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domingo, 23 de agosto de 2015

Soedade - Soidade - Suidade - A SAUDADE



A saudade 
não está na distância das coisas,
mas numa súbita fractura de nós, 
num quebrar de alma em que 
todas as coisas se afundam.

Virgílio Ferreira


Saudade, na Gramática Portuguesa é um substantivo abstracto e de tal modo assim é, que só existe na nossa língua. Constitui, possivelmente, a palavra mais preponderante na poesia de amor e na música popular do nosso povo, descrevendo toda uma amálgama dos sentimentos, como os de perda e distância, estando a sua génese directamente ligada à tradição marítima portuguesa, que ainda hoje não consegue pensar no mar sem sentir saudade.

É que foi nesse mar que onde ficaram para sempre, navegadores, pescadores, mulheres, crianças, esposos e  filhos, impotentes perante as tragédias, tendo aprendido ao longo dos séculos a dura lição da humildade perante os ingentes e revoltos elementos da natureza, sendo esta imprevisibilidade e este paradoxo do mar os componentes mais directos do grande sentimento da saudade que mora em Portugal, como não acontece em qualquer outro lugar do mundo.

A palavra tem origem no latim "solitas, solitatis" (solidão) e é a expressão da forma arcaica de "soedade, soidade e suidade", entroncando-se na época dos Descobrimentos, definindo a melancolia da lembrança, quer de coisas, estados de alma ou acções.

Diz o Professor Joaquim de Carvalho (1892-1958) que a palavra "saudade" é uma das mais difíceis de traduzir em todo o mundo, porque possui uma significação algo complexa.
Data do século XV, a primeira tentativa de definir esta palavra que conforme já então se dizia não tinha correspondência noutra língua qualquer.  "Saudade", diz o rei D. Duarte, é o "sentido do coração que vem da sensualidade e não da razão" (Leal Conselheiro, cap. XXV).  A saudade é assim algo que é de natureza sentimental antes de ser consciente ou racional. Em geral podemos traduzir a saudade como um apelo sentimental de união com algo ausente, distante ou perdido.

Há quem sustente que a saudade se remete, em primeiro lugar,  para aquele ou aquela que fica à espera de quem partiu, cabendo a este, um outro aspecto de saudade que o povo liga à nostalgia.
Sem se poder traduzir, há quem a defina a saudade como uma lembrança especialmente nostálgica de algo vivo ou inanimado que está ausente, de que o termo matar a saudade, é, quase sempre, fazer que ela desapareça em face de um encontro com uma realidade que esteve longe, mas deixando sempre latente a sua presença na alma,  porque é dela um dos atributos sensoriais mais vivos no sentimento do povo português.

Esta asserção ganha todo o sentido quando mergulhamos a saudade nas ondas do mar que desbravámos no tempo glorioso da gesta portuguesa, onde se intromete com toda a intenção o heterónimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, ao dizer assim na Ode Marítima:

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Saudade tem merecido de muitos quadrantes da cultura portuguesa uma atenção muito especial, não só pela carga emocional que possui, mas também, por ser um tema de eleição que anda preso e não se solta, ou se isso acontece, volta sempre, como se fosse uma andorinha, que no ano seguinte volta ao mesmo beiral.
Têm-na vivido e cantado os mais humildes, constituindo-se na alma do povo como a sua expressão mais pura, porque tem sido ancorado a ela que ele ao longo dos tempos têm ultrapassado muitas das suas amarguras expressas em quadras que se cantam, como se as mesma fossem rezadas, como esta:

Esta palavra saudade
E aquele que a inventou
Na primeira vez que a disse
Concerteza que chorou.

Mas o seu influxo nunca deixou de penetrar bem fundo nos mais letrados que a têm cantado e escrito sobre ela versos e prosas magistrais, como Eduardo Lourenço, que rendido à sua mística, afirma que é a própria saudade que se funda dentro do homem, tal como ele afirma na Mitologia da Saudade:

Na verdade, não temos saudades, é a saudade que nos tem, que faz de nós o seu objecto. Imersos nela, tornamo-nos outros. Todo o nosso ser ancorado no presente fica, de súbito, ausente.

Mas é, nesse homem invulgar que foi Poeta e Sacerdote, Moreira das Neves 
que encontramos espelhada como em nenhum outro livro a palavra saudade, cantada em todos os cambiantes, passando pelo fado e pela guitarra portuguesa, ou pelo lado mais íntimo, dolente e magoado que sentem as almas dos que ficam, lembrando os emigrantes, ou até, roçando a candura das preces a Deus, mas sem faltar, muitas vezes uma réstea de Sol a iluminar o caminho para dar alento e coragem, porque é preciso crer e sentir o destino como o sente o marinheiro, quando se perde no alto mar.

