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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Lembrando o velho e os novos "Mostrengos"!




O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

                                   Fernando Pessoa
                                      in, Mensagem

Testemunha calada e avançada da gesta dos Descobrimentos portugueses a guarita da Torre de Belém viu partir a nau de Bartolomeu Dias e sumir-se, mergulhada entre a névoa do céu e o azul do Mar Desconhecido.


Tem, hoje como então, o mesmo porte altivo da escultura pétrea que o artista lhe deu, passados que são alguns séculos, com a diferença de já não haver mais naus nem mareantes e, só, palavras - como estas - de sentimento de um tempo em que Portugal, pequeno no tamanho geográfico, foi um País Grande que hoje já não acontece, nem no sonho e , muito menos, na vontade - se me engano, peço desculpa - de ser defendido com a mais valia da sua História que é para muitos desconhecida, mercê da falha imperdoável de um ensino coxo das glórias de que fomos semente e das quais colhemos alguns frutos que infelizmente, desperdiçamos.

É tendo isto como tema de reflexão neste tempo em que a "nau" portuguesa vê "Mostrengos" dentro do próprio Continente - senão no próprio lar -  que se lembra o belo texto de Fernando Pessoa inspirado no Mostrengo do Cabo das Tormentas de Luis de Camões, num apelo - eu sei, sem êxito - junto dos que julgam que a História de Portugal começou em 1910, para que se lembrem que antes da República houve muitos "Bartolomeus Dias" que não podem ser esquecidos, porque é neles que se fundam as raizes mais fundas de Portugal.

Luís de Camões faz de guia. É só seguir...

                                         .................................................................


37 - ( Continua a navegação ) 

        "Porém já cinco Sóis eram passados  
        Que dali nos partíramos, cortando  
        Os mares nunca doutrem navegados,  
        Prósperamente os ventos assoprando,  
        Quando uma noite estando descuidados,  
        Na cortadora proa vigiando, 
        Uma nuvem que os ares escurece  
        Sobre nossas cabeças aparece. 
  
38 - ( O Adamastor ) 

        "Tão temerosa vinha e carregada, 
        Que pôs nos corações um grande medo; 
        Bramindo o negro mar, de longe brada 
        Como se desse em vão nalgum rochedo. 
        — "Ó Potestade, disse, sublimada! 
        Que ameaço divino, ou que segredo 
        Este clima e este mar nos apresenta, 
        Que mor cousa parece que tormenta?" — 
  
39 
        "Não acabava, quando uma figura 
        Se nos mostra no ar, robusta e válida, 
        De disforme e grandíssima estatura, 
        O rosto carregado, a barba esquálida, 
        Os olhos encovados, e a postura 
        Medonha e má, e a cor terrena e pálida, 
        Cheios de terra e crespos os cabelos, 
        A boca negra, os dentes amarelos. 
  
40 
        "Tão grande era de membros, que bem posso 
        Certificar-te, que este era o segundo 
        De Rodes estranhíssimo Colosso, 
        Que um dos sete milagres foi do mundo: 
        Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso, 
        Que pareceu sair do mar profundo: 
        Arrepiam-se as carnes e o cabelo 
        A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo. 
  
41 - ( Fala de Adamastor aos portugueses ) 

        "E disse: — "Ó gente ousada, mais que quantas 
        No mundo cometeram grandes cousas, 
        Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, 
        E por trabalhos vãos nunca repousas, 
        Pois os vedados términos quebrantas, 
        E navegar meus longos mares ousas, 
        Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, 
        Nunca arados d'estranho ou próprio lenho: 
  
42 - ( Fala do Adamastor ) 
        — "Pois vens ver os segredos escondidos 
        Da natureza e do úmido elemento, 
        A nenhum grande humano concedidos 
        De nobre ou de imortal merecimento, 
        Ouve os danos de mim, que apercebidos 
        Estão a teu sobejo atrevimento, 
        Por todo o largo mar e pela terra, 
        Que ainda hás de sojugar com dura guerra. 
  
