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quinta-feira, 3 de julho de 2014

João de Deus (1830-1896) (2)



Gravura publicada pela Revista "Occidente" de 15 de Julho de 1878


Que dizer de João de Deus que não haja já sido dito?
Embora correndo esse risco, vou servir-me do livro "In Illo Tempore" de Trindade Coelho para respigar dele um dos  tema desse formoso feixe de memórias da sua vida académica, em Coimbra, ""Resurrexit non est hic" e que o autor dedica ao seu colega de estudo coimbrão, João de Deus

“In illo tempore – no tempo em que João de Deus andava em Coimbra, havia na Lusa Atenas, que é terra de mulheres bonitas, duas senhoras muito formosas, que eram irmãs, – uma chamada Raquel e a outra Cândida. A Raquel, principalmente, diz que era uma divindade; e a mocidade da Academia, sobretudo os poetas, bebiam os ares por ela! Não era branca nem morena; tinha uma cor de bronze, de uma suavidade encantadora, nariz grego, e então uns olhos extraordinários, aveludados, muito brilhantes e pestanudos, que eram a perdição da rapaziada! Os pretendentes eram assim – aos cardumes… E a cabeça de rapaz sobre a qual esses olhos admiráveis pousassem por um instante, mesmo casualmente, era cabeça perdida; porque entrava logo de andar à roda, como se fosse uma ventoinha, e o menos que lhe acontecia era rebentar numa catadupa de versos – que nem sempre, diga-se a verdade, eram condignos da inspiradora…

Ora o João de Deus pertencia à ala dos namorados dessa divindade, se bem que nunca lhe falasse; e tanto, que a majestosa Raquel ficou sendo para ele uma espécie de musa, como para o Camões a Catarina, para o Dante a Beatriz , a Laura para o Petrarca, para Miguel Ângelo Vitória Colonna, etc.,etc. Fez-lhe muitos versos, e aquela poesia "A Vida", que a não há mais linda em todo o mundo; e fez-lhe depois, quando ela morreu, aquela elegia que tem o seu nome – "Raquel"–uma das melhores coisas que o génio humano tem produzido, e que João de Deus, por sinal, improvisou numa tourada, alheio, absorto, estranho ao mais formidável chinfrim que se tem desencadeado numa praça de touros! Soubera a notícia da morte quando ia para lá; chegou e amodorrou-se a um canto: e quando se deu fé que a praça de touros tinha desabado, revolvida, de baixo para cima pelo furacão da rapaziada, foi dar com ele o João Vilhena, o seu fiel Acates, no mesmo lugar onde o deixara, e que por milagre tinha escapado! Pegou-lhe por um braço e levou-o dali, como se estivesse doido ou a dormir… (…) 

Esta Raquel foi uma paixão de João de Deus e, como assevera Trindade Coelho, foi por sua causa que o Poeta de S. Bartolomeu de Messines levou dez anos a concluir a sua formatura em Direito.
Manda, contudo, a verdade que se diga que em 1850 volta para Messines a fim de ajudar a sua meia irmã Maria Justa que se encontrava doente e que ele muito prezava perdendo assim um ano lectivo (no qual nem se matriculou), uma prova da rara sensibilidade que o levou assim até ao fim da vida.

A Raquel - segundo afirma Trindade Coelho - dedicou João de Deus o famoso poema "A Vida", que a não há mais linda em todo o mundo, como ele assevera:
Vejamos:

A vida

A José A. S. R. de Castro

Cosi trápassa, al trapassar d'un giorno,
Dela vita mortale il fiore e 'l verde,
Nè, perchè faccia indietro april ritorno,
Si rinfiora ella mai, nè si rinverde.

Tasso


Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que nesta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do túmulo descendo.

Em se ela enuviando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuviava
Despontava ela apenas, despontava
Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, e ingénua e pura
Como os anjos do céu (se o não sonharam...)
Quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!

Não sei se me voou, se ma levaram;
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que inda em vida não choraram...

Ah! quando no seu colo reclinado,
Colo mais puro e cândido que arminho,
Como abelha na flor do rosmaninho
Osculava seu lábio perfumado;

Quando à luz dos seus olhos (que era vê-los,
E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
Lia na sua boca a Bíblia santa
Escrita em letra cor dos seus cabelos;

Quando a sua mãozinha pondo um dedo
Em seus lábios de rosa pouco aberta,
Como tímida pomba sempre alerta,
Me impunha ora silêncio, ora segredo;

Quando, como a alvéola, delicada
E linda como a flor que haja mais linda,
Passava como o cisne, ou como ainda
Antes do sol raiar nuvem doirada;

Quando em bálsamo de alma piedosa
Ungia as mãos da súplice indigência,
Como a nuvem nas mãos da Providência
Uma lágrima estila em flor sequiosa;

Quando a cruz do colar do seu pescoço
Estendendo-me os braços, como estende
O símbolo de amor que as almas prende,
Me dizia... o que às mais dizer não ouço;

Quando, se negra nuvem me espalhava
Por sobre o coração algum desgosto,
Conchegando-me ao seu cândido rosto
No perfume de um riso a dissipava;

Quando o oiro da trança aos ventos dando
E a neve de seu colo e seu vestido,
Pomba que do seu par se ia perdido,
Já de longe lhe ouvia o peito arfando;

Quando o anel da boca luzidia,
Vermelha como a rosa cheia de água,
Em beijos à saudade abrindo a mágoa,
Mil rosas pela face me esparzia;

Tinha o céu da minha alma as sete cores,
Valia-me este mundo um paraíso,
Distilava-me a alma um doce riso,
Debaixo de meus pés brotavam flores!

Deus era inda meu pai, e em quanto pude
Li o seu nome em tudo quanto existe,
No campo em flor, na praia anda e triste,
No céu, no mar, na terra e... na virtude!

Virtude! Que é mais que um nome
Essa voz que em ar se esvai,
Se um riso que ao lábio assome
Numa lágrima nos cai!

Que és, virtude, se de luto
Nos vestes o coração?
És a blasfémia de Bruto:
Não és mais que um nome vão!

Abre a flor à luz, que a enleva,
Seu cálix cheio de amor,
E o sol nasce, passa e leva
Consigo perfume e flor!

Que é desses cabelos de oiro
Do mais subido quilate,
Desses lábios escarlate,
Meu tesoiro!

Que é desse hálito que ainda
O coração me perfuma!
Que é desse colo de espuma,
Pomba linda!

Que é duma flor da grinalda
Dos teus doirados cabelos!
Desses olhos, quero vê-los,
Esmeralda!

Que é dessa franja comprida
Daquele xaile mais leve
Do que a nuvem cor de neve,
Margarida!

Que é dessa alma que me deste,
Dum sorriso, um só que fosse,
Da tua boca tão doce,
Flor celeste!

