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quinta-feira, 10 de abril de 2014

O engraxador


Engraxador
Captura de foto do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa


De acordo com a ficha idetificadora a foto reporta-se ao ano de 1948 e fi seu autor o fotógrafo Pozal, Fernando Martinez (1899-1971) e como local uma rua de Lisboa, não declarada.

O engraxador foi uma figura típica dos bairros lisboetas que percorreu de caixa ao ombro, com a sapateira entalada no ombro nas suas deslocações para os lugares estratégicos de todos conhecidos.
A profissão - que o chegou a ser, até a ser exercida em lojas com alguma profusão - está, hoje, em vias de extinção, restando, apenas, os que na gíria popular bajulam os chefes e quejandos, baptizados por "engraxadores", por puxarem o "lustro" da lisonja fácil e desleal, na mira de atingirem inconfessáveis benesses.
Restam, pois, esses, que os simpáticos e antigos profissionais são uma raridade nas ruas de Lisboa.
Prestemos atenção aos versos de António Aleixo dedicados aos tais, que continuam e hão-de continuar a existir enquanto a sociedade não crescer um pouco mais na moral e na honra, coisas sérias da cidadania, que eles não se coíbem de ofender a qualquer passo.

São estes os "engraxadores" do poeta algarvio:

Engraxadores sem caixa
Há aos centos na cidade
Que só usam da tal graxa
Que envenena a sociedade.

        

A diligência para Carnaxide



Diligência para Carnaxide em 1908


Captura de imagem do vol. I - nº 3 do Boletim Cultural e Estatístico 
da Câmara Municipal de Liboa referente aos meses Julho/Setembro de 1937


É uma foto histórica bem demonstrativa de como na época se vencia o trajecto entre a planura de Algés e a serra da Carnaxide, que na então gozava de grande fama popular advinda de ter ser construida em 1893 a Igreja de S. Romão em honra de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, que segundo a lenda teria aparecido numa gruta no ano de 1822.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Pedindo para as almas



Título da foto: Pedindo para as almas
  captura de uma imagem do arquivo fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa 

De acordo com a ficha documental da CML,  a foto pertence a fotógrafo não identificado e foi executada em 1900, apresentando a Rua da Esperança - tendo ao centro da foto a casa onde viveu o Almirante Gago Coutinho  - e a Calçada do Marquês de Abrantes, ambas da freguesia de Santos - o - Velho, vendo-se o seguinte equipamento urbano: o marco do correio, o pilarete circular de cantaria, o gradeamento de ferro e o característico candeeiro de iluminação pública, da época.
Os dois tipos populares são distintos quanto ao trajes e posturas, apresentando o elemento activo - o que pede para as almas, de saco na mão - envergando o traje que o identifica como alguém pertencendo a uma qualquer Irmandade eclesial e o outro, de traje vulgar identificado como um homem comum, com ar de quem ouve e reflecte sobre o pedido que lhe é feito.


Pedir esmola para as almas do Purgatório em público como a foto demonstra, acontecia em Lisboa, ainda no início do século XX, cumprindo-se na cidade o antigo hábito que era comum no interior do País. Hoje, este peditório está completamente abandonado, reportando-se ao interior dos Templos, salvo as raras excepções que continuam a acontecer.

Acontecia, normalmente, no tempo da Quaresma,  a um dos Domingos do Tempo Pascal.

Independentemente da esmola em dinheiro, nas vilas e aldeias havia a oferta de géneros alimentícios já confeccionados ou produtos das hortas, como milho e trigo.
O produto das espécies era depois vendido em hasta pública nos adros das Igrejas e o resultante do leilão era entregue aos Párocos que o anunciavam às comunidades paroquiais, destinando-o à celebração de missas pelos fiéis defuntos.

Não nos pareça, hoje, esta acção um desconchavo, porque manda a racionalidade do homem situar-se em cima do tempo que passou e respeitar os hábitos e os compromissos que neles coabitavam. 
Era assim naquele tempo: um profundo respeito pelas almas dos falecidos em que esta - espírito que é - era considerada imagem de Deus em detrimento do corpo, porquanto, na linha eclesial, o corpo não é imagem de Deus, porque sendo Deus um puro Espírito não tem corpo.
É, ainda, assim, no tempo actual.
Se se abandonou, ou quase, o hábito de pedir para as almas no espaço público, o povo crente continua a ter pelas almas a certeza que elas sobreviveram ao poder da morte corporal.

Tenhamos, pois, presente, que o nosso corpo é perecível enquanto a alma subsistirá na eternidade e que as Missas que se celebram pelos falecidos reflectem que a alma - sem nunca deixar de existir - pode ter perdido a graça santificante e estar espiritualmente morta. Tome-se como exemplo um ramo cortado do tronco da árvore; existe, mas está morto, pelo que para voltar a receber a seiva tem de ser enxertado, assemelhando-se esta operação do agricultor à Missa celebrada pelo Padre por intenção da alma.


Os senhores mandantes... a mando de quem?



Captura (parcial) de uma foto de Negócios, online
dia 9 de Abril de 2014

Estes senhores foram hoje recebidos pelo Primeiro-Ministro, Passos Coelho, com o fim de entabularem discussão sobre o  aumento do salário mínimo nacional, de acordo com a promessa aventada pelo Chefe do Governo, recentemente.

No fim, após a reunião, declararam aos jornalistas que a discussão para aquele efeito só deve ocorrer no mês de Junho!!!! Exorbitaram, mas já se esperava.
Das bandas dos arregimentados com o PS - e a UGT não se livra de o ser - a concertação social, não é para quando o Governo quer, mas para o tempo que eles querem impor!

“Não entramos em folclore eleitoral”. Aos jornalistas, o responsável da UGT referiu que Passos Coelho quer um acordo antes de 17 de Maio – data oficial do fim do programa de assistência – “para agradar aos mercados internacionais”.
Depois, desta ferroada - Portugal não há meio de ser um País adulto - o Sr. Carlos Silva acrescenta: “Necessitamos urgentemente de dinamizar a negociação colectiva”.

Mas que mandato têm estes senhores, para imporem a um Governo sufragado em eleições democráticas o seu calendário?
E fica esta pergunta:
Se entendiam que só em Junho é o tempo para discutirem o assunto com o Governo, por que foram a S. Bento?
Certamente não foram ver os jardins e o palácio governamental.
Não, senhor.
Foram como diz o povo - com ela fisgada - para arranjarem um motivo de saírem nos jornais e nas televisões, na ânsia do estrelato mediático de serem notícia... o que conseguiram, sem no entanto, terem acrescentado um côvado às suas estaturas...

