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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Os Tartufos que vivem dentro de nós




Tartufo (1) é a personagem principal da peça do mesmo nome personificando um falso devoto criado pelo genial dramaturgo francês de fama universal, Moliére (1622-1673) de seu nome de baptismo, Jean-Baptiste Poquelin.
O religioso hipócrita criado pelo génio do seu autor tinha como finalidade o uso da sua falsa devoção para auferir as sinecuras em nome de Deus.

Na actualidade, o termo – tartufo – para além de continuar a empregar-se para os falsos devotos, passou a designar os hipócritas emergentes de um tempo falacioso onde pululam os que sonham com a obtenção de cargos de mando nas várias hierarquias do poder.
São os finórios instalados na sociedade, de onde, com golpes de asa costumam emergir, sem se saber, muitas vezes, de onde vieram e onde querem chegar.
Estes são os novos tartufos.
São os novos vendilhões do templo, os hipócritas que usam artimanhas – políticas ou não -  e depois de conquistadas as mercês que receberam em nome da causas apregoadas como cruzadas de coisas que eram precisas mudar, se esquecem do que prometeram, deixando tudo na mesma, quando não pioram o que estava feito.
Cuidado com eles, mas também, cuidado connosco, porque em todos nós vive um tartufo qualquer que é preciso educar.

É por isto e cuidando do tempo que passa, que não podemos deixar de apontar a existência de alguma desordem de sentimentos de amor à civilidade e aos seus nobres pergaminhos – não de uma nobreza balofa e empacotada – mas daquela nobreza que torna os homens forças da natureza, que sentimos a necessidade de arrepiarmos caminho colectivamente, para que o povo, enquanto força espiritual e a sua riqueza maior, se encontre consigo mesmo e não se deixe enganar pelos tartufos encartados – com as cartas de alforria que conseguem alcançar - e andam por aí, de vez em quando a apregoar paraísos, uns melhores que os dos outros, quando afinal, são as ofertas hipócritas de uns mais espertalhões, em detrimento das de outros menos arrojados na arte do engano.
A estes acenos dos devotos laicos de felicidades prometidas, desconfiemos, sabendo-se que as falsas devoções não existem apenas, na religião, como acontecia de uma maneira despudorada nos tempos de Moliére.

Existem, como sempre existiram em todos os campos da actividade humana e da qual os tempos que passam nos dão figurinos de sobejo.
Estejamos atentos aos novos tartufos.
Sobretudo, não nos deixemos acorrentar e submeter a facções de onde sobressaem as políticas, mas, se na assunção da nossa cidadania esta nos pede que não nos excluíamos de participar nelas, que isto nos sirva  para as ajudar a mudar por dentro com o fim de alcançarmos uma maior consciência urbana, porque esta não se faz por decreto, mas antes, tem de ser uma causa de amadurecimento colectivo.
É um caminho que todos temos de percorrer e não vale apontar o dedo a ninguém, porque todos temos dentro de nós os tartufos mais ou menos hipócritas onde a educação moral e cívica tem muito trabalho a fazer.
Não nos entreguemos, por isso, subjugadamente, porque ao fazê-lo não ajudamos a melhorar a sociedade.

Reservemos, pois, o nosso amor de um coração presente para o nosso clube de bairro ou outro – fenómeno social que  estranhamente nos amarra, ainda que o nosso clube perca todos os campeonatos -  mas que a nossa atitude perante qualquer facção gregária ao ter para com ela o dever cívico da participação, que esta nunca perca o sentido crítico de um coração expectante - sempre pronto a mudar de facção -  logo que aqueles que tendo falado em nome da conjunto dos cidadãos se esquecem depois das palavras que disseram, sem cuidar que estes continuam à espera de ver erigido em nome da moralidade pública, éticas comportamentais de acção.
Mas de tal monta que todos possamos dizer a frase erudita e simples que foi caldeada desde há muitos séculos na grande Universidade da Vida:
O exemplo tem de vir de cima.

Enquanto isto não acontecer é sinal que os tartufos encartados continuam a andar por aí a dar rédea solta às suas hipocrisias, reagindo sempre mal humorados ao contraditório.
E, portanto, não confiemos avalizando tudo o que ouvimos enquanto a uma acção dos que têm por hábito acenar com loas e estas se manifestarem – depois - pelo inverso do bem anunciado e contrárias à moral comum dos bons costumes não vierem  a merecer o respectivo castigo, para bem do exemplo… que tem de vir de cima, como diz o adágio popular.
Educar os tartufos é uma atarefa social.
Quem sabe… se a começar por nós mesmos!




