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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Uma história exemplar!




Um homem trabalhava numa fábrica de distribuição de carne.
Um dia, quando terminou o seu horário de trabalho, foi a um dos frigoríficos para inspeccionar algo. Mas, de repente, a porta fechou-se e ele ficou trancado lá dentro. Ainda que tenha gritado e batido na porta com todas as suas forças, jamais o poderiam ouvir. A maioria dos funcionários já tinha ido embora, e era impossível ouvir os gritos de dentro da arca frigorífica.
Cinco horas mais tarde, quando o homem já se encontrava à beira da morte, alguém abriu a porta. Era o segurança da fábrica, que lhe salvou a vida.
O homem logo perguntou ao segurança como foi possível ele passar e abrir a porta, se isso não fazia parte da sua rotina de trabalho, e ele explicou:
— Eu trabalho nesta fábrica há 35 anos. Centenas de trabalhadores entram e saem a cada dia, mas você é o único que me cumprimenta pela manhã e se despede de mim à noite. Os restantes tratam-me como se eu fosse invisível.
E concluiu:
— Hoje, como todos os dias, você disse-me “Olá” à entrada, mas não ouvi o seu “até amanhã”. Espero o seu “olá” e o seu “até amanhã” todos os dias. Para si eu sou alguém! Ao não ouvir a sua despedida, eu sabia que algo tinha acontecido...

in, "O Astrolábio"
ANO II - Nº 35 - 25 de Janeiro de 2015
Paróquias de Cabril, Dornelas do Zêzere, Fajão, Janeiro de Baixo,
Machio, Pampilhosa da Serra, Portela do Fôjo, Unhais-o-Velho e Vidual


A história é exemplar!

É um retrato da nossa sociedade apressada, esquecida por demais, das boas maneiras, fruto de uma educação que nas próprias famílias algo descristianizadas do nosso tempo nem sempre é atendida como o devia ser, com reflexos evidentes nas Escolas que recebem os educandos nos primeiros anos do despertar para as normas comportamentais do civismo que as devia nortear.

Este valor, esquecido da moral dos costumes cedeu o seu lugar a uma mentalidade competitiva, algo libertária, nascida de um laxismo imbricado no desenvolvimento das ciências puras e das técnicas avançadas que tiraram, no todo ou em parte, quando não são cumpridos - os antigos conceitos de ordem espiritual que estão subjacentes nas saudações de chegada ou despedida "olá!" - "até amanhã!" quando nos cruzamos com o nosso semelhante - pelo que, esta falta educacional nos leva a perguntar qual o interesse que vai ter o mundo futuro cerceado do valor destes cumprimento afáveis.

O "olá" da manhã substitui o "bom-dia", porque nele está a carga afectiva de alguém que se compraz com o encontro  do outro nas primeiras horas do dia, como se transmitisse a alegria e o agradecimento a Deus por mais um dia de vida.
"Olá", que bom é ver-te de novo!
É um cumprimento. 
Uma saudação fraterna.
O desejo que o outro tenha um bom dia.

O "até amanhã" se tem a mesma carga de amor fraterno, tem algo mais. 

O desejo de se voltar a ver o outro num novo dia, pelos facto de ninguém ser dono dos seus próprios dias, pertencendo a sua sucessão a Deus que tudo ordena, pelo que o cumprimento que se faz na despedida de um dia que acaba é o desejo entrevisto de desejar ao outro a graça de o voltar a ver. De tal modo assim é, que muitas vezes ouvimos dizer a certas pessoas: "Até amanhã, se Deus quiser" o que é uma forma de maior afectividade humana.

Por tudo isto, a história que se transcreve "ipsis-verbis" e com a devida vénia daquela folha de carácter eclesial que nos chegou, deve merecer todo o aplauso por constituir um dever humanizado e civilizacional que de modo algum podemos deixar de cumprir, sem o que corremos o risco de tendo perdido a espiritualidade que está implícita no cumprimento ao outro, perdermos de nós mesmos aquilo que em nós tem a valia acrescida de sermos elos de uma corrente que une os homens - crentes ou não - na fraternidade universal de que todos somos agentes e, especialmente dotados para o sermos em plenitude em cada dia que passa.


domingo, 25 de janeiro de 2015

Palavras sinónimas que podem ser aceites, ou não!



Num velho e precioso Dicionário de Sinónimos cuja 1ª folha se reproduz e que faz parte do meu acervo livreiro, há dias, quando buscava - não aquilo que faz parte do assunto desta postagem, mas um outro - os meus olhos fixaram-se nestas quatro palavras sinónimas, aprovar, consentir, permitir e tolerar.

Sobre as semelhanças entre elas, diz aquele livro:
  • Aprovar - aprova-se uma coisa quando dela se faz juízo favorável, quando se acha digna de louvor e estima, quando se lhe dá o voto.
  • Consentir - consente-se uma coisa quando a ela se aquiesce ou se condescende a que se faça.
  • Permitir - permite-se um acto quando se autoriza por consentimento formal.
  • Tolerar - tolera-se uma coisa quando conhecendo-a e tendo o poder (para impedir que ela aconteça) se não impede.
Podemos, portanto, dizer, seguindo o raciocínio do livro: aprovamos o que temos por bom e meritório. Consentimos o que não nos repugna. Permitimos aquilo que as leis humanas nos dizem ser razoável, (salvando o divino). Toleramos certos males por temer que a sua proibição possa vir a acarretar coisas piores.

Concluindo, diremos, que quando a sociedade se alheia da crítica acerba, seja ela oral, escrita ou gráfica e ultrapasse o lado humano numa ofensa ao divino, nenhuma das quatro palavras ou as suas próprias semelhanças poderão passar impunes, porque, aprovar, consentir, permitir e tolerar, é deixar o caminho aberto aos arrebatados, senão mesmo aos irracionais a roçar a alienação dos modos e costumes sadios que jamais devem ser postos em causa.