É o jogo político que já chegou aos Sindicatos, sobretudo, quando eles não são verdadeiramente independentes, como deviam ser. Mas isto só vai acontecer em Portugal num outro tempo, quando, no conjunto - todos nós - tivermos um palmo a mais...

terça-feira, 8 de abril de 2014

O poder público


Movido pela profunda convicção de que à Igreja compete não só o direito, mas o dever de pronunciar uma palavra autorizada sobre as questões sociais, Leão XIII dirigiu ao mundo a sua mensagem. Não que ele pretendesse estabelecer normas sob o aspecto puramente prático, quase diríamos, técnico, da constituição social; porque bem sabia, e era para ele evidente, que a Igreja não se arroga tal missão - como declarou, há um decénio, nosso predecessor de saudosa memória, Pio XI, na sua encíclica comemorativa “Quadragesimo anno” .- Na esfera geral do trabalho abre-se ao desenvolvimento são e responsável de todas as energias físicas e espirituais dos indivíduos, às suas organizações livres, um vastíssimo campo de acção multiforme, onde o público poder intervém com a acção integrante e ordenadora, primeiro por meio das corporações locais e profissionais, depois por força do próprio Estado cuja suprema e moderadora autoridade social tem o importante oficio de prevenir as perturbações de equilíbrio económico nascidas da pluralidade e dos contrastes dos egoísmos concorrentes, individuais e colectivos.

Ao contrário é indiscutível competência da Igreja, da qual a ordem social se aproxima e atinge o campo moral, ao julgar se as bases de uma determinada organização social estão em acordo com a ordem imutável, que Deus Criador e Redentor manifestou por meio do direito natural e da revelação: dupla manifestação a que se refere Leão XIII na sua encíclica. E muito bem: porque os ditames do direito natural e as verdades da revelação promanam por diversos trâmites da mesma fonte divina como duas correntes de água não contrárias, mas concordes; e porque a Igreja, guarda da ordem sobrenatural cristã em que concorrem a natureza e a graça, deve formar as consciências, inclusive as daqueles que são chamados a encontrar as soluções dos problemas e deveres impostos pela vida social.(…) (nºs 4 e 5 da Radiomensagem na Solenidade do Pentecostes do Papa Pio XII - 1 de Junho de 1941 -  no 50º aniversário da Carta Encíclica “Rerum Novarum” de Leão XIII. Nota: Os sublinhados são nossos.



Comentário: O  poder público dimana dos Órgãos do Estado devidamente legitimados devendo actuar no estrito respeito pelos cidadãos em conformidade com a moral social e natural que norteia a sociedade, algo que mereceu a C. Lahr, esta definição: é um todo que se pode comparar ao organismo. Também ela se compõe de membros que são como a matéria desse organismo e dum princípio que é como a alma: a autoridade.

Depreende-se, que sendo a autoridade querida por Deus como uma necessidade natural, esta se radica em ordem à ordenação do bem comum ao próprio Estado que deve agir no âmbito da sua moderadora autoridade social  com o fim de prevenir as perturbações de equilíbrio económico nascidas da pluralidade e dos contrastes dos egoísmos concorrentes, individuais e colectivos.

Foi esta a asserção cheia de sentido do Papa Pio XII, que hoje, como então, leva a Igreja a chamar a si o dever da sociedade agir de acordo com a ordem imutável determinada por Deus e de que se faz eco o salmista: Assim observarei de contínuo a tua lei para sempre e eternamente. (Sl 118, 44), porquanto as directivas do direito natural que sendo absoluto perante Deus, torna-se relativo perante a justiça criminal ou meramente humana, tornando lícita, a actuação do poder público em ordem à defesa do cumprimento do dever que é por si mesmo o verdadeiro sentido deste direito.

Ao invés, na ordem da graça o poder natural ao responder perante Deus na consciência de cada homem - com mais ênfase, a partir da Revelação -  pode e deve tornar-se uma parcela activa, influenciando a soma concertada do dever divino a agir no humano para que resulte daqui o desejo manifestado pela Igreja em formar as consciências, inclusive as daqueles que são chamados a encontrar as soluções dos problemas e deveres impostos pela vida social, tornando, por este facto, altamente responsáveis todos os homens que se dispõem a tomar sobre os seus ombros a tarefa do cumprimento da justiça que enforma o poder público, tornando-o numa escola de virtudes.

È este o desafio que temos pela frente, tendo na devida conta as palavras iniciais do texto de Pio XII: Movido pela profunda convicção de que à Igreja compete não só o direito, mas o dever de pronunciar uma palavra autorizada sobre as questões sociais, o Papa Leão XIII, ao reivindicar este propósito para o Magistério petrino, com a sua atitude desafiou o poder público instituído ao cumprimento do equilíbrio da sociedade na pluralidade social em que ela se movimenta

A nobreza do exercício político


(…) A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana. No domínio próprio de cada uma, comunidade política e Igreja são independentes e autónomas. Mas, embora por títulos diversos, ambas servem a vocação pessoal e social dos mesmos homens. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação, tendo igualmente em conta as circunstâncias de lugar e tempo. Porque o homem não se limita à ordem temporal somente; vivendo na história humana, fundada sobre o amor do Redentor, ela contribui para que se difundam mais amplamente, nas nações e entre as nações, a justiça e a caridade. Pregando a verdade evangélica e iluminando com a sua doutrina e o testemunho dos cristãos todos os campos da actividade humana, ela respeita e promove também a liberdade e responsabilidade política dos cidadãos. (nº 76 da Constituição “Gaudium et Spes”) Nota: os sublinhados são nossos.


Comentário: Subordinado ao tema  “A Importância da  Boa Vontade”, Albert Einstein em “in, Discurso-1948”, num dado passo declarou: (…) devemos estar hoje claramente conscientes do peso que uma pequeníssima justificação e uma boa vontade honesta podem exercer sobre os acontecimentos na vida política. Mas, independentemente disso, e independentemente do nosso destino, podemos estar certos de que sem os esforços incansáveis daqueles que estão preocupados com o bem-estar da humanidade como um todo a maioria da espécie humana estaria muito pior do que se encontra realmente agora.
O grande cientista acusado de ateísmo e, até, de lançar dúvidas sobre Deus, não deixou de seguir nesta prelecção um pensamento religioso ao proferir estas palavras onde deixou entrever o quanto as linhas da religião e da ciência são complementares uma da outra. Eis, porque,a Igreja saída do Vaticano II ao assumir-se como sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana, encaminha os seus fiéis para que sintam nas palavras de Einstein - e noutras semelhantes de ontem ou de hoje - um clarão espiritual em cima da sombra que passa.

