Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Os irmãos desavindos




Caricatura  (1833), representando D. Pedro IV e D. Miguel I pela disputa da coroa portuguesa




António Costa e António José Seguro incarnam bem esta caricatura do tempo da Monarquia Constitucional, quando o aguerrido absolutista D. Miguel procurava o reconhecimento internacional quanto ao seu direito à coroa portuguesa e o turbulento liberal D. Pedro, vindo do Brasil, depois de ter abdicado, fez o mesmo, reivindicando o mesmo direito, tenho ganho a batalha como a História regista.

Há semelhanças no que hoje acontece entre os dois irmãos desavindos do Partido Socialista, filhos da mesma ideologia mas querendo ler a cartilha - que devia ser única por modos diferentes - na espreita de conquistarem a "coroa", que neste caso se chama, ser líder do PS e daí, o ganhador partir para a conquista do "reino", no caso, o Governo da Nação.

António José Seguro estava dentro - como estava D. Miguel - e esse facto no seu pensar, dá-lhe direitos que de modo algum deviam ser postos em causa, enquanto António Costa, vindo de fora - se assemelha a D. Pedro - querendo a conquista de algo a que julga ter direito.

Os dois têm razão.

O que custa a entender é que enquanto António José Seguro, timidamente, apresenta algumas soluções governativas em António Costa há uma assunção deliberada de não se comprometer com nada.
É esta a disputa a que assistimos.
Um diz pouco e o outro diz nada.

No fim, como aconteceu com D. Pedro, o homem que veio de fora, foi ele que expulsou o irmão, o que vem pode vir a acontecer com António Costa, mas o que fica líquido nesta guerrilha vergonhosa pelo poder - tal como aconteceu no século XIX - é o descrédito da política, que devia ser uma função nobre e, no entanto - neste caso - é tratada como algo sem valor, onde vale tudo por "um prato de lentilhas"... que no caso não o é, nem nada que se pareça!



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Um olhar sobre um passado ainda próximo!



(...)
A política económica foi uma das mais belas inspirações do nosso tempo. Meter todos os interesses da grande multidão numa fórmula constituída, em partes iguais, de justiça e de sentimento, é um ideal soberbo! Mas as grandes ideias precisam de grandes homens; e, em vez disso, é a política de negócios, sem intenção e sem alcance, a que está de cima neste momento! A finança egoísta, exploradora, insaciável, triunfa em toda a linha. Na tribuna não ressoam já as grandes palavras que apaixonaram e comoveram a geração que nos precedeu; as vozes que mais valem são as que retinem, como metais, no cálculo de operações fabulosas... (...)


Parte do discurso de António Cândido sobre a moral política, proferido no Ateneu Comercial do Porto em 29 de Agosto de 1887, em reflexo do que havia feito na Câmara dos Deputados em 17 de Fevereiro de 1880, aquando da apresentação da "Vida Nova".





Espanta que há tantos anos, este tribuno tenha afirmado que as grandes ideias precisam de grandes homens e, em vez disso, é a política de negócios sem intenção e sem alcance, a que está de cima neste momento!

Lê-se isto é até parece que o tempo parou!

E, depois, num arroubo de grande lucidez política António Cândido acrescentou ao seu discurso, sem medo das palavras - isto é, mandando às malvas o politicamente correcto, que hoje é norma - para dizer que, a finança egoísta, exploradora, insaciável, triunfa em toda a linha, apontando com a coragem que se lhe conheceu e o tornou um homem famoso que na Câmara dos Deputados - como então se chamava a actual Assembleia da República - as vozes antigas duma outra geração de deputados haviam dado lugar às vozes que retiniam como metais, no cálculo de operações fabulosas.

E continuamos a espantarmos como - de certo modo e guardadas as devidas distâncias do tempo e do lugar - o que hoje acontece tem similitudes que nos causam apreensão pela ausência da Pátria enquanto garante aglutinador das ideias construtivas que deviam estar presentes em todos os debates.

