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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

"O Sermão da Montanha" - Transcrição "ipsis-verbis"




O SERMÃO DA MONTANHA

Sermão de Jesus de Nazaré proferido no primeiro ano da sua pregação (c. 30 d.C.), tradicionalmente localizado num monte na costa Norte do Mar da Galileia, perto da cidade de Cafarnaum.

É o mais famoso e importante discurso da Cristandade. O sermão definiu um código de conduta que continua a ser a base da moralidade ocidental.
Referido por Lucas no capítulo 6.º do seu Evangelho é, em princípio, transcrito integralmente nos capítulos 5.º a 7.º do Evangelho de Mateus, que o apresenta assim:

«Ao ver a multidão, subiu a um monte, e, depois de Se ter sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos.Tomando então a palavra, começou a ensiná-los, dizendo:»


Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os mansos porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

Bem-aventurados sereis quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por Minha causa.

Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa nos Céus; porque também assim perseguiram os profetas que vos precederam.

Vós sois o sal da terra! Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.

Vós sois a luz do mundo: Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do velador, e assim alumia a todos os que estão em casa. Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai, que está nos Céus.

Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas: Não vim revogá-la, mas completá-la. Porque, em verdade, vos digo: Até que passem o Céu e a Terra, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra.

Portanto, se alguém violar um destes mais pequenos preceitos, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar, será grande no reino dos Céus. Porque Eu vos digo: Se a vossa virtude não superara dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus.

Ouvistes que foi dito aos antigos: "Não matarás; aquele que matar está sujeito a ser condenado". Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe disser «raca» será réu diante do Sinédrio. E quem lhe chamar «louco» será réu da Geena do fogo.

Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois; volta para apresentar a tua oferta. Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.

Ouvistes que foi dito: "Não cometerás adultério". Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração. Portanto, se o teu olho for para ti origem de pecado, arranca-o e lança-o fora, pois é melhor perder-se um dos teus membros do que todo o corpo ser atirado à Geena. E se a tua mão direita for para ti origem de pecado, corta-a e deita-a fora, porque é melhor perder-se um só dos membros do que todo o teu corpo ser lançado à Geena.

Também foi dito: "Aquele que rejeitar sua mulher, dê-lhe carta de repúdio". Eu, porém, digo-vos: Aquele que repudiar sua mulher excepto em caso de adultério expõem-na a adultério, e quem casar com a repudiada comete adultério.

Do mesmo modo, ouvistes que foi dito aos antigos: "Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor". Eu, no entanto, digo-vos: Não jureis de maneira nenhuma: Nem pelo Céu, que é o trono de Deus, nem pela Terra, que é o escabelo dos Seus pés, nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.

Não jures pela tua cabeça, porque não te é dado transformar um só dos teus cabelos em branco ou preto. Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não; tudo o que for além disto procede do espírito do mal.

Ouviste que foi dito: "Olho por olho, e dente por dente". Eu digo-vos: Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. Se alguém te obrigara acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pede, e não voltes as costas a quem te pedir emprestado».

Ouvistes que foi dito: "Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo". Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não o fazem já os publicanos? E, se saudais somente os vossos irmãos que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Sede, pois, perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste.

Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles. De contrário, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus.

Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa.

Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, premiar-te-á. Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar, de pé, nas sinagogas, e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Tu, quando orares, entre no teu quarto, e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, recompensar-te-á. Nas vossas orações não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós Lho pedirdes.

Rezai, pois, assim: "Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino; faça-se a Vossa vontade, assim na terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal".

Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas. E, quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas que desfiguram o rosto para que os outros vejam que jejuam. Em verdade vos digo que esses já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido dos homens, mas de teu Pai que está presente no oculto; e teu Pai, que vê no oculto, recompensar-te-á.

Não acumuleis tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem os corroem nem os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também, o teu coração. A lâmpada do corpo é o olho; se o teu olho estiver são, todo o teu corpo andará iluminado, Se, porém, o teu olho for mau, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas quão grandes serão essas trevas!

Ninguém pode servira dois senhores, porque, ou há-de odiar um e amar o outro ouse dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ás riquezas.

