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sexta-feira, 13 de março de 2015

Viver sem sonhos de altura!



Até a própria torre desafia o alto!


Grande homem é aquele 
que não perde  o seu coração de criança.
                                                   Lao  Tzu



Conta-se que havia um caminho longo e estreito que corria ao longo de quilómetros, tendo de ambos os lados muros altos a servir de divisão entre duas propriedades onde se cultivava de tudo e cujos donos se isolavam entre aqueles dois muros, cada um para não ver o que o outro cultivava.
Eram dois homens vizinhos, mas estranhos.
Tendo perdido, cada um, o seu coração de criança, viviam egoisticamente, fazendo da vida uma luta constante, numa competição feroz que não admitia troca de ideias quanto aos modos de serem rentabilizadas as culturas das suas terras.

Diz-nos a história, que iguais a eles, havia dois passarinhos.

Tinham o hábito de voar rasteiros por dentro dos muros que ladeavam as duas propriedades e tal como os lavradores não se viam um ao outro, cada um, julgando, que o campo de um era mais fértil que o outro e, assim, imitando a solidão dos dois lavradores, levando dia a dia voos sem alegria, quase a tocar o chão, sem lhes importar a grandeza do Céu que por cima deles apresentava sinfonias de um azul sem mancha, onde os dois faziam falta, talhados como haviam sido para voar nas alturas.

Temos assim, a par os homens e aquelas duas aves.
Destinos criados para as alturas – cada um de acordo com a sua condição – a viverem rentes ao chão.
É então, que na história entram dois protagonistas do Céu, que no propósito de emendar as atitudes dos lavradores, começam por falar das atitudes dos dois passarinhos, companheiros, nas atitudes, dos dois lavradores.

Num certo dia, um anjo, condoído do voo das duas aves que voavam ao longo daqueles dois muros imensos a um metro do chão, admirado, comentou:

- Mas, assim, voando tão baixo – não se vendo até um ao outro – será que algum dia se encontrarão?

Foi quando, um outro anjo lhe respondeu:

- Não te importes. Verás que o muro, sendo embora muito grande, tem um fim e quando acabar, nesse dia,  encontrar-se-ão...

Replicou-lhe o companheiro:

- Mas vê bem. Não seria mais sensato, para eles, que foram criados por Deus para voar alto, deixarem aquele voo rasteiro? – É que se subissem um pouco mais para o alto ainda hoje se encontravam, concluiu ele, dando mostras de estar cheio de razão.

E tinha-a, convenhamos.

Este diálogo fabuloso serve para acabar a história e tecer as seguintes considerações:
Os passarinhos são uma alegoria do que se passava com os dois proprietários dos terrenos, separados por aqueles dois muros.
Um dia – como avisadamente disse um dos anjos – os dois homens, criados por Deus para erguerem os olhos para o alto, depois de ter passado o tempo dos egoísmos e das vaidades mesquinhas, tendo reconhecido o tempo que perderam, haviam de apertar as mãos e pedir desculpa um ao outro por terem erguido muros tão altos nas suas vidas.

Os passarinhos, são, ainda, uma imagem do que se passa com os homens que, tantas vezes, andam de costas voltadas, voando baixo ao longo dos muros que os separam, quando pelo dom de Deus, os seus destinos  - como o dos passarinhos – foram feitos para voar nas alturas.


quinta-feira, 12 de março de 2015

Discurso de Churchill (Sangue, Suor e Lágrimas) -Transcrição "ipsis-verbis"




DISCURSO PROFERIDO NA CÂMARA DOS COMUNS
 DO PARLAMENTO BRITÂNICO, EM 13 DE MAIO DE 1940.



Primeiro discurso de  Winston Churchill na Câmara dos Comuns enquanto primeiro-ministro britânico, em que apresentou uma Moção de Confiança ao Governo que ia dirigir.



Winston Churchill foi nomeado primeiro-ministro em 10 de Maio de 1940, devido à demissão de Neville Chamberlain, primeiro-ministro britânico desde ... . Esta demissão foi provocada pelo início da campanha militar alemã contra as potências ocidentais, iniciada nesse mesmo dia 10 de Maio com a invasão da Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França.

Churchill organizou um governo de unidade nacional, com a participação dos líderes do Partido Trabalhista e do Partido Liberal, e apresentou-se na Câmara dos Comuns com uma Moção de Confiança, que foi aprovada.

Neste discurso, um dos seus mais célebres, mostrou mais uma vez os seus dotes oratórios, a sua capacidade de liderança e a facilidade em criar frases de grande impacto que resumiam bem, tanto o seu estado de espírito, como os problemas a enfrentar e as soluções possíveis.

A frase que utilizou para explicitar o futuro, retirado de uma afirmação de Garibaldi de 1849 ("Non offro nè pagga, nè quartiere, nè provvigioni. Offro fame, sete, marce forzate, battaglie e morte" [Não dou pré, nem quartéis, nem provisões. Dou fama, sede, marchas forçadas, batalhas e morte], é de uma simplicidade e de uma força  impressionantes - e a brutal verdade. Actualmente, simplificada, ainda tem mais impacto: O futuro ? «Sangue, suor e lágrimas». E de facto assim foi.



«SANGUE, SOFRIMENTO, LÁGRIMAS E SUOR»



Na última sexta-feira à noite recebi de Sua Majestade o encargo de constituir novo Governo. Era evidente desejo do Parlamento e da Nação que este Governo tivesse a mais ampla base possível e que incluísse todos os Partidos.

Fiz já a parte mais importante desse trabalho.

Formei um gabinete de guerra com cinco membros, que representam, com a Oposição Trabalhista, e os Liberais, a unidade nacional. Era necessário que tudo isto se fizesse num só dia, dada a extrema urgência e gravidade dos acontecimentos. Outros cargos importantes foram providos ontem e apresentarei esta noite ao Rei uma nova lista. Conto concluir amanhã a nomeação dos principais ministros. 