Efectivamente, se nos lembramos das palavras do cientista, ele disse: sem os esforços incansáveis daqueles que estão preocupados com o bem-estar da humanidade como um todo, a maioria da espécie humana estaria muito pior do que se encontra realmente agora, o que faz haver nestas palavras ressonâncias de Deus, porquanto, sem a boa vontade honesta que vista por qualquer ângulo tem sempre ressaibos do Evangelho se for posta ao serviço da política, esta a quem cabe gerir a res publica como a Igreja, a quem cabe a difusão da doutrina dos Evangelhos, têm caminhos independentes e autónomos mas são convergentes em relação ao bem do homem.

 Mas isto não acontece se ao invés da boa vontade, imperarem a desordem e a imoralidade sem respeito pela dignidade humana, porque o que resulta é o abastardamento da sociedade e, com ele, a falta de amor pelo progresso caldeado no cadinho onde se “misturam” os homens de boa vontade que gerem a política e aqueles que gerem os destinos da Igreja, porque - como diz o Texto do Vaticano II, ambas as realidades servem a vocação pessoal e social dos mesmos homens.
Era extremamente urgente que os homens do nosso tempo, sobretudo, os políticos tomassem consciência destas verdades para deixarmos de dar alguma razão a Eça de Queirós que em 1867 no jornal “Distrito de Évora” dizia que em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.

Há honrosas e gratificantes excepções a esta asserção azeda, todos o sabemos, mas falta percorrer, ainda, muito caminho. Assim, que os homens não se limitem, como diz o texto a viver, somente, a ordem temporal, mas que todos vivam sobre o amor do Redentor para que a justiça e a caridade - e a moralidade -  caminhem juntas nos campo políticos e, deles saiam como emanação natural para o comum dos cidadãos, na certeza que há-de ser no exercício da boa vontade que temos - sociedade civil e Igreja- de definir os caminhos da liberdade e responsabilidade política dos cidadãos.

A dignidade de ser mulher



 (…) Em diversos países está sendo objecto de constante procura e, por vezes, mesmo de reivindicações enérgicas, um estatuto da mulher, o qual faça cessar a efectiva discriminação existente e estabeleça relações de igualdade nos direitos e de respeito pela sua dignidade. Não falamos, obviamente, daquela falsa igualdade que negasse as distinções estabelecidas pelo mesmo Criador e que estivesse em contradição com o papel específico e, quantas vezes capital, da mulher no coração do lar e, também na sociedade. A evolução das legislações deve, ao contrário, orientar-se no sentido de proteger a sua vocação própria e, ao mesmo tempo, de reconhecer a sua independência, enquanto pessoa, e a igualdade dos seus direitos a participar na vida cultural, económica, social e política. (Carta Apostólica “Octogésima Adveniens” do Papa Paulo VI ao Cardeal Maurício Roy, Presidente do Conselho dos Leigos e da Pontifícia Comisão “Justiça e Paz”, no 80º aniversário da Encíclica “Rerum Novarum”)


Comentário: O texto que se reproduz faz parte do nº 13 da “Carta Apostólica” e é antecedido duma reflexão do Papa Paulo VI sobre a juventude quanto às suas aspirações de renovação, a que se segue o texto dedicado à mulher, quanto ao estabelecimento de relações de igualdade, conforme o preceituado pela doutrina católica, não daquela falsa igualdade que se podem situar a partir  da publicação em 1960 do livro “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir e assumido pelo movimento feminista - marcadamente político - que advoga que a hierarquização dos sexos é uma construção social e não a uma questão biológica, e em última análise, afirmam que a condição da mulher na sociedade foi uma construção da sociedade patriarcal.

Sem se negar que existe razão quanto aos maus tratos sofridos pela mulher, como a que adveio com o advento do capitalismo, mormente com a Revolução Industrial em que ao adquirir postos de trabalho se sentiu explorada, isso - que foi uma realidade e uma nódoa social -  não implica que se queira de uma forma intelectual e teórica desnaturalizar a ideia da diferença entre os géneros, que é entendível quanto aos direitos, mas não assim, quanto à natural diferenciação natural, algo que não é considerado pelo feminismo, porque agem no sentido de modificar a concepção de que a mulher não é mais frágil que o homem.

Eis, porque, Paulo VI chama a atenção para a falsa igualdade contraposta à Criação e, em consequência - assinala com esmero o seguinte - em contradição com o papel específico e, quantas vezes capital, da mulher no coração do lar e, também na sociedade, como está a acontecer no tempo que passa, onde a mulher encontrou a carta de alforria, que a faz participar activamente na construção da sociedade, a par da dignidade que é dada ao homem, pela participação empenhada da sua acção, de acordo com a nova concepção da sociedade, mas longe dos estafados feminismos que tenderam, como o fim, colocar a mulher contra o homem,

Jacques Leclercq (1891-1971), no seu livro: “A Família”, sobre este assunto aborda-o do seguinte modo: Todos os seres humanos são iguais, com uma igualdade de natureza que lhes confere a mesma nobreza, o mesmo direito de alcançarem o seu fim próprio e de utilizarem os meios necessários para o conseguirem, para concluir num passo adiante: Mas esta igualdade fundamental combina-se com uma desigualdade acidental: desigualdade de dons da natureza (…) e isto pressupõe, apenas - o que é visível quanto à morfologia do ser  único e irrepetível, enquanto obra-prima da Criação.

E depois, acrescenta esta asserção.
O ser humano encontra-se na terra para cumprir uma missão; cada qual deve ocupar o seu lugar na obra do género humano, obra de progresso humano ou de civilização. Cada qual deve ocupar o lugar correspondente à sua capacidade. Tanto a mulher como o homem. Cada mulher como cada homem.
Temos, assim, que o pensador espiritualista ao afirmar, convictamente, que a sensibilidade da mulher está acima da do homem e, como tal, lhe está destinado um desempenho da máxima importância familiar e social - o que é uma evidência natural pelo facto de ter em grau superior  a inteligência ligada àquela qualidade congénita - este facto que lhe faz apurar a intuição, pode intuir-se, não passou  despercebido ao Papa Paulo VI no texto a que fazemos referência, levando-o a exortar o poder legislativo, quanto è necessidade de proteger a sua vocação própria e, ao mesmo tempo, de reconhecer a sua independência, enquanto pessoa, e a igualdade dos seus direitos a participar na vida cultural, económica, social e política.

