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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Um poema de Miguel Torga: RECATO.




RECATO

Lê.
Mas decifra,
Com razão
E o coração,
Versos que nem eu quero que o pareçam,
De tão negros que são.
Todo o poema é um teste
Que põe à prova a inquietação
De quem nele se aventura.
Este
Que te proponho a horas mortas,
E é um tronco de tortura
Penitente,
Abre-te cautamente
As portas
De uma  pungente
Dor envergonhada,
Assim veladamente
Soluçada.

Coimbra, 17 de Novembro de 1984
in, "Diário XIV"



A que se deve este poema do Poeta, escrito a horas mortas?
Meditemos. 

Sejamos dignos daquilo que ele nos propõe e vamos tentar decifrar Com razão E o coração estes versos onde subjaz a sua Dor envergonhada como se ela tivesse sido - e foi concerteza, o que o levou em Coimbra onde teve o seu consultório de médico a não dormir sossegadamente naquela noite em que o seu preclaro pensamento deu em bater as ondas alteradas do seu mar interior contra uns certos "rochedos" que havia nas arribas das costas da vida e que lhe tiraram o sono.

Dois dias depois de ter escrito este poema, diz ele no seu "Diário" que a sua indignação contra a vida política havia deixado de ter a veemência do passado por lhe faltar o fogo da esperança.

E não tarda que a seguir esta linha de pensamento, declare: Descri de todos os governantes. Nem os melhores prestam. Nenhum é imune à tentação do poder. O poeta nunca sabe quando um verso lhe é dado. O santo quando atinge a santidade. Ora o político, desde que e entronizado, fica senhor do seu pequeno mundo. Confunde o privilégio de mandar, que devia ser a modéstia de servir, com os fumos da grandeza.

Está aqui a chave do mistério do poema RECATO, assim chamado porque o Poeta se quis resguardar nele - e na sua Dor envergonhada - para não desatar a chamar de vaidosos os políticos daquele tempo, como os de agora, que ao cavalgar o cavalo do poder confundem o poder do mando com a modéstia de servir, pelo que este poema retrata perfeitamente aquilo que levou Miguel Torga a fugir dos tentadores que o queriam enfileirar no Partido Socialista e que, embora tivesse aceitado presidir ao primeiro Comício Socialista realizado em Coimbra em 1-6-1974 - conforme diz no seu livro "Ensaios e Discursos" - na abertura dos trabalhos, disse: 

Gostaria de esclarecer desde já que, não sendo filiado no Partido, presido a esta reunião na qualidade de homem socialista que sempre fui. Homem mais sensível a uma ética do que a uma ideologia, mais espontaneamente fraterno do que disciplinarmente correligionário, mais atento ao imperativo dinâmico de vozes remotas do que ao momentâneo encantamento dos ecos doutrinários.

Que falta estão fazendo homens íntegros como Miguel Torga, capazes, como diz o povo de chamar os bois pelos cornos - porque se estes animais os têm não podem ser ignorados de forma alguma - pelo que, conviver, fingindo ou ignorando as verdades não pode ser um modo de vida, razão, porque há que tomar atitudes consequentes.

Descri de todos os governantes - diz o Poeta -  e não foi por deixar de ter sido aliciado, foi porque a sua consciência de cidadão impoluto falou mais alto dentro de si mesmo, pelo que, na hora que passa em que a cadeira do poder espera por quem nela se queira assentar ficaria bem aos políticos que a querem alcançar meditar no que disse Miguel Torga quanto ao privilégio de mandar, que devia se a modéstia de servir...

RECATO é uma poesia digna de um homem de valor.
Miguel Torga foi um desses homens!

Um poema de Miguel Torga: MAR MATINAL




MAR MATINAL

Toda a noite o rumor da tua voz
Dorida
Rolou nos meus ouvidos de poeta.
Toda a noite a indiscreta
Luz do meu pensamento
Varou em vão
A negra escuridão
Desse baço e salgado sofrimento.
E, quando amanheceu
E a vida renasceu,
Eras um verso azul a ondular ao vento.