(1) - ´Tartufo é  uma comédia de Molière, constituindo uma das mais famosas da língua francesa de todos os tempos. Data de 1624 a sua primeira representação. O personagem é símbolo dessa bem comportada estrutura, usando-a a seu bel-prazer, a seu único e exclusivo proveito, sendo capaz de mentir, roubar, defraudar, especular, transgredir normalmente com o único objectivo de granjear mais privilégios. E tudo em nome de Deus. A peça, mantém-se actual ao denunciar males eternos como a corrupção, a hipocrisia religiosa – ou não -  a ocupação de cargos de mando e relevo por espertalhões.
Ao escrever sua obra, o autor ataca um grupo muito influente: os devotos. Entre estes se contavam homens cuja religiosidade era sincera, mas a maioria era de manipuladores conscientes do poder que poderiam obter com a sua falsa devoção. Foi a este segundo tipo que Molière atacou.
Na língua portuguesa, o termo tartufo, como em outro idiomas, passou a ter a acepção de pessoa hipócrita ou falso religioso.

Uma consulta no Hospital de Deus




Sentindo-me doente fui ao Hospital de Deus fazer um chek-up de pura rotina.
O Médico-Chefe, Jesus, que está de serviço permanente todas as horas, dias e anos, observou-me com todo o cuidado – como nunca ninguém o havia feito – e diagnosticou-me as seguintes enfermidades:

Depois de me medir o pulso verificou que estava com uma grande baixa de ternura, o que justificava o meu mau humor e a minha falta de atenção pelos outros.

Mediu-me a temperatura e registou 40 graus de egoísmo, outro facto negativo, que por si só era a causa da minha falta de amigos.

Seguidamente, fez-me um electrocardiograma e verificou que me faltava uma ponte de amor pelo facto de ter uma veia bloqueada, donde resultava que não abastecia suficientemente o meu coração vazio.

Mandou-me depois passar à Ortopedia, por ter verificado que eu tinha uma grande dificuldade em andar lado a lado com os meus irmãos, tendo-me dito que isto resultava de um dia ter fracturado os braços ao cair na minha infinita vaidade, o que amiudadamente acontecia comigo.

Era um espanto...como este Médico sabia tudo de mim!

Mas aconteceu mais: dando-se conta que era duro de ouvido mandou-me passar pela Otorrinolaringologia, onde me foi dito que o meu mal resultava de só me ouvir a mim mesmo, na decorrência das palavras vazias que dizia dia a dia.

E, por fim, não deixou de observar a minha profunda miopia, pelo facto de não ver para além das aparências.

E foi o fim da consulta, da qual nada paguei...
Obrigado, Jesus, por não me teres cobrado o dinheiro de um exame tão completo.
Obrigado pela Tua receita, que prometo cumprir, tal como me foi dito, sem me esquecer que os remédios não os vou encontrar na farmácia do meu bairro, mas na farmácia singular que existe aberta para todos os homens e que se chama: O Evangelho.
Desconhecia esta farmácia, confesso...

Assim, devo tomar diariamente, ao levantar chá de agradecimento.
Ao chegar ao emprego, beber uma colher se sopa de Bom-Dia e de hora em hora, tomar um comprimido de Paciência com um copo de humildade.
Ao chegar a casa, devo tomar todos os dias uma injecção de Amor e quando me deitar, duas cápsulas de Consciência Tranquila.
Assim sendo, tenho a certeza que não ficarei mais doente e todos os dias da minha vida serão de Paz e Solidariedade.
Ao Médico, Jesus, que tão bem me consultou, prometo prolongar este tratamento por toda a minha vida, para que quando Ele me chamar, a minha morte tenha sido por causas naturais
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Nota:  Adaptação livre de uma mensagem evangélica.

Em tudo e todos existe uma missão!



Diz um conto indiano, de autor desconhecido, que havia um carregador de água que todos os dias transportava nas duas pontas da vara que atravessava ao ombro, dois potes de barro para transporte de água destinada à casa de um rico marajá, situada no alto de um monte.
Um dos potes tinha uma racha e o outro era perfeito. 
Este chegava sempre cheio no final do longo caminho que ia do poço até à casa do patrão, mas o pote rachado chegava apenas com metade da água.