Tua cabeça que é dela,
A tua cabeça de oiro,
Minha pomba! meu tesoiro!
Minha estrela!

De dia a estrela de alva empalidece;
E a luz do dia eterno te há ferido!
Em teu languido olhar adormecido
Nunca me um dia em vida amanhecesse!

Foste a concha da praia! A flor parece
Mais ditosa que tu! Quem te há partido,
Meu cálix de cristal onde hei bebido
Os néctares do céu... se um céu houvesse!

Fonte pura das lágrimas que choro,
Quem tão menina e moça desmanchado
Te há pelas nuvens os cabelos de oiro!

Some-te, vela de baixel quebrado!
Some-te, voa, apaga-te, meteoro!
É só mais neste mundo um desgraçado!

E as desgraças podia prevê-las
Quem a terra sustenta no ar,
Quem sustenta no ar as estrelas,
Quem levanta às estrelas o mar.

Deus podia prever a desgraça,
Deus podia prever e não quis!
E não quis, não... se a nuvem que passa
Também pôde chamar-se infeliz!

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa:
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!

Como em sonhos o anjo que me afaga
Leva na trança os lírios que lhe pus,
E a luz quando se apaga
Leva aos olhos a luz!

Levou sim, como a folha que desprende
De uma flor delicada o vento sul,
E a estrela que se estende
Nessa abobada azul;

Como os ávidos olhos de um amante
Levam consigo a luz de um terno olhar,
E vento do levante
Leva a onda do mar!

Como o tenro filhinho quando expira
Leva o beijo dos lábios maternais,
E à alma que suspira
O vento leva os ais!

Ou coma leva ao colo a mãe seu filho,
E as asas leva a pomba que voou,
E o sol leva o seu brilho...
O vento ma levou!

E Deus, tu és piedoso,
Senhor! és Deus e pai!
E ao filho desditoso
Não ouves pois um ai!
Estrelas deste aos ares,
Dás pérolas aos mares.
Ao campo dás a flor,
Frescura dás às fontes,
O lírio dás aos montes,
E roubas-ma, Senhor!

Ah! quando numa vista o mundo abranjo,
Estendo os braços e, palpando o mundo,
O céu, a terra e o mar vejo a meus pés,
Buscando em vão a imagem do meu anjo,
Soletro à froixa luz de um moribundo
Em tudo só: Talvez!...

Talvez! - é hoje a Bíblia, o livro aberto
Que eu só ponho ante mim nas rochas quando
Vou pelo mundo ver se a posso ver;
E onde, como a palmeira do deserto,
Apenas vejo aos pés inquieta ondeando
A sombra do meu ser!

Meu ser... voou na asa da águia negra
Que, levando-a, só não levou consigo
Desta alma aquele amor!
E quando a luz do sol o mundo alegra,
Crisálida nocturna a sós comigo
Abraço a minha dor!

Dor inútil! Se a flor que ao céu envia
Seus bálsamos se esfolha, e tu no espaço
Achas depois seus átomos subtis,
Inda hás-de ouvir a voz que ouviste um dia...
Como a sua Leonor inda ouve o Tasso...
Dante, a sua Beatriz!

- Nunca! responde a folha que o outono,
Da haste que a sustinha a mão abrindo,
Ao vento confiou;
- Nunca! responde a campa onde do sono
E quem talvez sonhava um sonho lindo,
Um dia despertou!

- Nunca! responde o ai que o lábio vibra;
- Nunca! responde a rosa que na face
Um dia emurcheceu:
E a onda que um momento se equilibra
Em quanto diz às mais: Deixai que eu passe!
E passou e... morreu!

                                          in, "Campo de Flores"


Quando Raquel morreu - é, ainda, Trindade Coelho que o afirma, João de Desu fez soltar a lira e escreveu a seguinte elegia a que deu o nome do seu acrisolado amor de Coimbra, dedicando-a a sua irmã.


Raquel

A D. Cândida Nazaré

Despe o luto da tua soledade
E vem junto de mim, lírio esquecido
Do orvalho do céu!
Tens nos meus olhos pranto de piedade,
E se és, mulher! irmã dos que hão sofrido,
Mulher! sou irmão teu.

Consolos não te dou, que não existe
Quem de lágrimas suas nunca enxuto
Possa as de outro enxugar:
Não pôde alívios dar quem vive triste,
Mas é-me doce a mim ch
orar se escuto
Alguém também chorar.

Botão de rosa murcho à luz da aurora!
Que pecado equilibra o teu martírio
Na balança de Deus?
Se é como justo e bom que ele se adora,
Quem te há mudado a ti, ó rosa, em uno,
E em uno os lábios teus?

Não enche ele de bálsamos o cálix
Da flor a mais humilde, e esses espaços
Não enche ele de luz?
Não veio o Filho seu, lírio dos vales!
Só por amor de nós pregar os braços
Nos braços de uma cruz?

Mulher, mulher! quando eu num cemitério
Levanto o pó dos túmulos sozinho:
Eis, digo, eis o que eu sou!
Mas, quando penso bem nesse mistério
Da virtude infeliz: Vai teu caminho;
Dois mundos Deus criou!...

Deus não dispara a seta envenenada
À pombinha, que aos ares despedira,
Com mão traidora e vil;
Imagem sua, Deus não volve ao nada,
Não aniquila a flor que ao chão caíra
Lá desse eterno Abril!

Hás-de, cisne, expirando alçar teu canto;
Hás-de lá quando a lua da montanha
Te acene o extremo adeus,
Voar, Cândida, ao céu, e ébria de encanto;
No oceano de amor que as almas banha,
Unir teu canto aos seus.

Seus delas, mãe e irmã... cinzas cobertas
Dum só lanço de terra... Oh desventura!
Oh destino cruel!
Vejo-as ainda ir com as mãos incertas
Guiando-se uma à outra à sepultura,
E a mãe: "Raquel! Raquel!"

Desde então, à janela do ocidente
Te hão de ver como a bússola em seu norte
Fita pensando... em quê?
Oh! não n os voes também, pomba inocente!
É grande a eternidade e é certa a morte:
Espera, vive e crê!

Por ocasião da morte de sua irmã Raquel
e, poucos dias depois, de sua mãe.

                                         in, "Campo de Flores"


João de Deus Ramos nasceu em São Bartolomeu de Messines (Algarve) no dia 8 de Março de 1830 e faleceu em Lisboa, no dia 11 de Janeiro de 1896. Era filho de José Pedro Ramos e de D. Isabel Gertrudes Martins. A sua vida decorre entre os reinados de D. Maria II a D. Carlos.
Em 1849 entra na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Direito, curso que  acaba apenas em  1859, o que lhe terá suscitado dizer, que a sua formatura teria durado tanto tempo como a Guerra de Tróia. Acabado o Curso de Direito em prazo tão dilatado, deixa-se ficar por Coimbra, no meio estudantil das serenatas e da boémia, tendo-se, no entando, dedicado ao jornalismo e à advocacia na cidade do Mondego, a que se seguiram, Beja, Évora e Lisboa.