S. Pedro de Moel, 22 de Agosto de 1984
in, "Diário XIV"



O lídimo transmontano de S. Martinho de Anta como dá conta aos seus fiéis leitores - como fui e sou, porque Miguel Torga foi um Poeta invulgar pelo encadeamento cheio de sentido como soube burilar cada palavra dos seus versos -  dormiu naquela noite perto do mar em S. Pedro de Moel, e toda a noite o mar rolou nos seus ouvidos de poeta, mas de um modo que apenas ele o sentiu para o poder cantar.

Com o seu pensamento varado - como se ele fosse um barco em cima do areal da praia - ousou penetrar, mas em vão / a negra escuridão, como ele conta do batido e salgado sofrimento das ondas, como se cada uma delas se assemelhasse ao próprio sofrimento que as ondas da vida provocam no sentir humano...

Bastou, porém o raiar da manhã para que ele visse, como que transfigurado o MAR MATINAL num verso azul a ondular ao vento, o que não deixa de ser uma mensagem de confiança que Miguel Torga nos quis deixar, porquanto da maior das fúrias dos "mares" das nossas noites mais difíceis de viver, há sempre, um modo de ver em cada madrugada que nasce, um modo de ver - de azul pintado - o novo dia que nasce e que pode e deve ser entendido como um novo factor de confiança.

Esta é tónica do poema, o que equivale a dizer que em cada Poeta da estirpe de Miguel Torga, cada palavra é medida nas sílabas métricas de cada verso e, por isso, pretendem atingir cada um na medida que lhe cabe receber, pelo que, quando a madrugada se abre cada dia é um verso azul a ondular ao vento...

Assim tem de ser!

A terra, a lavra, os velhos lavradores... e alguma saudade!

A lavra da terra
Gravura publicada pela Revista "Occidente" de 21 de Julho de 1887


O antigo lavrador do arado e grade puxados pela força animal dos bois de trabalho já não existe que não seja na lembrança dos mais velhos - como eu - que tive a sorte de os ver, ainda, empenhados na faina dos campos a abrir os sulcos, que depois eram gradados em demoradas idas e vindas dos animais com o fim de desfazer os torrões da terra mais firme, por forma à dar às superfícies lavradas a textura da lavoura.
                           
grade


Segundo se crê há 4.500 anos  a.C. o ser humano fixou-se e passou a usar os galhos das árvores mais densas e duras - que foram os arados primitivos -  para revolver a terra e semear as sementes, tendo com esta prática passado a dominar a terra, o que lhe permitiu criar os primeiros povoados, ao que consta nos vales férteis da Mesopotâmia irrigados com as águas dos rios Tigre e Eufrates.

Não é este o local nem tampouco se pretende assinalar pelos séculos fora a evolução deste utensílio que passou da matéria vegetal para a mais sofisticada das técnicas mecânicas que explodiram no século XIX e preencheu quase todo o século imediato, tendo dado ao lavrador uma ferramenta indispensável ao amanho das terras.

Apontamento, apenas, de um tempo em que no remanso das aldeias mais escondidas entre montes o arado e a grade - hoje peças de museu - foram importantes e indispensáveis, como o foram os bois possantes que acudiam, lestos à voz do lavrador.

Recordo-me de os ver passar ao fim do dia, nos tempos da minha adolescência, a caminho da corte, mansos e bons com o seu olhar sereno que sempre me impressionou e que um dia - muitos anos depois - recordei num poema que a minha saudade ditou, acordando em mim a lembrança da boeirinha - a doce mulher de um lavradaor da minha aldeia - que costumava conduzir os bois depois da lavra dos campos.

BUCÓLICO

Ó terra da Beira, distante...
Quanto de ti me contenta!
O ar,
A luz,
O céu azul sem tormenta!