Fechei o velho livro e a pensar que quanto permitimos a crítica para lá do que é humano deixamos de nos comportar como tal, porquanto o divino embora o não queiramos assumir como uma parte do humano que todos nós transportamos, não é criticável pela simples razão de não se poder ajuizar sobre aquilo que está vivo, mas apenas no domínio da Fé. 


sábado, 24 de janeiro de 2015

Reabilitação de Martinho Lutero? Para quando?


Estátua de Lutero inaugurada em 1883 em Eisleben
(in, Revista "O Occidente"de 1 de Janeiro de 1884


Ao tempo que o Papa Emérito Bento XVI fez a sua viagem apostólica à Alemanha em 2011, católicos e protestantes divergiram sobre a possibilidade de Lutero, o monge reformista do século XVI a quem se deve o início da divisão da cristandade no Ocidente poder vir a ser reabilitado pela Igreja Católica da qual foi expulso pelo Papa Leão IX em 1521.

Na altura o Papa Bento XVI num discurso proferido em Erfurt, onde nalgumas passagens referiu Lutero, expressou-se do seguinte modo, de acordo com o texto que se reproduz "Ipsis-verbis", com a ressalva de serem nossos os sublinhados.


VIAGEM APOSTÓLICA À ALEMANHA
22-25 DE SETEMBRO DE 2011

ENCONTRO COM OS REPRESENTANTES DO CONSELHO
DA «IGREJA EVANGÉLICA NA ALEMANHA»

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011


Ilustres Senhoras e Senhores!

Ao tomar a palavra, quero antes de mais nada agradecer cordialmente esta oportunidade de nos encontrarmos aqui. A minha particular gratidão vai para Vossa Excelência, amado Irmão Presidente Schneider, que me deu as boas-vindas e, com suas palavras, me acolheu no vosso meio. Com toda a franqueza do seu coração, Vossa Excelência exprimiu abertamente a fé verdadeiramente comum, o desejo de unidade. E nós sentimo-nos felizes ainda porque considero que esta assembleia e os nossos encontros são celebrados também como a festa da fé que temos em comum. Além disso quero agradecer a todos pelo vosso dom de podermos conversar juntos como cristãos aqui, neste lugar histórico.

Para mim, como Bispo de Roma, é um momento de profunda emoção encontrar-vos aqui, no antigo convento agostiniano de Erfurt. Como acabámos de ouvir, Lutero estudou teologia aqui. Aqui celebrou a sua primeira missa. Contra a vontade do pai, abandonou os estudos de jurisprudência para estudar teologia e encaminhar-se para o sacerdócio na Ordem de Santo Agostinho. E a incentivá-lo neste caminho não era um pormenor ou outro; o que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que constituiu a paixão profunda e a mola da sua vida e de todo o seu itinerário. «Como posso ter um Deus misericordioso?»: tal era a pergunta que lhe atravessava o coração e estava por detrás de cada pesquisa teológica e de cada luta interior. Para Lutero, a teologia não era mera questão académica, mas a luta interior consigo mesmo, que, no fim de contas, era uma luta a propósito de Deus e com Deus.

«Como posso ter um Deus misericordioso?» O facto que esta pergunta tenha sido a força motriz de todo o seu caminho, não cessa de maravilhar o meu coração. Com efeito, hoje quem se preocupa ainda com isto, mesmo entre os cristãos? Que significa a questão de Deus na nossa vida, no nosso anúncio? Hoje a maioria das pessoas, mesmo cristãs, dá por suposto que Deus, em última análise, não se interessa dos nossos pecados e das nossas virtudes. Ele bem sabe que todos nós não passamos de carne. Se se acredita ainda num além e num juízo de Deus, praticamente quase todos pressupõem que Deus terá de ser generoso e, no fim de contas, na sua misericórdia ignorar as nossas pequenas faltas. A questão já não nos preocupa. Mas, verdadeiramente são assim pequenas as nossas faltas? Porventura não está o mundo a ser devastado pela corrupção dos grandes, mas também dos pequenos, que pensam apenas na própria vantagem? Porventura não é ele devastado por causa do poder da droga, que vive, por um lado, da ambição de vida e de dinheiro e, por outro, da avidez de prazer das pessoas que a ela se abandonam? Não está ele porventura ameaçado por uma crescente predisposição à violência que não raro se dissimula sob a aparência de religiosidade? Poderiam a fome e a pobreza devastar assim regiões inteiras do mundo, se estivesse mais vivo em nós o amor de Deus e, derivado dele, o amor ao próximo, às criaturas de Deus que são os homens? E poderiam continuar as perguntas nesta linha. Não, o mal não é uma ridicularia. Mas não seria forte, se verdadeiramente colocássemos Deus no centro da nossa vida. Esta pergunta que desinquietava Lutero – Qual é a posição de Deus a meu respeito, como apareço a seus olhos? – deve tornar-se de novo, certamente numa forma diversa, também a nossa pergunta, não académica mas concreta. Penso que este constitui o primeiro apelo que deveremos escutar no encontro com Martinho Lutero.

 Depois é importante também isto: Deus, o único Deus, o Criador do céu e da terra, é algo de diverso duma hipótese filosófica sobre a origem do universo. Este Deus tem um rosto e falou-nos. No homem Jesus Cristo, Ele tornou-Se um de nós: verdadeiro Deus e, simultaneamente, verdadeiro homem. O pensamento de Lutero, a sua espiritualidade inteira era totalmente cristocêntrica. Para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura era «aquilo que promove Cristo». Mas isto pressupõe que Cristo seja o centro da nossa espiritualidade e que o amor por Ele, o viver juntamente com Ele, oriente a nossa vida.