43 - ( Profecias do Adamastor ) 

        — "Sabe que quantas naus esta viagem  
        Que tu fazes, fizerem de atrevidas,  
        Inimiga terão esta paragem 
        Com ventos e tormentas desmedidas. 
        E da primeira armada que passagem 
        Fizer por estas ondas insofridas, 
        Eu farei d'improviso tal castigo, 
        Que seja mor o dano que o perigo. 
  
44 - ( Bartolomeu Dias. Naufrágios. ) 

        — "Aqui espero tomar, se não me engano,  
        De quem me descobriu, suma vingança.   
        E não se acabará só nisto o dano  
        Da vossa pertinace confiança; 
        Antes em vossas naus vereis cada ano, 
        Se é verdade o que meu juízo alcança, 
        Naufrágios, perdições de toda sorte, 
        Que o menor mal de todos seja a morte. 

in, Canto "V" de Os Lusíadas   

Ao ler-se a estrofe 43 (Profecias do Adamastor) aquilo que ressalta de imediato é que, tanto Vasco da Gama - a caminho da Índia - como Pedro Álvares Cabral - a caminho do Brasil - sofreram as maiores tempestades que o sopro do "Mostrengo", no dizer de Pessoa, lhes lançou, acometendo as armadas como já o havia feito à de Bartolomeu Dias, tendo sido a resposta deste: aqui, Manda a vontade que me ata ao leme / De El-Rei D, João Segundo, que continuou a imperar nos mareantes das naus da Índia e do Brasil, que passaram adiante, porque tinham um destino a cumprir, como o havia tido aquele que passou para além do tormentoso Cabo.

- E, hoje, qual é o destino que nos devia atar ao leme?

Portugal, é bem de ver!
A guarita da Torre de Belém, lá continua.

Nós, é que - com as nossas quezílias internas e externas - estamos a descontinuar Portugal, sem cuidarmos que os "Adamastores" ou "Mostrengos" continuam a existir.
Apenas mudaram de nome e se é verdade que não há mais Mundos para descobrir, verdadeiramente existe Portugal reduzido à sua mais pequena expressão territorial e que é urgente descobrir.

- ... Mas, porque andamos à procura dele e não o achamos dentro de nós?

Porque julgámos, num dia bem recente, que o resto da Europa nos tinha descoberto e com tal descoberta tinham acabado os "Cabos das Tormentas" e tínhamos em frente um "oásis" - como alguns julgaram - quando, afinal, o que tínhamos era aquela horrenda personagem que o génio de Luís de Camões nos deixou, confiado que ficava por ali o seu mau génio, quando, afinal, ele continua vivo nos "Adamastores" que nos têm subjugado desde 1580, ou seja, desde o ano em que morreu o seu criador artístico e bem visível, nos últimos decénios.

- Ou há por aí quem os não veja?


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Partido Socialista anda zangado...



O Partido Socialista (PS) anda zangado porque vê o desemprego a diminuir quando se devia mostrar satisfeito por haver mais portugueses a trabalhar.

O PS esquece uma coisa importante: a tendência que há muitos meses se nota do decréscimo do desemprego, que é a nota mais segura de que a economia - embora num passo pequeno - está a progredir.

Mas isso não conta, porque se volta contra aquilo que mais desejava: o fracasso da política do Governo neste campo sensível do eleitorado e, por isso, para além de denegrir o Governo, parece não acreditar aquilo que assevera o INE, que o desemprego no segundo trimestre de 2015, é de 11,9%, abaixo da que existia em 2011, quando este Governo tomou posse.

Mais sensato é  Carlos Silva, o Secretário Geral da União Geral de Trabalhadores (UGT) que em face desta notícia, levou o jornal on-line "Observador" a dizer: Se esta é a leitura do partido, a leitura da UGT é bem diferente. Carlos Silva considera que estes dados do INE são “bons” e que deve mostrar a “satisfação” pela descida da taxa de desemprego. O sindicalista diz que tem “consciência” de que há muitos emigrantes e muitos desempregados que não entram para as estatísticas, mas que não se devem pôr em causa os dados oficiais. “Não temos de estar com lutas partidárias”, defendeu.

Pede-se, por isso, mais contenção e juízo político ao Partido Socialista, que parece, ficava contente se houvesse mais desemprego em Portugal o que, para um Partido que se diz amigo do povo, lhe fica muito mal deixar no ar esta suspeita.