Terra onde um dia nasci
Entre pinhais e penedos...
Ai, quanto me prende a ti:
O milheiral,
Verde e doirado,
Cheio de segredos!
O ribeiro manso
Por entre salgueirais
Limando penedos!

Os carros de bois
À tardinha,
Lentos e mansos
Pela mão da boieirinha!

Os teus pinhais
E os montes floridos
De cores vivas
Como vitrais!
A tua capelinha
Co’a torre sineira
Muito branquinha!
Mas de tudo
O que mais me enleia
E enternece
É a paz
Da minh’aldeia...
Que noutro lado
Não acontece!

1972

domingo, 2 de agosto de 2015

Um poema de Tomás Ribeiro (1832-1901) - A PORTUGAL


Casa de Tomás Ribeiro em Parada de Gonta
Gravura publicada pela Revista "Occidente" de 21 de Junho de 1887


A casa que aqui vemos reproduzida na gravura, onde nasceu o celebrado Poeta foi doada por ele para a instalação de uma Estação dos Correios, embora sempre lembrada como seu berço na Vida e nas Letras, porque Parada de Gonta (Tondela) sempre viveu no seu coração .
Homem ilustre e figura de proa na política do seu tempo, foi deputado pelo Partido Regenerador, e como ministro sobraçou as pastas da Marinha, do Ultramar, da Justiça - Tomás Ribeiro era formado em Direito pela Universidade de Coimbra - do Reino, da Indústria e das Obras Públicas, num espaço que mediou entre 1878 e 1891 em vários Governos da Monarquia Constitucional.

Dotou a sua terra de uma Escola Primária a que deu o nome do então Primeiro-Ministro Fontes Pereira de Melo, cabendo-lhe a tarefa de enriquecer Parada de Gonta com uma Estação de Caminhos de Ferro, tendo cabido a inauguração da Igreja Paroquial em 1894, na qualidade de Ministro das Obras públicas.

Com a aparição no dia 31 de Maio de 1822, numa gruta nas margens do rio Jamor, perto do chamado "Casal da Rocha" de uma imagem de Nossa Senhora - hoje conhecida por Nossa Senhora da Rocha, em Carnaxide - foi um dos maiores incentivadores do seu culto, tendo estimulado a construção do Santuário de Nossa Senhora da Rocha e de várias outras obras de benefício para a população local.

É o consagrado autor consagrado dos seguintes livros:
  • D. Jaime ou a dominação de Castela 1862
  • A Delfina do Mal (poesia) 1868
  • Sons que Passam (poesia) 1868
  • A Indiana (entreacto em verso) 1873
  • Vésperas 1880
  • Jornadas (dois volumes de narrativas de viagens pelo Oriente: 1.ª parte - Do Tejo ao Mandovi; 2.ª parte - Entre Palmeiras; 3.ª parte - Entre Primores) 1873
  • Dissonâncias 1890
  • História da Legislação Liberal Portuguesa (ensaio) 1891-1892
  • Empréstimo de D. Miguel (ensaio histórico) 1880
  • Carta de Alforria (poema em homenagem à Dom Pedro II, Imperador do Brasil)
  • O Mensageiro de Fez (poema de glorificação a Nossa Senhora de Carnaxide) 1900.

Desde 1982 - 150º aniversário do seu nascimento - que os seus restos mortais repousam na terra onde nasceu, a sua "Fresca Aldeia Formosa", como ele lhe chamou.

Deu a Portugal um título bem conhecido e que faz parte da gíria popular: "Jardim da Europa à beira mar plantado". Vamos encontrá-lo na sua poesia intitulado A PORTUGAL.


Meu Portugal, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei débil infante,
variado jardim do adolescente,
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante,
meu vergado pomar d’um rico outono,
sê meu berço final no último sono!

Costumei-me a saber os teus segredos
desde que soube amar; e amei-os tanto!...
Sonhava as noites de teus dias ledos
afogado de enlevo, em riso e em pranto.
Quis dar-te hinos d’amor, débeis os dedos
não sabiam soltar da lira o canto,
mas amar-te o esplendor de imenso brilho…
eu tinha um coração, e era teu filho!