Ora poder-se-ia talvez dizer: Está bem, mas o que é que tudo isto tem a ver com a nossa situação ecuménica? Porventura não será tudo isto apenas uma tentativa de iludir, com uma inundação de palavras, os problemas urgentes onde se esperam progressos práticos, resultados concretos? A respeito disto, respondo: a coisa mais necessária para o ecumenismo é primariamente que, sob a pressão da secularização, não percamos, quase sem dar por isso, as grandes coisas que temos em comum, que por si mesmas nos tornam cristãos e que nos ficaram como dom e tarefa. O erro do período confessional foi ter visto, na maior parte das coisas, apenas aquilo que separa, e não ter percebido de modo existencial o que temos em comum nas grandes directrizes da Sagrada Escritura e nas profissões de fé do cristianismo antigo. Para mim, isto constitui o grande progresso ecuménico dos últimos decénios: termo-nos dado conta desta comunhão e, no rezar e cantar juntos, no compromisso comum em prol da ética cristã face ao mundo, no testemunho comum do Deus de Jesus Cristo neste mundo, reconhecermos tal comunhão como o nosso comum e imorredouro alicerce.

É certo que o perigo de a perder não é irreal. Queria brevemente fazer notar dois aspectos. Nos últimos tempos, a geografia do cristianismo mudou profundamente e continua a mudar. Perante uma forma nova de cristianismo, que se difunde com um dinamismo missionário imenso, por vezes preocupante nas suas formas, as Igrejas confessionais históricas ficam muitas vezes perplexas. Trata-se de um cristianismo de escassa densidade institucional, com pouca bagagem racional, sendo ainda menor a bagagem dogmática, e também com pouca estabilidade. Este fenómeno mundial – que me é continuamente descrito pelos bispos de todo o mundo – põe-nos a todos perante esta questão: Que tem a dizer-nos de positivo e de negativo esta nova forma de cristianismo? Em todo o caso, coloca-nos novamente perante a pergunta sobre o que permanece sempre válido e o que pode ou deve ser mudado, perante a questão relativa à nossa opção fundamental na fé.

Mais profundo e, no nosso país, mais inquietante é o segundo desafio para toda a cristandade; dele quero agora falar-vos: trata-se do contexto do mundo secularizado, em que temos hoje de viver e testemunhar a nossa fé. A ausência de Deus na nossa sociedade faz-se mais pesada; a história da sua revelação, de que nos fala a Escritura, parece colocada num passado que se distancia sempre mais. Porventura será preciso ceder à pressão da secularização, tornar-se moderno através duma mitigação da fé? Naturalmente, a fé deve ser repensada e sobretudo vivida hoje de um modo novo, para se tornar uma realidade que pertença ao presente. Para isso ajuda não a mitigação da fé, mas somente o vivê-la integralmente no nosso hoje. Esta constitui uma tarefa ecuménica central, na qual nos devemos ajudar mutuamente: a crer de modo mais profundo e vivo. Não serão as tácticas a salvar-nos, a salvar o cristianismo, mas uma fé repensada e vivida de modo novo, através da qual Cristo, e  com Ele o Deus vivo, entre neste nosso mundo. Tal como os mártires do período nazista nos aproximaram uns dos outros e suscitaram a primeira grande abertura ecuménica, assim também hoje a fé, vivida a partir do íntimo de nós mesmos, num mundo secularizado, é a força ecuménica mais poderosa que nos reúne, guiando-nos para a unidade no único Senhor. E por isso Lhe pedimos a graça de aprender de novo viver a fé, para assim nos podermos tornar um só.


Este foi o discurso do Papa Bento XVI que não o tendo, por si só, podido reabilitar, deixou uma porta que ficou entreaberta e que eu - leigo que sou - gostaria de a ver aberta de par-a-par ainda nos anos que Deus me dará de vida, tendo em conta a linha ecuménica do fundador da Igreja Católica que se pressente existir na Oração Final quando agonizava na Cruz e rezou a grande prece de oblação e de intercessão a Deus por todos os homens:

Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. (Jo 17, 21)

Lutero foi, é verdade, um rebelde.

Mas o que deve ser meditado é  o motivo porque a sua rebeldia nasceu, um dia, dentro da própria Igreja Católica que ele serviu, tendo sido da árvore da Teologia aprendida no Convento dos Agostinianos de Erfurt que ele colheu o fruto das suas contendas contra o Papa a quem devia a obediência que ele quebrou.

Lutero foi um rebelde obstinado ou um rebelde consciente?

Dele, Bento XVI diz no seu discurso: O pensamento de Lutero, a sua espiritualidade inteira era totalmente cristocêntrica e, que, o critério da interpretação da Sagrada Escritura era "aquilo que promove Cristo".

Quando acontecerá a reabilitação do antigo monge?


Um pensamento felicíssimo de Victor Hugo!


in, Revista "Occidente" de 11 de Abril de 1881



Saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo.
Victor Hugo

Se Victor Hugo vivesse agora e eu tivesse a honra de o poder alcançar dar-lhe -ia estas rosas em paga das "rosas" abertas e perfumadas que ele deixou florir em cada uma das palavras deste tão preclaro e belo pensamento.

Podia, mas não quero espraiar-me noutras considerações sobre o tema que me dá o celebrado autor francês - até, porque, para o efeito não me não faltava matéria olhando o que se passa entre nós -  mas deixo isso à consideração dos eventuais leitores que fazem o obséquio de ir lendo as postagens que vou escrevendo para encher algo dos meus dias descendentes pelos anos, mas ascendentes pela força do espírito, pedindo-lhes que meditem na parte oculta das palavras de Victor Hugo.

III Domingo do Tempo Comum - Ano B - 25 de Janeiro de 2015


Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». Caminhando junto ao mar da Galileia,viu Simão e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar,porque eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as rede se seguiram Jesus. Um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco a consertaras redes; e chamou-os. Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus. (Mc 1, 14-20)


Jesus, cumprido que estava o tempo
exclamou o pregão que havia muitos séculos
a Humanidade esperava ouvir,
e fê-lo nas terras da "Galileia dos gentios"

- Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus.