Moreira das Neves é um cantor privilegiado da saudade, num livro precioso, publicado após a sua morte, ocorrida em 1992.
O livro “Variações sobre a Saudade” foi descoberto , com outros pequenos tesouros, no espólio do Poeta, pelo seu fiel, infatigável e douto amigo, discípulo e companheiro também, até nas lides do jornalismo, Manuel Ferreira da Silva, diz o seu prefaciador Francisco J. Velozo.
Com um sentimento de saudade pelo Homem ilustre, que foi Padre Francisco Moreira das Neves, é com esse mesmo sentimento que o jornal “ A Comarca de Arganil” homenageia, reproduzindo algumas quadras do Poeta, que foi, entre tantas lides, um exímio jornalista.

Eco de fala perdida
Nas brumas do alto mar.
Lenço acenando à partida
De alguém que espera voltar.

Quanto mais a idade cresce
Mais a vida se dilui.
Apenas não esmorece
A saudade do que fui.

Búzio das ondas de Além,
Canção de lago sem fundo.
A saudade é como alguém
Que chega do fim do mundo.

Carta que ao longe se envia,
Telegrama que nos vem.
Toda a saudade anuncia
O pensamento de alguém.

Ninguém diga que a saudade
Abandona os infelizes.
Ela nunca deixa a herdade
Em que fundou as raízes.

Quem busque terra estrangeira
Pode sem medo contar:
- Fica a saudade à lareira
Sentada no seu lugar.

Pescador que vai ao mar
E no mar se perde em rondas
Ouve a saudade gritar
Na voz de todas as ondas.

Extinta a última brasa
Tudo morreu? Ninguém creia.
A saudade em nossa casa
Faz às vezes de candeia.

Nas romagens às ermidas,
Alpendres de claridade,
Não há promessas cumpridas
Com as que cumpre a saudade.

Não sei que mistério atrai
Nuvens d’aquém e d’além.
Se uma saudade nos vai
Outra saudade nos vem.

Debaixo do figueiral
Pôs-se a saudade a bordar.
Gastou agulha e dedal
Sem a tarefa acabar.


 Ao lembramos este sentimento genuíno da alma portuguesa lembramos o génio poético de Moreira das Neves que apontamos como expoente da nosso sentir e pelo qual guardamos uma enorme saudade.


A Festa religiosa da minha aldeia.


Engalanado a preceito, mas na singeleza pretendida, o amplo recinto fronteiro ao edifício da Liga de Melhoramentos adivinha a Festa de preceito de cariz eclesial, de mistura com os folguedos próprios que dão o ambiente profano à comemoração religiosa do patrono S. Tiago e de Nossa Senhora.


Tenho, hoje, uma imensa saudade da Festa antiga da minha aldeia serrana que foi, em tempos idos uma comemoração digna da celebração religiosa de S. Tiago Maior - O Orago da aldeia - e de Nossa Senhora do Desterro, advindo a minha saudade do seu preparo extremamente cuidadoso e do esmero processional que dando - como hoje - a volta à aldeia trazia para os alcantis dos montes circundantes forasteiros que se ajoelhavam ao ver passar a Procissão, enquanto os seus seguidores, no maior respeito entoavam cânticos de louvor nos intervalos da reza dos Mistérios do Terço, ou quando a Banda Filarmónica se não fazia ouvir.

Hoje, é verdade, a Procissão continua a fazer-se no mesmo percurso, mas algo se perdeu. Já não chegam os forasteiros das aldeias vizinhas e muitos dos seus naturais esquecem a antiga Festa que no tempo dos seus maiores constituiu um verdadeiro motivo agregador das famílias que à noite, ao som da guitarra enchiam de vida o terreiro da festa, entoando canções populares ou revendo-se nas quadras de sete sílabas de rimas perfeitas ou de pé quebrado.

Na minha aldeia o culto a Nossa Senhora do Desterro conheceu  um impulso invulgar na primeira trintena de anos do século XX.  Esteve na origem deste culto religioso as orações do povo elevadas a Nossa Senhora, pedindo-lhe que livrasse a aldeia de sofrer o horrível flagelo da “pneumónica” ou “gripe espanhola” aparecida a partir de Espanha (1918-19), o que veio a acontecer.

Tal facto foi considerado uma atenção especial de Nossa Senhora do Desterro, não tendo a terrível doença que matou cerca de 60.000 portugueses atingido mortalmente nenhum dos naturais da minha aldeia até ao ano de 1925, quando se declarou erradicada a pandemia, assim considerada pelos cerca de quarenta milhões de vítimas que causou nos países de origem, a Àsia, e a seguir, na Europa, onde esta se propagou, assustadoramente, de país em país.