O sufoco das eleições do dia 4 de Outubro toldou os ares do PS!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O velho tronco!


Parque Silva Porto (vulgo Mata de Benfica - Lisboa)
Agosto 2015

Árvores são poemas que a terra escreve para o céu
(Khalil Gibran)


Aprecio este pensamento que o Poeta libanês nos deixou e que a sua liberdade poética permitiu, como permite a todos os que fazem desta ate nobre a sua Literatura. 

As árvores são, efectivamente, poemas que os homens que as plantam - alguns até costumam rezar pelos bons frutos que elas venham dar - atiram numa "escrita" especial para o céu, no desejo de as verem crescer, porque um Mundo sem árvores não tinha qualquer encanto.



Por isso, no terceiro dia da Obra da Criação, Deus, conjuntamente com todas as espécies de ervas, criou-as com as respectivas sementes, ou seja, elas são anteriores ao aparecimento do homem que teve de esperar mais três dias, que verdadeiramente, jamais se saberá a quantos anos correspondem, porque na Obra Divina o Mistério dos dias não se contam pelo transcurso das 24 horas.

Há dias passei pela Mata de Benfica e aquele velho tronco que no ladear do caminho, agora silencioso, porque lhe cortaram as ramadas que foram grandiosas, viu passar milhares de pessoas, abrigou pardais e que deu sombra ao caminho, apresenta no corte que mão dendroclasta não se inibiu de fazer a imagem da árvore que ali existiu.

Deixado ali, é um marco do caminho para mostrar às suas companheiras vegetais que todas elas foram plantadas - como ele foi - para serem árvores frondosas e, depois, dei comigo a pensar no género humano, sobretudo, nos que, à beira dos caminhos da vida, já gastos pelos anos, são troncos só aparentemente "cortados", porque tendo sido "árvores humanas" de grande valia, apesar de gastas não desistem de continuar a servir

E isso bastou para acordar na minha lembrança as VELHAS ÁRVORES - um poema de Olavo Bilac - que fica aqui em lembrança daquele passeio ao fim da tarde pela Mata de Benfica e de tudo quanto em mim despertou aquele velho tronco à beira do caminho que não desiste de existir, como se a mão do homem o não tivesse cortado rente para me permitir, de à vista dele me lembrar que sem ter a valia que teve, não deixou de mexer com a minha sensibilidade.

E vamos às VELHAS ÁRVORES de Olavo Bilac.




 Velhas Árvores

 Olha estas velhas árvores, mais belas
 Do que as árvores novas, mais amigas:
 Tanto mais belas quanto mais antigas,
 Vencedoras da idade e das procelas...

 O homem, a fera, e o insecto, à sombra delas
 Vivem, livres de fomes e fadigas;
 E em seus galhos abrigam-se as cantigas
 E os amores das aves tagarelas.

 Não choremos, amigo, a mocidade!
 Envelheçamos rindo! envelheçamos
 Como as árvores fortes envelhecem:

 Na glória da alegria e da bondade,
 Agasalhando os pássaros nos ramos,
 Dando sombra e consolo aos que padecem!

 in "Poesias"

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Um poema de Miguel Torga: RECATO.




RECATO

Lê.
Mas decifra,
Com razão
E o coração,
Versos que nem eu quero que o pareçam,
De tão negros que são.
Todo o poema é um teste
Que põe à prova a inquietação
De quem nele se aventura.
Este
Que te proponho a horas mortas,
E é um tronco de tortura
Penitente,
Abre-te cautamente
As portas
De uma  pungente
Dor envergonhada,
Assim veladamente
Soluçada.

Coimbra, 17 de Novembro de 1984
in, "Diário XIV"



A que se deve este poema do Poeta, escrito a horas mortas?
Meditemos. 

Sejamos dignos daquilo que ele nos propõe e vamos tentar decifrar Com razão E o coração estes versos onde subjaz a sua Dor envergonhada como se ela tivesse sido - e foi concerteza, o que o levou em Coimbra onde teve o seu consultório de médico a não dormir sossegadamente naquela noite em que o seu preclaro pensamento deu em bater as ondas alteradas do seu mar interior contra uns certos "rochedos" que havia nas arribas das costas da vida e que lhe tiraram o sono.