Aconteceu isto durante dois anos.

Nesse período de tempo, o pote que chegava inteiro inchava de orgulho por fazer um trabalho perfeito, enquanto o pote rachado se envergonhava do seu fraco préstimo, cumprindo, apenas, metade da tarefa que lhe era pedida.

Um dia, à beira do poço, disse ao carregador de água:
- Sinto que sou uma amarga desilusão. Quero pedir-te desculpa do meu desempenho, porque a minha racha faz que a água se vá perdendo ao longo do caminho... e, por causa do meu defeito, tu fazes o teu trabalho e não ganhas o teu salário por inteiro.
- Muito bem, meu velho pote. Estás desculpado... mas, hoje, quando subirmos o caminho para casa do marajá, quero que repares nas flores que existem no teu lado, à beira do caminho.

O carregador começou a subir a ladeira e o pote rachado pela primeira vez viu a quantidade de flores selvagens que enchiam a orla do caminho.
Mas sem lhes dar importância, depois da carregador ter deixado a água na casa do patrão, insistiu no seu pedido de desculpa.

Foi, então, que ouviu o seguinte:
- Reparaste, meu querido pote rachado que as flores que viste ao longo do caminho só existiam do teu lado...
- É verdade... – respondeu o pote, intrigado – mas que tem isso a ver comigo?
- Tem muito. É que, durante este tempo todo ao passo que subimos tu vais regando a beira do caminho e da frescura que dás é que têm nascido as flores que tu viste... repara que do lado do outro pote não há flores!
- Não entendo... mas tu não recebes, apenas,  metade da água que eu transporto?
- Não, responde o carregador. Como levo ao marajá as flores que a tua água vai regando, ele retribui a minha atenção, pagando-me por inteiro aquilo que tu julgas que é apenas metade. (1)


Nota: O texto altera profundamente a descrição original, mas mantém intacto o seu sentido, porque na sua profundidade o que ele nos quer transmitir é que os homens, importantes ou menos importantes, todos têm na vida uma missão a cumprir e esta necessita tanto dos grandes feitos como dos mais simples e, até, ignorados.



(1) – Adaptação livre de um conto de autor desconhecido.

A importância do amor


É, apenas, uma palavra 
que espera encontrar no outro - ou na outra - a definição mais perfeita


Conta-se que numa ilha imaginária viviam - como se verá, depois, numa aparente harmonia - todos os sentimentos humanos, como a Amor, a Emoção, a Alegria, a  Tristeza e a Moralidade a par de situações acidentais, como a Riqueza.

Um dia, soube-se naquela ilha que uma convulsão natural se preparava para a mergulhar na profundeza das águas, o que originou que todos arregaçassem as mangas e prepararam os seus barcos para desertar. E assim aconteceu.

Ficou, apenas, o Amor.

Com fé num milagre qualquer que livrasse a ilha daquele cataclismo anunciado, dispôs-se a arriscar até ao último momento, até que, quando pressentiu, que já nada mais havia a fazer, resolveu partir. Aconteceu, porém, que não encontrou o seu barco, de que resultou ter de pedir ajuda. Colocado na orla da praia deu em olhar o horizonte.

Viu ao longe o barco da Emoção e acenou-lhe:
- Salva-me...
- Não posso. – ouviu – Estou de tal forma comovida, que a emoção de ter deixado a ilha me tira o desejo de voltar aí..
.
Viu, depois, o barco da Alegria e pensou: “Esta vem salvar-me”...
- Não vou, não! – disse-lhe de muito longe – Estou tão alegre de ter partido, que já não sei o caminho para chegar ao pé de ti...

Passou a Tristeza e o Amor pensou: “Não vale a pena chamá-la... vai muito triste”... e não a chamou.
Mas, de repente, apareceu a sulcar as ondas o barco da Moralidade.
De novo o Amor exultou, na expectativa de ser salvo.
Mas, não aconteceu.
- Não tenho tempo agora. Neste meu novo estágio de vida tenho o meu tempo todo ocupado a dar lições de Moral. – desculpou-se a Moralidade

Veio a seguir a Riqueza.
- Vem salvar-me, pediu o Amor, já em estado desesperado, pressentido que em breve iria ao fundo, já que mal se via a praia e a ilha era, somente, uma mancha em cima do Mar.
Foi, então, que o Amor ouviu a voz de um velho, vinda de muito longe, das alturas do Céu e  lhe disse:
- Vem, Amor... anda comigo...
Nos braços daquele velho estranho, de longas barbas e olhar profundo, andaram alguns dias até atingirem terra firme e de tão contente que se sentia e emocionado por se saber a salvo o Amor até se esqueceu de lhe perguntar o nome e, entretanto, deu-se conta que o seu salvador tinha desaparecido.