O povo crente viu neste sinal uma graça extraordinária de Nossa Senhora do Desterro, advindo daí uma exaltação de fé profundamente enraizada num culto de grande fervor mariano.

Com a localidade poupada ao morticínio - enquanto à sua volta a norte e a sul o flagelo se mostrara em toda a sua crueza  - o povo ao olhar para o interior da sua Capela onde já existia a velha Imagem da Sagrada Família que demonstra a fuga para o Egipto levando o Pai e a Mãe o Menino Jesus pela mão, num impulso de grande e fervorosa piedade popular, cerca do ano 30, passou, para além continuar a honrar o seu Santo Padroeiro, S. Tiago Maior no seu dia litúrgico, a honrar  também, NOSSA SENHORA DO DESTERRO, a Santa Mãe que para salvar a Família se desterrou nas terras estranhas do Egipto inóspito, habitando durante sete anos uma localidade situada junto ao delta do rio Nilo.

A Imagem da Sagrada Família da Capela da minha aldeia é uma escultura expressiva, ricamente pintada que desde então passou a ser festejada com a celebração de uma Festa particular devidamente autorizada pela respectiva Diocese, onde a Procissão que percorre o perímetro do povoado ganha um brilho que se coaduna com a fé dos seus naturais.

A eleição do mês de Agosto para a realização de Festa em honra de Nossa Senhora do Desterro está intimamente ligada à grande Festa litúrgica da Assunção da Virgem, que no calendário a Igreja Universal celebra a 15 de Agosto, tendo o povo feito o voto – que chegou até hoje - de continuar a honrar a Mãe de Deus, fazendo recair a Festa local de Nossa Senhora do Desterro durante o mesmo mês e em cada ano, como uma continuação da grande Festa mariana do mês de Agosto, associando-se com o seu voto piedoso o desterro no Egipto à Festa da Assunção de Nossa Senhora que constitui o glorioso passo final da sua vida santíssima.

Este é o sentido eclesial dado pelas gentes da minha aldeia à Festa de Nossa Senhora do Desterro, nascido a partir do sentido secular da defesa das vidas das gentes da aldeia, assim entendido e do mesmo modo continuado pelo desfiar das gerações dos que continuam a pedir a bênção e a intercessão da Santa Mãe de Deus sob a invocação de Nossa Senhora do Desterro.

Júlio Dinis: um poeta da palavra!


O autor como é  representado nesta edição do seu celebrado livro

Contra capa e sequência a abrir o Livro "As Pupilas do Senhor Reitor"
 14ª edição nacional - 1909

Na casa da aldeia que me viu nascer, existe esta edição velhinha de "As Pupilas do Senhor Reitor" que tem aposto como sub-título "Crónica da Aldeia" e que, uma vez mais teve o condão de me transportar aos tempos das desfolhadas aldeãs a que assisti na minha juventude.

Júlio Dinis, pseudónimo literário do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho tem o raro encanto de prender o leitor nos dois estádios da vida antagónicos no tempo - juventude e velhice - mas concordes no mesmo prazer que lhes dá a sua leitura, onde a ruralidade de José das Dornas e de Pedro se confronta com Daniel, o médico moderno a opor-se à ciência hipocrática do médico João Semana e à do popular barbeiro - que naquele tempo gozava da fama de médico - com tudo isto a ser feito com modos cavalheirescos que o próprio João Semana aconselhava a Daniel, no sentido de o integrar no povo e nos seus costumes.

Júlio Dinis - que foi poeta no verso metrificado e nos deixou valiosas composições como a "Esmola do Pobre" - foi em tudo quanto escreveu em prosa um poeta nos seus romances, onde tem um lugar privilegiado "As Pupilas do Senhor Reitor" do qual diz o autor que o egresso tinha o Evangelho no coração - o que vale mais ainda do que tê-lo na cabeça, uma frase relida nestas férias e que guardei como nunca o havia feito, porque há conceitos como estes - ditos ou escritos - que valem uma tarde inteira de introspecção e consulta aos manuais que se guardam mentalmente.

Foi o que me aconteceu e, por isso, dei graças a Deus por neste estádio da vida que já declina, vencida por um sol que pouco já aquece, ter lido em Júlio Dinis a realidade observativa que nos faz ver naquele reitor das duas pupilas  - Clara e Margarida - um liberal de convicção, ou seja, alguém que antecipava o novo tempo que a Igreja, paulatinamente, se ia preparando para viver, como veio a acontecer no final do século XIX, com o Papa Leão XIII.

Reler as "Pupilas do Senhor Reitor" se é mergulhar num mundo que se perdeu - no todo ou quase - é emergir de um pântano que a sociedade dita moderna diz, se ter libertado, mas sem cuidar que os valores humanos existenciais ali representados são os autênticos sem retoques ou pinceladas que pintam "cor de rosa" um mundo estranhamente desencarnado da chama espiritual sem a qual a vida frívola até parece feliz,  mas não é verdadeira.