Dois dias depois de ter escrito este poema, diz ele no seu "Diário" que a sua indignação contra a vida política havia deixado de ter a veemência do passado por lhe faltar o fogo da esperança.

E não tarda que a seguir esta linha de pensamento, declare: Descri de todos os governantes. Nem os melhores prestam. Nenhum é imune à tentação do poder. O poeta nunca sabe quando um verso lhe é dado. O santo quando atinge a santidade. Ora o político, desde que e entronizado, fica senhor do seu pequeno mundo. Confunde o privilégio de mandar, que devia ser a modéstia de servir, com os fumos da grandeza.

Está aqui a chave do mistério do poema RECATO, assim chamado porque o Poeta se quis resguardar nele - e na sua Dor envergonhada - para não desatar a chamar de vaidosos os políticos daquele tempo, como os de agora, que ao cavalgar o cavalo do poder confundem o poder do mando com a modéstia de servir, pelo que este poema retrata perfeitamente aquilo que levou Miguel Torga a fugir dos tentadores que o queriam enfileirar no Partido Socialista e que, embora tivesse aceitado presidir ao primeiro Comício Socialista realizado em Coimbra em 1-6-1974 - conforme diz no seu livro "Ensaios e Discursos" - na abertura dos trabalhos, disse: 

Gostaria de esclarecer desde já que, não sendo filiado no Partido, presido a esta reunião na qualidade de homem socialista que sempre fui. Homem mais sensível a uma ética do que a uma ideologia, mais espontaneamente fraterno do que disciplinarmente correligionário, mais atento ao imperativo dinâmico de vozes remotas do que ao momentâneo encantamento dos ecos doutrinários.

Que falta estão fazendo homens íntegros como Miguel Torga, capazes, como diz o povo de chamar os bois pelos cornos - porque se estes animais os têm não podem ser ignorados de forma alguma - pelo que, conviver, fingindo ou ignorando as verdades não pode ser um modo de vida, razão, porque há que tomar atitudes consequentes.

Descri de todos os governantes - diz o Poeta -  e não foi por deixar de ter sido aliciado, foi porque a sua consciência de cidadão impoluto falou mais alto dentro de si mesmo, pelo que, na hora que passa em que a cadeira do poder espera por quem nela se queira assentar ficaria bem aos políticos que a querem alcançar meditar no que disse Miguel Torga quanto ao privilégio de mandar, que devia se a modéstia de servir...

RECATO é uma poesia digna de um homem de valor.
Miguel Torga foi um desses homens!

Um poema de Miguel Torga: MAR MATINAL




MAR MATINAL

Toda a noite o rumor da tua voz
Dorida
Rolou nos meus ouvidos de poeta.
Toda a noite a indiscreta
Luz do meu pensamento
Varou em vão
A negra escuridão
Desse baço e salgado sofrimento.
E, quando amanheceu
E a vida renasceu,
Eras um verso azul a ondular ao vento.

S. Pedro de Moel, 22 de Agosto de 1984
in, "Diário XIV"



O lídimo transmontano de S. Martinho de Anta como dá conta aos seus fiéis leitores - como fui e sou, porque Miguel Torga foi um Poeta invulgar pelo encadeamento cheio de sentido como soube burilar cada palavra dos seus versos -  dormiu naquela noite perto do mar em S. Pedro de Moel, e toda a noite o mar rolou nos seus ouvidos de poeta, mas de um modo que apenas ele o sentiu para o poder cantar.

Com o seu pensamento varado - como se ele fosse um barco em cima do areal da praia - ousou penetrar, mas em vão / a negra escuridão, como ele conta do batido e salgado sofrimento das ondas, como se cada uma delas se assemelhasse ao próprio sofrimento que as ondas da vida provocam no sentir humano...

Bastou, porém o raiar da manhã para que ele visse, como que transfigurado o MAR MATINAL num verso azul a ondular ao vento, o que não deixa de ser uma mensagem de confiança que Miguel Torga nos quis deixar, porquanto da maior das fúrias dos "mares" das nossas noites mais difíceis de viver, há sempre, um modo de ver em cada madrugada que nasce, um modo de ver - de azul pintado - o novo dia que nasce e que pode e deve ser entendido como um novo factor de confiança.