Foi, então, que lhe apareceu, sem ele saber de onde, o Saber, a quem perguntou:
- Saber: diz-me o nome de quem me ajudou.
- Foi o Tempo...
- O Tempo... – questionou o Amor – mas porque foi que o Tempo me ajudou?
- Porque só o Tempo é capaz de avaliar como o Amor é importante na vida.
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Nota:  Adaptação livre de uma mensagem evangélica

Os aguadeiros





O aguadeiro chegou a ser uma profissão em Lisboa, devidamente credenciado pela edilidade a quem pagava uma taxa.

Tinham por missão a venda de água de porta em porta, anunciando-a com o costumado pregão
. Á... a...úú!
Ou, então, por este:
- À...á...áuga!

A maioria dos aguadeiros de Lisboa eram galegos, normalmente associados em corporações, que segundo um testemunho se vangloriavam da profissão, dizendo em ar de troça: "a água é deles e nós é que lha vendemos!"

Sendo o chafariz público o local de abastecimento, as rivalidades e rixas eram vulgares, partindo sempre dos preços díspares que os aguadeiros cobravam aos fregueses, pelo que o Senado da Câmara em 11 de Julho de 1780, com o intuito de estabelecer alguma ordem pública publicou um edital para o pagamento da água levada a casa, consoante esta fosse transportada em quartas ou barris, estabelecendo preços diferenciados para Verão e Inverno.

Quando findava o dia de trabalho eram forçados a transportar para suas casas os pipos ou barris cheios de água como precaução, na eventualidade da existência de algum incêndio a que tinham de acorrer.

Diz-se que em meados do século XVIII, havia cerca de 200 aguadeiros e depois da conclusão da obra do Aqueduto das Àguas Livres, com a profusão de chafarizes distribuídos pela cidade, este número chegou a cerca dos 3.000.

Ainda em pleno século XX, antes da água canalizada ter entrado nas habitações, esta profissão era exercida em Lisboa, com grande incidência no Bairro de Alfama, servindo como toma de água o Chafariz de Dentro e o Chafariz del-Rei, onde se reuniam as comunidades de homens e mulheres,

O transporte era feito à cabeça, por mulheres com o pipo apoiado na rodilha ou ao ombro, pelo homem.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Freitas do Amaral e as voltas do "vira" político



É sim senhor. 
Freitas do Amaral de cravo vermelho!


Para festejar os 40 anos do 25 de Abril o Instituto de História Contemporânea  da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, está a assinalar a data com a realização de um Congresso dedicado ao tema "A revolução de Abril - Portugal 1974-75"no Teatro Nacional D. Maria II - a decorrer entre 21 e 24 de Abril - de parceria com o Teatro Nacional, Fundação Mário Soares, Câmara Municipal de Lisboa e a Associação 25 de Abril.

No discurso proferido no dia 21 de Abril, sobre "O sistema político e os partidos"  Freitas do Amaral, de cravo vermelho ao peito - para onde é que foi a vergonha? - zurziu forte e feio no Governo, apelidando-o de  ser o mais à direita dos últimos 40 anos, esquecido com anda do tempo em que foi Ministro dos Negócios Estrangeiros do pior Governo da Democracia - o de José Sócrates - em que, este foi - sim, senhor! - um Governo da esquerda a governar à direita - mas dando de barato tudo isto - com esta e outras intervenções dá a entender que esqueceu, também, o tempo em que chefiava um Partido - o CDS - e que teve a coragem de votar contra a Constituição da República Portuguesa, porque esta era socialista.

Para onde foi a memória deste homem, que agora vem chamar o povo para a rua para "exprimir reprovação" acenando com a criação de um novo Partido:  "o povo português vai ter de ser capaz de criar um novo partido que ajude a refazer o sistema político português",  tendo em mira as legislativas de 2015, tecendo críticas, como esta:  "O PS está satisfeito com a atual direção? O PSD vai continuar a aplaudir este Júlio César ou encontra um Brutus capaz de o substituir?".