Jardim da Europa à beira-mar plantado
de loiros e de acácias olorosas;
de fontes e de arroios serpeado,
rasgado por torrentes alterosas,
onde num cerro erguido e requeimado
se casam em festões jasmins e rosas;
balsa virente de eternal magia
onde as aves gorgeiam noite e dia.

(…)

Por ti canto, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei débil infante;
meu viçoso jardim de adolescente,
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante.
Tu… dá-me ao cerrar noite o meu inverno,
um leito funeral ao sono eterno.

in. D. Jaime


Tomás Ribeiro faz parte com o seu sentimento pátrio de que este poema é uma exaltação sentida e profunda de uma pléiade de ilustres homens das Letras portuguesas de que foi rico todo o século XIX, com ênfase muito especial para a sua segunda metade, cabendo dizer que este Poeta e outros só não ultrapassaram - como deviam - as fronteiras europeias da cultura pelo atraso político-social em que a política canhestra do "deita-abaixo" em obediência ao sonho republicano, não ousou colocar Portugal nas asas da fama.

É um mal endémico de que estamos a sair.
Tenho a certeza disso.

Jovens, "cabeças de vento"?




Ouve-se dizer, amiúde, que os jovens de hoje são "cabeças de vento", quando, afinal, o que se passa é essas tais "cabeças" serem os adultos - muitas vezes, os próprios pais pela vida desregrada que levam, enquanto eles caminham para ser mais consequentes nas suas opções de vida, não encontrando, na sociedade, no seu todo, condições para poderem escolher conscientemente os seus caminhos.

Vai longe - felizmente - o tempo da jovem submissa que aceitava o esposo que lhe era imposto pelo compadrio familiar e, de um modo geral, de todas as condições a que era submetida por um destino cruel,

É evidente que a nova situação precisa de solidificar-se e, não raro, aqui e ali, tem-se cometido exageros e, até, perfeitos absurdos comportamentais, mas o amor como zénite ou horizonte maior não deixa de morar no coração dos jovens, continuando a ser a pedra preciosa de que eles - salvo as excepções que sempre acontecem - de que eles não prescindem para embelezar a vida.

O problema reside nos adultos, pelo que se torna urgente mudar as mentalidades.

Não há moral que resista ao espectáculo degradante da procura em primeiro lugar do "ter" e, depois - mas distância longínquas do pensamento - a necessidade social de "ser", que é o que está faltando no equilíbrio que os deve nortear e, com ele, vivo e actuante, serem testemunho para os jovens.

Eis, porque, as "cabeças de vento" andam por aí, à mostra demais na sociedade materializada que estamos a construir e que tendo libertado os jovens para sua comodidade pessoal não lhes têm dado como mereciam condições de "ser", que dito deste modo seco, pode parecer um conceito onde falta o sentido que de facto existe.

Efectivamente, o "ser" só ganha sentido, quando na interrogação do Universo se encontra a transcendência do humano, pelo que é preciso - e urgente - que os adultos e a sociedade no seu todo, se voltem para os jovens, mostrando-lhes que a vida é uma aventura que tem duas conquistas: a material e a espiritual, pelo que Deus não pode ser ignorado, como se o facto de "existir" se bastasse por si mesmo até ao mergulho no nada que é a morte.

Donde, a matéria sem o acompanhamento espiritual o que faz acontecer são "cabeças de vento" que vivem a caminho da finitude da vida transformada em nada, quando se deve viver para nos libertármos desse nada e emitarmos como diz o Poeta, "os que se vão da morte libertando"

E para aqui que caminhamos. Todos, sem excepção.

Vidas complementares!



Para a 
H.L.J.C.M.M.


Que dizer-te nas tuas 76 Primaveras
E nas quase 54 que vivemos em comum?
Que dizer-te, que não seja, apenas e deveras,
Que agradeço a Deus sermos dois em um!