Esta é tónica do poema, o que equivale a dizer que em cada Poeta da estirpe de Miguel Torga, cada palavra é medida nas sílabas métricas de cada verso e, por isso, pretendem atingir cada um na medida que lhe cabe receber, pelo que, quando a madrugada se abre cada dia é um verso azul a ondular ao vento...

Assim tem de ser!

A terra, a lavra, os velhos lavradores... e alguma saudade!

A lavra da terra
Gravura publicada pela Revista "Occidente" de 21 de Julho de 1887


O antigo lavrador do arado e grade puxados pela força animal dos bois de trabalho já não existe que não seja na lembrança dos mais velhos - como eu - que tive a sorte de os ver, ainda, empenhados na faina dos campos a abrir os sulcos, que depois eram gradados em demoradas idas e vindas dos animais com o fim de desfazer os torrões da terra mais firme, por forma à dar às superfícies lavradas a textura da lavoura.
                           
grade


Segundo se crê há 4.500 anos  a.C. o ser humano fixou-se e passou a usar os galhos das árvores mais densas e duras - que foram os arados primitivos -  para revolver a terra e semear as sementes, tendo com esta prática passado a dominar a terra, o que lhe permitiu criar os primeiros povoados, ao que consta nos vales férteis da Mesopotâmia irrigados com as águas dos rios Tigre e Eufrates.

Não é este o local nem tampouco se pretende assinalar pelos séculos fora a evolução deste utensílio que passou da matéria vegetal para a mais sofisticada das técnicas mecânicas que explodiram no século XIX e preencheu quase todo o século imediato, tendo dado ao lavrador uma ferramenta indispensável ao amanho das terras.

Apontamento, apenas, de um tempo em que no remanso das aldeias mais escondidas entre montes o arado e a grade - hoje peças de museu - foram importantes e indispensáveis, como o foram os bois possantes que acudiam, lestos à voz do lavrador.

Recordo-me de os ver passar ao fim do dia, nos tempos da minha adolescência, a caminho da corte, mansos e bons com o seu olhar sereno que sempre me impressionou e que um dia - muitos anos depois - recordei num poema que a minha saudade ditou, acordando em mim a lembrança da boeirinha - a doce mulher de um lavradaor da minha aldeia - que costumava conduzir os bois depois da lavra dos campos.

BUCÓLICO

Ó terra da Beira, distante...
Quanto de ti me contenta!
O ar,
A luz,
O céu azul sem tormenta!

Terra onde um dia nasci
Entre pinhais e penedos...
Ai, quanto me prende a ti:
O milheiral,
Verde e doirado,
Cheio de segredos!
O ribeiro manso
Por entre salgueirais
Limando penedos!

Os carros de bois
À tardinha,
Lentos e mansos
Pela mão da boieirinha!

Os teus pinhais
E os montes floridos
De cores vivas
Como vitrais!
A tua capelinha
Co’a torre sineira
Muito branquinha!
Mas de tudo
O que mais me enleia
E enternece
É a paz
Da minh’aldeia...
Que noutro lado
Não acontece!

1972

domingo, 2 de agosto de 2015

Um poema de Tomás Ribeiro (1832-1901) - A PORTUGAL


Casa de Tomás Ribeiro em Parada de Gonta
Gravura publicada pela Revista "Occidente" de 21 de Junho de 1887


A casa que aqui vemos reproduzida na gravura, onde nasceu o celebrado Poeta foi doada por ele para a instalação de uma Estação dos Correios, embora sempre lembrada como seu berço na Vida e nas Letras, porque Parada de Gonta (Tondela) sempre viveu no seu coração .
Homem ilustre e figura de proa na política do seu tempo, foi deputado pelo Partido Regenerador, e como ministro sobraçou as pastas da Marinha, do Ultramar, da Justiça - Tomás Ribeiro era formado em Direito pela Universidade de Coimbra - do Reino, da Indústria e das Obras Públicas, num espaço que mediou entre 1878 e 1891 em vários Governos da Monarquia Constitucional.