Não valem, portanto, como norma os feminismos virulentos, mas, o amor, filho da assunção natural das diferenças, que afinal, complementam os dois seres - homem e mulher - e lembrar como fecho, os dois últimos versos do famoso poema de Victor Hugo:  “O Homem e a Mulher”, que nos dizem que o homem está colocado onde termina a terra / a mulher, onde começa o céu.
E, assim, exaltemos a mulher que pela sua natureza é a matriz de todos os homens, tornando-se senhoras do Ó e senhoras da expectação, bem parecidas com Nossa Senhora, Mãe de Jesus.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Supérfluo é o bem do avaro!



O dever de solidariedade é o mesmo, tanto para as pessoas como para os povos: "é dever muito grave dos povos desenvolvidos ajudar os que estão em via de desenvolvimento". É necessário pôr em prática este ensinamento do Concílio. Se é normal que uma população seja a primeira a beneficiar dos dons que a Providência lhe concedeu como fruto do seu trabalho, é também certo que nenhum povo tem o direito de reservar as suas riquezas para seu uso exclusivo. Cada povo deve produzir mais e melhor, para dar aos seus um nível de vida verdadeiramente humano e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento solidário da humanidade. Perante a indigência crescente dos países subdesenvolvidos, deve considerar-se normal que um país evoluído dedique uma parte da sua produção a socorrer as suas necessidades; é também normal que forme educadores, engenheiros, técnicos e sábios, que ponham a ciência e a competência ao seu serviço
Repetimos, mais uma vez: o supérfluo dos países ricos deve pôr-se ao serviço dos países pobres. A regra que existia outrora em favor dos mais próximos, deve aplicar-se hoje à totalidade dos necessitados do mundo inteiro. Aliás, serão os ricos os primeiros a beneficiar-se com isto. De outro modo, a sua avareza continuada provocaria os juízos de Deus e a cólera dos pobres, com consequências imprevisíveis. Concentradas no seu egoísmo, as civilizações actualmente florescentes lesariam os seus mais altos valores, sacrificando a vontade de ser mais, ao desejo de ter mais. E aplicar-se-ia a parábola do homem rico, cujas propriedades tinham produzido muito e que não sabia onde guardar a colheita: "Deus disse-lhe: néscio, nesta mesma noite virão reclamar a tua alma". (nºs 48 e 49 da Carta Encíclica “Populorum Progressio” do Papa Paulo VI - sobre o Desenvolvimento dos Povos) Nota: Os sublinhados são nossos.



Comentário: Antes de nos determos sobre a consideração de supérfluo, detenhamo-nos sobre a solidariedade, comummente aceite como uma das leis fundamentais da humanidade, obrigando todos os homens a serem membros do mesmo corpo social de que cada um faz parte e, desse modo, embora vivendo cada um para si mesmo, tem o dever de pensar no bem da colectividade, sendo por aqui que passa o caminho traçado pelo ensinamento do Concílio, de que nos fala Paulo VI.

Em traços largos é neste cadinho de amor humano onde se devem fundir os “metais” que no fim se devem traduzir como um produto acabado e fundamento moral social, recebendo-se os proveitos da sociedade, sem contudo, se enjeitar os deveres, que mais não são que os encargos, algo que se enquadra neste pedaço nobre da prosa do Vaticano II, quando nos diz que se é normal que uma população seja a primeira a beneficiar dos dons que a Providência lhe concedeu como fruto do seu trabalho, é também certo que nenhum povo tem o direito de reservar as suas riquezas para seu uso exclusivo.

Tudo isto radica nesta asserção: todo o homem que por si mesmo nada vale, precisando, por isso, da sociedade para se realizar, mas ao atingir a meta procurada é um devedor líquido da mesma sociedade que o fez engrandecer, seja porque aspecto for, razão suficiente para que, a partir do indivíduo, tal facto, tenha a correspondência ao nível das Nações, das mais frágeis às mais poderosas.

E é, neste ponto, a não ser atendido - julgando-se quer o indivíduo quer a Nação mais próspera sempre credores e nunca devedores - que temos de atender ao facto pecaminoso do supérfluo, enquanto riqueza acumulada sem proveito para ninguém, a começar pelos que a usam avaramente, razão suficiente e válida sob qualquer aspecto e que levou o Papa Paulo VI a dizer que o supérfluo dos países ricos deve pôr-se ao serviço dos países pobres, chegando a declarar solenemente, como podemos ler, que serão os ricos os primeiros a beneficiar-se com isto. De outro modo, a sua avareza continuada provocaria os juízos de Deus e a cólera dos pobres, com consequências imprevisíveis.

Como todas as palavras têm o seu peso, esta devia pesar do seguinte modo: supérfluo é tudo o que é demais, o que é desnecessário, inútil e, sobretudo, de sobejo, que  pode ser um bem para o avaro, mas é o gerador do mal que corrói o tecido social.
E vem à colação citar Fernando Namora, in “Sentados na Relva” quando afirma: o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal não provém da privação mas do supérfluo, o que, enfim, não há grandeza onde não haja verdade e desapego pelo efémero.
Que este tempo de Natal, em que - graças a Deus - a solidariedade surge como um dos bens preciosos, não deixe instalar como erva daninha aquilo que é supérfluo e de que ninguém aproveita. 


O "bem comum"



Nota: os sublinhados nos textos do Magistério da Igreja são nossos.