E, logo a seguir, intencionalmente, 
com a força lhe vinha de ser o enviado
àquela terra de pagãos, aconselhou-os:

- Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

Foi como se dissesse
crede em Mim, que vos escolhi a vós
que estais longe as coisas que vos trago
para começar a divulgar aos homens
a Boa-Nova que necessita do vosso empenho
para chegar até aos confins do Mundo!

Não tardou que acolhesse a si
os primeiros quatro homens, todos pescadores
do Mar da Galileia; Simão, André, Tiago e João
e com eles partiu a caminho 
da Grande Jornada da Vida cheia de Graça!

Foi bonito de ver: 
aquela "Galileia dos gentios" 
deu a Jesus o que lhes fora prometido:

- Pescadores de homens!

O que prova que pode acontecer o mesmo
nas novas "Galileias" do nosso tempo
que não conhecem a Palavra,
se nós - imitando Jesus - nos dispusermos
a ser fiéis àquilo de Ele disse, naquele dia,
junto à margem do Mar da Galileia:

- Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

É que não há outro caminho para levar ao arrependimento
o maior dos pecadores...
porque não há e jamais haverá outro Livro igual!


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os sonhos da adolescência... e os da idade maior!




Raimundo Correia (1859-1911) é um poeta brasileiro da escola parnasiana, contemporâneo de Machado de Assis que lhe prefaciou o livro "Sinfonias" tendo feito da natureza um exaltamento de que encheu a sua obra poética, de que é um exemplo o célebre soneto "AS POMBAS", onde a imagem literária que ele burilou com o cinzel da sua poesia nos dá do poeta que ele foi a imagem do homem que ao olhar para o percurso da vida sentiu o desconforto de alguns sonhos perdidos, o que não sendo, de todo, um facto isolado, a corda da sua sensibilidade não deixou de ser tocada no mais íntimo de si mesmo.


                             
 Vai-se a primeira pomba despertada...
 Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
 De pombas vão-se dos pombais, apenas
 Raia sanguínea e fresca a madrugada...

 E à tarde, quando a rígida nortada
 Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
 Ruflando as asas, sacudindo as penas,
 Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
 Os sonhos, um por um, céleres voam,
 Como voam as pombas dos pombais;

 No azul da adolescência as asas soltam,
 Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
 E eles aos corações não voltam mais...



O soneto "AS POMBAS" é um alegoria à idade dos sonhos que o homem persegue na sua juventude - que se vão e não voltam mais - porque é neste estádio da vida, quando nos parece que ela não tem fim na doce ilusão em que se vive, que eles ganham asas e céleres voam como voam as pombas doa pombais, constituindo esta feliz imagem de Raimundo Correia o acerto vivencial que só mais tarde damos por ele, quando os sonhos se esfumam e por mais que possamos fazer, assim embalados e de tal modo arquitectados na moldura do coração da nossa juventude, não voltam mais, porque a vida concreta se afadiga em os dissolver, razão que levou o Poeta a fixá-los no belo texto que nos deixou para nos alertar que os "vôos" dos sonhos na tenra idade são coisas que não voltam a encher os "pombais" dos nossos corações, bem ao contrário dos vôos das pombas que cruzam os ares em liberdade total sem nunca se esquecerem de voltar ao ponto de partida.

É uma imagem situada na liberdade do Poeta a quem é dado o poder criador de estabelecer comparações que só a sua arte pode conter e explicar.

Sonhar, no entanto, é um acto que nos deve acompanhar toda a vida e não sentir pena dos sonhos que não foram cumpridos e neste contexto como assegura Gabriel Garcia Márquez, não é verdade que as pessoas param de perseguir os sonhos porque estão a ficar velhas, elas estão a ficar velhas porque pararam de perseguir os sonhos.

Esta asserção realista da vida não tira nada de valor à ideia da pureza da forma que marcou o famoso soneto de Raimundo Correia, que quando nos diz que os sonhos voam como as pombas dos pombais, o que nos quis transmitir foi que os sonhos próprios da juventude marcam apenas uma época da vida - e essa não volta de novo - mas, de modo algum excluiu o poder de sonhar nas épocas que se lhe seguem.

 Neste pormenor, tão fundamental o pensamento de Gabriel Garcia Márquez faz todo o sentido, porque velhos, evidentemente, ficam os homens que deixam de perseguir os sonhos, seja na juventude ou na idade adulta.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O "Mestre de Aviz", primeiro restaurador da independência nacional!


Gravura publicada pela Revista "O Occidente" 
de 1 de Janeiro de 1882



Não vou perder muito tempo para concluir aquilo que me proponho alcançar.

Dizer, apenas, que o Mestre de Aviz que veio a ser o rei D. João I e pai orgulhoso de uma geração de grandes homens, foi aclamado Mestre daquela Ordem em virtude da crise dinástica de 1383-1385, estando em iminência a perda da independência de Portugal, mercê da morte de D. Fernando I a que se juntou a impopularidade da Rainha D. Leonor Teles acrescida do seu conluio com o seu amante João Fernandes Andeiro a que se juntava - por desdita nossa - o facto de D. Beatriz, única filha do casamento de D. Fernando com Leonor Teles estar casada desde os onze anos de idade com D. João I de Castela.

Resultava assim que haviam dois pretendentes ao Reino de Portugal: D. Beatriz e o príncipe D. João, filho de D. Pedro I e da castelhana D. Inês de Castro, visto a princípio com alguma simpatia por alguma parte do povo, mas à qual sucedeu um movimento mais amplo que sobre estas duas hipóteses - ambas com sangue estrangeiro . preferiu que a escolha recaísse totalmente em sangue português, tendo então emergido D. João, Mestre de Avis, filho bastardo de D. Pedro I e de Teresa Lourenço.