Dotou a sua terra de uma Escola Primária a que deu o nome do então Primeiro-Ministro Fontes Pereira de Melo, cabendo-lhe a tarefa de enriquecer Parada de Gonta com uma Estação de Caminhos de Ferro, tendo cabido a inauguração da Igreja Paroquial em 1894, na qualidade de Ministro das Obras públicas.

Com a aparição no dia 31 de Maio de 1822, numa gruta nas margens do rio Jamor, perto do chamado "Casal da Rocha" de uma imagem de Nossa Senhora - hoje conhecida por Nossa Senhora da Rocha, em Carnaxide - foi um dos maiores incentivadores do seu culto, tendo estimulado a construção do Santuário de Nossa Senhora da Rocha e de várias outras obras de benefício para a população local.

É o consagrado autor consagrado dos seguintes livros:
  • D. Jaime ou a dominação de Castela 1862
  • A Delfina do Mal (poesia) 1868
  • Sons que Passam (poesia) 1868
  • A Indiana (entreacto em verso) 1873
  • Vésperas 1880
  • Jornadas (dois volumes de narrativas de viagens pelo Oriente: 1.ª parte - Do Tejo ao Mandovi; 2.ª parte - Entre Palmeiras; 3.ª parte - Entre Primores) 1873
  • Dissonâncias 1890
  • História da Legislação Liberal Portuguesa (ensaio) 1891-1892
  • Empréstimo de D. Miguel (ensaio histórico) 1880
  • Carta de Alforria (poema em homenagem à Dom Pedro II, Imperador do Brasil)
  • O Mensageiro de Fez (poema de glorificação a Nossa Senhora de Carnaxide) 1900.

Desde 1982 - 150º aniversário do seu nascimento - que os seus restos mortais repousam na terra onde nasceu, a sua "Fresca Aldeia Formosa", como ele lhe chamou.

Deu a Portugal um título bem conhecido e que faz parte da gíria popular: "Jardim da Europa à beira mar plantado". Vamos encontrá-lo na sua poesia intitulado A PORTUGAL.


Meu Portugal, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei débil infante,
variado jardim do adolescente,
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante,
meu vergado pomar d’um rico outono,
sê meu berço final no último sono!

Costumei-me a saber os teus segredos
desde que soube amar; e amei-os tanto!...
Sonhava as noites de teus dias ledos
afogado de enlevo, em riso e em pranto.
Quis dar-te hinos d’amor, débeis os dedos
não sabiam soltar da lira o canto,
mas amar-te o esplendor de imenso brilho…
eu tinha um coração, e era teu filho!

Jardim da Europa à beira-mar plantado
de loiros e de acácias olorosas;
de fontes e de arroios serpeado,
rasgado por torrentes alterosas,
onde num cerro erguido e requeimado
se casam em festões jasmins e rosas;
balsa virente de eternal magia
onde as aves gorgeiam noite e dia.

(…)

Por ti canto, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei débil infante;
meu viçoso jardim de adolescente,
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante.
Tu… dá-me ao cerrar noite o meu inverno,
um leito funeral ao sono eterno.

in. D. Jaime


Tomás Ribeiro faz parte com o seu sentimento pátrio de que este poema é uma exaltação sentida e profunda de uma pléiade de ilustres homens das Letras portuguesas de que foi rico todo o século XIX, com ênfase muito especial para a sua segunda metade, cabendo dizer que este Poeta e outros só não ultrapassaram - como deviam - as fronteiras europeias da cultura pelo atraso político-social em que a política canhestra do "deita-abaixo" em obediência ao sonho republicano, não ousou colocar Portugal nas asas da fama.

É um mal endémico de que estamos a sair.
Tenho a certeza disso.

Jovens, "cabeças de vento"?




Ouve-se dizer, amiúde, que os jovens de hoje são "cabeças de vento", quando, afinal, o que se passa é essas tais "cabeças" serem os adultos - muitas vezes, os próprios pais pela vida desregrada que levam, enquanto eles caminham para ser mais consequentes nas suas opções de vida, não encontrando, na sociedade, no seu todo, condições para poderem escolher conscientemente os seus caminhos.