O médico Júlio Dinis, de certo modo, incarna a figura de Daniel, débil como ele, que um dia foi até Ovar - onde começou a arquitectar o enredo deste romance - na esperança dos ares balsâmicos do mar servirem de lenitivo ou cura à doença que o vitimou na flor da idade, pelo que Daniel e tudo quando faz e diz é um retrato do autor, a menos no casamento com a pupila do reitor, Margarida, um passo que Júlio Dinis nunca deu, porque sendo médico sabia que a tuberculose não lho permitia, algo que nos deixa a pensar que até neste passo tão importante da existência foi um grande homem, pelo valor da renúncia de que encheu a vida.

E foi, meditando na frase do velho reitor ter o Evangelho no coração - o que vale ainda mais do que tê-lo na cabeça, nos valores humanos espelhados no romance e no seu próprio exemplo de uma humanidade sofrida, que enchi, mais uma vez, na tarde de um destes dias acalorados de Agosto o meu baú de memórias, enquanto ia pensando nos vários grupos de música gritante que vão arregimentando multidões de jovens por Portugal fora, mas sem lhes darem valores humanos como os do romance de Júlio Dinis e outros semelhantes.


sábado, 8 de agosto de 2015

E agora, qual é a estratégia?


in, "Expresso.sapo,pt" de 25 de Janeiro de 2015


Para António Costa, em Janeiro "outros países deviam seguir a mesma estratégia contra a austeridade".

E, agora, qual é a estratégia?

"O povo é sereno"... e paga a factura!



in, visao.sapo.pt de 8 de Agosto de 2015


As Auto-Estradas são sempre equipamentos muitos caros ao ponto de custar, em média, entre 10.000 a 12.000 euros cada metro linear, incluindo movimentos de terras, construção da via, respectivas bermas e valetas, obras de arte (pontes, aquedutos e viadutos) túneis, sinalizações de superfície e aéreas, etc.

É norma corrente de quem estuda o "dossier" dos fluxos viários, só um trânsito acima de 15.000 carros/dia, dar garantias de manutenção e sustentabilidade económica às Auto-Estradas, A ser assim a "A8" - Auto Estrada do Oeste com 138Km, não tem trânsito que a justifique. De igual modo, assim é a "A10", a conhecida Auto-Estrada do Ribatejo e a "A13", a Auto-Estrada do Pinhal Interior. A "A2" justifica 2 dos 12 meses do ano. Julho e Agosto, tal como a "Via do Infante".

Costuma dizer-se "que os erros dos nossos pais e avós fazem-nos eles e pagamo-los nós", pelo que - embora úteis e necessárias para o progresso do País - o erro não esteve na sua construção, mas sim no espaço temporal em que as mesmas foram construídas, porquanto, tiveram como base a vaidade política de um tempo e de pessoas concretas bem conhecidas que porfiaram em deixar obra... mas deixando as dívidas das mesmas para as futuras gerações, o que, de modo algum, racionalmente, é compreensível.

E isto não é desculpável e só aconteceu porque os mais responsáveis sabiam que "o povo é sereno" e ia, tal como está, com língua de palmo a pagar a factura em face do descalabro bem recente que foi cometido à vista de todos.



O Partido Socialista acaba os cartazes por onde devia ter começado!



in,http://rr.sapo.pt


Esta é a imagem da terceira vaga dos cartazes eleitorais do Partido Socialista. ou seja, depois de duas tentativas falhadas, a primeira algo de chacota e a segunda, desrespeitosamente a usar rostos de pessoas sem autorização destas e a proclamar verdades que, ao que parece, o não eram - vem agora a terceira, usando o rosto de António Costa, com o Partido Socialista e pedir desculpas...

Fazê-lo, não lhe fica mal, o que foi mal feito foi ter dado motivos para que tal tivesse acontecido, o que prova que o PS andou a brincar com o fogo ao pedir a confiança aos portugueses e do modo como o fez!
Foi o descaramento completo. A falta de respeito pela inteligência do povo!

Agora, sim. Acaba por onde devia ter começado. Com o rosto de António Costa que derrubou - de propósito - o camarada António José Seguro e tem de dar o rosto pela campanha eleitoral.