É que, olhando o que se passa nas transmissões televisivas - que melhor era não serem dadas - são palavras ocas, a ponto de procurarmos em vão naquela multidão de palavras sentimentos de amor pátrio, sendo que é com muita dificuldade que encontramos um pensamento válido, que não seja o vazio das ideias e uma grande falta de sentido de Estado em muitos dos deputados que elegemos.

Vala a pena procurar nos anais da História este belo discurso de António Cândido, que certamente é bastante desconhecido pelos actuais representantes do povo, de tal modo entrincheirados nas suas diatribes que não lhe sobra tempo para lerem e meditarem nos tribunos que tivemos e que ajudaram a preparar o caminho para a implantação de uma República, que afinal, verdadeiramente, até hoje, não soubemos honrar.



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Parecenças entre o ontem e o hoje!



A gravura que se reproduz veio publicada no velho Jornal de crítica política "O Thalassa" de 6 de Março de 1913, nos tempos conturbados da 1ª República, ao que parece, de um modo brusco e imperativo, representando os próceres republicanos a empurrarem para o poder uma nova personagem, que segundo eles lhes parecia oportuna, para a saga em que estavam empenhados.

Olhando o tempo actual alguém está a ser empurrado, tendo por detrás figuras bem conhecidas.
Valha-nos Deus que não conseguimos, ainda, crescer o suficiente em cultura política para não repetirmos, hoje, as cenas de um passado mórbido que devia ser enterrado de uma vez para sempre.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

É uma ilusão o aperto do caminho!





É UMA ILUSÃO 
O APERTO DO CAMINHO


Olho de frente
para o que falta
do caminho
e vejo larga a saída.

Viver é ter presente
o ponto de partida!

É pura ilusão
o aperto do caminho.
Com Deus 
não se vai em vão, 
nem se vai sozinho!

E conforta-me saber
que Ele me dará
na saída,
a largura da porta
por onde entrei
ao encontro da vida! 


Para onde vais Europa?




Para onde vais Europa?

Com a descristianização crescente, a Europa está a correr um risco tremendo de ver o Islão crescer como está a acontecer com a "limpeza" que está a ser feita perante os cristãos orientais, a ponto de os querer fazer desaparecer, fazendo dali a "testa de ponte" para o assalto ao velho continente.

Descuidadamente, com o abastardamento das convicções religiosas e todo o seu ancestral cunho moral, os Países europeus vão-se entretendo com as crises financeiras, deixando no esquecimento as crises de ordem escatológica, como se estas não fossem riquezas a preservar.

A diminuição de nascimentos - onde as leis abortivas têm desempenhado um papel aberrante - a par dos "casamentos homossexuais, hoje, claramente consentidos, senão aprovados legalmente, são a causa de um flagelo que está - qual novo Cavalo de Tróia - a minar por dentro a consciência dos europeus que alegremente vão assistido à barbárie das mortes intra-uterinas e ao descalabro moral das sociedades abandalhadas pelo consumismo das drogas e do desnorte das relações frágeis e momentâneas e, até, do desmoronamento da família com o aumento assustador dos divórcios, geradores de uma grande instabilidade emotiva e funcional nos jovens.

Para onde vais Europa?

"Não mais escravos, mas irmãos"




"Não mais escravos, mas irmãos."


É este o tema da próxima Mensagem do Papa Francisco para o  "Dia Mundial" da Paz" de 2015, que ocorre todos os anos no primeiro dia do mês de Janeiro, com origem numa Mensagem do Papa Paulo VI em 1967 e celebrado desde 1 de Janeiro de 1968.

É oportuno o nome que o Papa lhe deu, porquanto, no nosso mundo tão avançado tecnologicamente, é um erro crasso pensar-se que a escravatura é um facto do passado e não um caso dos nossos dias.