Por isso vos digo: Não vos inquieteis quanto á vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem quanto ao .vosso corpo com o que haveis de vestir. Porventura não é o corpo mais do que o vestido e a vida mais do que o alimento? Olhai para as aves do céu: Não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?

Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo! Não trabalham nem fiam. Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? Não vos preocupeis, dizendo:

"Que comeremos nós, que beberemos, ou que vestiremos?". Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, o vosso Pai Celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Seu reino e a Sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. Não vos inquieteis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Bem basta a cada dia o seu trabalho.

Não julgueis para não serdes julgados, pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Como ousas dizer ao teu irmão: "Deixa-me tirar o argueiro do teu olho", tendo tu uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás para tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés, e, acometendo-vos, vos despedacem

Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois, quem pede recebe; e quem procura encontra; e ao que bate abrir-se-á. Qual de vós, se o seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? Ora bem: Se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos Céus dará coisas boas àqueles que Lhas pedirem.

Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque esta é a Lei e os Profetas.

Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Como é estreita a porta e quão apertado é o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram!

Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Conhecê-los-eis pelos seus frutos. Porventura podem-se colher uvas dos espinhos ou figos dos abrolhos? Toda a árvore boa dá bons frutos, e toda a árvore má dá maus frutos. A árvore boa não pode dar maus frutos, nem árvore má dar bons frutos. Toda a árvore que não dá bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Pelos frutos, pois, os conhecereis.

Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. Muitos Me dirão naquele dia: "Senhor, Senhor, não foi em Teu nome que profetizámos, em Teu nome que expulsámos os demónios e em Teu nome que fizemos muitos milagres. E, então, dir-lhes-ei: Nunca vos conheci; afastai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade".

Quem escuta as Minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; mas não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Aquele, porém, que ouve as Minhas palavras e não as põe em prática, é semelhante ao néscio que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa, e ela desmoronou-se; e grande foi a sua ruína.»

in, Portal da História

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

As virtudes humanas e sociais da "Gaudium et Spes".



Superação da ética individualista

30. A profundidade e rapidez das transformações reclamam com maior urgência que ninguém se contente, por não atender à evolução das coisas ou por inércia, com uma ética puramente individualística. O dever de justiça e caridade cumpre-se cada vez mais com a contribuição de cada um em favor do bem comum, segundo as próprias possibilidades e as necessidades dos outros, promovendo instituições públicas ou privadas e ajudando as que servem para melhorar as condições de vida dos homens. Mas há pessoas que, fazendo profissão de ideias amplas e generosas, vivem sempre, no entanto, de tal modo como se nenhum caso fizessem das necessidades sociais. E até, em vários países, muitos desprezam as leis e prescrições sociais. Não poucos atrevem-se a eximir-se, com várias fraudes e enganos, aos impostos e outras obrigações sociais. Outros desprezam certas normas da vida social, como por exemplo as estabelecidas para defender a saúde ou para regularizar o trânsito de veículos, sem repararem que esse seu descuido põe em perigo a vida própria e alheia.

Todos tomem a peito considerar e respeitar as relações sociais como um dos principais deveres do homem de hoje. Com efeito, quanto mais o mundo se unifica, tanto mais as obrigações dos homens transcendem os grupos particulares e se estendem progressivamente a todo o mundo. O que só se poderá fazer se os indivíduos e grupos cultivarem em si mesmos e difundirem na sociedade as virtudes morais e sociais, de maneira a tornarem-se realmente, com o necessário auxílio da graça divina, homens novos e construtores duma humanidade nova.

in, "Gaudium et Spes" 
(Documento do Concílio Vaticano II promulgado em 7 de Dezembro de 1965)


Lemos o nº 30 deste documento da Igreja Católica e o que se vê retratado é uma chamada de atenção aos Governos democráticos da Nações para assumirem, ainda que no laicismo das suas actuações, o cumprimento de acções que os levem a colocar o homem-social em primeiro lugar, porquanto  dever de justiça e caridade cumpre-se cada vez mais com a contribuição de cada um em favor do bem comum, segundo as próprias possibilidades e as necessidades dos outros, palavras que bem podiam  e deviam fazer parte de um qualquer programa governativo - falando de Portugal - se não fora a ausência deliberada como acontece em esquecer as recomendações humanas e sociais da nova Igreja Católica que quer fazer o seu caminho - embora e muito bem separada do poder político - mas a quem cumpre a defesa do homem por um imperativo divino que lhe está cometido. pelo seu Fundador.