Questões familiares, fazem-no, em 1862, regressar ao Algarve. O seu espírito rebelde, porém, transvia-o para Beja, onde permanece durante dois anos, ocupado na redacção de “O Bejense”, jornal que em 1863, dá à estampa e por sua lavra artigos de crítica contra António Feliciano de Castilho, defensor do velho Romantismo, já a agonizar, sendo nesse mesmo ano convidado por Rodrigo de Morais Soares a escrever um folhetim educativo para o Archivo Real. (1)

João de Deus não seguiu qualquer escola literária mas adoptou uma estética muito própria, de um lirismo (2) que o torna o maior Poeta de Portugal, nesse campo. As suas poesias foram reunidas na colectânea Campo de Flores, publicada em 1893, incluindo-se nesta duas obras anteriores: Flores do Campo e Folhas Soltas. Dedicou-se à pedagogia, resultando daí a Cartilha Maternal publicada em 1876 – um  ensino de leitura às crianças que foi muito divulgado –  e do qual a Rainha D. Amélia disse: Nos seus versos aprendi a amar Portugal; na sua Cartilha Maternal aprendi a ler português e ensinei os meus filhos a ler.

Regressado a S. Bartolomeu de Messines, é  em Silves, em casa de José António Garcia Blanco que em 1869 que é convencido a disputar a eleição para deputado à Câmara. É eleito pelo círculo de Silves, facto que o obriga a fixar residência em Lisboa. A política, porém, não o fascina minimamente. É raro aparecer na Câmara, onde, no entanto se mantém durante uma legislatura por consideração aos amigos e seus eleitores.
Admira e frequenta a tertúlia e o remanso do Café Martinho, ali perto do teatro de D. Maria II.
Do seu casamento com D. Guilhermina Battaglia, tem cinco filhos, dois rapazes e três raparigas.

É nomeado, e contestado – acontece com os grandes homens - Comissário Geral do Ensino da Leitura, segundo o seu método, declarado de interesse nacional – a Cartilha Maternal.
Poeta, por um dom da sua alma lírica foi jornalista por acaso e pedagogo, por intuição.
Conhecido pelo seu indiferentismo por escolas literárias, João de Deus foi irredutível na ligação que manteve com  a verdade simples, que cantou com rara elevação, arvorando como temas fundamentais, Deus, a mulher, a sobrenaturalidade e aqui e ali o erótico ingénuo, revestido de roupagens naturais que dão uma inusitada beleza.

A sátira e as fábulas que ele trabalhou nos seus últimos anos de Coimbra, nunca  atingiram, no entanto,  o nível inultrapassável do seu lirismo puro e apaixonado.
Foi um poeta popular e ao mesmo tempo de um fino cariz cultural.
Em 1893, Teófilo Braga, edita, toda a obra dispersa no livro: Campo de Flores, que teve uma nova edição em 1896, ainda revista por João de Deus.

No dia 8 de Março de 1895, estudantes de Lisboa, Coimbra, Porto, Santarém, Braga, Lamego e Portalegre a que se juntou a Imprensa portuguesa, o povo anónimo e muitas as crianças, manifestam-se junto a sua casa, na Estrela, em Lisboa.
Era sócio honorário pela Academia Real das Ciências e pelo Instituto de Coimbra.
No dia 9, daquele mesmo ano assiste a um sarau no teatro D. Maria II que contou com a assistência do Rei D. Carlos. No fim saiu da sala sobre as capas dos estudantes.
O seu funeral, cerca de um ano depois, foi uma manifestação nacional, constituindo a maior consagração pública que algum dia se fizeram em Portugal a escritores.

Como um marco lírico ficou profundamente estrelado no céu da poesia portuguesa, o famoso poema, Enjeitadinha, que o povo antigo sabia de cor:

De que choras tu, anjinho?
"Tenho fome e tenho frio!    
— E só por este caminho
Como a ave que caiu
Ainda implume do ninho!...
A tua mãe já não vive?

"Nunca a vi em minha vida;
 Andei sempre assim perdida,
E mãe por certo não tive!"
— És mais feliz do que eu,
Que tive mãe e... morreu!

Sobre a mulher, deixou-nos, do seu profundo respeito e idolatrado sentir humano, composições que são jóias raras, com esta, Mal Sabes, que entre outras tem estas duas quadras:

Despedi-me de ti, os lábios rindo
Mas estalando o coração, que em suma
Deus me livrasse a mim por forma alguma,
De te nublar um dia o gesto lindo!

Que eu sofra, muito embora: o meu destino
Qual é senão sofrer a vida inteira?
Causa da tua lágrima primeira
É que nunca serei: não te amofino.

Na célebre cançoneta, Amor, João Deus eleva o seu lirismo tão puro e imaculado, que dir-se- á, estarmos em presença de um poeta de alma etérea:
                                                   
                                                     Não vês como eu sigo
                                                     Teus passos, não vês?
                                                     O cão do mendigo
                                                     Não é mais amigo
                                                     Do dono, talvez!

                                                     Ao pé de uma fonte
                                                     No fundo de um vale,
                                                     No alto de um monte
                                                     De vasto horizonte.
                                                     Sem ti estou mal!

João de Deus era um poeta de cunho cristão.
No poema Pátria, deixa-nos explícito algo que nos lembra a Parábola do Filho Pródigo, tecendo um ideia entretecida de sentimentos filiais tão nobres e tão altruístas que devem merecer de todos aqueles que têm a graça de lerem este formoso e cândido Poeta, um sentido respeito, pela harmonia e sentido dos versos e pelo seu encadeamento singularmente belo, que leva todo o homem de sentimentos puros a desejar morrer onde lhe embalaram o berço, como se naquele punhado de terra estivesse a Pátria inteira.
Diz, assim, João de Deus:

Como o pródigo volta ao lar paterno
Desenganado do que em vão procura,
Eu já desfalecido nesta lida
De sonhos sobre sonhos de ventura,
Desejava dormir o sono eterno
Abrindo junto ao berço a sepultura!
Fechar em suma o círculo da vida
No saudoso ponto de partida!

Chegado, pois, Senhor, aquele dia
Que se me apague a luz que me alumia,
Deixai-me descansar onde repousa
Meu santo pai e sua terna esposa
- A minha santa mãe!
Ser-me-á assim mais leve a fria lousa...
Que a terra onde se nasce é mãe também!