"À terceira é de vez", costuma dizer o povo, mas não é desculpável que tenha errado tanto um Partido que quer conquistar o poder, porque ao pedir confiança leva o povo a desconfiar... deixando-o a pensar que, se ganhar as eleições de 4 de Outubro, se errou em coisas de "lana caprina" como estas de não saber como se faz um cartaz, não deve merecer, como pede -  confiança política -  porque não se pode errar, nunca mais, num tempo em que o erro se paga caro e Portugal não pode voltar ao tempo "faz-se... e, depois, logo se vê" pela simples razão que o tempo das aventuras acabou e há uma geração perdida no labirinto de duvidosas políticas, onde avultam as obras faraónicas, que a levou em grande parte, a procurar emprego no estrangeiro e, outra, que agora, entra na Universidade e tem de merecer o emprego em Portugal.

No entanto, o que tem de ficar de pé, é a confiança no povo que somos que tem tido a sabedoria colectiva de a par dos desmandos políticos dos que já lhe pediram outras "confianças" soube encontrar dentro de si mesmo o arreganho de seguir em frente, a olhar - agora mais que nunca - para a confiança que mora dentro de si mesmo.

Que grande povo é o nosso!
Que grande povo é o povo de Portugal!


Uma pedrada no charco!



Captura do Jornal "i" de 8 de Agosto de 2015, com a devida vénia.


Eis a grande verdade, dita sem papas na língua por esse futebolista de génio que foi no seu tempo, António Simões, que honrou como poucos a camisola do Sport Lisboa e Benfica e a quem agradeço a franqueza da sua opinião sobre o aproveitamento do futebol pelo regime hodierno.

E é tão evidente o que ele diz - porque a Democracia instaurada - em vez de colocar a Cultura em primeiro plano, deixou que este fosse ocupado pelo futebol, estou do seu lado e, reverentemente, aprecio-o por ter tido a coragem de dizer o que muitos pensam, como eu.


Uma recordação.


in, beachcam.sapo.pt (com a devida vénia)
Praia Grande (Sintra) - Ao fundo o Hotel com a sua piscina oceânica


Eu peço licença à alma desse mimoso poeta brasileiro que viveu em Portugal no século XIX para começar esta recordação, citando o primeiro verso da primeira estrofe do poema  - Deus - para citar o tempo feliz que me levava até à Praia Grande para ali encher os olhos na amplidão do mar.

Eu me lembro! eu me lembro! - Era pequeno...e, como ele, descuidado da vida e dos muitos trabalhos que me aguardavam brincava na praia, com a diferença - importante - que naquele descuido da minha infância não me lembrava que tudo aquilo que me enchia os olhos de magia - o mar - era obra de Deus, desse Ser incorpóreo que a minha santa mãe me tinha ensinado a amar e respeitar.

Porque, Casimiro de Abreu foi mais introspectivo que eu, embora os dois tivéssemos tido os olhos cheios de mar e termos visto, sacudida, A branca  espuma para o céu serenoteve o condão de interpelar sua mãe sobre o nosso mesmo Deus para ouvir a resposta cheia de fé e e sabedoria que ele, num arroubo místico, imortalizou no poema DEUS que nos deixou como um marco da sua caminhada poética:



Eu me lembro! eu me lembro! - Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno.

E eu disse a minha mãe nesse momento:
"Que dura orquestra! Que furor insano!
"Que pode haver maior que o oceano,
"Ou que seja mais forte do que o vento?!"

Minha mãe a sorrir olhou p'r'os céus
E respondeu: - Um Ser que nós não vemos
"É maior do que o mar que nós tememos,
"Mais forte que o tufão! Meu filho, é - Deus!"

Casimiro de Abeu
Dezembro - 1858.

Resta-me agradecer a felicidade de nestes tempos em que a vida já tomba movida pelos anos, ter recordado este poema de Casimiro de Abreu que teve a arte de levar para trás - envolto num sonho - a minha recordação dos tempos longínquos em que a Praia Grande, pelo facto de eu ser pequeno, parecia maior que hoje, porque quando se é pequeno há um erro de perspectiva que leva os olhos a tornar maiores os espaços e as distâncias


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A ruralidade que havia em Miguel Torga


in. "Miguel Torga - Fotobiografia" de Clara Rocha


Cá estou mais uma vez cingido à minha natureza profunda. Vestido como qualquer camponês e a sentir-me bem dentro desta pele terrosa,  cavo o quintal, arranco silvas, podo roseiras, racho lenha. E converso com gente do meu agro que me vem visitar ou consultar, gente que nunca me leu, nem faz ideia do que é ser poeta, que fala de trivialidades e quer ouvir respostas triviais. Alimento com todo o meu ser essas conversas intermináveis, feitas de tudo e de nada, e quando elas acabam retomo a enxada de boa consciência, na paz de quem compreendeu e foi compreendido. Sabe bem compartilhar da condição comum. Lá em baixo sou uma ficção entre ficções: aqui sou uma criatura entre criaturas.

in, "Diário XIV" em S. Martinho de Anta,  23 de Dezembro de 1982


Cá estou, mais uma vez rendido a Miguel Torga.