Que estranho é o percurso deste homem!
Que voltas dá o "vira" político!
Anda a pensar em quê?

Penso que a hipótese aventada por ele da criação de um novo partido político que vá buscar dirigentes e eleitores entre o PS e o PSD, é um modo falaccioso de quem quer atingir para mais longe o seu pensamento, porque, me parece, que Freitas do Amaral está a pensar em 2016 e na disputa de uma segunda hipótese para as eleições presidenciais, perdidas em 1986 para Mário Soares.

Será para isso que ostentou o cravo vermelho?

terça-feira, 22 de abril de 2014

Um dos grandes gastadores




Fonte: Wikipedia  - http://pt.wikipedia.org/wiki/Dívida_pública_de_Portugal

No XVII Governo Constitucional de Portugal chefiado por José Sócrates, entre março de 2005 e outubro de 2009, a dívida cresceu 21% do PIB, cerca de 45 mil milhões de Euros.(6)

No XVIII Governo Constitucional de Portugal chefiado por José Sócrates, entre setembro de 2009 e junho de 2011, a dívida pública cresceu cerca de 24,3% do PIB, aproximadamente 44 mil milhões de Euros.

Conclui-se que nos dois governos de José Sócrates, ou seja durante os 6 anos e 3 meses dos XVII e XVIII Governos Constitucionais, entre março de 2005 e junho de 2011 a dívida cresceu cerca de 45% do PIB (7) ou seja, cerca de 90 mil milhões de euros,(8) dando uma média de 1,2 mil milhões de Euros por mês, 40 milhões de Euros por dia, 30 mil Euros por minuto ou cerca de 460 Euros por segundo. (9)

Nota: os sublinhados são nossos.

(6) - DGO/MF–BP–INE, PORDATA (2013-09-30). Administrações Públicas: dívida bruta - 
Portugal. Página visitada em 2013-10-19.

(7)-http://www.pordata.pt/Portugal/Administracoes+
Publicas+divida+em+percentagem+do+PIB-824

(8)-http://www.pordata.pt/Portugal/Administracoes+Publicas+divida+bruta-823

(9)-http://www.wolframalpha.com/input/?i=90000000000+Euros%2F%28june+2011++march+2005%29



A gente lê e pasma-se!
Será possível que durante os 6 anos e 3 meses em que duraram os dois Governos de José Sócrates, Portugal se endividou 460 Euros por segundo?
As contas não me pertencem - nem sei fazê-las - mas fica dita a fonte, para os mais incrédulos.
E não fizeram o TGV de alta velocidade, nem a nova Ponte sobre o Tejo, nem o Aeroporto, que foi da Ota e, depois, já era para ser construído nas terras do jamais... jamais...
Dá que pensar... lá isso, dá!


O "gato escondido com o rabo de fora"!



Noticia, hoje, a Agência Lusa, o seguinte


Associação (25 de Abril)  propõe "ampla mobilização nacional" para expulsar "vendilhões"
A Associação 25 de Abril apelou hoje a uma "ampla mobilização nacional" para expulsar os "vendilhões do templo" como classificou o atual Governo e o Presidente da República, na mensagem alusiva aos 40 anos da revolução.
"O Governo, e a cobertura que lhe é dada pelo Presidente da República, protagonizam os fautores do `estado a que isto chegou´, razão pela qual não serão eles a quem possa continuar a confiar-se os destinos de Portugal", defendeu a Associação 25 de Abril, presidida pelo coronel Vasco Lourenço.
Por isso, sustentou, "torna-se urgente uma ampla mobilização nacional" para, "aproveitando as armas da Democracia, mostrar aos responsáveis pelo `estado a que isto chegou´ um cartão vermelho, que os expulse de campo".