Pelas suas próprias mãos - depois de ver consolida a pretensão popular - feriu mortalmente o amante de Leonor Teles que originou a sua fuga de Portugal abrigando-se na corte do genro, o rei de Castela que não tardaria a invadir e cercar a cidade de Lisboa da qual se viu obrigado a fugir, mercê da peste que não poupou a própria Rainha.

Em resumo, depois de levantado o cerco o Mestre de Avis foi submetendo vilas e cidades até 1385, ano que assinalou o domínio sobre a cidade de Coimbra, tendo ali sido aclamado Rei de Portugal em 6 de Abril de 1385.


Finalmente, porque era este o propósito, conclui-se por dizer que este acontecimento narra o primeiro abalo por que passou a independência de Portugal e que o segundo - 1º de Dezembro de 1640 - com a derrota do domínio filipino e ascensão do rei restaurador D. João IV  nos confirma que, se o primeiro, recuado no tempo nunca mereceu que fosse festejado, já o segundo teve outra sorte com a honra de ter sido considerado um dia amplamente assinalado no período de toda a Monarquia Constitucional, tendo sido elevado a "feriado nacional" com a implantação da República em 1910, constituindo uma das primeiras decisões que então ocorreram.

A sua supressão - ainda que provisória pelo XIX Governo Constitucional liderado por Passos Coelho em 1912 - foi uma afronta à História de Portugal pelo que a sua reentrodução, quanto antes, no calendário oficial é um acto que se impõe em memória não apenas da segunda restauração, mas da primeira acontecida no século XIV, na certeza que qualquer povo que não honra as sua memória não perde apenas isso - o que já é muito - perde a sua identidade nacional, ou seja, perde tudo, porque é naquela "arca" imaterial que estão arrecadados todos os valores que valemos enquanto Nação independente.

E isto não se pode perder... de forma alguma!


No tempo em que a "palavra de honra" valia por uma uma escritura!



in, http://www.rotadoromanico.com 
(imagem de Egas Moniz captada com a devida vénia)


Gravura da Revista "O Occidente" de 21 de Março de 1883



O título é enganador, porque - hoje, como no tempo de Egas Moniz há homens e mulheres de "palavra do honra" igual à do velho aio de D. Afonso Henriques - mas o que ele quer exaltar é, apenas, um momento histórico que nunca deve ser esquecido, especialmente, agora, num tempo madrastro em que a História de Portugal não é ensinada às camadas jovens neste e noutros aspectos dignos dos velhos portugueses que nos antecederam na glorificação de Portugal.

A história acontecida com Egas Moniz de Riba Douro (1080-1146), um homem que pertenceu a um dos cinco condais de Entre-Douro-e-Minho e a quem Henrique de Borgonha entregou a educação do seu filho Afonso Henriques é um exemplo de honra que não deve ser esquecido, ainda que a mesma possa - como se admite - fazer parte de uma lenda de que é fértil a História de Portugal.

A contextualização histórica resumida assenta no tempo em que a cidade e o castelo de Guimarâes se encontravam cercadas pelas tropas de Afonso VII, rei de Leão, que na época incluía todo o norte de Portugal até Coimbra, abarcando Galiza e Castela.



Pretendia o rei que sucedera a D. Afonso VI - pai de Teresa de Leão que veio a ser a mãe de Afonso Henriques - submeter pela força das armas o primo rebelde Afonso Henriques, que após a morte do pai a quem fora concedido pelo rei D. Afonso VI o governo do "Condado Portucalense" em reconhecimento pelo auxílio na Reconquista mas com a obrigação de lhe prestar vassalagem.

Estando sua mãe à frente do governo do Condado Portucalense continuou a prática da vassalagem submissa a Afonso VII, política a que se opunha Afonso Henriques, que por várias vezes entrou em confronto com o primo leonês que numa dessas ocasiões (1127) fez cerco a Guimarães.

Recusando a rendição - conta a lenda - que Afonso Henriques aceitou que Egas Moniz negociasse a paz com o primo , tendo-lhe dado a "palavra de honra" que Afonso Henriques honraria o compromisso assumido do levantamento do cerco, com a consequente continuidade da submissão e obediência ao rei de Leão, o que não veio a acontecer, porque segundo narra a História, um ano depois, Afonso Henriques quebrou a promessa dada pelo seu aio.

O que aconteceu, a seguir, é sabido.

Egas Moniz, acompanhado pela família, deslocou-se à corte do Reino sediada em Toledo, apresentando-se perante o monarca com cordas ao pescoço, oferecendo as suas vidas como preço a pagar pela mentira em que se tornara a "palavra de honra" que havia dado a Afonso VII.
Conta a História que comovido pela honradez daquele homem o mandou em paz, de volta ao Condado.

A história é esta. Muito antiga. 

Portugal ainda não existia como viria a consolidar no território continental que hoje temos, com a falta de Olivença - que é uma história triste - mas a "palavra de honra" que no acto vivido em Toledo em 1128 valeu por uma escritura é exemplar e, porque o é, devia continuar a ser respeitada no modo como foi cumprido.

O que se deseja é que os tempos libertários que vivemos não matem, jamais, o sentido que está subjacente à "palavra de honra" que damos e ela continue a valer por uma escritura legal sob todos os aspectos, sejam eles, morais ou sociais, fazendo-se dela um acto de jurisprudência humana, que é, afinal, o tribunal com menos custas e é o mais eficaz.

Um rei que não mereceu uma estátua tão bela!


Gravura publicada pela Revista "O Occidente"
de 8 de Maio de 1882



D. José I, rei de Portugal (1750-1777) - que foi a causa mais próxima do "Processe dos Távoras" - assistiu impávido e sereno à tortura e assassinato de toda aquela família, mercê da barbaridade levada a efeito pelo seu maquiavélico Primeiro - MInistro, o medonho Marquês de Pombal - quando toda a culpa lhe cabia - não merece ser lembrado, pesem embora, as reformas que o seu reinado operou, porque o terror de que encheu de sangue o local do martírio, em Belém, é uma nódoa de tal monta que a beleza que Machado de Castro imprimiu à estátua do Terreiro do Paço não lhe é de todo merecida.