Se nem sempre foi assim, e neste ponto  já se fez mea culpa, parece que está chegado o tempo de se olhar a Igreja Católica com uma parceira indispensável no equilíbrio social que a todo o custo tem de ser procurado, pelo que aos políticos conscientes se impõe como leitura profícua este preclaro documento do Concílio Vaticano II.

Convirá, porventura, dizer que a  "Gaudium et Spes" - Alegria e Esperança - faz parte de outras grandes Mensagens publicadas pela Igreja, um processo iniciado com a publicação da Encíclica "Rerum Novarum" (1891) a que se seguiram: "Quadragesimo Anno" (1931); "Mater et Magistra" (1961); "Pacem in Terris"(1963); "Ecclesiam Suam" (1964); Populorum Progressio"(1967) e "Octogesima Advenieens"(1971), todos eles significativos em matéria de cunho social, o primeiro ao findar o século XIX e os restantes ocupando os três primeiros três quartéis do século XX.

Foi a resposta da Igreja Católica a um tempo que tendo tido a sua génese no Iluminismo e na Revolução Francesa (1789-1799) baseada naquele movimento filosófico cujo ocaso ocorreu em 1800 - com aquele movimento revolucionário triunfante - mas que foi a sua fonte inspiradora e que não cessou de debitar o seu anticlericalismo por todo o século XX, tendo movido uma perseguição tenaz, difamatória e dessacralizadora levada a cabo por forças liberais e radicais ateístas contra a Igreja Católica a que se associaram a heresia das correntes do agnosticismo, que por fim - e como resposta - deram origem ao primeiro Concílio Vaticano I (1869-1870).

Neste afã a Igreja institucional não esteve isolada, porque a par da sua resposta de adaptação social a um mundo diferente em favor dos desprotegidos ou marginalizados estiveram presentes individualidades, como: como: Frédéric Antoine Ozanam, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo,(1833); J. Cardjin, fundador da da Juventude Operária Católica (JOC (1924); Eduardo Bonin, fundador do Movimento dos Cursilhos de Cristandade (1930), apenas para citar estes três esforçados obreiros da transformação da sociedade,


sábado, 7 de fevereiro de 2015

É preciso permanecer! Um poema de Miguel Torga



Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga, in 'Diário X'


Se o homem português se desse ao cuidado de estudar a História dos seus maiores e na memória deles realçasse o seu próprio sentido de brio nacional era ele o mais beneficiado, para num arroubo de patriotismo apontar a quem o não desfigura aqueles que o têm desfigurado, esquecidos que Portugal sendo como Miguel Torga o vê na sua liberdade poética algo que se renova por si mesmo - criatura da tua criatura -  essa qualidade retemperadora faz que o Poeta num arroubo patriótico deseje parecer-se com ele, perfilado na sua liberdade, que ele imagina espelhada no mar português, onde ondulo e permaneço - como ele diz numa afirmação peremptória -  para nos deixar a mensagem de ser necessário permanecer por cima das vagas que o mundo tem, ainda que na aventura de uma qualquer ilusão se façam ouvidos surdos para certas coisas, que apontam razões do tempo  e da fortuna.

Para o Poeta o sonho tem de continuar - por vezes, até, sem se encontrar o que se procura - e, ainda, que exilado dentro de alguns sonhos desfeitos, mesmo assim, porque é urgente permanecer, só resta subir e assentarmo-nos na gávea do futuro, onde ele imagina Portugal mais alto que no seu próprio passado.

O poema "Portugal" deixa-nos assim, a interpretação de, para além de tornarmos mais real o nosso rosto - depois de o termos olhado o rosto de Portugal, que é o reflexo da sua História - ser preciso permanecer, ainda que envoltos na bruma em que o destino, por vezes, nos deixa encobrir.
Ondulo e permaneço, diz Miguel Torga. 
Com Portugal não é de agora o ondular que que ele sentiu, como hoje, nós o sentimos - ou seja a desfiguração da sua identidade - mas é urgente mostrar aos olhos de quem nunca tal fez, os olhos daqueles que o têm feito.