Leio este pequeno texto que ele escreveu entre a enxada e a secretária da sua casa transmontana de S. Martinho de Anta - até onde uma vez abalei numa "peregrinação" laudatória da sua lembrança - e parece que o vejo a atender o "seu povo" a ouvir as suas trivialidades e a responder-lhe no mesmo tom, sem quaisquer demonstrações do ser que ele foi - médico e poeta - dos mais genuínos que viveram em Portugal no século XX.

Hoje, quando vou à pequena aldeia de onde sou natural, sou algo parecido - só nisto - com Miguel Torga, quando tento limpar a terra do meu quintal das ervas daninhas e das silvas teimosas, no intento de lhe dar a aparência com que o recebi das mãos dos meus pais que Deus lá tem, tal como eles o fizeram dos que os antecederam.

É o preito que pago à terra onde estão as minhas raízes, esquecendo o que acontece comigo quando retorno à cidade, nos momentos em que dou comigo a tropeçar nas palavras do Poeta, no seu dizer: Lá em baixo - penso que se referia a Coimbra onde tinha o seu consultório - diz que sentia uma ficção entre ficções, porque sempre se sentiu um homem da ruralidade do seu agro, onde ia com a frequência que podia para limpar o quintal e matar saudades do ar e das montanhas.

Como eu entendo Miguel Torga!

Como eu respeito e bebo as suas palavras em prosa ou verso, umas e outras, filhas dilectas de um temperamento que alguns terão achado difícil, mas só, porque o não quiseram compreender, como ele se define, austero, mas verdadeiro no seu poema BIOGRAFIA, que vale a pena ler e meditar.


Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

in, "Orfeu Rebelde"


Mais um cartaz... mais um disparate!


in, Expresso online

Mais um cartaz... mais um disparate!

Esta senhora desempregada - há 5 anos - já estava nesta situação no tempo do Governo de José Sócrates, como refere a notícia.

(2015-5 = 2010), ou a Aritmética é uma batata?
A ser assim, em 2010 quem é que desempregou esta senhora?
Foi o Governo de Passos Coelho que em 2011 herdou a pré-bancarrota de todos os disparates socialistas, que pelos vistos os continua a fazer - e pasme-se - contra si mesmo?
Cabe, pois, perguntar ao Partido Socialista (PS) onde é que escondeu a memória.
E cabe perguntar, mais o seguinte:

Se não são capazes de fazer uma cartaz de jeito - com cabeça pensante - com que cabeça é que querem governar Portugal, na hipótese de virem a ganhar as eleições de 4 de Outubro?

E não pergunto mais, mas constato isto:
Se não cuidam de si próprios não são capazes de cuidar da "res-pública".

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Lembrando o velho e os novos "Mostrengos"!




O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

                                   Fernando Pessoa
                                      in, Mensagem

Testemunha calada e avançada da gesta dos Descobrimentos portugueses a guarita da Torre de Belém viu partir a nau de Bartolomeu Dias e sumir-se, mergulhada entre a névoa do céu e o azul do Mar Desconhecido.


Tem, hoje como então, o mesmo porte altivo da escultura pétrea que o artista lhe deu, passados que são alguns séculos, com a diferença de já não haver mais naus nem mareantes e, só, palavras - como estas - de sentimento de um tempo em que Portugal, pequeno no tamanho geográfico, foi um País Grande que hoje já não acontece, nem no sonho e , muito menos, na vontade - se me engano, peço desculpa - de ser defendido com a mais valia da sua História que é para muitos desconhecida, mercê da falha imperdoável de um ensino coxo das glórias de que fomos semente e das quais colhemos alguns frutos que infelizmente, desperdiçamos.

É tendo isto como tema de reflexão neste tempo em que a "nau" portuguesa vê "Mostrengos" dentro do próprio Continente - senão no próprio lar -  que se lembra o belo texto de Fernando Pessoa inspirado no Mostrengo do Cabo das Tormentas de Luis de Camões, num apelo - eu sei, sem êxito - junto dos que julgam que a História de Portugal começou em 1910, para que se lembrem que antes da República houve muitos "Bartolomeus Dias" que não podem ser esquecidos, porque é neles que se fundam as raizes mais fundas de Portugal.

Luís de Camões faz de guia. É só seguir...

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37 - ( Continua a navegação ) 

        "Porém já cinco Sóis eram passados  
        Que dali nos partíramos, cortando  
        Os mares nunca doutrem navegados,  
        Prósperamente os ventos assoprando,  
        Quando uma noite estando descuidados,  
        Na cortadora proa vigiando, 
        Uma nuvem que os ares escurece  
        Sobre nossas cabeças aparece. 
  