Este desejo do Poeta, de dormir o sono da morte junto dos seus progenitores não se cumpriu.
Pela sua postura de cidadão erguido ao cume mais alto da honra de ter vivido e ter feito da vida uma causa em prol dos outros, como o atesta, para além do valor da sua obra poética – que é um ímpar em toda a Literatura portuguesa – a sua obra de pedagogo, traduzida na Cartilha Maternal, onde muitas gerações de portugueses aprenderam a ler, a Pátria, fez do seu corpo, património comum, e ao dar-lhe honras de Estado, fê-lo repousar no Panteão Nacional ao lado de Almeida Garrett e Guerra Junqueiro, homens, que como ele, se libertaram da lei da morte, no dizer inspirado de Luís de Camões.
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(1) - Jornal de Agricultura fundado em 1858, quando o Bacharel em Medicina, que ficou conhecido por Morais Soares, tomou posse em1852 do cargo de Chefe de Repartição da Agricultura da Secretaria das Obras Públicas, criada no reinado de D. PedroV. Em Lisboa, existe uma rua com o seu nome
(2) - O lirismo tem a sua primeira afirmação nacional na poesia trovadoresca, cujos géneros principais são: as cantigas de amor assimiláveis à poética provençal, na qual o poeta exprime uma forte admiração e submissão em relação à mulher amada



Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)



Foto,(parcial) in Jornal digital "Observador"


Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu há dez anos.
Em Fevereiro de 2014 a Assembleia da República - onde a Poeta, como gostava de ser tratada foi deputada em 1975 pelo Partido Socialista na Assembleia Constituinte - por unanimidade decidiu dar a honra do Panteão Nacional aos restos mortais da consagrada escritora, por forma a honrar “a escritora universal, a mulher digna, a cidadã corajosa, a portuguesa insigne”, e de evocar o seu exemplo de “fidelidade aos valores da liberdade e da justiça”, segundo o texto parlamentar.

Este facto aconteceu, ontem, dia 2 de Julho de 2014, com a trasladação a partir do cemitério de Carnide, tendo a arca tumular ocupado a sala onde se encontram as do General Humberto Delgado e a do seu confrade das Letras, Aquilino Ribeiro.

Não se pode neste pequeno apontamento de homenagem à Mulher que foi Sophia, ou de dar um retrato abrangente da sua vida e da sua obra, mas, apenas, exaltar dois factos que estão na origem desta insigne Mulher que valorizou, sobremaneira as Letras Portuguesas: pelo lado paterno vai buscar à Dinamarca, a sua origem através do bisavô, Jan Heinrich Andresen e pelo materno a sua portugalidade, na mãe, filha do conde de Mafra e neta do conde Henrique de Burnay.



Publicou em 1962 "Contos Exemplares" e em 1984 "Histórias da Terra e do Mar", tendo dedicado grande parte do seu labor literário dedicado à prosa a Contos Infantis, como "A Menina do Mar" (1958) ; "A Fada Oriana" (1958) ; "Noite de Natal"(1959) ; "O Cavaleiro da Dinamarca" (1964) ; "O Rapaz de Bronze" (1965) ; "A Floresta" (1968) ; "O Tesouro" (1970) e a  "A Árvore" (1985).

Teatróloga, publicou: "O Bojador" (2000) ; "O Colar (2001) ; "O Azeiteiro"(2000) ; "Filho de Alma e Sangue"(1998) ; "Não chores minha Querida" (1993).

Ensaísta, publicou: "A poesia de Cecíla Meyrelles" (1956) ; "Cecília Meyrelles" (1958) ; 
Poesia e Realidade (1960), in Colóquio, nº 8"Hölderlin ou o lugar do poeta" (1967) ; "O Nu na Antiguidade Clássica" (1975) ; "Torga, os homens e a terra" (1976) ; "Luiz de Camões. Ensombramentos e Descobrimentos" (1980) ; "A escrita (poesia)" (1982).

Tradutora, publicou:  "A Anunciação de Maria (Paul Claudel) – 1960 ; "O Purgatório (Dante) – 1962 ;  "A Hera", "A última noite faz-se estrela e noite" (Vasko Popa); "Às cinzas", "Canto LI", "Canto LXVI" (Pierre Emmanuel); "Gosto de te encontrar nas cidades estrangeiras" (Edouard Maunick) 1964 ; Muito Barulho por Nada (William Shakespeare) - 1964 ; Medeia (Eurípedes) - 1964 ; "Hamlet" (William Shakespeare) – 1965 "Os reis Magos", 1967 ; "Quatre Poètes Portugais" (Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa) – 1970 ; "A Vida Quotidiana no Tempo de Homero", de Émile Mireaux" 1979 ; "Ser Feliz", de Leif Kristianson, 1980 ; "Um Amigo", de Leif Kristianson, 1981 e "Medeia, de Eurípedes".

A sua brilhante carreira literária foi galardoada com os seguintes Prémios:

1964 - Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, atribuído a Livro Sexto.
1977 - Prémio Teixeira de Pascoaes
1979 – Medalha de Verneil da Societé de Encouragement au Progrés, de França
1983 - Prémio da Crítica, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, pelo conjunto da sua obra
1989 - Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus
1990 - Grande Prémio de Poesia Inasset / Inapa
1992 - Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças
1994 - Prémio cinquenta anos de Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores
1995 - Prémio Petrarca
1995 – Homenagem de Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa, pelo cinquentenário da publicação do primeiro livro "Poesia"
1995 - Outubro – Placa de Honra do Prémio Fransesco Petrarca, Pádua, Itália
1996 - Homenageada do "Carrefour des Littératures", na IV Primavera Portuguesa de Bordéus e da Aquitânia
1998 - Prémio da Fundação Luís Miguel Nava
1999 - Prémio Camões (primeira mulher portuguesa a recebê-lo)
2000 - Prémio Rosalia de Castro, do Pen Clube Galego
2001 - Prémio Max Jacob Étranger
2003 - Prémio Rainha Sophia de Poesia Ibero-americana.
2004 - Morre e ganha o prémio "Estatueta de Ouro"

Recebeu as segintes condecorações

Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (9 de Abril de 1981)
Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (13 de Fevereiro de 1987)

Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (6 de Junho de 1998)

Nota: a fonte dos dados atrás referidos deve-se à Wikipédia.


No final da cerimónia, à saída do Panteão Nacional, o seu filho e consagrado autor e brilhante jornalista Miguel Sousa Tavares expendeu, comovido, que uma das honras maiores que o País deve a sua mãe é continuar, entre as crianças, com o estudo e a leitura dos seus brilhantes Contos Infantis escritos com a pureza da Língua Portuguesa, algo que Miguel Sousa Tavares continua a cultivar, ao arrepio do canhestro e malfadado Acordo Ortográfico.