É desse modo que tem de ser o sentido do nosso permanecer.
Miguel Torga fez a sua parte.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Há violação da Constituição da República Portuguesa?



Desde o dia 15 de Janeiro os automóveis com matrículas anteriores a 2000 e a 1996 passaram a estar proibidos de circular, entre as 7h00 e as 21h00 dos dias úteis, no centro da cidade de Lisboa respeitante à delimitada - ZONA 1 - compreendida pelo eixo da Av da Liberdade à Baixa pombalina, limitada a norte pela R. Alexandre Herculano, a sul pelo Terreiro do Paço e toda a zona entre o Cais do Sodré e o Campo das Cebolas, enquanto na - ZONA 2 - os automóveis anteriores a 1996 estão proibidos de circular nos limites cometidos à  Avenida de Ceuta, Eixo Norte-Sul, Avenidas das Forças Armadas, dos Estados Unidos, Marechal António Spínola, do Santo Condestável e Infante D. Henrique.


Porque o artigo 44º da Constituição da República Portuguesa quando fala do "Direito de deslocação e de emigração" diz no seu nº 1 que, "A todos os cidadãos é garantido o direito de se deslocarem e fixarem livremente em qualquer parte do território nacional.", parece, que o zelo da edilidade não se compactua com a Lei Fundamental que não coarta a ninguém o direito de deslocação ou de fixação, pelo que, pode ter havido nesta lei municipal um exorbitância.

Ainda que o modo como é efectuada a deslocação - a pé ou de automóvel - não levou o legislador a ser preciso, parece, no entanto, que este assunto tal como foi posto em prática pela Câmara Municipal de Lisboa pode configurar uma inconstitucionalidade, pelo facto de um qualquer cidadão enquadrado no horário entre as 7h00 e as 24h00, se a sua viatura não respeitar o ano fixado na lei da edilidade, fica proibido de se poder deslocar e, portanto, desde logo, pode estar ferido o artigo 44º da Constituição da República Portuguesa.

É uma análise defeituosa?
Sê-lo-á, admito, mas é assim que vejo o problema.

Mário Soares devia ser suspenso do Conselho de Estado.



(...) Nesta fase final de um governo incapaz e de um Presidente da República que nunca se dignou dizer uma palavra acerca de um ex-primeiro-ministro, com o qual durante tantos anos dialogou, a indignação e a solidariedade dos portugueses para com Sócrates não podia ser maior. Como se tem visto em inúmeras visitas que, de norte a sul, lhe têm feito, com enorme carinho. Valha-nos isso. E o juiz Carlos Alexandre que se cuide...
 in. Diário de Notícias, com a devida vénia



Se Mário Soares ao abrigo do Artigo 3º dos "Estatuto dos Membros do Conselho de Estado"  (Lei nº 31/84 de 06.09 - que ele mesmo subscreveu quando era Primeiro-Ministro - pode exercer qualquer outra actividade, pública ou privada, tal compatibilidade não lhe dá o direito de emitir opiniões que podem incitar os mais violentos a agir desse modo: o juiz Carlos Alexandre que se cuide...

O sublinhado é meu.

Isto até podia passar em claro, como uma "liberdade de expressão" se não fora um seu incitamento à violência, que foi explícito no caso ocorrido na Aula Magna, no "Congresso das Esquerdas" em 21 de Novembro de 2013, quando disse: A violência está à porta.O Presidente e o Governo devem demitir-se (...) enquanto podem ir ainda para as suas casas pelo seu pé. Caso contrário, serão responsáveis pela onda de violência que aí virá e necessariamente os vai atingir.

Ao ler e meditar nestas duas actuações, parece que Mário Soares - independentemente da sua idade - devia cair no nº 2 do artigo 14º do já referidos "Estatutros dos Membros do Conselho de Estado", que consigna: Movido procedimento criminal contra algum membro do Conselho de Estado e indiciado este definitivamente por despacho de pronúncia ou equivalente, salvo no caso de crime punível com pena maior, o Conselho decidirá se aquele deve ou não ser suspenso para efeito de seguimento do processo.