 A escolha dos restantes ministros normalmente leva um pouco mais de tempo, mas espero que, quando o Parlamento voltar a reunir-se, essa parte da minha tarefa esteja terminada e a constituição do Governo se encontre completa sob todos os pontos de vista. Entendi ser de interesse público propor que a Câmara fosse convocada para hoje. No final da sessão de hoje, propor-se-á o adiamento dos trabalhos até terça-feira, 21 do corrente, tomando-se as disposições adequadas para que a convocação se faça antes disso, se necessário for. As questões a discutir serão notificadas aos Srs. deputados o mais cedo possível. 

 Convido agora a Câmara, pela moção apresentada em meu nome, a registar a sua aprovação das medidas tomadas e a afirmar a sua confiança no novo Governo.

A resolução:


«Esta Câmara saúda a formação de um governo que representa a vontade única e inflexível da Nação de prosseguir a Guerra com a Alemanha até uma conclusão vitoriosa.»

Formar um Governo de tão vastas e complexas proporções é, já por si, um sério empreendimento, mas devo recordar ainda que estamos na fase preliminar duma das maiores batalhas da história, que fazemos frente ao inimigo em muitos pontos - na Noruega e na Holanda -, e que temos de estar preparados no Mediterrâneo, que a batalha aérea contínua e que temos de proceder nesta ilha a grande número de preparativos. 

 Neste momento de crise, espero que me seja perdoado não falar hoje mais extensamente à Câmara. Confio em que os meus amigos, colegas e antigos colegas que são afectados pela reconstrução política se mostrem indulgentes para com a falta de cerimonial com que foi necessário actuar. Direi à Câmara o mesmo, que disse aos que entraram para este Governo: «Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor». Temos perante nós uma dura provação. Temos perante nós muitos e longos meses de luta e sofrimento. 

 Perguntam-me qual é a nossa política? Dir-lhes-ei; fazer a guerra no mar, na terra e no ar, com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus possa dar-nos; fazer guerra a uma monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos. -; essa a nossa política. 

 Perguntam-me qual é o nosso objectivo? Posso responder com uma só palavra: Vitória – vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz; porque sem a vitória não sobreviveremos.

 Compreendam bem: não sobreviverá o Império Britânico, não sobreviverá tudo o que o Império Britânico representa, não sobreviverá esse impulso que através  dos tempos tem conduzido o homem para mais altos destinos.


 Mas assumo a minha tarefa com entusiasmo e fé. Tenho a certeza de que a nossa causa não pode perecer entre os homens. Neste momento, sinto-me com direito a reclamar o auxílio de todos, e digo «Unamos as nossas forças e caminhemos juntos».

Discurso de D. João Peculiar-30 de Junho de 1147 - Transcrição"ipsis-verbis"



DISCURSO DE D. JOÃO PECULIAR, ARCEBISPO DE BRAGA,
EM LISBOA em 30 DE JUNHO DE 1147.


Discurso proferido pelo arcebispo de Braga perante o alcaide, o bispo moçarabe, e outras autoridades da Lisboa muçulmana. D. João Peculiar, acompanhado pelo bispo do Porto e alguns cruzados, e após se ter negociado um período de tréguas, dirigiu-se  à cidade, para explicar as razões do ataque «devendo parecer que se os atacávamos era a grande pesar nosso», como escreveu o cruzado autor da carta em que se transcreve este discurso.

O discurso do arcebispo de Braga mostra bem as razões que os cristãos davam para a conquista dos territórios muçulmanos. O fundamento era a «reconquista», e não a «cruzada». Era retomar a posse de territórios que eram cristãos e que os muçulmanos tinham conquistado indevidamente. Não havia outras razões, nem de ordem religiosa nem cultural, e por isso afirmava D. João, que a cidade se rendesse não haveria perseguições à população, mas que a conquista poderia levar ao saque.

O discurso foi proferido a seguir à cerimónia de assinatura do acordo entre D. Afonso Henriques e os Cruzados para a conquista de Lisboa, realizada no dia 30 de Junho, e o início do cerco à cidade acontecido no dia seguinte, 1 de Julho.




«Há já uns 358 anos ou até mais que tendes ilegitimamente nas vossas mãos cidades que são nossas e a posse das nossas terras, anteriormente a vós habitadas por cristãos»

O Deus de paz e de amor retire dos vossos corações a venda do erro e vos converta a si. 

É que nós viemos ao vosso encontro para vos falarmos de paz. Com a concórdia, efectivamente, as coisas pequenas crescem, com a discórdia as maiores definham. Ora para que esta não reine entre nós por todo o sempre é que vimos ter aqui convosco a fim de chegarmos a uma conciliação. 

Efectivamente, a natureza gerou-nos a todos de um só e mesmo princípio, de tal modo que não ficaria bem que, estando ligados por um pacto de solidariedade humana e por um vínculo de concórdia da mãe de todos, nós vivêssemos desagradados uns com os outros.  

Nós, pela nossa parte, não vimos a esta cidade, que está na vossa posse, para vos lançar fora daqui nem para vos espoliar. Uma coisa tem, efectivamente, sempre consigo a inata benignidade dos cristãos, é que, embora reivindique o que é seu, não rouba o alheio. O território desta cidade reivindicamo-lo como sendo nosso por direito; e, por certo, se em vós alguma vez tivesse medrado a justiça natural, sem vos fazerdes rogados, com as vossas bagagens, com haveres e pecúlios, com mulheres e crianças, vos poríeis a caminho da terra dos mouros de onde viestes, deixando a nossa para nós. 