Que dizer-te, agora, que não seja isto:
Que o modo como te vejo tem outro olhar,
E o modo como te sinto, quando penso nisto,
É que por ti nunca esqueci o verbo AMAR!


Que dizer-te, agora, que já não te tenha dito?
Que dizer-te, agora, que não seja agradecer
Que em tudo aquilo que fazes, acredito,
E que te vejo mais linda em cada amanhecer!


Que dizer-te, agora, senão, pedir-te o favor
De continuares a ser aquilo que tens sido.
Força, coragem, dedicação, em tudo um valor
Que me habituei a amar e no qual resido!


Que dizer-te, agora,  senão , este pedido:
Que olhando, hoje, o meu cabelo escasso
Depois de tantos anos que contigo hei vivido
Sintas que para ti caminho como no primeiro passo!

E na ampulheta do destino, a Vida, 
pela graça de Deus ainda continua a cair!


Tudo começou pelo encontro de vidas cruzadas.

Depois, com esforço e persistência - a vida a dois tem de ser um encontro diário - passou a consolidar-se um modo vivencial que passou a lembrar as telhas de um mesmo telhado, dispostas de tal forma que uma cobrindo a outra têm resistido ás chuvas, temporais, nortadas, canículas, geadas e a todos os ventos por mais desencontrados que sejam.


sábado, 1 de agosto de 2015

Confiança em quem?


in. "Observador"


Ao que parece - segundo noticias acabadas de chegar - o cartaz da campanha do PS às próximas legislativas - É TEMPO DE CONFIANÇA - está a causar algum mal-estar nas hostes socialistas, a ponto de ter merecido três réplicas jocosas não sei de quem e que o "Observador" reproduz na sua edição de hoje.

Delas retiro a terceira que dá conta, pela imagem, do que aconteceu com as cheias da cidade de Lisboa em Novembro de 2014 e para as quais António Costa disse que para as evitar não havia remédio. Não sendo. exactamenmte, estas as palavra, foi este o sentido, quando afinal existe e o actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa já mostrou o que deve ser feito.

Pelo que, se no tempo em que foi responsável máximo da autarquia lisboeta não mostrou confiança para resolver o problema, será que a pode exigir ao eleitorado no dia 4 de Outubro?

E não pergunto mais nada. 
O povo é soberano.

O antigo bucolismo da Várzea de Colares


Um recanto bucólico da antiga Várzea de Colares
Gravura publicada pela Revista "Occidente " 
de 1 de Novembro de 1878


Com a data de publicação de 1860, Inácio de Vilhena Barbosa publicou um livro intitulado: "As Cidades e Vilas da Monarquia Portuguesa que têm Brasão de Armas", cabendo no mesmo uma pitoresca descrição da vila de Colares que se transcreve com a grafia do tempo:

Nas faldas da serra de Cimtra, uma legua ao oeste da_ villa d'este nome, esté sentada a villa de Col- lares é sombra delrondosos arvoredos. Pela en-\ costa da serra sobranceira 5 povoaqio vio subindn algumas casas, quintas, e mattas de castanheiros. Inferior in villa estende-se um fertil valle, deno- minado a Varzea, todo cobertode pomares, coor- tado pelo rio das Magis, que vae desaguar no oceano d'ahi uma legua. E’ pois sobremodo amena ede- liciosa a situaqio de Collares. (...)


(...) 0 sitio chamado a Varzea é dos mais lindos e amenos dos arrabaldcs da villa. As agujas do rio das Maqis, represadasahi em uma ponte de pedra, deixarn gosar 0 prazer dc navegar-se em um pequeno barco, que ali ha para esse fim, pelo rio acima até certa distancia, sempre entre pomares, e debaixo de copado arvoredo. (...)  