Chamar vendilhões do templo a quem conquistou o Poder democraticamente só não é insulto porque eles  - esquecidos os galões das patentes militares - agem como mais um braço da esquerda parlamentar... a fazer um "frete" ao PS, o que para militares, valha a verdade, não devia acontecer.
Um militar deve servir - sempre - o País e nunca uma facção partidária e o que está a acontecer é que, ingloriamente, estão a politizar a Revolução do 25 de Abril.
Quanto ao estado a que isto chegou  o melhor era que os militares da Associação 25 de Abril perguntassem aos que fizeram os desmandos dos dinheiros públicos.
E vem, a propósito, uma pergunta:
- Porque não chamaram vendilhões do templo aos que nos conduziram ao primeiro, segundo e terceiro resgates?
Ao  fim e ao cabo, estes senhores têm uma frase feliz, quando dizem: aproveitando as armas da Democracia (...) e aqui percebe-se o gato escondido com o rabo de fora, ao apelar ao cartão vermelho que os expulse de campo.
O que eles querem é que o povo castigue o Governo no próximo dia 25 de Maio, dia de eleições europeias, fazendo com isto o tal "frete" ao PS que pede o mesmo... o que neles é compreensível.
Nos militares é que não!


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Páscoa da Ressurreição do Senhor - 20 de Abril de 2014 - Ano A


No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram. Saiu então Pedro com aquele outro discípulo, e foram ao sepulcro. Corriam juntos, mas aquele outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. Inclinou-se e viu ali os panos no chão, mas não entrou. Chegou Simão Pedro que o seguia, entrou no sepulcro e viu os panos postos no chão. Viu também o sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus. Não estava, porém, com os panos, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o discípulo que havia chegado primeiro ao sepulcro. Viu e creu.  Em verdade, ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos. (Jo 20, 1-9)

Correram lestos Pedro e João
ao grito de Maria Madalena.

João, o discípulo amado
chegou em primeiro lugar para nos dar o sinal
de que, quem ama, crê!
Foi por isso, que ante o túmulo vazio
ficou a cismar em Jesus e no que ele dissera!

Especado à porta, olhando a pedra aluída,
acudiu-lhe um primeiro pressentimento 
de que algo se passara, ali,
ao ver caídos pelo chão os panos e o sudário...

Pedro, que chegou depois,
afogueado, como era seu hábito,
entrou no túmulo sem qualquer hesitação.
Mais do que pensar, precisava ver!
João - diz o texto - 
que entrou a seguir a Pedro, viu e creu!

Na verdade, um e outro, verdadeiramente,
não haviam entendido em toda a extensão
o que Jesus lhes dissera, um dia, 
sobre o Mistério da Ressurreição!

Senhor Jesus:
Felizes os que não Te viram, mas crêem!
Que nesta Páscoa 
a pedra que havia nos nossos corações, 
ou seja, a sombra que Te escurecia, 
se transformado em Luz!

sábado, 19 de abril de 2014

Ó morte, onde está a tua vitória?


Valença - Fortaleza
Porta da Coroada de acesso ao Revelim da Coroada


Um destino feliz levou os meus passos até à cidade de Valença - também conhecida por Valença do Minho - e, no meu deambular descuidado, achei-me encantado, a percorrer o interior da sua velha Fortaleza, neste tempo Pascal. 
Já de saída, ao passar pela Porta da Coroada que a foto documenta, bem a meio do florão que encabeça a sua multissecular arcada, dei com a Cruz - réplica da que um dia se ergueu no Gólgota - e que ali sinalizava a bem conhecida "Cruz da Penitência", apresentando sobre o braço horizontal uma faixa de tecido roxo, simbolizando a mortalha de Jesus e o conjunto o triunfo do Crucificado sobre o poder da morte.

O sinal que está ali, na velha porta da Fortaleza de Valença, ao representar para os que acreditam no que já foi dito, originou que respigasse dos meus velhos apontamentos o texto que se reproduz em honra e louvor do Filho de Deus, ficando a marcar neste tempo, um outro sinal: o da minha admiração e profundo respeito pelas mãos que subiram acima da muralha da velha Fortaleza - que o Município prepara para a elevar a Património da Humanidade com os seus 800 anos de História - para deixar ali o Grande Sinal que um dia aconteceu às portas de Jerusalém.


Já todos se haviam retirado 
para celebrarem a saída do Egipto, a festa da Páscoa,
não sabendo, que afinal, a verdadeira Páscoa
eras Tu, Senhor Jesus!

Assim o compreendeu o pequeno grupo que ficou ali
bem perto da Cruz, para Te darem uma sepultura condigna.
José de Arimateia era dono de um horto
perto do Calvário e é para lá que levam o Teu Corpo Santo
para o depositarem num sepulcro que ele mesmo mandar abrir.
Retiraram-Te a coroa do ultraje e alguns dos espinhos
que se haviam cravado mais fundos na Tua carne sofredora
e fecharam as bocarras dos pregos.