É-nos, pelo contrário, sobejamente conhecido que só a contragosto ou forçados a isso o fareis. No entanto, procurai fazê-lo por vossa iniciativa, pois se aceitardes de boa mente o que vos rogamos, estareis imediatamente a salvo das consequências mais amargas do que pretendemos. Que tipo de conciliação se possa estabelecer entre nós não o sei, pois a sorte que há-de caber a cada um não está garantida a ninguém, à partida. Fostes vós que viestes da terra dos mouros e dos moabitas e raptastes fraudulentamente o reino da Lusitânia a um rei vosso e  nosso (1) São inúmeras as depredações que se fizeram e continuam ainda a fazer sobre cidades e aldeias com as suas igrejas desde esse tempo até hoje. Por uma parte, ficou em causa a vossa lealdade, por outra parte, ficou lesado o convívio em sociedade. 

Há já uns 358 anos ou até  mais (2) que tendes ilegitimamente nas vossas mãos cidades que são nossas e a posse das nossas terras, anteriormente a vós habitadas por cristãos a quem nenhuma espada de exactor forçou a abraçar a fé, mas só a palavra da pregação tornou filhos adoptivos de Deus, no tempo do nosso apóstolo Santiago e dos seus discípulos, Donato, Torquato, Secundo, Indalécio, Eufrásio, Tesifonte, Victor, Pelágio e muitos outros assinalados varões  apostólicos (3) Temos nesta cidade como testemunho o sangue derramado pelo nome de Cristo no tempo do governador romano  Daciano (4) por parte de mártires como Máxima, Veríssimo e a virgem  Júlia (5). Consultai o concílio de Toledo celebrado no tempo de Sisebuto, glorioso rei nosso e também vosso; é-nos testemunha Isidoro, arcebispo de Sevilha, e o bispo de Lisboa desse tempo, Viérico, com mais de duzentos bispos de toda a  Hispânia (6). Atestam-no ainda nas cidades sinais manifestos das ruínas das  igrejas (7).

Mas, dado que tendes mantido a cidade ocupada em uso longo com propagação das vossas estirpes, usaremos para convosco do habitual sentimento de bondade. Entregai nas nossas mãos a guarnição do vosso castelo. Cada um de vós terá as liberdades que tem tido até aqui. Não queremos, efectivamente, expulsar-vos dos vossos assentamentos tão antigos; viva cada um segundo os seus costumes, a não ser que espontaneamente queira vir aumentar a Igreja de  Deus (8).

Como observamos, é riquíssima e bastante próspera a vossa cidade, mas está exposta à avidez de muitos. Efectivamente, quantos arraiais, quantos navios, que multidão de gente está em conjura contra vós! Tende em atenção a devastação dos campos e dos seus frutos. Tende em atenção o vosso dinheiro. Tende ao menos em atenção o vosso sangue. Aceitai a paz enquanto vos é favorável, pois é bem verdade que é mais útil uma paz nunca posta em causa que outra que se refaz com muito sangue; de facto, é mais agradável a saúde nunca alquebrada que a que foi recuperada depois de graves doenças e sob ameaças de medidas forçadas e exigências extremas para ficar a salvo. É grave e fatal a doença que vos atinge; outra virá se não tomardes uma resolução salutar: ou ela se extingue ou vós sereis extintos. Tomai cuidado, pois a rapidez apressa o fim. Cuidai da vossa segurança enquanto tendes tempo. 

Antigo, na verdade, é o provérbio que diz: «na arena é que o gladiador forma o seu plano» (9). A partir de agora a resposta pertence-vos a vós, se assim vos aprouver". 


Notas ( de Aires A. Nascimento ) :

1. A expressão reflecte certamente a intenção de chamar a atenção para o que se pretende fazer: restabelecer os direitos que nunca cessaram e por isso se invoca a figura do rei, que não pode ser outro que Rodrigo, sacrificado por causa dos pecados do seu povo, cuja expiação chegava agora ao fim, segundo interpretação da própria Chronica Gothorum , pois os mouros eram escorraçados da Hispânia. 

2. Faz notar Ch. W David,  ad loc., que a data de 789 corresponde ao tempo em que os muçulmanos consolidaram o seu domínio através da acção de Abderramão I (756-788). Deverá reter-se que essa data, apresentada como aproximativa, corresponde também ao período em que, segundo a Chronica Gothorum, se situa a acção de Afonso I em campanhas sucessivas, contra os mouros; a pretensão de recuperar a terra ocupada por outros retirava a estes a legitimidade da posse. 

3. Os «varões apostólicos», ou fundadores das mais antigas igrejas episcopais hispânicas, aparecem já em Actas escritas pelo séc. VIII. Os seus nomes são: Torquato, de Acci (Guádix), Tesifonte, de Bergium (Bejar); Esício, de Carcer (Carcesa); Indalécio, de Urci (Almería); Secundo, de Abula (Atila); Eufrásio, de Iliturgi (Andújar) e Cecílio, de Illiberis (Elvira). Teriam sido enviados a Espanha por Pedro e Paulo a partir de Roma. Tendo chegado a Acci, foram perseguidos pelos pagãos, mas deles foram milagrosamente salvos, pois, quando eles corriam no seu encalço, desabou uma ponte que atravessavam. Dispersaram-se eles pela região hispânica a evangelizá-la. Foi-lhes dedicado um monumento em Guádix, onde todos os anos lhes era prestado culto no dia 1 de Maio junto de uma oliveira que florescia nesse dia. Esse culto espalhou-se e entrou nos martirológios, calendários e livros litúrgicos. A legenda deriva certamente de tentativas mais ou menos generalizadas de garantir apostolicidade para as diversas igrejas. Cf. Dom Henri Quentin,  Les Martyrologes historiques du Moyen Âge, Paris, 1908, p. 102; J. Vives, "Varones apostólicos", in  Diccionario de Historia Ecclesiástica de España, Madrid, 1975; J. Vives, "Tradición y legenda en Ia hagiografia hispânica",  Hispania Sacra, 18, 1965, 495-508; Ángel Fábrega Grau,  Pasionario Hispânico, Madrid, 1953, I, 125-130. A legenda deve ter tido ramificações, mas é praticamente impossível seguir o seu percurso; é provável que sob o nome de Víctor pretenda João Peculiar referir-se a S. Víctor de Braga, que, segundo o Pasionario Hispânico, era apenas catecúmeno; sob o nome de Pelágio está certamente o célebre mártir de Córdova do ano 925, cujo culto se difundiu rapidamente, chegando até ao Reno e ganhando os favores da corte leonesa. Posteriormente, junta-se-lhe S. Pedro de Rates como discípulo de Tiago, o qual teria sido o primeiro bispo de Braga; na mesma sequência Basileu, também discípulo de Tiago, seria o fundador da igreja do Porto. Para Évora já o Livro das Calendas da Sé de Coimbra, para o dia 21 de Maio, mencionava o nome de Manços, que André de Resende admite como tendo participado na entrada triunfal de Cristo em Jerusalém e acompanhado a Última Ceia. Cf. Miguel de Oliveira, "Lendas apostólicas peninsulares", in  Lenda e História, Lisboa, 1964, pp. 79-110; J. Fernández Catón,  San Mancio; culto, leyenda y religuias, León, 1983. 