É um monumento lindo a perpetuar alguém que foi um rei devasso a quem a própria filha D. Maria I que lhe sucedeu, não lhe honrou a memória, desterrando da corte o tenebroso Marquês de Pombal, que efectivamente, sem o ter sido, foi um "rei" sem trono mas coberto pela consciência pesada de um rei que não o devia ter sido.

D. José I, limitou-se a assinar por baixo e a consentir os desmandos mais soezes que alguma vez se viram em Portugal.

Admire-se, no entanto, a arte do estatuário que é um dos nomes maiores em Portugal daquela arte nobre.


Os velhos marcos do correio.


Gravura publicada pela Revista "O Occidente" 
de 11 de Novembro de 1882


Ainda hoje os vemos, aqui e acolá, na sua estrutura cilíndrica de ferro, pintados de vermelho e muito vistosos com a abertura superior sobre a porta de acesso ao carteiro e com um quadro onde se pode ler a hora da próxima tiragem de correspondência.

Encontram-se implantados desde 1882 nos passeios das ruas e avenidas, sendo quase coincidentes com a adopção do selo postal que surgiu para se tirar mais vantagens dessa determinação dos poderes oficiais.

Diz a notícia que os marcos de correio, então implantados foram produzidos na oficina de Handyside de Londres e vieram quarenta e dois (...) e que os mesmos, de acordo com a notícia coeva se destinavam a substituir as caixas do antigo sistema que eram facilmente vandalizadas.

O marco do correio melhorou, na época, a visualização da arquitectura urbana, como ainda hoje, com o mesmo aspecto o continua a fazer, um facto que certamente para os mais saudosos - como eu - se recuarmos no tempo, lembrar-nos-emos que foi na década de quarenta do século passado, creio que, concretamente,  em 1947, o cantor Alberto Ribeiro ter cantado uma letra que ficou célebre, sendo o seu autor o poeta Frederico de Brito com música do próprio cantor e que se chamava, precisamente: "Marco do Correio", constituindo, desse modo, uma homenagem àquele objecto utilíssimo e inviolável onde com toda a confiança depositávamos as nossas cartas.


Minha rua sossegada
Tem à beira do passeio
A coisa mais engraçada
Que é o marco do correio.

Marco do correio
De portinha ao centro
Não sabes, eu creio
No que tens lá dentro.

Quantas raivas e desejos
Mil respostas e perguntas.
Quantas saudades e beijos
E quantas lágrimas juntas.

Marco do correio
Deixa-me espreitar.
Deixa que eu não leio
Nem vou divulgar.

Vá lá, não fiques zangado
Deixa-me ver, por favor
A carta que tens ao lado
É a carta do meu amor.


Incompatibilidades. (Transcrição "ipsis-verbis" de um discurso de José Estêvão)

Gravura publicada pela Revista "Occidente" de 21 de Agosto d 1889



Nota breve: José Estêvão Coelho de Magalhães (1809-1862) ficou conhecido na história parlamentar por por José Estêvão.
Foi um brilhante orador, tendo-se distinguido entre 1836 até à data da sua morte como a mais brilhante figura da oposição na Câmara dos Deputados. Foi um os "bravos do Mindelo", tendo fundado o jornal "A Revolução de Setembro" de tendência liberal, pertenceu ao número dos revoltosos da guerra civil da "Patuleia" (1846-1847) motivada pela defesa da Constituição de 1838 que era feita pelos "Setembristas" contra os Cartistas conservadores que defendiam a Carta Constitucional de 1826, tendo sido um dos mais exaltados que naquele tempo, defendiam a implantação da República contra a deposição da então Rainha D. Maria II.


DISCURSO PROFERIDO NA CÂMARA DOS DEPUTADOS,
NA SESSÃO DE 8 DE JANEIRO DE 1852
Discurso proferido por José Estevão na Câmara dos Deputados no princípio do período político da Regeneração.


O discurso foi proferido para defender a lei das incompatibilidades que tinha sido aprovada em 1851, e que tinha tido a sua entrada em vigor na Legislatura vigente, a 8.ª desde 1834, devido a terem-se realizado, em 16 de Novembro de 1851, as primeiras eleições após a aprovação da lei. 

O problema da incompatibilidade apareceu a propósito do deputado Francisco José da Costa Lobo, que era caixa claviculário do contrato do tabaco do Porto, caixa-geral do tabaco e director da Companhia das Vinhas do Alto Douro, e que a lei impedia de ser deputado, quando determinava expressamente que os caixas-gerais do contrato do tabaco, os gestores de  rendimentos do Estado assim como arrematadores de concursos de obras públicas estavam impedidos de serem deputados. 

Mas para José Estêvão o problema não era só legal,  era também um problema de princípio; é que com a lei das incompatibilidades não é «o direito eleitoral que se restringe, é a independência do Parlamento que se quer sustentar.»
O mandato do deputado não foi aceite, tendo as suas actividades empresariais sido consideradas incompatíveis com as funções de deputado.


Sr. Presidente, nós não estamos empenhados numa questão de pessoas; estamos empenhados numa questão de princípios; ainda mais: estamos empenhados numa questão de satisfação à opinião pública; um protesto severo de cercar o Parlamento de todas as condições de prestígio e de decoro; um protesto que separe bem as nossas doutrinas das doutrinas e das práticas passadas. Eu não posso deixar de comunicar a esta Câmara a história curiosíssima desta lei que nos recorda a soberba, o poder e a audácia destas grandes corporações comerciais e que ainda tem a esperança de nos mover outra vez.