Que os responsáveis pelo Ministério da Educação tenham ouvido e sigam este conselho avisado do filho da insigne Poeta, de cuja obra se retiram estes pedaços dourado de uma poesia que bateu em todos os cantos da vida e onde o Mar teve um quinhºão muito largo.

Eis como Sophia se exprime ao falar do Infante D. Henrique:


Aos homens ordenou que navegassem
Sempre mais longe para ver o que havia
E sempre para o sul e que indagassem
O mar e a terra o vento e a calmaria
Os povos e os astros
E no desconhecido cada da entrassem


in, “Obra Poética” 

Senhora de um cristianismo que no seu sentir augurava os novos rumos que a Igreja viria a trilhar com o advento do Concílio Vaticano II, em 1987, dirigindo-se ao Senhor, interpretando o modo de uma multidão imensa de crentes - embora afastados dos Sacramentos - expressa-se assim:

Senhor sempre te adiei
Embora sempre soubesse que me vias
Quis ver o mundo em si e não em ti
E embora nunca te negasse te apartei

in, “Obra Poética” 

O seu verbo que tocou todas as regiões da saber, da cultura, da arte e, sobretudo, o da insatisfação contra os instalados na vida mas sem cuidar dos que os serviam na sua abastança, não podia deixar de lhes perguntar o porquê das suas tropelias sociais.
Eis como Sophia se dirigiu a eles:

Tu sentado à tua mesa
Bebes vinho e comes pão
Quem é que plantou a vinha?
Quem é que semeia o grão?

Lá no socalco da serra
Anda a cavar teu irmão
Debruçado sobre a terra
P’ra que tenhas vinho e pão

Para além daquela serra
P’ra que tenhas vinho e pão
Abrindo o corpo da terra
Dobra o corpo o teu irmão

Sua mão concha do cacho
Sua mão concha do grão
Em cada gesto que faz
Põe a vida em comunhão

in, “Obra Poética” 

Se os homens todos, independentemente, dos seus cargos - mais grandiosos ou mais humildes - entendessem de vez, que todo o trabalho que fazem devia em comunhão com o seu semelhante - como diz Sophia - este mundo seria mais honesto, seria sobretudo, mais puro.

Não deixou o seu verbo de homenagear essa grande figura do seu Porto natal, que foi o Bispo expatriado pelo poder do antigo regime, D. António Ferreira Gomes, a quem dedicou este Poema que é um alto momento da sua lira, ao homenagear, não a fortaleza que ela sabia haver em tudo o que de inerte a rodeava, como as pedra de granito do paço do Bispo, porque para ela, a gandeza maior estava no homem que visitava sempre que os seus passos subiam os degraus do Paço Episcopal.


Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombra e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida - mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões -
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem - o Bispo -
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância.

in, “Obra Poética” 

Ao ler este poema - lindíssimo na forma como o Bispo é erguido na  forma trabalhada do verbo de Sophia, como se a autora em vida já o quisesse esculpir no tal granito que há em profusão na cidade do Porto - é que o homem austero que foi D. António Ferreira Gomes, na sua face havia algo que todos os homens nunca deviam deixar morrer; o sorriso inconsútil da antiga infância, porque quando o homem deixa morrer em si mesmo, os traços da sua infância, faz morrer o que mais belo devia continuara a viver na sua existência.

Obrigado, Sophia, por esta lição!


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Luta (Um soneto de Antero de Quental)



Capa da Revista "Occidente" nº 460 de 1 de Outubro de 1891


Luta

 Fluxo e refluxo eterno...
 João de Deus.

 Dorme a noite encostada nas colinas.
 Como um sonho de paz e esquecimento
 Desponta a lua. Adormeceu o vento,
 Adormeceram vales e campinas...

 Mas a mim, cheia de atracções divinas,
 Dá-me a noite rebate ao pensamento.
 Sinto em volta de mim, tropel nevoento,
 Os Destinos e as Almas peregrinas!

 Insondável problema!... Apavorado
 Recua o pensamento!... E já prostrado
 E estúpido á força de fadiga,

 Fito inconsciente as sombras visionárias,
 Enquanto pelas praias solitárias
 Ecoa, ó mar, a tua voz antiga.

Antero de Quental, in "Sonetos"



Antero de Quental dá a este soneto que ele dedicou ao seu grande amigo João de Deus o nome "Fluxo e refluxo eterno...", que é, simplesmente, mas com toda a verdade, algo que animou a sua vida, que foi efectivamente, um fluxo de marés vivas por onde espraiou o seu brilhante pensamento e de refluxos por onde o fez recuar até ao dia fatídico em que no Campo de S. Francisco, em Ponta Delgada, num banco que ainda hoje lá está - ou cópia dele - puxou de um revólver e deu conta a Deus da sua vida.

Atentando na primeira estrofe o que sentimos, lendo-a coma emoção que ela merece é o seu exame de consciência - dos muitos que a sua natureza em busca do Nirvana - fez ao longo da sua vida, pondo a noite a dormir encostada nas colinas, enquanto sentia rebates de pensamento e à sua volta num tropel, cavalgavam Destinos e as Almas Peregrinas, onde, certamente, a sua ocupava um lugar destacado, por viver no estudo do Insondável problema da existência, onde, de acordo com a sua vida feira de avanços entrosados no problema social dos mais abandonados pela sociedade cruel do seu tempo, ele, declara, que também sofreu recuos de pensamento, a que não falta alguma prostação e, até, de fadigas.

Por fim, é no "Fluxo e refluxo eterno...", das ondas do mar que beijam as praias solitárias, que sente existir a sua própria praia, onde chegavam em vagalhões alterosos das ondas que de que ele mesmo fora causador, ecoando nela todas as vozes - de familiares e de amigos - que naquela noite cheia de atracções divinas - como ele diz o mantinham acordado num silêncio tal que o próprio vento havia adormecido e, do mesmo modo, vales e campinas...

Antero de Quental foi um génio a quem coube adivinhar um tempo que não chegou a viver e pelo qual lutou com os fluxos e refluxos da sua inquietude.
Pena foi, que naquele banco do Campo de S. Francisco, os médicos que o socorreram não lhe tivessem podido recuperar a vida que ele trucidou. 
Por detrás do banco - já lá estava, como hoje está - um dístico colado à parede com o nome ESPERANÇA bem visível - invocando o nome do Mosteiro de Nossa Senhora da Esperança, onde se situa o Santuário de Senhor Santo Cristo dos Milagres - como se o Poeta nos quisesse dizer que ele morreu na esperança do encontro com uma noite singular, cheia de atracções divinas, por que foi sempre no divino que nunca o abandonou, que Deus, certamente acolheu, por fim a sua alma que até ao fim lutou com os fluxos e refluxos da sua vida.