Acontece que, o capitalismo sem rosto - ou com ele bem disfarçado - está a fazer que exista desmesuradamente, sobretudo, a nível dos grandes grupos económicos o apetite pelo trabalho escravo, levando muitos milhares de seres humanos a vender o seu salário e a prostituir-se, de que resulta o tráfico de pessoas que aumentam este novo tipo de escravatura, com enfoque especial para o ano 2000 - sem ter cessado até hoje -  quando este tema se tornou mais conhecido através de activistas individuais ou, mesmo, organizações que levam  - a troco de enganos - os incautos e os necessitados em extremo a deixarem o seus países de origem em demanda de destinos ínvios onde os esperam discriminações e a clandestinidade a par de uma exploração laboral que parecia erradicada do convívio social, quando ela está aí, à vista de todos.

É por isso que se saúda o gesto do Papa Francisco, provando com ele a nova atitude da Igreja católica sediada em Roma para este problema que urge, não remedira, mas banir de vez do convívio digno de todas as sociedades humanas.

domingo, 7 de setembro de 2014

Uma lembrança política de 2005



Cartaz da campanha eleitoral


É só para relembrar.
Na certeza que um futuro melhor só pode ser feito em cima dos erros do passado.


Nas eleições legislativas de 20 de Fevereiro de 2005, o Partido Socialista sob a liderança de José Sócrates foi o partido vencedor com 45,03% dos votos, contra 28,77% do Partido Social Democrata, facto que originou a constituição do XVII Governo .Constitucional de Portugal.

Em Janeiro de 2005, José Sócrates prometeu recuperar 150.000 empregos perdidos nos três anos anteriores pelos governos do PSD/CDS-PP e tudo isto numa só legislatura, caso os socialistas vencessem as eleições, o que veio a acontecer.

E disse alto e bom som: «Raramente se viu um Governo perder em tão pouco tempo tantos empregos. É chocante, porque nesse período não houve da parte dos governos (PSD/CDS-PP) qualquer resposta, o que demonstra uma enorme insensibilidade»

No momento José Sócrates não vai concorrer a nada, mas é um acto cívico lembrar isto, num tempo em que se perfilam no horizonte "eleições primárias" do PS para escolha do candidato a Primeiro-Ministro, com vista às legislativas de 2015, pelo que lembrar isto é não só, um aviso ao possível ganhador das "eleições primárias" de 28 de Setembro, como àquele que vier a ser o seu opositor.

O tempo das promessa balofas tem de acabar para dar lugar a comprometimentos sérios.


O Homem e a Mulher (Um poema de Victor Hugo)



Tela de Julien Dupré



O Homem e a Mulher


O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.
O trono exalta e o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração. O cérebro produz a luz; o coração produz amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher é o anjo. O génio é imensurável; o anjo é indefinível;
A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher é a virtude extrema; A glória promove a grandeza e a virtude, a divindade.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pelas lágrimas.
A razão convence e as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece e o martírio purifica.
O homem pensa e a mulher sonha. Pensar é ter uma larva no cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço e cantar é conquistar a alma.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.


Victor Hugo



Esta formosa composição poética de Victor Hugo é uma centelha do seu génio.
Se há. nela, ditirambos de elevação sobre o homem e a mulher, o que fica de mais sublime é a exaltação da mulher como ser superior - ainda que ele diga que o homem é a mais elevada das criaturas - o que seria assim, no seu tempo, na ordenação social, mas é na mulher que o estro do grande homem de letras põe a tónica e com todo o profundo respeito.

A mulher - matriz de todos os homens - bem mereceu, na sua época, como hoje continua a merecer, salvo os enfatuados e desregradores feminismos que se põem em bicos de pés, todo o respeito dos homena que se deviam rever naquele belíssimo "Retrato de Mónica" que Sophia de Melo Breyner Andresen, "pintou" deste jeito:

(...) O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhadores para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruina as situações mundanas. (...)

in "Contos Exemplares"

Que o poema de Victor Hugo e a prosa de Sophia ajudem todos os homens a tomar consciência da importância da mulher,



sábado, 6 de setembro de 2014

Quem acode à Senhora do Cabo?