4. Ainda que a forma do nosso manuscrito seja "Ageiano", esta costuma ser interpretada como deformação de Daciano, nome que aparece habitualmente consagrado nas actas dos mártires hispânicos, a partir certamente da antiga legenda de S. Vicente de Valência; para os problemas levantados por este "ciclo", cf. Baudouin de Gaiffier, "Sub Daciano praeside. Étude sur les passions espagnoles",  Analecta Bollandiana, 72, 1954, 138-152, onde se contestam opiniões de A. Fábrega Grau,  Pasionario Hispánico, Madrid, 1953,1, pp. 67-78. Quanto à figura histórica do governador hispânico, às ordens de Diocleciano e Maximiano, aduz o mesmo autor que as notícias são escassas e sobretudo inseguras, ainda que lhe tenha sido alegadamente atribuída uma inscrição, pois esta não apresenta base de autenticidade: CIL, t. II, p. 5*, n.° 17;  Act. SS., Oct., t. XII, p. 195; A. Périn,  Totius latinitatis onomasticon, I, p. 453; ThLL, Onomasticon, III, col. 8. 

5. Note-se que o nome dos mártires dado por D. João Peculiar difere do que atrás lhe havia sido dado, mas as variantes são possíveis e podem significar que o cruzado não intentou resolvê-las ou será também de admitir que as diferenças existiam nos diversos calendários locais (sem que isso constituísse óbice de um mesmo culto). 

6. Há confusão óbvia neste passo, pois não consta que tenha havido qualquer concilio em Toledo no reinado de Sisebuto (612-621) e sob a presidência de Isidoro de Sevilha (600-636) e muito menos com a presença de um bispo de Lisboa de nome Viárico; de facto, este assiste ao IV Concílio de Toledo, em 633, ao tempo de Sisenando, sendo um dos sessenta e seis bispos que assinam as actas, sob a presidência de Isidoro, voltando a estar no V Concílio de Toledo, em 636, mas já sob a presidência de Eugênio, e no seguinte, em 638. A referência ao concílio de Toledo entra numa ordem de provas que não deixariam de ter importância para os próprios interlocutores do lado muçulmano. 

7. Aqui D. João Peculiar não é tão concreto como o cruzado, pois este refere-se a uma igreja dedicada aos mártires na zona de Campolide. 

8. Note-se que, pelo IV Concílio de Toledo, can. 57, se proibiam as conversões forçadas. 
9. Cf. Séneca,  Ep. 22, 1. Na verdade, já o escritor romano o apresenta como provérbio: «Diz um antigo provérbio que o gladiador só forma o seu plano na arena a partir da observação do rosto do adversário, do modo como mexe os braços, da própria postura do corpo». 




Fontes :

Conquista de Lisboa aos Mouros (1147) Osberno, trad. de José Augusto de Oliveira, pref. de Augusto Vieira da Silva, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1935 (2.ª ed., 1936);

Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147. Carta de um Cruzado inglês que participou nos acontecimentos, apres. e notas de José da Felicidade Alves, Lisboa, Livros Horizonte («Cidade de Lisboa, 4»), 1989;

A Conquista de Lisboa aos Mouros. Relato de um Cruzado, ed., trad. e notas de Aires A. Nascimento, introd. de Maria João V. Branco, Lisboa, Vega («Obras clássicas da Literatura Portuguesa. Literatura Medieval, 96»), 2001



Ligações:
 •D. João Peculiar, arcebispo de Braga
 Entrada no «Portugal», Dicionário histórico.
•Conquista de Lisboa aos Mouros
 Carta que o cruzado R[aul] mandou a Osb[erto] de Baldr[eseia] (Bawssey), descrevendo a conquista de Lisboa em 1147.

•Cerco de Lisboa por D. Afonso Henriques

Discurso de Mário Soares na Fonte Luminosa - Transcrição "ipsis-verbis"


DISCURSO DE MÁRIO SOARES NO COMÍCIO DO PS NA FONTE LUMINOSA
 EM 19 DE JULHO DE 1975

O Comício realizou-se na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, num Sábado, a seguir a um comício realizado no Porto, no dia anterior. O discurso de Soares começou às 22h15m.


O comício da Fonte Luminosa, organizado por António Guterres, teve como oradores Mário Pires, da Comissão de Trabalho do PS, Lopes Cardoso, presidente do grupo parlamentar do PS na Assembleia Constituinte, Luís Filipe Madeira, deputado e antigo governador civil de Faro, Alfredo Carvalho, deputado e operário da Lisnave, Marcelo Curto, também deputado, Salgado Zenha, ministro da Justiça demissionário, e a terminar Mário Sares. O discurso foi um dos momentos mais determinantes do  Verão Quente de 1975, e serviu para marcar a posição do PS em relação ao «Documento-Guia» da Aliança Povo-MFA, que tinha sido aprovado em 8 de Julho, e que levara os ministros socialistas a saírem do 4.º Governo Provisório, provocando a sua queda. Entretanto, a guerra civil angolana provocava o êxodo massivo da população branca, a continuação da política de nacionalizações, começada a seguir ao 11 de Março, continuava a desorganizar a economia, enquanto que a abertura da Assembleia Constituinte, no seguimento das eleições de 25 de Abril, criava uma instituição que era a única na época com legitimidade democrática. 