A vila teve um antigo castelo do qual diz o autor que o senado da camara servia-se d’elle para dlversos usos do minlsterio público. Porém no tempo dos Filippes de Castella, D. Diniz de Mello e Castro, que fol bispo de Leiria, de Vizeu, e da Guarda, estabelecer n’esta villa asua residencia, pediu ealcanqoua posse do castello, que logo transformou em um palacio, jun- tando-lhe uma bella quinta, acmalmenle penan- centes a seus herdeiros. Desta fortaleza provavelmente procedem as armas da villa, que é um castello entre arvores.
Visconde de Juromenha

Antes, de Vilhena Barbosa, por altura de 1838, o Visconde de Juromenha no seu livro: "Cintra Pinturesca ou Memória Descriptiva da Villa de Cintra, Collares es eus arredires" ao falar da Várzea, faz do local esta descrição que se transcreve: “Summamente aprazivel he o sitio da Varzea, onde o rio tem huma ponte de cantaria, e se represam as aguas que servem para a rega dos pomares, e de agradavel recreio para aquelles que o navegam em hum pequeno batel, debaixo da sombra das arvores carregadas de pommos , os quaes hindo pelo rio abaixo, quando o rio era navegavel até ao mar, deram o nome á praia onde elle vai juntar a sua humilde veia com as encapelladas vagas do Occeano que se quebram nesta praia a que chamão das Maçans.”
                                                                                     

Local idílico, mantém ainda hoje o encanto do bucolismo doutras eras em que ao longo do rio das Maças o pequeno barco da gravura da gravura, com os seus passeantes emprestavam ao local a magia dos sítios encantados de Portugal, de que Colares era - e é - privilegiado.

Recordo-me dos meus tempos de juventude e do percurso romanesco do carro eléctrico que de Sintra rumava até à Praia das Maçãs, onde me refresquei muitas vezes da caloria que levava de Lisboa.

Por isso, este breve apontamento, se é grato  para a minha lembrança e se fica aqui como testemunho de um tempo feliz que as minhas idas a Colares eram um motivo de poesia, fica, também, como lembrança que, eventualmente, possa aferir dos sentimentos de velhos amigos meus e de outros que o não sendo, sentiram como eu, o bucolismo que emanava olorosamente das velhas árvores da Várzea de Colares e do ex-libris da Adega Regional de Colares, que me garantem ser a Adega Cooperativa mais antiga do País.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

O engenho do homem!


Prensa compressora de palha e feno
Gravura publicada pela Revista "Occidente" de 1 de Março de 1888


No princípio dos tempos, Deus disse: «Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.» Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei, multiplicai--vos, enchei e submetei a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus e a todos os seres vivos que existem e se movem sobre a terra, igualmente dou por alimento toda a erva verde que a terra produzir.» E assim aconteceu. Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o sexto dia. (Gn 1, 26-31)


Assim mandatado o engenho do homem, até hoje, deixou de ter limites!

A prensa que a gravura representa, pertenceu à criatividade mecânica dos engenheiros da firma inglesa Whitman, que segundo a notícia que a acompanha publicada pela famosa Revista "Occidente" colocou em Portugal ao cuidado da Firma Companhia Real Promotora de Agricultura Portuguesa - para venda - esta máquina curiosa que constituiu no tempo um avanço incontestado no árduo trabalho que consistia em guardar a palha e o feno para tratar dos animais em tempo de Inverno, permitindo por meio de uma compressão mecânica guardar, devidamente, empacotados em fardos aqueles restos agrícolas, após a colheita dos frutos.

Conta o articulista que no dia 19 de Fevereiro de 1888, assistiu no picadeiro do Sr. José Maria dos Santos à experiência desta máquina, movida pela força animal, acrescentando que a mesma trabalhou na perfeição, tendo apenas necessidade de receber numa abertura superior a palha ou o feno que era comprimido através da rotação em meio círculo de uma alavanca móvel em que a força animal permitia penetrar longitudinalmente um êmbolo, cuja função era de comprimir os materiais, dando-lhes a forma de fardos geometricamente perfeitos.