38 - ( O Adamastor ) 

        "Tão temerosa vinha e carregada, 
        Que pôs nos corações um grande medo; 
        Bramindo o negro mar, de longe brada 
        Como se desse em vão nalgum rochedo. 
        — "Ó Potestade, disse, sublimada! 
        Que ameaço divino, ou que segredo 
        Este clima e este mar nos apresenta, 
        Que mor cousa parece que tormenta?" — 
  
39 
        "Não acabava, quando uma figura 
        Se nos mostra no ar, robusta e válida, 
        De disforme e grandíssima estatura, 
        O rosto carregado, a barba esquálida, 
        Os olhos encovados, e a postura 
        Medonha e má, e a cor terrena e pálida, 
        Cheios de terra e crespos os cabelos, 
        A boca negra, os dentes amarelos. 
  
40 
        "Tão grande era de membros, que bem posso 
        Certificar-te, que este era o segundo 
        De Rodes estranhíssimo Colosso, 
        Que um dos sete milagres foi do mundo: 
        Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso, 
        Que pareceu sair do mar profundo: 
        Arrepiam-se as carnes e o cabelo 
        A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo. 
  
41 - ( Fala de Adamastor aos portugueses ) 

        "E disse: — "Ó gente ousada, mais que quantas 
        No mundo cometeram grandes cousas, 
        Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, 
        E por trabalhos vãos nunca repousas, 
        Pois os vedados términos quebrantas, 
        E navegar meus longos mares ousas, 
        Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, 
        Nunca arados d'estranho ou próprio lenho: 
  
42 - ( Fala do Adamastor ) 
        — "Pois vens ver os segredos escondidos 
        Da natureza e do úmido elemento, 
        A nenhum grande humano concedidos 
        De nobre ou de imortal merecimento, 
        Ouve os danos de mim, que apercebidos 
        Estão a teu sobejo atrevimento, 
        Por todo o largo mar e pela terra, 
        Que ainda hás de sojugar com dura guerra. 
  
43 - ( Profecias do Adamastor ) 

        — "Sabe que quantas naus esta viagem  
        Que tu fazes, fizerem de atrevidas,  
        Inimiga terão esta paragem 
        Com ventos e tormentas desmedidas. 
        E da primeira armada que passagem 
        Fizer por estas ondas insofridas, 
        Eu farei d'improviso tal castigo, 
        Que seja mor o dano que o perigo. 
  
44 - ( Bartolomeu Dias. Naufrágios. ) 

        — "Aqui espero tomar, se não me engano,  
        De quem me descobriu, suma vingança.   
        E não se acabará só nisto o dano  
        Da vossa pertinace confiança; 
        Antes em vossas naus vereis cada ano, 
        Se é verdade o que meu juízo alcança, 
        Naufrágios, perdições de toda sorte, 
        Que o menor mal de todos seja a morte. 

in, Canto "V" de Os Lusíadas   

Ao ler-se a estrofe 43 (Profecias do Adamastor) aquilo que ressalta de imediato é que, tanto Vasco da Gama - a caminho da Índia - como Pedro Álvares Cabral - a caminho do Brasil - sofreram as maiores tempestades que o sopro do "Mostrengo", no dizer de Pessoa, lhes lançou, acometendo as armadas como já o havia feito à de Bartolomeu Dias, tendo sido a resposta deste: aqui, Manda a vontade que me ata ao leme / De El-Rei D, João Segundo, que continuou a imperar nos mareantes das naus da Índia e do Brasil, que passaram adiante, porque tinham um destino a cumprir, como o havia tido aquele que passou para além do tormentoso Cabo.

- E, hoje, qual é o destino que nos devia atar ao leme?

Portugal, é bem de ver!
A guarita da Torre de Belém, lá continua.

Nós, é que - com as nossas quezílias internas e externas - estamos a descontinuar Portugal, sem cuidarmos que os "Adamastores" ou "Mostrengos" continuam a existir.
Apenas mudaram de nome e se é verdade que não há mais Mundos para descobrir, verdadeiramente existe Portugal reduzido à sua mais pequena expressão territorial e que é urgente descobrir.

- ... Mas, porque andamos à procura dele e não o achamos dentro de nós?

Porque julgámos, num dia bem recente, que o resto da Europa nos tinha descoberto e com tal descoberta tinham acabado os "Cabos das Tormentas" e tínhamos em frente um "oásis" - como alguns julgaram - quando, afinal, o que tínhamos era aquela horrenda personagem que o génio de Luís de Camões nos deixou, confiado que ficava por ali o seu mau génio, quando, afinal, ele continua vivo nos "Adamastores" que nos têm subjugado desde 1580, ou seja, desde o ano em que morreu o seu criador artístico e bem visível, nos últimos decénios.