Por isso ele deu ao soneto o título LUTA, a que não é estranha, certamente, a sua própria luta do reencontro com o Deus da sua infância e que - só ele o sabe - o terá levado a procurar aquele banco de jardim que ficava contíguo às paredes do Mosteiro de Nossa Senhora da Esperança para beber ali, o cálice amargo de uma vida que ele ceifou a si mesmo, na esperança de Deus lhe perdoar o acto onde travou a sua última luta.
É uma conjectura que parece fazer sentido, conhecendo o homem e o seu percurso de vida.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Adão, onde estás?




Na recente viagem do Papa Francisco à Terra Santa, um dos pontos mais importantes foi a visita ao Museu do Holocausto. 
Lá, o Papa proferiu um discurso em jeito de uma sublime e interrogadora oração com a sua alma centrada não só no extermínio de uma parte do povo judeu, mas também, como um grito doloroso às atrocidades que o homem é capaz de perpretar, movido por desígnios estranhos e desumanos.



Papa Francisco beija a mão de um sobrevivente dos campos de
concentração durante sua visita ao Museu do Holocausto em Jerusalem.


Oração do Papa Francisco


Adão, onde estás? (cf. Gen 3, 9)
Onde estás, ó homem? Onde foste parar?
Neste lugar, memorial do Shoah (1), ouvimos ressoar esta pergunta de Deus: Adão, onde estás?.

Nesta pergunta, há toda a dor do Pai que perdeu o filho.
O Pai conhecia o risco da liberdade; sabia que o filho teria podido perder-se… mas talvez nem mesmo o Pai podia imaginar uma tal queda, um tal abismo!
Aquele grito "onde estás?" ressoa aqui, perante a tragédia incomensurável do Holocausto, como uma voz que se perde num abismo sem fundo…

Homem, quem és? Já não te reconheço.
Quem és, ó homem? Quem te tornaste?
De que horrores foste capaz?
Que foi que te fez cair tão baixo?
Não foi o pó da terra, da qual foste tirado. O pó da terra é coisa boa, obra das minhas mãos.
Não foi o sopro de vida que insuflei nas tuas narinas. Aquele sopro vem de Mim, é algo muito bom (cf. Gen 2, 7).

Não, este abismo não pode ser somente obra tua, das tuas mãos, do teu coração… Quem te corrompeu? Quem te desfigurou?
Quem te contagiou a presunção de te apoderares do bem e do mal?
Quem te convenceu que eras deus? Não só torturaste e assassinaste os teus irmãos, mas ofereceste-los em sacrifício a ti mesmo, porque te erigiste em deus.
Hoje voltamos a ouvir aqui a voz de Deus: 

Adão, onde estás?

Da terra, levanta-se um gemido submisso: Tende piedade de nós, Senhor!
Para Vós, Senhor nosso Deus, a justiça; para nós, estampada no rosto a desonra, a vergonha (cf. Bar 1, 15).
Veio sobre nós um mal como nunca tinha acontecido sob a abóbada do céu (cf. Bar 2, 2). Agora, Senhor, escutai a nossa oração, escutai a nossa súplica, salvai-nos pela vossa misericórdia. Salvai-nos desta monstruosidade.

Senhor, todo-poderoso, uma alma, na sua angústia, clama por Vós. Escutai, Senhor, tende piedade!
Pecamos contra Vós. Vós reinais para sempre (cf. Bar 3, 1-2).
Lembrai-Vos de nós na vossa misericórdia. Dai-nos a graça de nos envergonharmos daquilo que, como homens, fomos capazes de fazer, de nos envergonharmos desta máxima idolatria, de termos desprezado e destruído a nossa carne, aquela que Vós formastes da terra, aquela que vivificastes com o vosso sopro de vida.
Nunca mais, Senhor, nunca mais!

Adão, onde estás?

Eis-nos aqui, Senhor, com a vergonha daquilo que o homem, criado à vossa imagem e semelhança, foi capaz de fazer.
Lembrai-Vos de nós na vossa misericórdia!


                                                                       Papa Francisco, em 26 de Maio de 2014

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Nota final

É profunda na Verdade de Deus e na negação dos homens projectados no Adão bíblico -  a pergunta pertinente do Papa que vai beber a essência ao mais fundo da História Bíblica. Impressionou-me a pergunta do Papa em face de um dos maiores atentados à vida humana que foi o Holocauto.

Naquele mesmo local, onde o Papa rezou assim, eu - que já tive a graça de pisar o mesmo local - também rezei, mas não sei que palavras disse a Deus. Sei, sim, que me impressionaram as fotos, a voz da pessoa que nos ia explicando a grande tragédia e, sobretudo, o som soturno que se ouvia, como se viesse do fundo do chão e interpelasse a nossa consciência.
Penso que esta pergunta-Oração do Papa “Adão, onde estás?” , faz lembrar a pergunta do Papa Bento XVI, quando visitou o campo de concentração de Auschwitz, “Onde estavas Deus?”

E isto faz-me pensar que quando o homem - feito à Imagem e à semelhança de Deus se ausenta de ser uma presença no grande Mistério - torna ausente Deus, o Pai de vida -  o que dá toda a razão à velha e sempre nova pergunta de Deus, “Adão, onde estás?”, feita, agora, pelo Papa Francisco, pondo nela toda a dor de Deus, porque  Nesta pergunta, há toda a dor do Pai que perdeu o filho, como ele constata e chama a nossa atenção.

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(1) - Shoah, foi o nome dado pelo cineasta francês Claude Lanzmann sobre o Holocausto. O filme baseia-se nas suas entrevistas e visitas aos locais onde ocorreu a grande matança em toda a Polónia, em três campos de extermínio nazi.

terça-feira, 17 de junho de 2014

"A maior distância do Mundo é a que vai da cabeça ao coração".





A maior distância do Mundo é a que vai da cabeça ao coração, afirmou o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, no passado dia 15,  Domingo da Santíssima Trindade, aquando da apresentação do Sínodo - Lisboa 2016, no momento em que anunciava a caminhada pré-sinodal, com epílogo no ano acima referido.

Correndo o risco de descontextualizar aquela belíssima frase, pareceu-me que o eminente prelado da Diocese de Lisboa discorria, na altura, sobre a saída que temos de fazer em movimento interior para Deus e exterior para os outros, fazendo deste desiderato de "caminhar" da cabeça para o coração um movimento interior  atirado para a imanência de Deus a tal maior distância do Mundo, e que tem de ser percorrida, saindo de nós mesmos, isto é, do nosso coração, depois de trilhado o caminho mais curto ou mais longo - cada um de nós tem o seu próprio caminho -  não para se alcançar, isolado, uma meta qualquer, mas sim,  para seguirmos por aquele que nos leva e ter proximidade com o nosso semelhante.