A premuni-los contra estes falsos princípios, com que a si próprios fechavam o caminho da justiça e da paz, deviam bastar as palavras sapientíssimas do Nosso Predecessor : «de qualquer modo que seja distribuída entre os particulares, não cessa a terra de servir à utilidade pública». O mesmo ensinámos Nós pouco antes, quando declarávamos, que a própria natureza exige a repartição dos bens em domínios particulares, precisamente a fim de poderem as coisas criadas servir ao bem comum de modo ordenado e constante. Este princípio deve ter continuamente diante dos olhos, quem não quer desviar-se da recta senda da verdade.
Ora nem toda a distribuição dos bens ou riquezas entre os homens é apta para obter totalmente ou com a devida perfeição o fim estabelecido por Deus. E necessário que as riquezas, em contínuo incremento com o progresso da economia social, sejam repartidas pelos indivíduos ou pelas classes particulares de tal maneira, que se salve sempre a utilidade comum, de que falava Leão XIII, ou, por outras palavras, que em nada se prejudique o bem geral de toda a sociedade. Esta lei de justiça social proíbe, que uma classe seja pela outra excluída da participação dos lucros. (Cap.II “Autoridade da Igreja na questão social e económica” da Carta Encíclica “Quadragésimo Anno” Pio XI

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Não há dúvida de que, numa nação, a organização jurídica, ajustada à ordem moral e ao grau de maturidade da comunidade política, é elemento valiosíssimo de bem comum.
Mas hoje em dia a vida social é tão diversa, complexa e dinâmica que a organização jurídica, embora elaborada com grande competência e larga visão, muitas vezes parecerá inadequada às necessidades.
Além disso, as relações das pessoas entre si, as das pessoas e organismos intermediários com os poderes públicos, como também as relações destes poderes entre si no seio de uma nação, apresentam por vezes situações tão delicadas e nevrálgicas que não se podem enquadrar em termos jurídicos bem definidos. Faz-se mister, pois, que, se as autoridades quiserem permanecer, ao mesmo tempo, féis à ordem jurídica existente, considerada em seus elementos e em sua inspiração profunda, e abertas às exigências emergentes da vida social, se quiserem, por outro lado, adaptar as leis à variação das circunstâncias e resolver do melhor modo possível novos problemas que surjam, devem ter ideias claras sobre a natureza e a extensão de suas funções. Devem ser pessoas de grande equilíbrio e rectidão moral, dotadas de intuição prática para interpretar com rapidez e objectividade os casos concretos, e de vontade decidida e forte para agir com tempestividade e eficiência. (Encíclica “Pacem in Terris” nºs 70 a 72). João XXIII

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Comentário:  O bem comum teve no profeta Amós (VIII séc. a. C) o primeiro paladino bíblico ao denunciar a palavra maliciosa dos maus comerciantes Quando passará a lua nova, para vendermos o grão e o sábado, para expormos o trigo, diminuindo a medida, e aumentando o preço, e procedendo dolosamente com balanças enganadoras? (Am 8, 5) entroncando-se, assim, estas atitudes desonestas na citação a quer alude o Papa Pio XI:  não cessa a terra de servir à utilidade pública, razão porque, tendo a terra que gera o grão de trigo, sido criada por Deus para servir a comunidade, desde logo, não podem servir-se dela - sem pensar no bem comum -  os falsários que colocam acima de tudo e de todos os seus interesse imediatos, quando a repartição dos bens deveria ter em conta  a utilidade comum, tanto a nível individual como ao nível das nações como refere o Papa João XXIII , chamando a atenção para a necessidade social  em atenção ao bem geral, destas se organizarem avisadamente,  na ordem jurídica e no devido respeito pela moral, por forma a que - no conjunto - haja uma resposta adequada às inquietações e necessidades dos seus naturais, devendo, por isso,  a classe política ter ideias claras sobre a natureza e a extensão de suas funções.
É aqui que bate o ponto. Nas sociedades hodiernas - como a nossa - os políticos eleitos por  sufrágio e a quem incumbe a produção das leis, continuam, com honrosas excepções, a não fazer caso deste aviso sábio do Papa que a Igreja se prepara para canonizar no próximo dia 27 de Abril. 

A palavra caridade



(…) Quanto à Igreja, a sua acção jamais faltará por qualquer modo, e será tanto mais fecunda, quanto mais livremente se possa desenvolver.
Nós desejamos que compreendam isto sobretudo aqueles cuja missão é velar pelo bem público. Empreguem neste ponto os Ministros do Santuário toda a energia da sua alma e generosidade do seu zelo, e guiados pela vossa autoridade e pelo vosso exemplo, Veneráveis Irmãos, não se cansem de inculcar a todas as classes da sociedade as máximas do Evangelho; façamos tudo quanto estiver ao nosso alcance para salvação dos povos, e, sobretudo, alimentem em si e acendam nos outros, nos grandes e nos pequenos a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes. Portanto, a salvação desejada deve ser principalmente o fruto duma grande efusão de caridade, queremos dizer, daquela caridade que compendia em si todo o Evangelho, e que, sempre pronta a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro contra o orgulho e o egoísmo do século. Desta virtude, descreveu S. Paulo as feições características com as seguintes palavras: “A caridade é paciente, é benigna, não cuida do seu interesse; tudo sofre; a tudo se resigna” (nº 35 da Carta Encíclica “Rerum Novarum”) Nota: os sublinhados são nossos.


Comentário: Camilo Castelo Branco escreveu, possivelmente, num dos raros intervalos da sua atribulada vida o livro “Horas de Paz - escritos religiosos”, dedicando o cap. V ao tema da caridade, onde afirma: Esta virtude, considerada o amor a Deus e o amor do próximo, é a mais excelente de todas as virtudes (…) a esperança cessará quando os prazeres esperados se converterem na dulcíssima realidade das delícias celestes; mas a “caridade subsistirá eternamente” como diz S. Paulo (1ª Cor. 13, 8), por ser senhora e rainha de todas as virtudes, como, mais tarde, acentuaria o Papa Leão XIII, o que nos leva a concluir que a salvação prometida por Deus a todos os homens tem de ter como base primeira e fundamental a assunção da caridade que compendia em si todo o Evangelho, ou seja, amar a Deus na linha do profetismo do AT e, de um modo especial, seguir a pregação de  Jesus e dos seus Apóstolos.

A virtude da caridade representa a acção altruísta de fazer o bem sem esperar recompensa, como a Palavra defende: Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita (Mt 6, 3), donde deriva ser a caridade a essência do cristianismo, algo que levou S. Paulo a menorizar todas as suas obras se nelas não entrasse como perfume de Deus a caridade, porque não estando vivificado por ela sentia-se arredado do caminho do céu.

Eis, porque, sendo isto tão óbvio, espanta que entre o tempo de Moisés, quando é dito: Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças (Dt 6,5) e o tempo actual, Deus continue a exortar o homem quanto à assunção do vínculo maior - a caridade -  onde o amor que lhe é devido se tem de tornar infinito, pois só assim é possível modificar a natureza do homem, razão porque a recomendação de Moisés vem de muito longe e continua actual, pois só a partir de Deus é que se pode amar, verdadeiramente, o próximo, na linha da caridade a que todos fomos chamados e ressoou, um dia, no antigo grito dos pagãos: “vede como eles se amam” testemunhado por Tertuliano (160-220 d. C).