Vista aérea do Promontório do ao Espichel



Esplanada da Senhora do Cabo com as alas das casas antigamente destinadas aos peregrinos



Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Cabo


Neste Verão, em visita feita à Península de Setúbal com começo pelo Promontório do Cabo Espichel onde se situa a velha e linda Igreja da Senhora do Cabo, foi-me dado verificar o abandono a que está votado este património sacro - com excepção do Templo - e cuja história se prende à memórias de um tempo que levou até ali ranchos de festeiros, muitos deles, para além da crença em Nossa Senhora, para beneficiarem da beleza grandiosa do sítio escarpado que se agiganta como se fosse uma sentinela sobre o Atlântico, que dezenas de metros abaixo, ora desfaz os vagalhões contra os rochedos, ora, o faz em "beijos" que se desfazem em espuma na areia da pequena enseada.

Se em Portugal houvesse respeito pelo património - sagrado ou não - por certo que este pequeno paraíso que apresenta entaipadas as antigas casas dos romeiros que dão em duas alas para a ampla esplanada do Templo, haveriam de servir a população que ali se dirige - tal como eu o fiz - com servidões dignas de um tempo novo, que não devia esquecer o passado, e desse modo, não apresentando aquele aspecto de abandono forçado.

O Templo, de uma grande dignidade arquitectural apresenta aos visitantes a memória dos séculos em que tem servido a honra invocativa da Mãe de Jesus, ali invocada pela Senhora do Cabo naquele local grandioso que em tempos idos levava ali em romaria o povo e a realeza, onde houve reis que foram "Juízes" das Festas que sempre tiveram o cunho popular, em lembrança do modo como nasceram.

Uma das características que imprimiu à Senhora do Cabo a extraordinária devoção que lhe é devida há séculos, adveio do seu cunho de religiosidade popular que desde os primeiros tempos assistiu às comemorações e que teve afloramentos de algum paganismo na base do fenómeno surgido na escarpa agreste do Cabo Espichel, em princípios do século XIII. 

Este paganismo basista, convenhamos, não foi um defeito, porquanto teve profunda influência na religiosidade que lhe estava subjacente e que a Igreja, enquanto Instituição e depósito fiel da Fé, entendeu num dado ponto assumir com o peso da respeitabilidade que baseou no testemunho popular que lhe cumpriu cristianizar.

Temos assim que a Festa da Senhora do Cabo foi, apenas, mais uma que a partir dessa religiosidade, foi absorvida pela Igreja, chamando-a ao seio onde vive há milénios a luz que rasgou as sombras de um passado em que a Salvação se punha no enviado do Céu que Deus prometera aos homens, que em seu louvor e ali, com  grande empenho, demonstravam através do "Círio" que deu à Festa o nome do Círio da Senhora do Cabo, ainda hoje assim chamado.

Este evento é conhecido pela associação directa que se faz a uma vela de cera – mas de maior proporção – que na Liturgia cristã é usado na noite de Sábado de Aleluia e que toma o nome de “Círio Pascal” no Domingo de Páscoa.

O nome vem da religiosidade popular que desde as mais remotas romarias celebradas “fora de portas”, isto é, dos grandes centros populacionais os levavam acesos pelas mãos dos peregrinos, um hábito que se perdeu, mas deixando intacto, até hoje, o nome de “Círio”, que tendo sido dado às romarias que eram feitas à pequena ermida erguida bem perto da escarpa do Cabo Espichel, chegou até aos nossos dias.

Temos assim que se deu o nome de “Círio” à deslocação em massa de um determinado grupo de pessoas a um local de veneração espiritual, dando-se o mesmo nome à festividade, sempre que a Imagem de Nossa Senhora do Cabo se deslocava de Paróquia em Paróquia, como ainda hoje, acontece.

Tudo começou com uma lenda que viria a transformar-se numa tradição.