Razão, porque, quando nos dispomos a sair não se deve chegar só a meio do caminho, mas ir até ao fim, na certeza, que ao trilharmos a maior distância do Mundo  - que é - a que vai da cabeça ao coração, se caminhamos com o ardor espiritual da determinação de sabermos que o nosso companheiro de jornada foi Deus, não havemos de ficar a meio do caminho,.

Há-de acontecer, muitas vezes - que o companheiro ou os companheiros que temos de chamar para serem próximos de nós, estão para além da distância que nos falta vencer...
Eis, porque, no documento que prepara o Sínodo - Lisboa 2016, de diz: Não há neste ponto hipótese alguma para recuos ou alheamentos.

Vezes demais temos ficado a meio do caminho, porque, vezes demais nos temos esquecido que a maior distância do Mundo é a que vai da cabeça ao coração.


terça-feira, 10 de junho de 2014

Seguro e os tiros nos pés...



António José Seguro sem renovação do discurso


No final das comemorações do dia 10 de Junho - Dia de Portugal - este ano celebrado na cidade da Guarda, António José Seguro, com a insegurança habitual, mas pelos vistos, seguro do seu verbo, ao ser confrontado com o discurso do Presidente da República sobre o entendimento partidário que é preciso fazer tendo em vista o próximo Orçamento de Estado, com meta temporal em Outubro, disse aos jornalistas os chavões do costume:

  • Não está disponível para uma política de empobrecimento, como se o Governo a desejasse...
  • Os compromissos que têm que ser feitos são com base no crescimento económico na consolidação das contas públicas e sem crescimento da dívida pública (…)., como se o Governo por uma maldade qualquer não quisesse fazer o que ele propõe...
  •  Cortes e mais cortes não são a solução para o país, como se o Governo fosse constituído por mentecaptos e se regozijassem em fazer cortes e mais cortes..
  • Que as diferenças entre o PS e o Governo continuam a ser insanáveis, como se essa fosse a atitude construtiva que o Presidente da República pediu no seu discurso.

Por fim, que o Presidente da República convoque os partidos políticos com assento parlamentar, renovando o apelo que tem feito nos últimos dias.
Pergunta-se, para quê?
Para ouvir um discurso destes?
Não vale a pena.
António José Seguro, esquecido que há um ano o Presidente lhe prometeu eleições legislativas antecipadas em troca de um consenso político, num momento difícil porque Portugal passou, vem agora pedir a lua, quando é ele mesmo é que tem andava a passear por lá...

Pessoalmente, é meu desejo que António José Seguro, melhore o seu discurso e deixe de continuar a dar tiros nos pés!


segunda-feira, 9 de junho de 2014

As fotos improváveis!



Plantação a três da oliveira da Paz!


Shimon Peres, Mahmoud Abbas com o Papa Francisco 
a selar o abraço de dois homens desavindos.


A génese deste encontro começou há duas semanas no decorrer da visita do Papa Francisco à Terra Santa, onde o apelo papal foi acolhido por ambas as partes beligerantes do "eterno" conflito israelo-palestiniano.

O termo "Paz" encheu a oração do Papa no Domingo que passou e encheu, como nunca acontecera com estas personagens nos jardins do Vaticano, onde se deseja que a oliveira - simbolo da Paz - que os três plantaram dê, em nome de Deus, os frutos que se desejam.

Paz (shalom em hebreu) - (salam em árabe) - (pace em italiano) deseja-se que seja o tripé dito de três maneiras - seja um sentimento uno e fraternal - para que, como advertiu o Papa, para quebrar a espiral de ódio e violência só precisamos de uma palavra: irmão. Mas para isto temos de nos reconhecer mutuamente como filhos de Deus, que sendo Amor entre os homens, tem para todos eles a Palavra de Paz, que asidamente, levou o Papa Francisco, a dizer, noutro ponto, que ela  requer coragem, muita mais coragem que a guerra. É preciso coragem para dizer sim ao encontro e não ao conflito. 

Esta notável acção de paz durou cerca de uma hora.

Que tenha sido em boa hora para que o peso fraternal do encontro destes três homens atinja o desejo do promotor da iniciativa, na certeza que o preceito evangélico "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estarei no meio deles" se cumpra, verdadeiramente, para que a a paz possa triunfar por fim e que as palavras divisão, ódio e guerra sejam banidos do coração de todos os homens e de todas as mulheres.

A dúvida que fica é se Deus só esteve presente na oração do Papa Francisco...


As interrogações de Florbela!




Interrogação

A Guido Batelli

 Neste tormento inútil, neste empenho
 De tornar em silêncio o que em mim canta,
 Sobem-me roucos brados à garganta
 Num clamor de loucura que contenho.

 Ó alma de charneca sacrossanta,
 Irmã da alma rútila que eu tenho,
 Dize p'ra onde vou, donde é que venho
 Nesta dor que me exalta e me alevanta!

 Visões de mundos novos, de infinitos,
 Cadências de soluços e de gritos,
 Fogueira a esbrasear que me consome!

 Dize que mão é esta que me arrasta?
 Nódoa de sangue que palpita e alastra...
 Dize de que é que eu tenho sede e fome?!


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"



Não é fácil falar de Florbela, porque o encadeamento da sua vida é feito de tantas interrogações, a que ela nunca soube encontrar, uma resposta que fosse libertadora dos seus fantasmas existenciais, como acontece neste soneto a que chamou "Interrogação" como se nele houvesse apenas uma, quando no mesmo a poetisa deixou várias, e todas elas feitas à sua alma.

Em "O Homem Que Ri", Victor Hugo declara que a carne é cinza, a alma é chama, e foi a esta chama que ardeu como um vulcão em toda a sua vida, que Florbela faz perguntas, porque sabia que o seu corpo de pouco valia e, por isso, recorre à chama da alma que ela iguala à charneca alentejana, que apelida de - sacrossanta, sem ser por acaso porque ela sabia da santidade que trazia presa à sua alma - para que esta lhe dissesse o fim do seu destino e onde é que ele começou - Dize p'ra onde vou e donde venho - o que não deixa de ser, possivelmente, a interrogação maior de Florbela, por ser a que fazem todas as criaturas normais, poetas ou não.

No seu "Dicionário Filosófico" Voltaire, apesar de todos os seus bem conhecidos sarcasmos, quando fala da alma, chama à colação S. Tomás de Aquino e diz o seguinte: Diz Santo Tomás (questão septuagésima quinta e subseqüentes) que a alma é uma forma subsistente per se. Que está em todas as coisas. (...)