Nota: Este texto é uma compilação das transcrições dos jornais referidos como fontes.



AQUILO QUE A CÚPULA DEMANTADA DO PCP E OS IRRESPONSÁVEIS
DA INTERSINDICAL QUERIAM NÃO FOI POSSÍVEL



«O dia de hoje foi um dia grave na história do nosso povo. Depois de uma campanha alarmista de boatos sem precedentes, de uma ‘intentona’ artificial, de uma falsa conjura com intenção de enganar o povo; depois disso, organizaram-se barreiras para impedir que o povo dos arredores de Lisboa, deputações do povo de Portugal viesse aqui manifestar-se livremente, em favor da liberdade, da democracia, do socialismo. Os responsáveis pela ‘intentona’ monstruosa têm de responder perante o povo português. Não pode impunemente provocar-se e mentir-se ao povo português. Dividir as massas trabalhadoras com uma campanha de falsos boatos, pôr em perigo a nossa revolução. Onde esteve no dia de hoje, aqui nesta praça, a contra-revolução? A verdade é que a contra-revolução estava nas barragens organizadas pelos energúmenos, agitadores e arruaceiros para impedir que o povo de Portugal se manifestasse e dissesse qual era a sua vontade.

É uma cúpula de paranóicos, a direcção do PCP. É uma cúpula de irresponsáveis a dos dirigentes da Intersindical, que não representam o povo português. E as Forças Armadas, dando cobertura a esses irresponsáveis, indo acreditar que havia uma marcha sobre Lisboa, que nunca existiu – que só existiu na cabeça desses paranóicos – constituíram também graves responsabilidades.

Eu explico ao MFA porque é que o comportamento deles, aqui em Lisboa, foi responsável e mal feito, aos nossos olhos.

No Porto, os energúmenos da Direcção da Organização Regional do Norte do PCP também deram ordens para paralisar a cidade do Porto, para que o comércio fechasse, os transportes não funcionassem, para cortar árvores e as lançar nas estradas a fim de impedir os acessos ao Porto. Mas como aí eles não foram protegidos por tropa, essas barragens não resistiram, e ninguém seguiu as palavras de ordem deles.

Ontem, no Porto, 31 direcções de sindicatos deram ordem para parar a vida da cidade, mas nada parou, ninguém obedeceu. Aqui em Lisboa, se as barragens não estivessem protegidas por militares, estaria agora aqui seguramente mais de meio milhão de portugueses, para se armar, ao nosso lado, em favor da liberdade, do socialismo, da revolução e da democracia. Nós temos o direito de saber o que descobriram nestas barragens. Será que tenham descoberto armas contra-revolucionárias ou spinolistas? Não, eles queriam impedir de vir aqui o povo português, que está com a revolução e o socialismo.»

A verdade é que a vossa presença aqui, o vosso entusiasmo ao longo deste comício, o vosso espírito de militância, a vossa confiança num partido de esquerda, no Partido Socialista, que é o nosso Partido, pois a vossa presença foi a prova de que nós vencemos e que aquilo que a cúpula dementada do PCP e os irresponsáveis da Intersindical queriam não foi possível. Eles queriam amordaçar a voz do Povo que será ouvida pelas ruas do nosso país. A vossa presença torna evidente um facto extraordinário que vai ter profundas consequências na vida política portuguesa. Em primeiro lugar ela torna patente que não é possível continuar com essa técnica de chamar reaccionários e fascistas a tudo o que não é comunista do PCP ou apaniguado, ou do filhote MDP.

Esta demonstração formidável (e mais formidável ainda pelos obstáculos que se levantaram) prova que nada pode vencer a determinação popular de estar connosco.

Tanto mais que não dispomos da Televisão, nem de rádio, nem dos jornais de Lisboa. Desse Século e desse Diário de Notícias que são o Pravda e o Izvestia portugueses. Mas exactamente porque foi levantada uma operação de propaganda sem precedentes, uma campanha de boatos para intimidar a população, dizendo que haveria desordens, que rebentariam bombas, que estaria aqui a contra-revolução, e outras patranhas do mesmo género: apesar de toda essa campanha, nós pudemos estar aqui sem dispor dos meios de comunicação social».

Pouco depois afirmaria «Dizemos que a reacção não passará, mas digamos também que a social-reacção não passará. Temos dito, e prova-se na prática da nossa acção política quotidiana, que nós não somos anticomunistas. Quem está a provocar o anticomunismo, como nem Caetano nem Salazar foram capazes de provocar é a cúpula reaccionária do PCP».

A seguir informou que «os soldados que estavam a formar as barricadas na Portela de Sacavém, compreendendo a figura ridícula que faziam às ordens de um partido minoritário, reuniram-se em plenário e resolveram acabar com as barricadas. Esses soldados acabam de dar com esse acto de civismo uma grande lição de civismo a certos oficiais que saltaram rapidamente de capitães a generais».

A situação portuguesa é de tal maneira grave, o ambiente requer um Governo de salvação nacional e de unidade das forças políticas, que nós dizemos daqui ao Presidente da República e ao Conselho da Revolução que o primeiro-ministro designado para constituir o 5.º Governo Provisório não nos parece ser neste momento um factor de coesão e de unidade nacional. Portanto dizemos-lhes, com a autoridade de sermos um partido maioritário na representação do povo português, que será melhor eles escolherem uma outra individualidade que dê mais garantias de apartidarismo real, para que possa formar um governo de coligação nacional.