Por tudo isto e porque Mário Soares se tornou a si mesmo um homem intocável, que quer estar acima das leis, permitindo-se criticar os próprios juízes - esquecendo a separação de poderes que ele jurou respeitar pelas funções que teve -  e, por sentir que lhe são permitidas todos os dislates, torna-se urgente suspender este membro do Conselho de Estado, onde não pode haver homens que embora o podendo fazer, deviam ter mais cuidado naquilo que dizem.

Mário Soares sofre coma prisão de José Sócrates, mas tem de esperar que a Justiça que o mandou prender o acuse de vez ou o absolva.
Não foi ele um acérrimo defensor da separação de poderes?
Não foi ele um defensor para que tal viesse a acontecer em Portugal?
Então... porque se irrita, agora?

Lamento dizer isto, mas Mário Soares de quem fui um adepto incondicional, como homem e como político, merece-me hoje, apenas o meu respeito pelo homem que ele é.
Como político - e é o que ele continua a representar mas de um modo grosseiro que o desconsidera - jamais o voltarei a desculpar, pelo facto de não dever ser conselheiro de Estado - em tempo democrático - alguém que incita à violência contra um poder instituído, seja ele o judicial ou o político, sendo que este é exercido em face de ter sido sufragado em eleições democráticas

Por isso, Mário Soares não pode ser desculpado.
Devia ser chamado à razão!
Se o não for, a Democracia fica a dever a si mesma um acto de justiça.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Um "Gabinete Técnico" na ala esquerda do antigo "Mercado de Gados do Campo Grande"



O Novo Mercado de Gados no Campo Grande da autoria
dos Arquitectos Parente da Silva e Machado de Faria
inaugurado no dia 1 de Outubro de 1888
(No edifício octogonal a meio funcionava a central de negócios)

Gravura publicada pela "Revista "O Occidente" de 21 de Outubro de 1888

A roda do tempo é inexorável.

Naquele local onde funcionou o "Mercado de Gados do Campo Grande" que foi desactivado no decorrer dos anos cinquenta do século XX, veio a funcionar, cerca do ano de 1960, em toda a ala esquerda da gravura um Serviço da Câmara Municipal de Lisboa, denominado: "Gabinete Técnico da Habitação" a quem coube expropriar os terrenos de Olivais Norte e Olivais Sul e parte de Chelas, para neles, mercê da excelência do pessoal técnico e administrativo que foi contratado, os mesmos terem sido urbanizados, dando lugar a uma "cidade nova" que ali surgiu.

Na parte restante do espaço daquele antigo mercado de gado funcionou a Feira Popular de Lisboa desde o ano de 1961 até ao seu encerramento em 2003.

Actualmente todo o espaço onde funcionaram, a par, um Gabinete Técnico dedicado ao realojamento de pessoas que viviam em barracas e a Feira Popular é um vazio que faz pena ver.

Não cabe aqui fazer - por ser um despropósito - o historial que levou àquele estado um espaço que foi de muito e dedicado trabalho para a História municipal, que a partir dali ergueu casas condignas para uma população de poucos recursos económicos, mas fica na memória de quem escreve este apontamento alguma saudade dos tempos em que, naquela ala esquerda onde se manteve o aspecto plástico das fachadas e, interiormente, aproveitando muito das madeiras do antigo Pavilhão do Mercado de Gados se construíram gabinetes de trabalho condignos para receber os que, levaram a cabo uma Obra de que a Câmara Municipal de Lisboa se pode orgulhar.


Belém tão longe... e já à vista!



Gravura do Jornal "O Zé" de 21 de Setembro de 1915


O caricaturista daquele tempo com eleições presidenciais marcadas para 5 de Outubro de 1915, viu assim, não sei qual dos dois candidatos à Presidência da República.
O breve perfil da Torre de Belém que aparece representado serviu para assinalar de que eleição se tratava e sem ter descurando o pormenor dos olhos bem abertos no barco que o conduz o candidato, apresentou este com o binóculo bem assestado a olhar, cobiçoso, a cadeira do poder que vê colocada no devido trono... ainda que no tempo já não houvesse Monarquia.