Esta lei fez-se pela primeira vez em 1846; e as considerações que nos levaram hoje a cercar o Parlamento de todas as condições de independência levaram os legisladores desse tempo a consignar esse princípio. Mas na comissão não havia unanimidade e toda a resolução precisa dela para o aprovar; e nestas circunstâncias eu fui chamado por alguns dos membros que pertenciam a esta comissão; viam-se-lhes no rosto todos os sinais da dor; e disseram-me: acuda a este grande princípio, a esta grande verdade, a esta grande garantia; porque lá está o elemento dos corpos comerciais que desvirtua com o sofisma o espírito da lei. Eu fui, Sr. Presidente, e salvei não sei como este princípio que estava já quase em retirada.

Fez-se nova lei em 1851 e apareceram novas lutas e lutas renhidíssimas; as mesmas hipóteses, os mesmos escrúpulos, as mesmas razões contra as incompatibilidades, os mesmos embaraços sobre os efeitos retroactivos, numa palavra, tudo quanto se podia imaginar para fazer destruir uma garantia que se tem querido afogar com os sofismas mais contrários à verdade dos princípios. A lei triunfou, mas triunfou, no papel! Pertence à Câmara, ao primeiro parlamento que foi eleito debaixo da sanção destes princípios, executá-la com vigor e coragem, dando assim um exemplo de que é superior a pretensões pessoais, pretensões que já não deviam ter aparecido no Parlamento. (Apoiados.)

Sr. Presidente, tenho vindo a esta casa quatro ou cinco vezes, em todas essas quatro ou cinco vezes sempre nesta casa se discute tabaco, de maneira que há tabaco no princípio, tabaco no meio, tabaco no fim, há tabaco nas pessoas e há tabaco nas leis. (Riso.)

Sr. Presidente, tudo isto vem do vício do modo como entre nós se administra, vem da política miserável que a tal respeito se tem seguido. Custa crer que haja ainda quem conserve um contrato que não presta para nada, que é absurdo, que tem pretensões de uma medida financeira; mas que não é senão um foco de vexames! (Apoiados.) Não é um contrato financeiro, é um escândalo. (Apoiados.) Não é útil ao País, é sim vexatório para os povos. (Apoiados.) Somos nós os únicos na Europa que conservamos uma coisa tão inaudita, é uma instituição que cumpre acabar com ela de uma vez para sempre. (Apoiados.) Só não acaba com ela a administração que não pode, não sabe ou não tem honra para administrar os negócios públicos!...

Sr. Presidente, eu não tenho nada com o contrato do tabaco; este contrato, ora aparece como companhia, ora como uma coisa que não tem grande vulto, ora como uma corporação forte e fortemente regulada e dirigida, ora como uma coisa que não tem significação, que é apenas regulada ou dirigida por simples disposições e deste modo vê-se que a disposição da lei nunca pode chegar ao, contrato do tabaco nem aos contratadores! Se acaso se diz ao indivíduo que tem parte na gerência desse contrato: «Vós sois caixa-geral e como tal estais compreendido nas disposições da lei», vem logo esse indivíduo redarguir, dizendo: «Não sou caixa-geral; sou claviculário e nesta qualidade não tenho nada com o que é relativo às funções de caixa-geral.» Se se lhe observa que é suplente e que por isso, de um instante para outro, pode entrar nas funções de caixa, vem logo retorquir: «Para isso é necessário que queira e que tenha uma certa fortuna; e eu nem quero nem tenho a fortuna que se exige; era homem rico, hoje sou um homem pobre porque perdi toda a minha fortuna.» 

Assim, Sr. Presidente, como é que se há-de apanhar um contratador, um claviculário ou um caixa do contrato do tabaco? É impossível, Sr. Presidente, corremos atrás da sombra e a sombra foge de nós! Não é possível encontrá-la.
Sr. Presidente, até aqui tenho visto fugir sempre à questão o ilustre deputado eleito de quem se trata; em todas as questões que se lhe opõem a respeito da sua capacidade legal vê-se sempre maltratado e isto quer nas interpretações largas ou restritas; foge a todas elas logo que têm por fim aplicá-las no sentido de disputar-lhe a sua entrada nesta casa; de maneira que, deste modo, não pode nunca ser encontrado para se lhe fazer a devida aplicação da lei. Mas isto não é admissível, nem se pode tolerar em presença da lei.

Sr. Presidente, que diz a lei?... A lei diz que não podem ser nomeados ou votados para deputados os caixas-gerais do contrato do tabaco e os gestores principais de quaisquer contratos dos rendimentos do Estado e os arrematantes das obras públicas. Mas como se quer interpretar este artigo da lei?... Primeiramente, pretendendo-se distinguir entre caixas-gerais e gestores principais, a fim de não tornar as palavras da lei aplicáveis aos claviculários do contrato do tabaco e sim só aos caixas-gerais propriamente ditos. Mas será isto bastante para iludir a lei?... Não é, por certo, porque se os caixas pudessem fazer uma pequena permutação de caixa para caixotes ou bocetas estava iludida a lei. (Riso.)

Mas para que é vir aqui com estes subterfúgios que se apresentaram?... Para que são estes absurdos?... Para que nos empenhamos tanto em pretender medir a lei por uma medida que lhe é imprópria?... Para que querem ir atrás deste ramerrão da hermenêutica política? Consideremos este objecto de mais alto; vamos buscar a fonte e origem desta lei ou desta disposição da lei. Onde está ela? Está no espírito público; é em atenção a ele que esta lei foi feita e são essas as circunstâncias dentro das quais a lei foi feita. O espírito público e as necessidades públicas é que a ditaram e para atender a ambos é que ela foi criada. Quem a interpretar de outro modo engana-se e discorre absurdamente.