Bem curiosa foi esta máquina simples que não pode, hoje, deixar de nos impressionar pela forma mecânica dos inertes e, sobretudo, pela forma engenhosa que é, na sua essência construtiva foi um hino do homem ao seu Criador, que desde o princípio lhe ordenou que submetessem a terra e tudo o que nela fora criado.

É que o homem tem feito,
Resta pensar se no tempo que passa as obras do homem de tão sofisticadas não se estão voltando contra ele...


Os mestres calafates


"Os calafates de Setúbal"
Gravura de J. Vaz  publicada pela Revista "Occidente" 
em 1 de Fevereiro de 1888


O calafate é uma profissão desaparecida e que remonta aos tempos da construção naval das naus portuguesas que se fizeram ao mar à descoberta de novas terras.
Na gíria marítima eram operários especializados - e assim tratados por "mestres" - a quem cabia o zelo de vedar com estopa de algodão embebida numa mistura de alcatrão as fendas entre tábuas dos navios por forma a evitar a entrada da água.

Olhando a gravura e a sua data, existiu em Setúbal um famoso calafate, António Maria Eusébio (1819-1911) conhecido na cidade por "O Calafate", uma personagem que juntou à sua profissão a arte de escrever versos populares que publicou aos 84 anos de idade.

Nunca saberemos se J. Vaz, o autor da gravura se inspirou nele e na sua profissão para nos dar o sugestivo quadro que se reproduz, mas sabemos que os seus versos de "cantador popular" reunidos apareceram em 1901 sob o título: "Versos do Cantador de Setúbal" que mereceram um "Prefácio" de Guerra Junqueiro e que a cidade honrou este homem bom, em 1968 com um busto em bronze e que se encontra no Parque do Bonfim.


.
E é neste desfiar do novelo das ideias que surge o insigne Poeta Cesário Verde, que na sua poesia tendo sido um acrisolado "pintor" de quadros urbanos não esqueceu "os mestres calafates", e como testemunho do amor que tinha por eles - e outras profissões de que nos fala - fá-los viver no seu poema AVE-MARIAS, onde eles surgem de volta do trabalho, dando-nos deles uma "pincelada" breve, mas intencional, como aliás, aconteceu com todas as figuras que nos deixou imorredoiras, nos seus versos.

AVE-MARIAS

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



Os "mestres calafates" já se foram embora, mas deles ficou a bela recordação dos homens bons desta terra que na humildade das suas profissões conseguiram deixar para os que sucederam - e com toda a justiça - lembranças que apagadas pelo devir dos tempos, não podem deixar de merecer a homenagem que lhes é devida, tal como a que lhe prestou Cesário Verde e a municipalidade da cidade de Setúbal a António Maria Eusébio "O Calafate"


Momentos para ouvir e agradecer: Aleluia! (29)


"Aleluia" Exsultate Jubilate (alegrai-vos) é uma peça musical escrita por Mozart em 1773, inicialmente composto para ser cantado por um homem castrado e, hoje, um dos temas musicais favoritos das grandes sopranos de todo o Mundo, com relevo especial para o seu último movimento.

Ouçamos e agradeçamos a Deus a voz de Bárbara Bonney.



 Alegrai-vos, sede felizes
 Ó almas abençoadas,
 Alegrai-vos, sede felizes,
 Cantando músicas doces;
 Em resposta ao seu canto
 Que os céus cantam diante de nós

 Este dia amigável brilha,
 e tanto nuvens e tempestades fugiram agora;
 para o justo lá surgiu uma inesperada calma.
 Noite escura reinou em todos os lugares.
 vós que temíeis até agora,
 alegrai-vos para esta madrugada de sorte
 e dai guinaldas e lírios com a mão direita cheia.

 Tu, ó coroa das virgens,
 concede-nos a paz,
 consolar os nossos sentimentos,
 a partir do qual nossos corações possam suspirar.
 Aleluia.