Camaradas, o Partido Socialista não reivindica o poder, neste momento. Não é disso que se trata. A hora é extraordinariamente grave, e o Partido Socialista deseja que o Governo Provisório seja presidido por uma personalidade do MFA. Infelizmente deseja que ela seja, com provas dadas, efectivamente apartidária, acima dos partidos e independente. O PS não rejeita as suas responsabilidades perante os dois milhões e meio de portugueses que nele votaram.

O Partido Socialista está junto do povo para assegurar o prosseguimento de uma política de esquerda, uma política progressista que conduza à construção de uma verdadeira sociedade socialista e não de um capitalismo de Estado servido por um exército de burocratas e polícias, que denotam um imenso apetite de poder e de dinheiro.

Nós pensamos que se produziu neste País, graças à política aventureirista do PCP, um fenómeno como se dá nos corpos quando se enxerta neles um corpo estranho. Esse fenómeno de rejeição é perigoso, e nós convidamos sinceramente as bases do Partido Comunista, os nossos camaradas comunistas das bases, que não podem certamente estar de acordo com as perseguições que a cúpula está a implantar como se quisesse transformar a nossa Pátria, o nosso belo País, num imenso campo de concentração.

O MFA que faça pois atenção, porque a hora é de autocrítica, é de emendar os erros passados. E esse MFA que iniciou esta revolução que foi chamada justamente a mais bela da Europa, uma revolução das flores, esse MFA se escutar a voz do Povo, tem todas as condições para, aliado ao Povo, poder salvar ainda a nossa revolução que está em perigo, porque há aqui e ali manchas de contra-revolucionários que querem polarizar à sua volta o descontentamento provocado pelo sectarismo e pelo fanatismo intolerável dos sociais-reaccionários que são a direcção do PCP».

Continuando, demoveu a multidão de se dirigir ao Palácio de Belém para reivindicar a permanência do PS no governo dizendo que tal «seria pedir a todos um sacrifício inútil.

Uma marcha desta natureza poderia dar lugar a encontros e afrontamentos. Nós sabemos que não temos medo mas que como partido responsável fazemos tudo para evitar. Os arruaceiros são eles e não o PS. Proponho-vos camaradas outra coisa porventura mais útil e quando todos reclamam acção eu posso prometer-vos que a partir de hoje o PS está mobilizado para a acção e agitará para impor a sua voz e a sua determinação de construir um socialismo em liberdade. Proponho-vos, pois, camaradas, que os nossos militantes vão para as nossas sedes e para as nossas secções e estejam lá tranquilamente a defender as nossas casas, as nossas sedes, que são as casas e as sedes do Povo Português.

Há boatos de que há grupos minoritários que querem atacar esta noite as sedes do nosso partido. Estamos convencidos de que se trata apenas de boatos mas como ensina um velho ditado da sabedoria popular, e tendo em vista o que se passou hoje nas entradas de Lisboa e por esse País fora, o seguro morreu de velho. Eu creio que tal não será necessário mas, a partir de hoje, o Partido Socialista estará mobilizado. Cada um de nós no seu local de trabalho, nas empresas, nos campos, nos ministérios, saberá fazer chamar ao Povo a voz do Partido Socialista lutar contra as calúnias, organizarmo-nos, dar luta contra a reacção, em favor da liberdade. Nós seremos invencíveis e as minorias convencer-se-ão com a prova dos números e com a prova dos factos.

Este foi um dia de vitória. Tenhamos confiança no futuro, tenhamos confiança no nosso Povo. A revolução está em marcha e não pára.

Venceremos!»



Fontes:
Diário de Notícias, Ano 111.º, n.º 38221, 21 de Julho de 1975, pág. 8;
O Século, Ano 95.º, n.º 33.429, 21 de Julho de 1975, pág. 4;
Diário de Lisboa, Ano 55.º, n.º 18.820, 21 de Julho de 1975, pág. 20;
Diário Popular, Ano 33.º, n.º 11.697, 21 de Julho de 1975, pág. 8;
Capital, Ano 8.º (2.ª Série), n.º 2.590, 21 de Julho de 1975, págs. 6 e 7;

Jornal Novo, Ano I, n.º 79, 21 de Julho de 1975, pág. 8.
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in, Portal da História


quarta-feira, 11 de março de 2015

Um conceito de quem soube o que disse.



in, "Citador"

Sir Winston Churchill, como se sabe foi um dos ganhadores da 2ª Guerra Mundial.
Conhecedor dos homens e das sociedades do seu tempo deixou este conceito sobre o socialismo. Vejamos os "nãos" de tal filosofia política, tendo-se em conta a época, e de acordo com o pensamento deste inglês de eleição:

  • Filosofia do fracasso.
  • Crença da ignorância.
  • Prédica da inveja.
  • Virtude inerente: a distribuição igualitária da miséria.

Muitos atavios negativos, não é?
Mas negar a ciência da vida a este grande homem do século XX  é que não podemos fazer!

Bem pelo contrário!

Devemos pensar que, paulatinamente, todos os socialismos, incluindo - e com mais razão os que são "pedras de tropeço" na realização sadia das novas Democracias porque vivem dentro delas a contragosto - tem vindo a perder peso político, pelo que aquele conceito de Churchill, pode ter sido profético, cerca de 1940 quando formou o seu governo de "Sangue, Suor e Lágrimas"

A noite é já amanhã!





A NOITE É JÁ AMANHÃ ! (1)


Lavrador de mim mesmo
Peguei na rabiça do arado
E abri sulcos a esmo
Num terreno revoltado,
E nem olhei à estação!
Mas da lavra que foi feita
Em campo que tornei chão
Fiz abundante colheita!

Trabalhei foi noite e dia
E fui de mim capataz!
Amainei ventos que havia.
Singrei direito, à porfia...
E de tudo fui capaz!

Só agora, ao fim da tarde,
Gasto das lutas que tive
Sinto que algo se esvai!
E a chama que ainda arde,
Sinal de que a alma vive
Entende a sombra que cai!

Vem serena...