Cem anos depois, vai voltar a haver eleições para o mesmo cargo, com a diferença que em 1915 houve dois candidatos e, agora, os dedos de uma das mãos não chegam para os contar e, ainda, com outra diferença - com Belém tão longe... e já à vista - o que não deixa de ser mais uma das nossas singularidades.

Qual será o candidato com a visão mais apurada, como a teve em 1915 aquele, que na gravura aparece, estando quase a desembarcar em Belém?
Diz a História que foi Bernardino Machado.

Outra singularidade - é que com a excepção de Ramalho Eanes, embora tenha cometido o "pecadilho" de ter fomentado o aparecimento fugaz do Partido Renovador Democrático (PRN) - nunca tivemos Presidentes que não tenham sido conotados com os seus partidos políticos de origem.
  • Mário Soares, com as suas "Presidências Abertas" abriu demais o jogo em desfavor do PSD.
  • Jorge Sampaio, quando pressentiu que o voto maioritário do povo era favorável ao PS não hesitou em deitar abaixo um governo com maioria parlamentar adverso à sua tendência política.
  • Cavaco Silva, não desmente a sua tendência social-democrata.
Pessoalmente, compreendo a situação. 
É humana e dum momento para o outro não se pode fugir a este gesto tendencial, no seio do qual se viveram momentos políticos marcantes.

Mas... se agora, acabássemos com mais esta singularidade e elegêssemos em 2015 um Presidente da República que fosse, efectivamente, "Presidente de todos os portugueses" e acabasse de uma vez para sempre esta figura de estilo que os Presidentes eleitos costumam declarar?
Não o creio, porém. 
Olhando o horizonte político e as figuras que nele se vão perfilando em Portugal não vai ser tão cedo que tal vai a acontecer, a menos que esteja enganado.
Oxalá, o esteja!


Do engenho e arte nasce a obra!



Alçado Principal da Estação do Rossio (Lisboa) 
da autoria do Arquitecto José Luis Monteiro
in, Revista "O Occidente" de 1 de Julho de 1888

Em toda a obra de criação há um fio condutor, nem sempre facilmente discernível, que lhe dá unidade, um fio discreto ou evidente, da maior importância, pois é um dos sinais da sua autenticidade. (Eugénio de Andrade)


Que fio condutor é aquele de que nos fala Eugénio de Andrade?

Acrescenta, ainda, que ele é discreto e evidente, ou seja, é algo que existe como estando despercebido, sem contudo deixar de estar patente, constituindo assim um misto de um escurecimento que se deixa aclarar, como se fosse intenção do autor deixar o cunho da sua modéstia e não o ter conseguido, pelo facto da sua obra se ter sobreposto e viesse à tona para falar da beleza dela ao mundo, que mesmo distraído, não pode deixar de a admirar porque na sua criação o fio condutor fala pelo autor e pela autenticidade das linhas que são, no caso concreto da fachada da Estação do Rossio, da maior importância, por nos mostrarem o engenho e a arte que presidiu à elaboração do projecto no silêncio frutuoso do gabinete do seu autor.

Voltando, ainda, ao tal fio condutor, dir-se-.á  que ele existe como uma realidade dentro do homem, embora constituindo a parte que se não vê, porque não é discernível, no dizer de Eugénio de Andrade, mas é por ter essa qualidade que ousa fazer - e tem feito ao longo dos milénos - todas as obras que ficam a marcar no tempo a força da sua acção criativa, por ter na sua imaterialidade o sopro divino existente no mundo desde a primeira aurora da Criação.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Viver em pleno o dia de hoje!



Quadro de Eugenio di Blas (1845-1931)


Nesta tela - a vivência do dia de hoje - adivinha-se nas expressões de todas as personagens pela descontração das atitudes, incluindo na bordadeira que ouve e trabalha, nas duas senhoras sentadas mas intervenientes na conversa, no modo atento como de pé e de mãos nos quadris em sinal de descanso, ouvem o pregador que - numa imagem possível que à nossa imaginação - pode estar a transmitir como ensinamento e conduta de vida os conceitos vertidos no poema que a seguir se transcreve "ipsis-verbis".