Aleluia é uma expressão usada para louvar a Deus nos cânticos e orações e, também, para se assinalar Dias especiais, como o Sábado que antecede o Domingo de Páscoa

No Livro do Apocalipse é utilizada por quatro vezes:
  • E, depois destas coisas ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! Salvação, e glòria, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; (19, 1)
  • E outra vez disseram: Aleluia! E a fumaça dela sobe para todo o sempre. (19, 3)
  • E os vinte e quatro anciãos, e os quatro animais, prostraram-se e adoraram a Deus, que estava assentado no trono, dizendo: Amém. Aleluia! (19, 4)
  • E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia: Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina. (19, 6)
Mozart não fugiu à exaltação que este termo pretende assinalar se atentarmos na tradução da letra e em cuja composição musical o que podemos ouvir e agradecer é o júbilo da alegria para esta madrugada de sorte, que verdadeiramente, deveria constituir para todos nós, quando acordamos um motivo de soltar o nosso - Aleluia - a Deus, pela sorte de termos em frente um novo dia para vivermos.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

O "comentador" António Costa.


Fala.se demais e mal... e, no entanto, é preciso fazer pontes e haver encontros sobre o precipício onde Portugal se encontra.

Aconteceu, ontem.

Ainda Passos Coelho não tinha acabado o seu discurso de apresentação do Programa Eleitoral da Coligação às eleições do próximo dia 4 de Outubro e já António Costa comentava - dizendo cobras e lagartos - do dito Programa, o que prova que este "comentador" não serve, porque, normalmente, ouve-se ou se lê aquilo que o outro diz para depois comentar.

António Costa não precisou disso.

Na fúria de dizer mal não se conteve, o que prova que tem muito para aprender para poder ser tido como um político responsável, pelo que não merece ser Primeiro-Ministro.
Esta atitude prova uma coisa. Os socialistas - como ele -  não precisam de ouvir os seus adversários políticos mais directos, porque a verdade é a deles e tudo o que os seus oponentes dizem são "sacos de palavras".

António Costa, procede mal porque o que o País precisa é de homens que façam da política um acto, que embora defenda o espaço em que cada um se move e lhe cumpra defender, não poderão perder o sentido nacional das suas actuações e Portugal precisa, quanto antes de rever a Constituição desfasada do tempo real que vivemos.

Portugal precisa de compromissos e não é com atitudes como as que tem tido António Costa que nos erguemos saudavelmente.
Não vale o regresso aos tempos em que a "ética republicana" era, apenas, um chavão para encobrir a falta de respeito político que havia pelo outro e do qual, o PS parece gloriar-se, como aconteceu nos seis anos anteriores ao actual Governo, em que, sem ouvir ninguém, de degrau em degrau caímos até quase ao último degrau da escada, que em vez de subir descemos.

Importa inverter isto, pelo que o "comentador" António Costa, impulsivo e destemperado, precisa de saber ouvir e depois falar, como, aliás, todos fazemos.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sem a mulher a vida seria um vazio (14)





É meu gosto, falar hoje, da mulher.

Não o venho fazer com lirismo ou falso recorte literário.
Antes com a realidade, a franqueza e o amor que o homem deve ter para com aquela criatura que Deus destinou - desde a primeira aurora dos tempos - para ser a sua companheira e aliada, pelo que, ao tomar conhecimento dos maus tratos que, aqui e além, a mulher sofre às mãos do homem, sinto um desejo imenso de não ficar calado, tendo em conta que é ela a matriz da vida e só ela, com a beleza que lhe empresta é a melodia que preenche a partitura do homem.

Sem ela a vida seria um vazio.
Uma autêntica noite.

Na realidade, dir-se-á e com toda a justiça que sem ela a vida não tinha sentido.
Nada teria acontecido.
E o homem teria passado sem deixar marcas no caminho, pois só com ela lhe é possível assinalar - a dois, num só - a passagem fugaz por este Mundo.
A mais pequenina como a maior das obras do homem têm sempre por detrás a alavanca e, tantas vezes, o impulso da mulher.

Lembro, por exemplo, Nossa Senhora,
E fico em oração para Ela.