É o começo...
Vem com passinhos de lã!
Vejo tudo e reconheço:
A noite é já amanhã!


1999


(1) - Poema já publicado

Auto-Retrato - Um poema de Natália Correia




AUTO-RETRATO    
   

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea . Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Fica-nos deste "auto-retrato" uma certeza. Natália Correia que todos conhecemos como um lídima representante do inconformismo nacional que se opôs ao Estado Novo era, afinal, um coração de louça/quebrado em jogos infantis, mas foi esse coração que ela retratou a seus pés que a levou a travar as batalhas duríssimas de uma vida em que, tendo sido, como nos diz - fêmea e monja - fizeram dela um ser excepcional onde o mundo secular e o espiritual se fundiram.

Da fêmea ficou o seu amor pela Liberdade, o que a fez revoltar quando viu Portugal em 1974 - saído de uma Ditadura e na iminência de abraçar uma outra liderada pelo Partido Comunista Português, alinhando, politicamente, com as forças que se lhe opunham -  pelo que Natália Correia é um símbolo, onde brilha o "auto-retrato" que nos deixou para podermos lembrar o seu coração de louça, que teve o dom de ser de pedra firme na actividade secular de que encheu a sua vida.

Desafia o vento!




A velha árvore no cimo do monte tivera sempre um porte estranho...
Plantada na vertical, bem cedo passou a inclinar-se, doridamente batida por um vento que nas suas cavalgadas loucas não o poupou um momento.

Daí que tenha tido uma vida sofrida.

O seu tronco desde pequeno a crescer fora da vertical oferecera-se desde sempre como um apetite para as nortadas fortes e medonhas, até que um dia, derrotado, e apenas batido por uma simples aragem tombou de vez.

Caído de borco ficou estendido como se fosse um monstro de mil braços e não tardou a rolar monte abaixo, para na sua base ter dado às flores silvestres o seu derradeiro estertor.


Há homens que se assemelham àquela árvore.

Nasceram verticais., mas como ela, ainda tenros, aprenderam a viver fora da vertical.
Os demais a vê-los inclinados e, eles, arrogantes, fingindo-se verticais!
O "vento" do mundo a dar-lhes de rijo, fazendo-os inclinar perigosamente e eles a fazer esforços para não serem notados os sinais das suas quedas aparentes!
Até que um dia... zás!
Acontecem as quedas fragorosas que rolam pela encosta do monte da vida deixando atrás de si barulhos de sucata...

Que isto não aconteça contigo.
Não queiras "viver" uma falsa verticalidade.
Pensa sempre, se tal acontecer, que és capaz de a corrigir.
De nada importa se num dado momento inclinaste a tua forma de viver.
Que isto não sirva de obstáculo e não te cause qualquer medo ou dúvida, pois seja qual seja a inclinação que deste à tua vida a "árvore" que tu és - ao contrário da árvore do monte que não teve maneira de evitar a queda  - pode ganhar de novo a verticalidade do princípio.

Há Santos que foram pecadores. 
Sabias?
Vidas inclinadas que se transformaram em verticalidades autênticas como as colunas de mármore das catedrais!
Assim, se o teu destino te parecer inclinado agarra-te ao poder da Palavra que Deus... mas à Palavra verdadeira de que foram testemunhas as pedras do Calvário!
Tu és o seu destinatário... lembra-te disto!
Não te deixes tombar!
Retoma a verticalidade e desafia o vento!

sábado, 7 de março de 2015

Em desespero de causa...



http://www.sapo.pt/

O Presidente da República em declarações hoje proferidas anunciou que não vai intrometer-se na disputa que o PS assume contra o Primeiro-Ministro Passos Coelho, a propósito da suas faltas - que estão perfeitamente corrigidas quanto a pagamentos ao Estado - no que concerne à falta de cumprimentos de obrigações que lhe cabiam em tempos em que exerceu cargos fora da esfera pública, no domínio privado, alguns casos com mais de uma dezena de anos em cima...

Cheira a baixa política tanto relaxe indo-se buscar ao baú das velharias causas menores e esquecer as que são importantes!

António Costa ficou irritado, quando assiste ao Chefe do Estado toda a distância que deve manter nas lutas partidárias, sobretudo, agora, que os tempos já "cheiram"  - e isso não devia acontecer - a uma pré-campanha eleitoral, como se em Portugal não houvessem assuntos mais sérios a tratar.

António Costa que se acalme quanto às palavras "infelizes" do Chefe do Estado, porque lhe assiste toda a razão, ou será que para o líder do PS meter todos "ao barulho" é que era fazer uma política perfeita?

Era isto que o fazia feliz?
Ou o que disse foi em desespero de causa?

Se o foi, até se compreende... é que Passos Coelho não se demite e não vai ser demitido, como se este fosse um tempo para demissões com eleições à vista, o que nos leva a pensar que a táctica partidária está acima dos interesse do País.

A falta de memória do Partido Socialista



Passos Coelho errou com a Segurança Social.
Já o assumiu.
Teve problemas de atrasos com as Finanças.
Também o assumiu, declarando até, com humildade - o que é raro em políticos - que nalguns casos por fala de dinheiro.
Pagou à Segurança Social - que nunca o notificou de qualquer anomalia, como devio ter feito  - embora o assunto já houvesse prescrito.
Pagou às Finanças com os juros de mora devidos.
Não deve nada ao Estado.

Pessoalmente, penso, que isto não devia ter acontecido com Passos Coelho, mas crucificá-lo como está a fazer o Partido Socialista, não o faço, porque errar acontece a todos os homens, pelos mais variados motivos.

Eis, porque, o que devia ficar como exemplo a seguir - é a História de Jesus com a mulher adúltera que, mesmo aqueles, que tinham dormido na sua cama, queriam assassiná-la à pedrada, segundo o costume da época - o que levou Jesus a perguntar aos homens adúlteros a célebre frase:

 - Aquele que de entre vós estiver sem culpa que lhe atire a primeira pedra.