Este é, certamente, o primeiro e grande paradigma da caridade entre os homens no ágape da repartição fraterna, hoje, um sentimento difuso, onde o homem reduzido a um número passou a ser um ente solitário entre muitos, quando o ideal cristão o torna necessitado um do outro, centrando-se aqui o testemunho que cabe dar à valorização humana do próximo.

Temos assim, que no desfiar dos séculos tem sido o sentimento da caridade o fiel  inspirador de tudo aquilo que nos ata a Deus e tem de ser, a partir desse feixe de amor sublime, a relação com o nosso semelhante, partindo dessa íntima comunhão da Humanidade aos pés do Criador, a fazer-se da caridade - que no dizer de S. Paulo não cuida do seu interesse -  algo que nos deve inquietar, porque a massificação do tempo que passa ao isolar o homem tende a desviá-lo da caridade que é devida ao seu semelhante.


Acção Social



Vede, Veneráveis Irmãos, por quem e por que meios esta questão tão difícil demanda ser tratada e resolvida. Tome cada um a tarefa que lhe pertence; e isto sem demora, para que não suceda que, adiando o remédio, se tome incurável o mal, já de si tão grave.

Façam os governantes uso da autoridade protectora das leis e das instituições; lembrem-se os ricos e os patrões dos seus deveres; tratem os operários, cuja sorte está em jogo, dos seus interesses pelas vias legítimas; e, visto que só a religião, como dissemos no princípio, é capaz de arrancar o mal pela raiz, lembrem-se todos de que a primeira coisa a fazer é a restauração dos costumes cristãos, sem os quais os meios mais eficazes sugeridos pela prudência humana serão pouco aptos para produzir salutares resultados. Quanto à Igreja, a sua acção jamais faltará por qualquer modo, e será tanto mais fecunda, quanto mais livremente se possa desenvolver. Carta Encíclica “Rerum Novarum” nº 35

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Com efeito ao fim do século XIX, em consequência de um novo género de economia, que se ia formando, e dos grandes progressos da indústria em muitas nações, aparecia a sociedade cada vez mais dividida em duas classes : das quais uma, pequena em número, gozava de quase todas as comodidades que as invenções modernas fornecem em abundância; ao passo que a outra, composta de uma multidão imensa de operários, a gemer na mais calamitosa miséria, debalde se esforçava por sair da penúria, em que se debatia.

Com tal estado de coisas facilmente se resignavam os que, nadando em riquezas, o supunham efeito inevitável das leis económicas, e por isso queriam que se deixasse à caridade todo o cuidado de socorrer os miseráveis; como se a caridade houvesse de capear as violações da justiça, não só toleradas, mas por vezes até impostas pelos legisladores. Ao contrário só a duras penas o toleravam os operários, vítimas da fortuna adversa, e tentavam sacudir o jugo duríssimo: uns, levados na fúria de maus conselhos, aspiravam a tudo subverter, os outros, a quem a educação cristã demovia desses maus intentos, estavam contudo firmemente convencidos de que nesta matéria era necessária uma reforma urgente e radical.

O mesmo pensavam todos os católicos, sacerdotes ou leigos, que, impelidos por uma caridade admirável, já de há muito trabalhavam em aliviar a miséria imerecida dos operários, não podendo de modo nenhum persuadir-se de que uma diferença tão grande e tão iníqua na distribuição dos bens temporais correspondesse verdadeiramente aos desígnios sapientíssimos do Criador. Carta Encíclica “Quadragésimo Anno” in, cap. “Sua Ocasião”


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Comentário: Compassivamente debruçado sobre as miseráveis condições do operariado, se o  Papa Leão XIII faz a sua defesa e denúncia no dealbar do séc. XIX, quanto aos deveres dos ricos e patrões, quarenta anos depois, o Papa Pio XI vem acentuar, a malfeitoria social instalada no plano da economia em que os progressos sentidos numa nova indústria florescente, ainda assim, não soube dividir equitativamente os bens materiais, pela continuação de uma classe  dominante e absorvente das mais valias em detrimento de uma outra, imensa de operários, a gemer na mais calamitosa miséria, debalde se esforçava por sair da penúria, em que se debatia.

    

Amor fraterno



Deus, que por todos cuida com solicitude paternal, quis que os homens formassem uma só família, e se tratassem uns aos outros como irmãos. Criados todos à imagem e semelhança daquele Deus que «fez habitar sobre toda a face da terra o inteiro género humano, saído dum princípio único» (Act. 17,26), todos são chamados a um só e mesmo fim, que é o próprio Deus. E por isso, o amor de Deus e do próximo é o primeiro e maior de todos os mandamentos. Mas a Sagrada Escritura ensina-nos que o amor de Deus não se pode separar do amor do próximo, «...todos os outros mandamentos se resumem neste: amarás o próximo como a ti mesmo... A caridade é, pois, a lei na sua plenitude» (Rom. 13, 9-10; cfr. 1 Jo. 4,20). Isto revela-se como sendo da maior importância, hoje que os homens se tornam cada dia mais dependentes uns dos outros e o mundo se unifica cada vez mais. Mais ainda: quando o Senhor Jesus pede ao Pai «que todos sejam um..., como nós somos um» (Jo. 17, 21-22), sugere - abrindo perspectivas inacessíveis à razão humana - que dá uma certa analogia entre a união das pessoas divinas entre si e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Esta semelhança torna manifesto que o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo. (nº 24 da Constituição “Gaudium et Spes”) Nota: os sublinhados são nossos.

Comentário:  O amor, no seu sentido lato e profundo, imbrica-se no pai da fé, Abraão, que ao cumprir a promessa de Deus com reflexo directo nele e em sua descendência, pela desinstalação do seu lar mesopotâmico, encontraria o seu cumprimento pleno 2.100 anos depois, na Pessoa de Jesus Cristo, onde ganhou o sentido maior: 

Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 13,15), razão que leva a Igreja do Vaticano II a exortar-nos quanto à sua solicitude paternal e, em consequência, com o desejo de levar a cada um de nós o amor de nos sentirmos irmãos espirituais por foça da Palavra Viva de Jesus, que a par do nobre sentimento que nos deve unir na vivência terrena - amar o próximo como a nós mesmos (Mc 12, 33) - ao fundir-se com o primeiro mandamento das Tábuas da Lei, - amar a Deus sobre todas as coisas -  dos dois preceitos fundamentais fez um só para o bom governo do homem.

