e incontestado.

Porque me posso esquecer destes abstencionistas do PSD aqui fica a minha lembrança e o meu protesto.

1º de Dezembro de 1640


Faz hoje 376 anos que um punhado de homens patriotas - como todos sabemos desde o tempo em que os velhos livros da Instrução Primária assinalavam este dia - que Portugal recuperou a independência nacional.

in Revista "O Occidente" de 1 de Maio de 1886

Faz hoje 130 anos que no dia 28 de Abril de 1886 foi inaugurado o belo monumento da Praça dos Restauradores, para o qual foi criada uma Comissão de Honra presidida pelo conselheiro António Maria Fontes Pereira de Melo e que naquele dia viu a sua obra erigida a abrir o então Passeio Público, hoje Avenida da Liberdade,

In, Revista "O Occidente" de 1 de Maio de 1886


Da Comissão fizeram parte o Conselheiro António Maria Fontes Pereira de Melo (Presidente); Visconde de Sanches de Baena (1º Secretário): Lino José Daniel de Carvalho (2º Secretário); Gerenal Augusto Xavier Palmeirim (Presidente da Comissão Executiva e membro da Comissão Técnica); Comendador Francisco Lourenço da Fonseca (Tesoureiro e vogal da Comissão Executiva); General António de Melo Breyner(Vogal da Comissão Executiva); General Miguel Baptista Maciel (Vice-Presidente e membro da Comissão Executiva).

Lembrar este homens é um dever no dia de hoje.

Foram eles os obreiros - que não tendo usado a força dos braços - usaram a inteligência e o querer patriótico de levarem a cabo a ideia materializada na massa trabalhada pelos trabalhadores, dos menos qualificados profissionalmente aos mestres canteiros que burilaram a pedra deste maravilhosos obelisco até aos mestres escultores e fundidores que deram forma às estátuas do Anjo da Vitória que segura uma coroa de louros, da autoria de Simões de Almeida e ao Génio da Independência, de Alberto Nunes que levanta com a mão direita uma corrente quebrada, símbolo da libertação de Portugal do jugo estrangeiro.

Julgamos que em Portugal nunca mais haverá a maldade de retirar do calendário que consagra os feriados nacionais este dia, que tanto trabalho deu aos mentores da Revolução de 1640 e aos homens que em sua lembrança erigiram este grandioso monumento para honra e glórias da Cidade de Lisboa, onde se deram por findos os 60 anos em que Portugal se viu dominado.

"Erro de palmatória"


Tal qual o Presidente da República, comungo com ele na satisfação de ver reposto o feriado do dia 1 de Dezembro que assina o fim da sujeição da Pátria Portuguesa a Espanha que a governou - como é sabido - durante 60 longos anos.

Há dias que deviam ser inamoviveis dos calendários nacionais e, este, ingloriamente retirado pelo governo de Passos Coelho ficou a assinalar, possivelmente, a mancha maior da sua governação que, de modo algum, devia ter acabado com este feriado.

É o seu "erro de palmatória" de que sempre discordei, pelo que ao vê-lo reposto - bem ao contrário de outras reposições feitas por António Costa - me sinto satisfeito e a minha alma portuguesa não pode deixar de manifestar o seu agrado.