Diz-nos a mais antiga que se conhece que o culto a Nossa Senhora do Cabo Espichel remonta ao ano de 1215, quando a tripulação de uma nau inglesa se salvou de um naufrágio, na noite de Natal, junto ao cabo Espichel. A tripulação atribuiu o milagre a Nossa Senhora e decidiu construir uma pequena e rústica ermida em acção de graças.
 in, Enciclopédia das Festas Populares e Religiosas de Portugal. Vol. 3- pág 280

Quanto à primeira tradição, Frei Agostinho de Santa Maria narra-a de forma bastante lacónica no seu "Santuário Mariano" (17, Tomo II, p. 474): No mar Oceano, para a parte do meio dia a sul da Corte, e Cidade de Lisboa, mete a terra hua ponta, ou despenhada rocha, a que os navegantes chamam o "Cabo de Espichel", e os antigos chamaram Promontório Barbárico (…) Neste sítio sobre a rocha se vê ao presente rua Ermidinha, que se edificou para memória, a que chamam o Miradouro; é tradição constante, que apparecera a imagem de nossa Senhora que por ser vista naquela rocha, a que chamão Cabo, a denominàrão com este título." E passa a identificar os autores da descoberta: "Os venturosos", e os que primeiro descubriram este rico tesouro, foram alguns homens da Caparica, que iam aquela serra a cortar lenha; e daqui teve principio serem eles os primeiros também, que a festejassem. Por esta causa vão todos os anos com o seu cirio a solenizar a sua festa em o primeiro Domingo de Junho (…).

Diz a tradição que o culto  - como já se disse - remonta ao ano de 1215, como um acto eclesial a Nossa Senhora do Cabo ou Santa Maria da Pedra de Mua, mas tal facto só aparece documentado pela primeira vez numa carta régia de D. Pedro I, datada de 1366, constituindo, assim, uma das mais antigas e interessantes manifestações de religiosidade popular em Portugal.

Só por isto, que não é pouco, merecia outro respeito.
Quem acode à Senhora do Cabo?




quinta-feira, 4 de setembro de 2014

23º Domingo do Tempo Comum - Ano A - 7 de Setembro de 2014


CORRECÇÃO  FRATERNA

Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão. Se não te der ouvidos, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Se ele se recusar a ouvi-las, comunica-o à Igreja; e, se ele se recusar a atender à própria Igreja, seja para ti como um pagão ou um cobrador de impostos. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes na Terra será desligado no Céu.. Digo-vos ainda: Se dois de entre vós se unirem, na Terra, para pedir qualquer coisa, hão-de obtê-la de meu Pai que está no Céu. Pois, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles. (Mt 18, 15-20)


Que belo e profundo é
o entendimento de Jesus,
quanto à correcção fraterna
a que é preciso atender
relativamente aos erros dos outros,
no intento, não de os vencer,
mas de os ganhar para o são convívio
dos homens.


Dá-nos, Jesus o Teu imenso Amor
que faz surgir a vida
no meio da nossa morte espiritual
e aviventa-nos em cada dia
com a força da Tua Palavra.

Em cada queda
que eu levante o meu irmão,
não só para caminhar comigo,
mas, para que, ao seguir-Te
possa reencontrar-se consigo
e, depois, de reconhecer o seu erro,
vá até ao fim do caminho.

Ajuda, Senhor, que o meu irmão
que haja de chamar à razão
não se sinta humilhado, mas amado, 
porque é em Teu Nome,
que me dirijo a ele, na certeza que tenho
que todos caímos...

E, um dia, agradecer-lhe-ei
se corrigir o meu erro, a minha fraqueza,
porque Tu morreste por todos nós
e é connosco que ressuscitas todos os dias,
sempre que corrigimos 
as nossas rotas incumpridas.


"Não há castelos no ar"




"Não há castelos no ar", diz a sabedoria popular.
Diz e com toda a razão.