Eis, porque, se deve por a render no chão da vida a “árvore” sadia do amor social enraizado na Matriz divina, tendo-se  em conta que um amor assim para com o semelhante é o reflexo evidente do amor que cada criatura tem por Deus, quer seja através do vínculo radicado na família - a pequena igreja doméstica -  como com a comunidade nos seus diversos cambiantes, se tivermos em conta o aparecimento no tempo que passa de associações, instituições e suas congéneres que exigem de todo o homem a sua acção fundada, em primeiro lugar, no amor a Deus e que, repartido a partir d’Ele por todas as criaturas as deve conduzir ao amor mútuo de que nos fala a Palavra de Jesus.

Viver com empenho social é viver com a sabedoria que o amor alicerçado no divino nos dá, porquanto, tal como o ferro que só em brasa é que é moldável, o homem só depois de estar abrasado no amor de Deus é que pode moldar-se e moldar o outro e, desse modo dar maior harmonia à sociedade de que faz parte, na certeza que todos os patamares da vocação têm como ponto de partida um quinhão importante da vivência humana moldada segundo os princípios do amor que é devido a Deus e ao próximo.

É aqui que mergulha, verdadeiramente, o sentido maior do amor social dos homens.
Diz S. Francisco de Sales que quanto mais tivermos amado mais seremos glorificados no Céu, um motivo a mais para nos empenharmos na construção de uma sociedade mais justa, onde a dependência de cada um com o outro e de ambos com o mundo, atinja num futuro bem próximo um sentido mais perfeito do amor social e, com isso, ganhe o seu verdadeiro alcance  a expressão de Jesus, que um dia em conversa com o Pai e tendo os homens no pensamento, disse: «que todos sejam um..., como nós somos um»  (Jo 17, 21). porquanto, como nos diz, o texto a que aludimos, é no sincero dom de si mesmo que cada homem ao amar em si mesmo o dom da vida, encontra a razão suficiente para amar o outro - com Deus no meio - a entrelaçar a singularidade  do laço humano que os deve unir a dois, a três… e a milhares de milhões, ou seja, ao todo, ao Deus Universal que assim o quer.


A ordem arruma a casa do espírito



Jacques Leclercq

Jacques Leclercq
falando um  dia sobre a ordem
enquanto meio de disposição metódica das coisas
onde se deve mover  o homem em cada um dos dias,
disse o seguinte:

O problema da ordem
é o problema fundamenta da vida humana!

E é, de facto, assim.

A ordem, organiza os sentimentos
e enquanto arruma a casa dos espírito
dá à vida do homem
o fundamento das verdades que o leva a ser,
verdadeiramente,
o ser superior que é, na ordem da Graça
que por um desígnio especial de Deus,
o fez semelhante a ele.

A ordem é, por isso,
não apenas o suporte da disciplina social
como é, o garante moral e ético que dá à vida
a linha de rumo tão necessária à ordenação dos sentimentos
que em cada dia é preciso que ela se contraponha
à desordem das coisas
que retiram sempre ao viver do homem
a sobrenaturalidade que ela tem.


A Ambição


Aquele canta e ri; não se embaraça
Com essas coisas vãs que o mundo adora
Este (oh, cega ambição!) mil vezes chora
Porque não acha bem que o satisfaça.

Bocage

Nota: os sublinhados nos textos do Magistério da Igreja são nossos.

Os costumes cristãos, desde que entram em acção, exercem naturalmente sobre a prosperidade temporal a sua parte de benéfica influência; porque eles atraem o favor de Deus, princípio e fonte de todo o bem; reduzem o desejo excessivo das riquezas e a sede dos prazeres, esses dois flagelos que frequentes vezes lançam a amargura e o desgosto no próprio seio da opulência; contentam-se enfim com uma vida e alimentação frugal, e suprem pela economia a escassez do rendimento, longe desses vícios que consomem não só as pequenas, mas as grandes fortunas, e dissipam os maiores patrimónios.
A Igreja, além disso, provê também directamente à felicidade das classes deserdadas, pela fundação e sustentação de instituições que ela julga próprias para aliviar a sua miséria; e, mesmo neste género de benefícios, ela tem sobressaído de tal modo, que os seus próprios inimigos lhe fizeram o seu elogio.(..) (Carta Encíclica “Rerum Novarum” nºs 15-16)

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Hoje em dia, os homens aspiram a libertar-se da necessidade e da dependência. Mas uma semelhante libertação começa pela liberdade interior que eles devem saber encontrar, defronte aos seus bens e aos seus poderes;(…) De outro modo, está bem claro, as ideologias mais revolucionárias não têm como resultado senão uma mudança de patrões; instalados por sua vez no poder, estes novos patrões rodeiam-se de privilégios, limitam as liberdades e instauram novas formas de injustiça.
Além disso, muitos chegam hoje a pôr-se o problema do modelo mesmo de sociedade. A ambição de várias nações, na competição que as opõe e as arrasta, é a de chegarem a atingir o poderio tecnológico, económico e militar; tal ambição opõe-se, portanto, à criação de estruturas, em que o ritmo do progresso seria regulado em função de uma maior justiça, em vez de acentuar as diferenças e de criar um clima de desconfiança e de luta que continuamente compromete a paz. (Carta Apostólica “Octogésima Adveniens” nº 45)

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Comentário: o Papa Leão XIII, no difícil tempo do seu pontificado em que o problema da exploração do operariado não encontrava no empregador a caridade mútua que animou os primeiros cristãos, beneficiários directos da doutrina do fundador da Igreja, ao chamar a atenção do homem para estes bons costumes, exorta-o contra a ambição sem freio que não raro o leva ao desejo excessivo das riquezas e a sede dos prazeres, a que chama com clareza: esses dois flagelos que frequentes vezes lançam a amargura e o desgosto no próprio seio da opulência, porquanto, como adverte S. Paulo, os que querem tornar-se ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição. (1 Tim 6, 9)

A ambição é, assim, uma das pragas da vida humana revelada sempre quando o homem não se sente satisfeito e vive na procura ansiosa de mais haveres, fazendo da sua acção um novo “Tonel das Danaides”, esquecidos de Deus, princípio e  fonte de todo o bem, que como diz o Papa levou as Igrejas particulares locais a colmatar os desvios sociais duma sociedade mercantilizada - através das IPSS, Misericórdias e afins - onde tem sobressaído de tal modo, que os seus próprios inimigos lhe fizeram o seu elogio.