Vai longe - felizmente - o tempo da jovem submissa que aceitava o esposo que lhe era imposto pelo compadrio familiar e, de um modo geral, de todas as condições a que era submetida por um destino cruel,

É evidente que a nova situação precisa de solidificar-se e, não raro, aqui e ali, tem-se cometido exageros e, até, perfeitos absurdos comportamentais, mas o amor como zénite ou horizonte maior não deixa de morar no coração dos jovens, continuando a ser a pedra preciosa de que eles - salvo as excepções que sempre acontecem - de que eles não prescindem para embelezar a vida.

O problema reside nos adultos, pelo que se torna urgente mudar as mentalidades.

Não há moral que resista ao espectáculo degradante da procura em primeiro lugar do "ter" e, depois - mas distância longínquas do pensamento - a necessidade social de "ser", que é o que está faltando no equilíbrio que os deve nortear e, com ele, vivo e actuante, serem testemunho para os jovens.

Eis, porque, as "cabeças de vento" andam por aí, à mostra demais na sociedade materializada que estamos a construir e que tendo libertado os jovens para sua comodidade pessoal não lhes têm dado como mereciam condições de "ser", que dito deste modo seco, pode parecer um conceito onde falta o sentido que de facto existe.

Efectivamente, o "ser" só ganha sentido, quando na interrogação do Universo se encontra a transcendência do humano, pelo que é preciso - e urgente - que os adultos e a sociedade no seu todo, se voltem para os jovens, mostrando-lhes que a vida é uma aventura que tem duas conquistas: a material e a espiritual, pelo que Deus não pode ser ignorado, como se o facto de "existir" se bastasse por si mesmo até ao mergulho no nada que é a morte.

Donde, a matéria sem o acompanhamento espiritual o que faz acontecer são "cabeças de vento" que vivem a caminho da finitude da vida transformada em nada, quando se deve viver para nos libertármos desse nada e emitarmos como diz o Poeta, "os que se vão da morte libertando"

E para aqui que caminhamos. Todos, sem excepção.

Vidas complementares!



Para a 
H.L.J.C.M.M.


Que dizer-te nas tuas 76 Primaveras
E nas quase 54 que vivemos em comum?
Que dizer-te, que não seja, apenas e deveras,
Que agradeço a Deus sermos dois em um!


Que dizer-te, agora, que não seja isto:
Que o modo como te vejo tem outro olhar,
E o modo como te sinto, quando penso nisto,
É que por ti nunca esqueci o verbo AMAR!


Que dizer-te, agora, que já não te tenha dito?
Que dizer-te, agora, que não seja agradecer
Que em tudo aquilo que fazes, acredito,
E que te vejo mais linda em cada amanhecer!


Que dizer-te, agora, senão, pedir-te o favor
De continuares a ser aquilo que tens sido.
Força, coragem, dedicação, em tudo um valor
Que me habituei a amar e no qual resido!


Que dizer-te, agora,  senão , este pedido:
Que olhando, hoje, o meu cabelo escasso
Depois de tantos anos que contigo hei vivido
Sintas que para ti caminho como no primeiro passo!

E na ampulheta do destino, a Vida, 
pela graça de Deus ainda continua a cair!


Tudo começou pelo encontro de vidas cruzadas.

Depois, com esforço e persistência - a vida a dois tem de ser um encontro diário - passou a consolidar-se um modo vivencial que passou a lembrar as telhas de um mesmo telhado, dispostas de tal forma que uma cobrindo a outra têm resistido ás chuvas, temporais, nortadas, canículas, geadas e a todos os ventos por mais desencontrados que sejam.


sábado, 1 de agosto de 2015

Confiança em quem?


in. "Observador"


Ao que parece - segundo noticias acabadas de chegar - o cartaz da campanha do PS às próximas legislativas - É TEMPO DE CONFIANÇA - está a causar algum mal-estar nas hostes socialistas, a ponto de ter merecido três réplicas jocosas não sei de quem e que o "Observador" reproduz na sua edição de hoje.

Delas retiro a terceira que dá conta, pela imagem, do que aconteceu com as cheias da cidade de Lisboa em Novembro de 2014 e para as quais António Costa disse que para as evitar não havia remédio. Não sendo. exactamenmte, estas as palavra, foi este o sentido, quando afinal existe e o actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa já mostrou o que deve ser feito.