É então que se aproxima Nicodemos
e apresenta os perfumes
que ele mesmo tinha comprado numa das lojas da cidade.
É com eles que lavam e preparam o Teu Corpo.
Tudo isto com a ajuda de Tua Santa Mãe, de Maria Madalena
 e de Maria, mãe de José e Tiago.
Por fim fecharam o sepulcro.

Já, entretanto, a noite funda caíra...
como viria a cair sobre o drama um grande silêncio,
quando todos se retiram, seguindo a Mãe Dolorosa,
findas as orações.

De manhã bem cedo, chega um pelotão de soldados...
porque Tu, Senhor, segundo o relato que os sinedritas
fizeram ao Procurador Pilatos,  havias dito,
que ressuscitarias ao terceiro dia!
É por isso que estão ali os soldados.
Para selarem com a marca do Sinédrio o sepulcro...
e para o guardar!

Aquela gente, Senhor, nada entendeu de Ti
e daquilo que dizias.
Eram rudes e duros de compreensão.
Mataram-Te, Senhor,
e com esta guarda ao Teu Corpo
queriam evitar que ressuscitasses...
um facto transcendente que viria a acontecer
tal como havias predito,
três dias depois!

No entanto,
a Tua Alma já iluminava o Mundo
com a Luz da Salvação.
O Teu precioso Sangue derramado,
começara já o seu trabalho da redenção.
E assim será para sempre.

A Tua doutrina ficará como a Luz maior
sobre a face da Terra,
porque inauguraste
com a Tua morte gloriosa
o Reino messiânico
prometido por Deus
desde o princípio dos tempos.



Domingo de Ramos - 13 de Abril de 2014 - Ano A


Naquele tempo, Jesus foi levado à presença do governador Pilatos, que lhe perguntou: «Tu és o Rei dos judeus?». Jesus respondeu: É como dizes». Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. Disse-Lhe então Pilatos: «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?». Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a ponto de o governador ficar muito admirado. Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. E, quando eles se reuniram, disse-lhes Pilatos: «Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?». Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja. Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer: «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele». Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. O governador tomou a palavra e perguntou-lhes: «Qual dos dois quereis que vos solte?». Eles responderam: «Barrabás». Disse-lhes Pilatos: «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?». Responderam todos: «Seja crucificado». Pilatos insistiu: «Que mal fez Ele?». Mas eles gritavam cada vez mais: «Seja crucificado». Pilatos, vendo que não conseguia nada e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco». E todo o povo respondeu:  «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos». Soltou-lhes então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para ser crucificado. Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta d’Ele toda a coorte. Tiraram-Lhe a roupa e envolveram- n’O num manto vermelho. Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo: «Salve, Rei dos Judeus!». Depois, cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado. Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois  de o provar, não quis beber. Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardál’O. Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo: «Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz». Os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e os anciãos, também troçavam d’Ele, dizendo: «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele. Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se O ama, porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’». Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam. Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: «Eli, Eli, lemá sabactáni?», que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram: «Está a chamar por Elias». Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber. Mas os outros disseram: «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O». E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou. Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram: «Este era verdadeiramente Filho de Deus». (Mt - forma breve - 27, 11-54)



Tu, que entraste em Jerusalém, 
aplaudido
e ouviste o povo a cantar hossanas
e a dizer com alegria:
"Bendito o que vem em nome do Senhor"
não tardaria que ouvisses o contrário
e em fúria, o grito dirigido a Pilatos:
"Seja crucificado".

E cobriram-Te de chagas.
Desnudaram-Te, cobrindo o Teu Corpo
com o Teu próprio Sangue,
sem cuidar que na morte que Te deram
Te coroaram Rei
de Coração e de braços abertos
não só para o Teu povo,
mas para aquele que Te crucificou.

Um Rei para todos os homens!

E foi tudo muito depressa.
Em breve tempo, Senhor Jesus,
tiveste o acolhimento amigo
e a rejeição do ódio.
E são estas duas atitudes,
que desde então, passaram a assinalar
o Mistério Pascal iniciado neste Domingo.

O que eles não sabiam é que havia de ser, 
da humilhação que sofreste, que havia de surgir 
a Tua Vitória sobre o poder da morte.
O que eles não sabiam
é que ficaste Vivo para sempre!

domingo, 13 de abril de 2014

Um dos arrependidos...