Aquilo a que assistimos, actualmente, na luta pelo poder no Partido Socialista é uma prova de que não é possível governar um povo, quando se viveram anos a construir "castelos no ar" e em que o PS, enquanto Governo deu o mau exemplo desta nefasta maneira de conduzir a causa pública.
Vir, agora, prometer-se a emenda - e nisto convergem os dois candidatos - achando como de costume, que as culpas cabem por inteiro a quem governa, é um mau princípio e falta de lisura democrática, usando as faculdades que a Democracia dá - e não devia dar - para dizer a verdade e o seu contrário.

Não se vá, mais uma vez, atrás das promessas dos socialistas, porque este ideário rui todas as vezes que enfrenta as realidades quando acontece o choque teórico da cartilha filosófica de Marx com estas, que são um desafio diário e para o qual a arte de governar - não havendo homens perfeitos - exige muito mais que teoria, porquanto, dá entrada em cena quando se governa, de facto, a conciliação entre a democracia dos direitos, liberdades e garantias com a economia de mercado cujo poder é tal que ao desafiar as mais sabidas teorias acabam por colocar barreiras, limitando os poderes governativos, seja de que partido seja.

Só os muito ingénuos é que pensam em António Costa como um ser clarividente ou com um dom acima de António José Seguro - como se fosse uma centelha de génio - que o transformou, chamando a si virtudes que escapam a outros mortais, socialistas ou não.

Porque não há "castelos no ar", o Partido Socialista vai pagar muito caro a venda de ilusões que espalhou em tempo ido e que agora - pesem, embora, todas as dificuldades que atravessamos - por um "prato de lentilhas" António Costa ao querer cavalgar o poder interno do PS tem na mira um vôo razante que o conduza ao Governo de Portugal.

O que ele fez e quer consolidar no dia 28 de Setembro - dia das eleições primárias - é, efectivamente, um primarismo próprio dos povos mais atrasados, pelo que não pode merecer a confiança, porque o desafio ao poder legítimo de António José Seguro é desprezível, fazendo lembrar, pelas piores razões o seu camarada Jorge Sampaio, que enquanto Presidente da República,  um dia, contribuiu para que fosse "assaltado" o poder, destituindo um governo legítimo e maioritário, quando percebeu que a cartilha demagógica de José Sócrates chegava, em eleições inauditas, para "roubar" o poder, como veio a acontecer.

Todos sabemos que é mais fácil "vender ilusões" que produzir satisfações, o que nos leva a estar de atalaia, porque na medida em que reduzimos a nossa ignorância política, resulta, em contrapartida o facto de menos acreditarmos nos "profetas" de salvações miríficas.

Portugal tem um árduo caminho para reganhar a liberdade plena e isto requer muito trabalho, competência e educação cívica para cada um "de per si" poder valorizar o que é diferente, seja nas instituições ou nos homens, porque só estes é que têm a capacidade, livres de coerções de tapar os buracos deixados pelos demagogos que as si mesmo, entendem como um bem "assaltos" a poderes legitimados pelo povo,

Homens destes não são livres, porque fazem da imperfeição humana quando montam o cavalo do poder, "perfeições" políticas que não têm, porque todos os castelos precisam de ser fundados em terreno firme e nunca no terreno movediço das conquista a qualquer preço, pisando terrenos que lhe deviam estar vedados.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A morte em nome de Deus!




As tropas iraquianas, os combatentes curdos e os milicianos xiitas, apoiados pela aviação americana, intensificaram nesta segunda-feira a contraofensiva contra os insurgentes jihadistas no Iraque, onde ao menos 1.420 pessoas morreram de forma violenta em Agosto.

Na barbárie em que vivemos mata-se em nome de Deus, com a agravante deste acto selvagem estar a conquistar adeptos em campos onde toda a compostura intelectual e racional se devia salvaguardar por respeito próprio de tais aderentes, o que prova que a mente humana é um complexo muito difícil de compreender, porquanto não é entendível que por Deus em Seu Nome se mate o semelhante invocando a conquista de uma liberdade individual ou colectiva.