- Ou há por aí quem os não veja?


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Partido Socialista anda zangado...



O Partido Socialista (PS) anda zangado porque vê o desemprego a diminuir quando se devia mostrar satisfeito por haver mais portugueses a trabalhar.

O PS esquece uma coisa importante: a tendência que há muitos meses se nota do decréscimo do desemprego, que é a nota mais segura de que a economia - embora num passo pequeno - está a progredir.

Mas isso não conta, porque se volta contra aquilo que mais desejava: o fracasso da política do Governo neste campo sensível do eleitorado e, por isso, para além de denegrir o Governo, parece não acreditar aquilo que assevera o INE, que o desemprego no segundo trimestre de 2015, é de 11,9%, abaixo da que existia em 2011, quando este Governo tomou posse.

Mais sensato é  Carlos Silva, o Secretário Geral da União Geral de Trabalhadores (UGT) que em face desta notícia, levou o jornal on-line "Observador" a dizer: Se esta é a leitura do partido, a leitura da UGT é bem diferente. Carlos Silva considera que estes dados do INE são “bons” e que deve mostrar a “satisfação” pela descida da taxa de desemprego. O sindicalista diz que tem “consciência” de que há muitos emigrantes e muitos desempregados que não entram para as estatísticas, mas que não se devem pôr em causa os dados oficiais. “Não temos de estar com lutas partidárias”, defendeu.

Pede-se, por isso, mais contenção e juízo político ao Partido Socialista, que parece, ficava contente se houvesse mais desemprego em Portugal o que, para um Partido que se diz amigo do povo, lhe fica muito mal deixar no ar esta suspeita.

O sufoco das eleições do dia 4 de Outubro toldou os ares do PS!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O velho tronco!


Parque Silva Porto (vulgo Mata de Benfica - Lisboa)
Agosto 2015

Árvores são poemas que a terra escreve para o céu
(Khalil Gibran)


Aprecio este pensamento que o Poeta libanês nos deixou e que a sua liberdade poética permitiu, como permite a todos os que fazem desta ate nobre a sua Literatura. 

As árvores são, efectivamente, poemas que os homens que as plantam - alguns até costumam rezar pelos bons frutos que elas venham dar - atiram numa "escrita" especial para o céu, no desejo de as verem crescer, porque um Mundo sem árvores não tinha qualquer encanto.



Por isso, no terceiro dia da Obra da Criação, Deus, conjuntamente com todas as espécies de ervas, criou-as com as respectivas sementes, ou seja, elas são anteriores ao aparecimento do homem que teve de esperar mais três dias, que verdadeiramente, jamais se saberá a quantos anos correspondem, porque na Obra Divina o Mistério dos dias não se contam pelo transcurso das 24 horas.

Há dias passei pela Mata de Benfica e aquele velho tronco que no ladear do caminho, agora silencioso, porque lhe cortaram as ramadas que foram grandiosas, viu passar milhares de pessoas, abrigou pardais e que deu sombra ao caminho, apresenta no corte que mão dendroclasta não se inibiu de fazer a imagem da árvore que ali existiu.

Deixado ali, é um marco do caminho para mostrar às suas companheiras vegetais que todas elas foram plantadas - como ele foi - para serem árvores frondosas e, depois, dei comigo a pensar no género humano, sobretudo, nos que, à beira dos caminhos da vida, já gastos pelos anos, são troncos só aparentemente "cortados", porque tendo sido "árvores humanas" de grande valia, apesar de gastas não desistem de continuar a servir

E isso bastou para acordar na minha lembrança as VELHAS ÁRVORES - um poema de Olavo Bilac - que fica aqui em lembrança daquele passeio ao fim da tarde pela Mata de Benfica e de tudo quanto em mim despertou aquele velho tronco à beira do caminho que não desiste de existir, como se a mão do homem o não tivesse cortado rente para me permitir, de à vista dele me lembrar que sem ter a valia que teve, não deixou de mexer com a minha sensibilidade.

E vamos às VELHAS ÁRVORES de Olavo Bilac.




 Velhas Árvores

 Olha estas velhas árvores, mais belas
 Do que as árvores novas, mais amigas:
 Tanto mais belas quanto mais antigas,
 Vencedoras da idade e das procelas...

 O homem, a fera, e o insecto, à sombra delas
 Vivem, livres de fomes e fadigas;
 E em seus galhos abrigam-se as cantigas
 E os amores das aves tagarelas.

 Não choremos, amigo, a mocidade!
 Envelheçamos rindo! envelheçamos
 Como as árvores fortes envelhecem:

 Na glória da alegria e da bondade,
 Agasalhando os pássaros nos ramos,
 Dando sombra e consolo aos que padecem!

 in "Poesias"