Pelo fluir dos tempos esta nova atitude da Igreja enquanto motor espiritual da sociedade - mesmo para os não crentes - levou o homem ao desejo de uma nova liberdade interior, mas este desiderato,  pode não ser conseguido se não houver - como diz Paulo VI , na “Octogésima Adveniens” -  um amor transcendente para com o outro homem.

 Ao chamar a atenção para a mudança de patrões, o Papa deixou bem claro que a ambição destes integrada nas ideologias mais revolucionárias - que ainda existem no nosso tempo - podem conduzir o homem a ver-se confrontado não só com o patrão individual secularizado e falho do sentido da caridade mútua  ou, com o colectivo social de um patrão sem rosto imbuído desse mesmo atropelo, tantas vezes  acrescido da falta do amor transcendente  que enforma na linha da caridade cristã o verdadeiro sentido da palavra ambição. 


A "Acção Temporal"



antigos calceteiros numa rua de Lisboa
(in, Arquivo da CML)

(...) Mas não podemos concluir a nossa encíclica sem recordar outra verdade, que é, ao mesmo tempo, uma realidade sublime: somos membros vivos do corpo místico de Cristo, que é a sua Igreja: "Com efeito, o corpo é um e, não obstante tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo: assim também acontece com Cristo" (l Cor 12,12). Convidamos, com paternal insistência, todos os nossos filhos, do clero e do laicato, a que tomem profunda consciência de tão grande dignidade e grandeza, pois estão enxertados em Cristo, como os sarmentos na videira: "Eu sou a videira e vós os ramos" (Jo 15,5) e, por esse motivo, são chamados a viver a sua mesma vida. Todo o trabalho e todas as actividades, mesmo as de carácter temporal, que se exercem em união com Jesus, divino Redentor, se tornam um prolongamento do trabalho de Jesus e dele recebem virtude redentora: "Aquele que permanece em mim e eu nele, produz muito fruto" (Jo 15,5). É um trabalho, através do qual não só realizamos a nossa própria perfeição sobrenatural, mas contribuímos também para estender e difundir aos outros os frutos da Redenção, levedando assim, com o fermento evangélico, a civilização em que vivemos e trabalhamos. (Encíclica “Mater et Magistra”, nºs 256  e 257)
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Será oportuno lembrar como é difícil captar com suficiente objectividade a correspondência entre as situações concretas e as exigências da justiça, indicando claramente os graus e formas segundo os quais os princípios e as directrizes doutrinais devem traduzir-se na presente realidade social. (…) Para todos os seres humanos constitui quase um dever pensar que o que já se tiver realizado é sempre pouco, em comparação do que resta por fazer, a fim de reajustar os organismos produtivos, as associações sindicais, as organizações profissionais, os sistemas previdenciais, as instituições jurídicas, os regimes políticos, as organizações culturais, sanitárias, desportivas etc., às dimensões próprias da era do átomo e das conquistas espaciais: era, na qual já entrou a humanidade, encetando esta sua nova jornada com perspectivas de infinda amplidão. (Encíclica “Pacem in Terris”, nºs 153 e 155)

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Comentário: O trabalho dentro da acção temporal que nos cabe, ao continuar a de Jesus Cristo, exige um constante empenho que não pode  ser descurado e, muto menos, consente  hesitações, porque “quem , depois de deitar mão ao arado, olha para trás, não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 62) o que, constituindo o sentido literal da eterna Palavra, sentimo-lo expresso no Papa João XXIII, que do alto do magistério que exerceu nos disse quanto ao trabalho que urge fazer: não só realizamos a nossa própria perfeição sobrenatural, mas contribuímos também para estender e difundir aos outros os frutos da Redenção, levedando assim, com o fermento evangélico, a civilização em que vivemos e trabalhamos, razão suficiente para colocar o homem, embora finito no tempo que lhe é dado viver, a deixar com a sua acção frutos sobrenaturais, ainda que pesem as dificuldades do momento, como as sentiu o mesmo Papa, chamando-nos a atenção quanto à obra realizada poder ser pouca em comparação do que resta por fazer, a fim de reajustar os organismos produtivos, as associações sindicais, as organizações profissionais, os sistemas previdenciais, as instituições jurídicas, os regimes políticos, as organizações culturais, sanitárias, desportivas, etc. 


sábado, 5 de abril de 2014

5º Domingo da Quaresma - 6 de Abril de 2014 - Ano A


Naquele tempo, as irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente». Ouvindo isto, Jesus disse: «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem». Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente, ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava. Depois disse aos discípulos: «Vamos de novo para a Judeia». Ao chegar lá, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias. Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, Marta saiu ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará». Marta respondeu: «Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia». Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?». Disse-Lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». Jesus comoveu-Se profundamente e perturbou-Se. Depois perguntou: «Onde o pusestes?». Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor». E Jesus chorou. Diziam então os judeus: «Vede como era seu amigo». Mas alguns deles observaram: «Então Ele, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito que este homem não morresse?». Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo. Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada. Disse Jesus: «Tirai a pedra». Respondeu Marta, irmã do morto: «Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias». Disse Jesus: «Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus?». Tiraram então a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele. 
(Jo - forma breve - 11, 3-7.17.20-27.33b-45)


É sabido, Senhor, que Tu amavas
aqueles irmãos de Betânia,
do mesmo modo com amas cada um 
dos teus irmãos que têm a graça de crer em Ti!

Aceita, Senhor,
que eu creia que na cena da morte de Lázaro
não chegaste fora do tempo,
como parece transluzir a dor de Marta,
porque, se tivesses vindo a tempo e horas
o seu irmão não teria morrido.
Não cuidou que o grande sinal que quiseste dar
aos teus amigos de Betânia, 
foi o do Mistério que existe
para além da morte corporal,
que não poupa ninguém!

Só que Marta - e nós - nem sempre
pomos a direito o sentido da ressurreição
que o Teu Poder obrou com o teu amigo Lázaro.
Efectivamente, o que aconteceu
é que, tendo-o ressuscitado
nos deste o Sinal do que viria a acontecer Contigo,
e assim queres que aconteça com cada um de nós!

Senhor: 
eu creio na vida eterna, porque creio em Ti!