A História da Humanidade, desde a primeira aurora dos tempos está cheia de massacres com origem em métodos defendidos com Deus a servir de pára-choques, desde os tempos em que o homem não tinha conhecimento da actual Teologia do Amor e da Paz, razão que nos leva a concluir de, no tempo presente, ser um dever racional  - ainda que não estribado em conceitos teológicos - haver a necessidade da existência duma concórdia consciente, deixando de parte as lutas que só alimentam com mais vigor os ódios e os rancores, algo de que nem os próprios católicos estão inocentes destas querelas que têm persistido através dos séculos.

A fé que nestes tem uma parte de irracionalidade pela crença em algo que não é evidente aos olhos do homem, tem, contudo, aspectos racionais pelo facto de se reger sobre princípios definidos e moralmente aceites pela colectividade no seu aspecto maioritário, enquanto esses princípios no mundo muçulmano que hoje entra nos noticiários  - ao falar dos jihadistas - o que fica de pé é a irracionalidade perigosa transmitida para um mundo atónito - o que é um fenómeno inquietante - ao arregimentar para o campo do extremismo os que enfileiram com os que, em nome de um Deus estranho mancham a Humanidade com ódios intolerantes.

Como é possível causar a morte no outro, fazendo-o em nome de Deus?


sábado, 30 de agosto de 2014

Um poema de António Feijó (1859-1917)




 In, Wikipédia


ÍNTIMA


Hora crepuscular, pálida e triste…
No luxuoso salão, como um desmaio,
O sol, pela janela que entreabriste,
Dizia-nos adeus no último raio.

Ficámos um momento extasiados,
Vendo as glórias do poente moribundo,
E os nossos pensamentos enlaçadps
Fugiam na visão dum outro mundo.

Os lábios nem sequer se agitavam,
Comprimindo suspiros inefáveis,
Mas quando os nossos olhos se cruzavam
Faziam confidências adoráveis.

E assim ficamos deliciosamente
Sem escutar, na mística abstracção,
O movimento isócrono e plangente
Dum antigo relógio de salão.

Caía a noite, no silêncio amigo,
Do céu profundo como azul ferrete;
Deram seis horas, e o relógio antigo
Fez ouvir um graciosos minuete.

E aqueles sons um eco despertaram,
Que nos encheu de angústia e de saudade…
A saudade dos tempos que passaram,
A vaga nostalgia de outra idade.

E nesses largos sonhos impolutos,
Que diríamos nós, Alma insofrida,
Para imobilizar esses minutos
Que nunca se repetem nesta vida!




António Feijó deixa-nos perceber neste poema a existência de dois belos retratos.

Não apenas, o da tarde que caía num poente moribundo, mas também, o da Alma insofrida do Poeta que em pinceladas hábeis como que esculpem num mármore de finíssimo recorte a intimidade insinuada nos olhos que se cruzavam para deixar impressas as confidências adoráveis de dois seres que se entendiam, ao cair da tarde, sem dizerem uma só palavra.

Há, efectivamente, necessidade de silêncio nas nossas vidas, sem que isso seja um abandono dos sentidos ao que podem dizer as palavras, mas antes, um modo introspectivo de amar o outro - pondo no meio do silêncio - o espírito a elevar para o Alto a sensibilidade do momento que é preciso viver de vez em quando para podermos encontrar no mutismo as "tagarelices" inteligentes em que podem ou não existir saudades passadas ou nostalgias de tempos que se foram, motivos de encontros de almas, na certeza que é desses momentos que nunca se repetem nesta vida, que ela se torna mais íntima e mais necessitada de encontrar no silêncio do outro, o amor dos sonhos impolutos que é preciso viver.

É esta a lição de António Feijó.