Em entrevista, hoje, à TSF o reeleito Presidente da Confederação Empresarial de Porugual (CIP) António Saraiva declarou que não assinaria, o "Manifesto dos 70", dada a politização que aquele documento sofreu.

Criticado pelos seus antecessores, António Saraiva - manda a verdade dizer - foi um daqueles nomes que causou estranheza ter acedido, ao assinar o referido "Manifesto" que é, concerteza, um ariete político lançado contra o Governo de Passos Coelho, com a agravante de ser um documento anti-nacional, porque a reestruturação da dívida mais não é que um pedido de perdão da mesma, e por isso, constituiu um mau serviço à credibilidade nacional.
Quem pede tem de pagar, ao contrário do que encapotadamente é sugerido naquele documento, que é uma vergonha nacional, especialmente, pelo momento em que surgiu.

António Saraiva, de algum modo, está arrependido e hoje não assinaria aquele documento.
Mas, então, ele não sabia que aquilo era documento político, ou melhor dizendo, de política caloteira? 
Como ele, haverá outros arrependidos.
Espera-se que tenham a honradez de o dizer como ele o fez.
Erros, todos cometemos.
Repor a verdade do erro é mais difícil. É algo que não está ao alcance de todos!
Criticando o seu gesto, não posso deixar de o felicitar, agora que viu o lamaçal onde pôs os pés com a assinatura da sua mão.


sábado, 12 de abril de 2014

A "mulher da fava rica"



Captura de imagem do Arquivo Municipal de Lsboa


O pregão  "fava-riiiiiica" que enchia determinadas ruas de Lisboa extinguiu-se com o início do século XX. 
Era cantado por mulheres que em plena rua vendiam esta saborosa sopa muito do apreço popular, nutritiva e rica pelo elevado teor de proteínas.
A sopa era cozinhada a partir da fava seca que era colocada um dia inteiro de molho e que depois de cozida era refogada com azeite, alhos e pimenta e sal q.b.
Constituiu a sua venda um dos últimos pregões de Lisboa.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Os mestres calceteiros



Foto do Arquivo Municipal da Câmara Municipal de Lisboa


Foi em tempos uma dura profissão, bem documentada na velha gravura representando um grupo de calceteiros entregues à tarefa de calçar as ruas com os paralelipípedos de granito com os quais chagaram a encher uma grande parte de Lisboa, em que a força dos braços partia, colocava e ajeitava  a pedra sobre a base de areia ou caliça, na posição incómoda - de còcoras e até de joelhos - para depois a calcarem com o peso dos grossos e pesados maços de madeira que ao fim do dia eram um motivo de cansaço, mas também de alegria pelo trabalho realizado.

Esta velha profissão - que hoje sofre o seu esbatimento por força dos  tapetes betuminosos que cobrem as ruas e avenidas não está extinta , devendo, até a arte que encerra e é um ex-libris de Lisboa, merecer a atenção dos responsáveis - mereceu na época, pela dureza do trabalho que era levado a cabo, que o Poeta Cesário Verde lhe dedicasse uma agrande parte do poema "Cristalizações", onde lemos e meditamos:


Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de ar, como em chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra - que união sonora! -
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam-se com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.
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Bom observador desta e outras profissões citadinas, o Poeta começa pelo relato da posição em que os calceteiros trabalhavam - de cócoras e alinhados - sem deixar de referir a lentidão do trabalho motivada pelo acasalamento das pedras.
Ao dar-lhes o apodo de terrosos, pela sujidade do trabalho, quis Cesário dizer que os calceteiros se confundiam com o solo.
Mas não se pense que o termo grosseiros era um acinte ou um precipitado julgamento do operário que ele imortalizou com a sua poesia - algo que Cesário nunca faria - mas, antes, porque, o aspecto espelhava a rudeza do trabalho que as suas mãos reflectiam à saciedade deixando ver a marca do esforço e, até, quantas vezes o desalinhamento dos ossos.

Maravilhosas mãos grosseiras que atapetaram as ruas da cidade!

Cesário que foi um observado atento e dedicado ao cantar os rapagões calceteiros deixou deles um retrato fiel, que pela beleza da forma e da autenticidade, repetimos, para que ao relembrá-lo, meditemos nestes esforçados trabalhadores: 

(...) E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

Grande homenagem ao calceteiro fez Cesário Verde, cuja coluna nunca se endireita!
Muito pequena é a minha homenagem. 
Mas fica feita.