Sr. Presidente, cada incompatibilidade tem limites naturais e próprios; qual é o fim destas incompatibilidades? O fim é não aparecerem representadas no Parlamento as grandes companhias e as grandes corporações comerciais que têm os seus interesses ligados ao Governo, para poder deixar ao Parlamento toda a liberdade de votar e discutir todas as questões que tenham relação com os interesses dessas companhias e não tornar suspeitas as suas decisões com a presença das pessoas particularmente interessadas nessas corporações.

Qual é o limite destas incompatibilidades? O limite é marcar que as pessoas que estão no caso de directa ou indirectamente representarem esses interesses e terem parte neles não poderem estar onde esses interesses tenham de ser debatidos e, se não se seguir isto, então é inútil a disposição da lei.
Pergunto: está o Sr. Deputado eleito Costa Lobo neste caso? Poderá S. Ex.ª dizer-nos, com a mão na consciência, que não está neste caso e, por consequência, no caso da lei? E digo isto mesmo em relação à circunstância de ser claviculário. S. S.a é claviculário – pois que são os claviculários do contrato do tabaco no Porto? Deixemos a terminologia marcada na lei e vamos à terminologia dos factos; e por eles ver-se-á que os caixas-gerais são positivamente os caixas claviculários, porque de facto os claviculários exercem as funções de caixas-gerais; têm tanto poder e influência nesses círculos que lhes estão submetidos que os caixas-gerais nos círculos dessas províncias não são caixas-gerais, não dão ordens aos claviculários, são os caixas-gerais que fazem pedidos aos claviculários. Portanto, já se vê que o cargo de claviculário não difere, em todas as suas relações, do cargo de caixa-geral.

Mas, Sr. Presidente, disse o ilustre deputado: «Quando chegar a ser caixa, isto é, quando me pertença esse lugar, eu renunciarei a ele; eu, por ora, não sou caixa-geral, sou claviculário, e como tal posso aqui ter assento. De modo, Sr. Presidente, que pela doutrina do Sr. Deputado, enquanto S. S.a se não sentar na cadeira de caixa-geral do contrato não é caixa, não tem nada com a gerência do contrato, não se lhe pode aplicar a lei e assim será necessário termos no contrato dois malsins e quando virem o Sr. Deputado sentado na cadeira de caixa-geral, dizer-lhe: -Agora sim; agora é ocasião de aplicar a lei, agora não sois claviculário, sois caixa.» (Riso.)

Sr. Presidente, argumentou o Sr. Deputado também com os exemplos de outros países e trouxe o exemplo do que se passou em Inglaterra com Rothschild. Agora não é ocasião de fazer largas dissertações sobre esta moléstia que nós temos nesta facilidade de compararmos os objectos sem conhecermos os objectos comparados e fazer comparações que não têm cabimento nem aplicação ao negócio em questão, o que dá lugar muitas vezes a querermos trazer para cá o que cá não se pode admitir, a fazermos uma ideia falsa a respeito do adiantamento desses países sobre o objecto dado ou alegado e também a indicar que estamos, em relação a esses países, em circunstâncias muito inferiores às que na realidade estamos. 

Ora Rothschild nunca fez contratos de tabaco (apoiado), nunca vendeu nem geriu objecto de tabaco; Rothschild é um grande comerciante, é um grande comprador de fundos; o Rothschild faz grandes transacções sobre fundos nas grandes praças de crédito e o Sr. Deputado, que sabe como se fazem grandes transacções, que sabe que se não fazem por contratos como o do tabaco, vê que não podem ser aplicáveis de modo nenhum a Rothschild as mesmas considerações e condições que se podem aqui aplicar aos contratadores do tabaco; isso é uma coisa totalmente diversa. (Apoiados.) Rothschild é, como já disse, um grande negociador de fundos políticos e particulares e se S. S.a, por esta circunstância, quer aplicar-lhe a sua doutrina, então no mesmo caso estavam entre nós os indivíduos possuidores de fundos públicos e que os têm na Junta do Crédito Público e todos os indivíduos que compram na praça os papéis de crédito; mas é certo que o argumento do Sr. Deputado não tem cabimento algum.

Mas disse o Sr. Deputado, em referência a Rothschild, que não são os contratos que impedem a entrada no Parlamento; o Sr. Deputado está enganado; Rothschild não entrou no Parlamento, mas Rothschild não entrou porque não estava no caso de lá entrar.
Agora a respeito de incompatibilidades em Inglaterra, esse princípio também lá triunfou e por causas pouco mais ou menos semelhantes às nossas, porque se reconheceu que a entrada desses indivíduos no Parlamento não era conveniente nem para os povos nem para eles; porque muitas vezes há pessoas que comprometem a sua causa com a sua própria presença e a alguns contratadores do tabaco já aconteceu isso. Por consequência, dizer ao País «O indivíduo que estiver em tais e tais casos não pode ser eleito deputado» não é restringir o direito eleitoral, é estabelecer a independência do Parlamento. Não é o direito eleitoral que se restringe, é a independência do Parlamento que se quer sustentar.  (Apoiados.)

Sr. Presidente, eu não quero prejudicar a justiça com a política; se o Sr. Deputado atendesse à letra e ao espírito da lei devia dar-se por satisfeito neste caso.
Sr. Presidente, apesar de todas as considerações que nos possam contristar pela resolução que devemos tomar contra o Sr. Deputado, é necessário dar um documento de força e vigor, dizendo-lhe urbana e cortesmente: A lei não vos permite a ingerência connosco nestes trabalhos porque, sem lhe querer fazer a menor ofensa, digo que vai no decoro desde Parlamento e desta causa, que vai no decoro desta situação o dar um exemplo, não de vigor caprichoso, mas um exemplo de força e justiça, porque de força e justiça é que têm carecido os negócios públicos e são os únicos princípios por onde se pode regenerar este País. Voto contra o Sr. Deputado, com muito sentimento, neste caso.» (Vozes - Muito bem.)