Que ela sirva de mote e, com ele, construamos a glosa que se impõe, sobretudo, agora, em que os muitos barulhos do mundo chegam por demais aos nossos lares escancarados, quando deviamos fechar um pouco mais as portas e janelas dos noticiários prolixos e infindáveis que raramente nos contam cenas edificáveis, e em seu lugar encontrar momentos íntimos, ou seja, encontros de almas.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

El-Rei D. João II (1455-1495) presente em "O Monstrengo" de Fernando Pessoa!



in, capa do Livro de Elaine Sanceau


Armado cavaleiro por seu próprio pai el-rei D. Afonso V na tomada de Arzila no ano de 1471, o príncipe D. João herdou do seu ilustre bisavô - el-rei D. João I - o nome e a arte de governar, há quem afirme, antes do tempo em que tomou sobre si o poder real, a tal ponto que a História lhe viria a chamar " O Príncipe Perfeito".

Foi com os seus próprios olhos que viu Marrocos nas campanhas movidas por seu pai contra a moirama e o sonho de África acalentado desde jovem, revigorado com a conquista de Ceuta, de Alcácer Ceguer, Arzila e Tânger, que acompanhou "par e passo" havia de vir a despoletar nele as novas conquistas depois de dobrado o Cabo Não - de onde se "voltaria ou não" como era costume dizer-se na na época - um facto em que movido pelo ímpeto que lhe fervia no sangue, herdado do seu tio-avô, o Infante D. Henrique, havia de lhe caber, depois do Bojador e a restante costa africana abaixo das Canárias, a grande façanha da ultrapassagem do Cabo da Boa Esperança, ou das Tormentas.

É neste passo fundamental da grande gesta marítima do século XV que o seu nome de rei notável, aparece redodradamente notabilizado no Poema "O MOSTRENGO" de Fernando Pessoa, cinco séculos depois, o que prova que todos os homens - reis ou não - se cumprirem os fados que lhe cabem viver de acordo com a lei e o tempo, são merecedores de figurarem na memória das gerações vindouras.



Para sua honra e lembrança, aqui fica, estampado o poema imorredoiro que lhe dedicou o autor da "MENSAGEM", que bem merece ser lido, porquanto ele é um dos grandes testemunhos literários de um Poeta - que é dos maiores de Portugal - e que não se coibiu de cantar os feitos dos portugueses, ao invés de outros que nem sequer sabem por onde andaram os seus avoengos marinheiros que serviram o rei que teve a graça de dividir o "mundo em dois" com o Tratado de Tordesilhas...



O MONSTRENGO


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

22º Domingo do Tempo Comum - Ano A (31 de Agosto de 2014)


 A SOMBRA DA CRUZ

Naquele tempo, Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir à Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia. Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” Jesus, porém, voltou-se para Pedro e disse: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” Então Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida? Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com sua conduta
(Mt 16, 21-27)


A sombra da Cruz já se projectava
sobre o pequeno grupo que Te seguia,
mas ele ainda não havia entendido
o doloroso sofrimento a que estava sujeita
a natureza divina da Tua Pessoa.

Tudo, menos isso. Pensou Pedro.
E num dos seus arrebatamentos conhecidos, 
disse: Que isso nunca Te aconteça!

Foi, então, que revelaste 
o Mistério do sofrimento que Te aguardava,
convidando aquela pedra de tropeço
e todas as outras a irem contigo
num acto de renúncia das suas vidas
para glória da Cruz!














Senhor: 
ante o sofrimento, qualquer coisa em nós 
se debate e se revolta 
e no nosso subconsciente algo nos diz, 
que tal não vai acontecer.

Perdoa o medo que temos...
e como perdoaste a Pedro,
perdoa a nossa fraqueza e dá-nos a Tua força.

Que as Tuas Palavras,
sobre os que pensam salvar-se de qualquer jeito
e, afinal, se perdem da Salvação Eterna
vibrem em cada dia, e sejam um motivo
para Te seguir, porque só temos uma vida.
E todos temos, 
algum dia,uma Jerusalém destinada 
pelo Teu exemplo de Amor e Dor
para nossa redenção!