E todos um, após um. todos se foram embora.

Eis, porque, ao pensar na atitude puritana de alguns políticos importantes do Partido Socialista perante os deslizes de Passos Coelho, apetece perguntar a cada um dos seus inflexíveis próceres, a mesma pergunta de Jesus, porquanto o PS não percebe que está a fazer o papel do Partido Comunista - ou seja o modo pouco respeitoso como se porta no Parlamento - cujo líder carismático, Álvaro Cunhal em  27 de  Junho de 1975 numa entrevista dada à jornalista italiana Oriana Fallaci, disse:

Se pensa que a Assembleia Constituinte vai transformar-se num Parlamento comete um erro ridículo. Não! A Constituinte não será, de certeza, um órgão legislativo. Isso prometo eu. Será uma Assembleia Constituinte, e já basta (...). Asseguro-lhe que em Portugal não haverá Parlamento.


O Parido Socialista devia lembra-se do "Caso República" que teve a ver com a tomada do jornal por elementos afectos ao Partido Comunista, conforme o relato da época de uma local, assim expressa:

As hostilidades que, desde 2 de Maio, opunham os trabalhadores gráficos e dos serviços administrativos, representados pela Comissão Coordenadora de Trabalhadores (CCT), e a redacção e administração, atingem o seu ponto mais crítico no dia 19 de Maio de 1975.
Na manhã desse dia, a CCT decide "suspender do exercício das suas funções" a Administração e a chefia de Redacção acusando-as de estarem a tentar transformar o jornal num órgão afecto ao Partido Socialista. As instalações do jornal são ocupadas pelos trabalhadores que comunicam aos jornalistas que quem quiser sair já não poderá voltar. Ninguém sai. A edição de 19 de Maio do "República" sai para a rua à hora prevista mas com uma constituição diferente: lia-se no cabeçalho o nome de Álvaro Belo Marques como director-interino e um editorial "Estimado leitor" explica a razão da luta dos trabalhadores. Como reacção, a redacção do jornal lança também um comunicado insurgindo-se contra o abuso de poder de "uma Comissão dos Trabalhadores".

No exterior das instalações, o PS organiza uma manifestação de apoio à antiga direcção. Mário Soares, Salgado Zenha, Manuel Alegre, Sottomayor Cardia são algumas das personalidades que lideram o ajuntamento popular no Largo da Misericórdia.

Com o decorrer das horas, o número de manifestantes aumenta. Entoam-se hinos e proferem-se palavras de ordem contra os "ocupantes" do edifício, contra o PCP, contra Álvaro Cunhal e contra o MFA. A tensão aumenta à medida que a concentração tem mais adesão. Às 19.30, oficiais do COPCON e da PM entram no edifício da "República" para protegerem quem lá se encontra e evitar uma escalada da violência.(...)

in, folheto do "Caso República"

Digo que o PS devia lembrar-se porque os comunistas actuais fiéis ao ideário de Álvaro Cunhal - hoje como em 1975 - até parece, pelo modo com zurzem nos seus adversários políticos, para eles quanto pior melhor, ou seja, quanto mais se abandalhar a vida política, mais perto estamos de lhes fazer a vontade, pelo que o PS devia comportar-se com mais responsabilidade e ética humana perante o que se passou com o actual Primeiro-Ministro, que pode ter muitos defeitos - ele mesmo o disse, não ser um cidadão perfeito... e quem o é? - mas foi ele que assumiu a responsabilidade de restituir a Portugal a credibilidade perdida com a pré-bancarrota de 2011.

O PS que atente nisto: a falta de qualidade que se sente nos actuais agentes políticos que se assentam nas cadeiras de São Bento, é que - homens probos -  não estão sujeitos a passar pelos enxovalhos dos seus pares contrários e de uma certa comunicação social que se compraz com a chicana política.

Atenção.
É que, de passo em passo mal dado, estamos a cair no atoleiro.

Para memória do Partido Socialista fica aqui na íntegra a entrevista de Álvaro Cunhal e que o "Jornal do Caso República" publicou.


Publicação de 27 de Junho de 1975


quinta-feira, 5 de março de 2015

Madrigal (Um poema de António Ramos de Almeida)

Flauta de Pã 
in, Wikipédia


                MADRIGAL

Se eu soubesse gravava o teu sorriso
em pedaços de azul,  num camafeu.
Com a flauta de Pã e um caduceu
recortados em friso.

Embutido em fundo de marfim,
burilado a preceito,
pendurava-o depois junto do peito
e tinha o céu à mão dentro de mim.
     

No seu género característico o madrigal é uma composição poética, musical e profana que teve a sua origem no século XIII e se projectou com alguma notoriedade, como aconteceu em Portugal até ao século XVIII, tendo encontrado um grande cultor em Filinto Elísio. Desaparecido em todo o século XIX, contou com algumas aparições na centúria seguinte com a aparição do Modernismo.

O madrigal aborda de preferência assuntos pastoris, mas não rejeita o lado heróico, senão mesmo alguma libertinagem, mantendo em todos eles uma imaginação viva e o lirismo da expressão.

O poeta António Ramos de Almeida, no seu mais recente livro: "SOLSTÍCIO" vem retomar na composição que se reproduz e a que ele deu o sugestivo título - MADRIGAL - em honra deste género poético em que a flauta de Pã a que alude dá o influxo pastoril à beleza do poema e onde a imagem do sorriso gravado em pedaços de azul nos dá, pela "liberdade poética" que só ao poeta é permitida, uma "possibilidade" de se poder ter o céu à mão por andar pendurado na arca do peito...

Este meio do poeta se poder servir de irrealidades como acontece neste poema representa o quanto se pode admirar a sua arte, onde o lirismo se transforma num cinzel de palavras para nos poder transmitir a imagem que lhe acode ao pensamento, conseguindo meter dentro dela os seus leitores.

Assim aconteceu comigo!