Não conhecermos o seu autor, mas é-lhe devida uma homenagem pelo texto pleno de conteúdo humano que nos legou.

                Hoje 

Hoje vou apagar do meu calendário dois dias:
Ontem e amanhã.
Ontem foi para aprender,
E amanhã será uma consequência do que possa fazer hoje.

Hoje enfrentarei a vida
Com a convicção de que este dia nunca retornará.
Hoje é a última oportunidade que tenho
De viver intensamente
Já que ninguém me assegura
Que amanhã veja o amanhecer.

Hoje serei corajoso
Para não deixar passar as oportunidades que se me apresentem...
Que são a minha oportunidade de triunfar.

Hoje aplicarei
A minha riqueza mais apreciada:
o meu tempo
No trabalho mais transcendente:
A minha vida;
Passarei cada minuto
Apaixonadamente para transformar este dia
Num único e diferente dia da minha VIDA.

Hoje vou vencer
Cada obstáculo que apareça no meu Caminho,
Acreditando que vou vencer.

Hoje vou resistir
Ao pessimismo e conquistarei
O mundo com um sorriso, com uma atitude positiva
Esperando sempre o melhor.

Hoje farei de cada humilde tarefa,
Uma sublime expressão.

Hoje terei os meus pés sobre a Terra
Compreendendo a realidade
E as estrelas tilintarão
Para inventar o meu futuro.

Hoje usarei o tempo para ser feliz
E deixarei as minha pegadas e a minha presença nos corações dos outros.

Hoje, convido-te a começar uma nova estação,
Onde possamos sonhar
Que tudo o que nos propomos possa ser possível
E o obteremos,
Com alegria e dignidade.


O pão nosso de cada dia nos dai, hoje.

S. Mateus e S. Lucas relatam esta frase que veio da boca de Jesus e faz parte da oração universal do Pai-Nosso, que não se refere, apenas, ao pão com que saciamos a fome mas a tudo o que nos faz falta para vivermos o dia de hoje na plena dignidade da pessoa humana que somos, motivo suficiente que levou o autor deste poema cheio de arreganho, que nos propõe, para bem de nós mesmos, o esquecimento do dia de ontem, já vivido e de não nos afadigarmos com o dia de amanhã, ainda escondido na roda do tempo e no lugar dos dois privilegiar o dia de hoje.

E assim:

  • enfrentar a vida.
  • Ser corajoso.
  • Aplicar o tempo no melhor trabalho - no mais transcendente - como diz o poema.
  • Porfiar para vencer os obstáculos.
  • Resistir ao pessimismo.
  • Saber que é preciso ter os pés bem assentes no chão que se pisa.
  • Fazer da tarefa mais humilde a mais necessária.
  • Viver em pleno.
  • Começar um dia novo e, se for preciso, esquecer o dia velho.

E, depois, de tudo isto, já de si tão importante para se conseguir a realização pessoal que é uma tarefa, não só desejável, como merecida - se entendermos o dia de hoje com a força espiritual que ele requer - que - o pão nosso de cada dia - seja de tal modo copioso que uma parte dele seja repartido pelos nossos semelhantes que não sabendo o sentido deste - pão nosso - com a nossa acção, possamos por a render a frase encantadora que se lê neste poema:
  • E deixarei as minha pegadas e a minha presença nos corações dos outros.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A simbologia de "O Mostrengo" nas nossas próprias vidas!


Gravura publicada pela Revista "O Occidente" de 21 de Julho de 1886



IV - O Mostrengo


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa
in, "Mensagem"



A "Mensagem" é um livro profundamente pensado tendo ocupado a mente do Poeta entre 1913 e 1934 quando foi publicado - um ano antes da sua morte - constituindo um texto poético onde subjaz de um modo mais fulgurante a matriz épica da epopeia heróica que perpassa em toda a obra que insere na sua segunda parte este "Mostrengo" medonho que se dizia haver no encontro das águas do Atlântico com as do Índico e com o qual Bartolomeu Dias trocou o célebre diálogo que a arte poética de Fernando Pessoa arquitectou - próprio de dois gigantes - o da lenda que morava na escarpa do Bojador e que ousadamente, naquela noite de breu se pôs a girar à volta na nau comandante a impor os seus direitos quanto à liberdade de passagem e o daquele marinheiro destemido que lhe lembrava que ali ao leme ia ele, mas tendo por detrás a vontade do rei D. João Segundo, rei de um povo heróico que pretendia conquistar o mar que havia para além do Cabo das Tormentas, de pouco se importando que o "Mostrengo" se reclamasse seu dono.