Ou seja, quando sentimos Florbela a interrogar a sua alma é porque ela sabia - tal como Victor Hugo - que o corpo é cinza e só a sua alma era a chama que havia de ficar por ser subsistente per se como asseverou o filósofo, dando-nos com a sua poesia o exemplo que devia interrogar todas as criaturas e de que se torna exemplar o último terceto:

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra...
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

Não sabemos - jamais alguém o saberá - porque Florbela levou com a tragédia que lhe ceifou a vida a resposta que teria tido - ou não - às perguntas que fez à sua alma, mas Deus queira, que à ultima pergunta - Dize de que é que eu tenho sede e fome? - tenha sentido o desejo de antecipar a imortalidade da sua alma, e como tal, a fez voar para um destino etéreo - que só podemos imaginar - mas tendo deixado aos seus leitores, ainda hoje e pelos tempos vindouros toda a força da sua alma de mulher inquieta que passou pela vida à procura de algo, que verdadeiramente, nunca encontrou.

Que Deus lhe tenha dado a paz que o corpo que serviu de morada  à sua alma nunca encontrou nos poucos anos em que viveu entre os mortais!

domingo, 8 de junho de 2014

Porque será?




Porque será?

Que sendo o primeiro magistrado da Nação o Presidente da República, interpretando o artigo 120º da Constituição Portuguesa a esquerda radical e a outra esquerda - assim o diz de si mesmo - acantonada no Partido Socialista, não se coíbem quando a água não corre para o seu moinho de zurzir no Presidente da República, usando o chavão mais conhecido de não fazer cumprir a Constituição que jurou defender - se não é por estas palavras usam outras que vão no mesmo sentido - e, como agora acontece, tecem louvaminhas ao juízes do Tribunal Constitucional, retirando à direita que neste momento tem o direito de governar um País que faliu o poder de o criticar, se como parece, o T.C. invadiu a tarefa que cabe ao legislador?
Será que o T.C. é constituído por anjos? E, como tal, dignos de todo o respeito.

Porque será?
É que causa espanto que se critique - por vezes, acintosamente - um Órgão da soberania que foi eleito pela maioria do povo e se guarde todo o recato a um outro Órgão que o não foi.

Em boa verdade, ambos, se vivêssemos numa Democracia adulta mereciam o mesmo respeito.


sábado, 7 de junho de 2014

Por favor: entendam-se...




Vai por aí um agrande gritaria por causa do Primeiro-Ministro ter dito que a escolha dos juízes para o Tribunal Constitucional deveria ser melhor escrutinada.

Ao tomar conhecimento, hoje, que dos 13 meretíssimos juízes, apenas um - uma senhora juíza é constitucionalista - enquanto os outros juízes têm outras especialidades no campo do direito, parece evidente que isto não faz sentido, o que prova que Passos Coelho tem toda a razão no que disse, mas tem razão a destempo. porque é indesculpável que tendo o PSD indicado juízes para o Tribunal Constitucional no cumprimento de uma norma da Constituição, não tenha na altura devida indicado juízes com carreira no direito constitucional para um cargo tão importante.

Portanto, que se calem todos.
Os que gritam - porque fazem profissão nesta arte que faz parte do cinismo político - e os que criticam, quando eles mesmos deviam ser criticados.

Por favor: entendam-se e poupem o povo a desmandos destes e outros, que certamente, virão!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O fascínio do olhar!





Seus Olhos

Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar,
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! - e auave
Ao mesmo tempo: mais grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti…
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett, in “Folhas Caídas”


Passada a sua fase revolucionária que perdurou pelos anos 20 a 30 do século XIX, Almeida Garrett deixou para a posteridade uma vida tão cheia, como cheia de encanto é a sua obra literária, donde sobressai a parte poética, uma das riquezas de que se pode orgulhar a geração de que ele fez parte e importante.

Pode afirmar-se convictamente que o poema "Seus Olhos" foi dedicado à Viscondessa da Luz, Rosa Montufar com quem Garrett se relacionou a partir de 1846, tendo feito dela  a musa inspiradora das "Folhas Caídas", o livro admirável que o ajudou a tomar o assento firme que justamente goza nas Letras Portuguesas.

O poema, com efeito, faz parte do acervo que informa tão célebre livro, num tempo em que o Poeta andava perdido de amores pela bela andaluza, com quem viria a romper na Primavera de 1849, ao que se conta, roído de ciúmes, tendo-se acolhido em casa de Alexandre Herculano, então morador na Ajuda.

Falecido em 1854, em pleno cemitério dos Prazeres, atribui-se a Rodrigo da Fonseca Magalhães - o politico liberal  e uma das primeiras figuras da "Regeneração" - o chiste que ficou famoso, até pela sua crueldade: Morreu abraçado à Cruz com os olhos na Luz, querendo assim demonstrar o drama amoroso que se abateu sobre a sensibilidade de Almeida Garrett, mas falando sem pudor sobre algo que ele viveu arrebatadamente, em nome de um ideal de amor que viu espelhado nos olhos ardentes e fatais da Viscondessa da Luz.

Valha a verdade dos dois últimos versos que nos dão a imagem verdadeira da amargura que tomou conta da sua vida e, através dos quais, podemos aquilatar sobre o que ele considerou ser a cinza de uma brasa que viu arder e o viria a queimar


Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.


É possível cumprir a Constituição num Pais falido?



Temos um Tribunal Constitucional que gere uma Constituição feita para um tempo de normalidade vivencial dos cidadãos e das Instituições, quando o tempo que vivemos é anormal, donde os juízos que se tomam se não põem no prato da balança esta realidade acabam por estar feridos de justiça, porque ao estar desadequada ao tempo que se vive, coloca os juízes na mesma situação, ainda que eles, no cumprimento da lei tenham de a fazer cumprir.
É esse, afinal, o que lhe cabe fazer.
Mas, como fazer cumprir a  Constituição num Pais falido?

E é aqui que bate o ponto. 
É aqui, que os políticos deviam por a mão na consciência e em nome do povo que os elegeu, uns para governarem e outros, embora na oposição, na expectativa de ambos respeitarem os votos e entenderem que há questões nucleares que estão acima das cartilhas partidárias.

E uma dessas questões é uma nova revisão da Constituição Portuguesa, dita a "lei fundamental", que no momento o não é, verdadeiramente, porque foi feita para um outro tempo que, certamente, não voltará tão depressa... ou nunca mais!
Era justo, portanto, que os nossos políticos - os actuais parlamentares ou outros que venham a seguir -  percebessem isto e ajudassem o Tribunal Constitucional, começando desde logo por alterar o modo como eles são escolhidos.

Como "a justiça é cega" - segundo se diz - os que a praticam não deviam estar expostos tão às claras, porquanto, sofrem de ser conotados com credos políticos e isso não devia acontecer.