Pelo que, se no tempo em que foi responsável máximo da autarquia lisboeta não mostrou confiança para resolver o problema, será que a pode exigir ao eleitorado no dia 4 de Outubro?

E não pergunto mais nada. 
O povo é soberano.

O antigo bucolismo da Várzea de Colares


Um recanto bucólico da antiga Várzea de Colares
Gravura publicada pela Revista "Occidente " 
de 1 de Novembro de 1878


Com a data de publicação de 1860, Inácio de Vilhena Barbosa publicou um livro intitulado: "As Cidades e Vilas da Monarquia Portuguesa que têm Brasão de Armas", cabendo no mesmo uma pitoresca descrição da vila de Colares que se transcreve com a grafia do tempo:

Nas faldas da serra de Cimtra, uma legua ao oeste da_ villa d'este nome, esté sentada a villa de Col- lares é sombra delrondosos arvoredos. Pela en-\ costa da serra sobranceira 5 povoaqio vio subindn algumas casas, quintas, e mattas de castanheiros. Inferior in villa estende-se um fertil valle, deno- minado a Varzea, todo cobertode pomares, coor- tado pelo rio das Magis, que vae desaguar no oceano d'ahi uma legua. E’ pois sobremodo amena ede- liciosa a situaqio de Collares. (...)


(...) 0 sitio chamado a Varzea é dos mais lindos e amenos dos arrabaldcs da villa. As agujas do rio das Maqis, represadasahi em uma ponte de pedra, deixarn gosar 0 prazer dc navegar-se em um pequeno barco, que ali ha para esse fim, pelo rio acima até certa distancia, sempre entre pomares, e debaixo de copado arvoredo. (...)  

A vila teve um antigo castelo do qual diz o autor que o senado da camara servia-se d’elle para dlversos usos do minlsterio público. Porém no tempo dos Filippes de Castella, D. Diniz de Mello e Castro, que fol bispo de Leiria, de Vizeu, e da Guarda, estabelecer n’esta villa asua residencia, pediu ealcanqoua posse do castello, que logo transformou em um palacio, jun- tando-lhe uma bella quinta, acmalmenle penan- centes a seus herdeiros. Desta fortaleza provavelmente procedem as armas da villa, que é um castello entre arvores.
Visconde de Juromenha

Antes, de Vilhena Barbosa, por altura de 1838, o Visconde de Juromenha no seu livro: "Cintra Pinturesca ou Memória Descriptiva da Villa de Cintra, Collares es eus arredires" ao falar da Várzea, faz do local esta descrição que se transcreve: “Summamente aprazivel he o sitio da Varzea, onde o rio tem huma ponte de cantaria, e se represam as aguas que servem para a rega dos pomares, e de agradavel recreio para aquelles que o navegam em hum pequeno batel, debaixo da sombra das arvores carregadas de pommos , os quaes hindo pelo rio abaixo, quando o rio era navegavel até ao mar, deram o nome á praia onde elle vai juntar a sua humilde veia com as encapelladas vagas do Occeano que se quebram nesta praia a que chamão das Maçans.”
                                                                                     

Local idílico, mantém ainda hoje o encanto do bucolismo doutras eras em que ao longo do rio das Maças o pequeno barco da gravura da gravura, com os seus passeantes emprestavam ao local a magia dos sítios encantados de Portugal, de que Colares era - e é - privilegiado.

Recordo-me dos meus tempos de juventude e do percurso romanesco do carro eléctrico que de Sintra rumava até à Praia das Maçãs, onde me refresquei muitas vezes da caloria que levava de Lisboa.

Por isso, este breve apontamento, se é grato  para a minha lembrança e se fica aqui como testemunho de um tempo feliz que as minhas idas a Colares eram um motivo de poesia, fica, também, como lembrança que, eventualmente, possa aferir dos sentimentos de velhos amigos meus e de outros que o não sendo, sentiram como eu, o bucolismo que emanava olorosamente das velhas árvores da Várzea de Colares e do ex-libris da Adega Regional de Colares, que me garantem ser a Adega Cooperativa mais antiga do País.