"Mostrengos" semelhantes a este encontram-se na vida aqui e acolá, pelo que a simbologia deste episódio marítimo não raro a encontramos no desenrolar da vida, onde a coragem dos nossos avoengos - tivessem ou não sido marinheiros - nos capacitam a vencer e passar adiante de todos os "Indicos" para os quais nos queiram tolher a passagem, na certeza que "Cabos das Tormentas" existem e não podem ser as adversidades as vencedoras sobre a força da nossa vontade, porque esta no dizer de Horácio tem o condão de despertar em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas.

Os grandes Poetas distinguem-se por serem criadores de imagens, como esta.
Neste caso, Pessoa, criou uma imagem heróica de cariz militar, atendendo que Bartolomeu Dias ia ao serviço do rei D. João Segundo. No caso da vida de cada homem e no seu agir na sociedade civil, cabe-lhe por direito próprio ser o criador de imagens onde esteja presente a simbologia de o "Mostrengo".

Só por isto vale a pena ler e meditar neste formidável poema e fazer dele um lema de vida que nos deve acompanhar por todos os mares e caminhos do Mundo.
E assim, vencer todos os "Mostrengos" e passar adiante!


domingo, 1 de fevereiro de 2015

O engenho e a obra dos homens!

Estação de Paredes, Viaduto da Pala ,
Estação do Mosteirô, de Vila Meã e Viaduto da Sermanha na via férrea do rio Douro
(Gravura publicada pela Revista "O Occidente" de 11 de Abril de 1884)

Abrigo de passageiros na estação de Mosteirô

Gravura publicada pela Revista "O Occidente" de 21 de Junho de 1884

A linha ferroviário do Douro nasceu do levantamento do primeiro troço do terreno entre o Porto e a Régua de que foi incumbido o engenheiro ferroviário Francisco Maria de Sousa Brandão (1818-1892) mereceu a aprovação do projecto daquele troço em 1867, tendo sido desde logo concebido em bitola ibérica.
A sua construção global ocorreu entre 1873 a 1887 como um dos reflexos mais notáveis, entre nós. da Revolução Industrial.

A construção da linha ferroviária do Douro, de paisagens exuberantes, marginal à toalha líquida que corre a caminho do Atlântico, onde o comboio se reflecte em muitos troços teve o objectivo de facilitar por esta via a ligação com a Europa, na atenção que era já dada no último quartel do século XIX à região do Douro, mormente, pela riqueza dos seus produtos.

O que se quer enaltecer foi o esforço do homem, naquele tempo desprovido de grandes meios mecânicos, que mesmo assim, no decurso de, apenas doze anos para além da ferrovia, construiu Estações, 25 Pontes e 22 Túneis, tendo constituido uma das maiores obras públicas que assinalaram a época que a História registou como a do "Fontismo",em lembrança de António Maria de Fontes Pereira de Melo (1819-1887) falecido no mesmo ano em que o projecto que tanto acarinhara durante os três períodos do seu exercício de Presidente do Conselho de Ministros do Reino de Portugal, se concluiu, com a chegada do comboio a Barca de Alva.

Esta linha ferroviária que é, hoje, um "ex-libris" da região duriense a nível internacional já assim o foi ao tempo da sua construção em honra da engenharia e dos trabalhadores portugueses, tendo, como é sabido, passado por encerramentos e reaberturas, fruto da desertificação humana e da sua pouca rentabilidade, mas por aquilo que ela ostenta de ser como é, um valor histórico patrimonial, bem merecia outro tratamento, declarando-a "Monumento" ou um "Bem de Interesse Cultural", até pelo serviço que presta nas viagens históricas que vão acontecendo.

O engenho e a obra do homem ali bem retratada, por certo, que merecia ser assim considerada.