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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

4º Domingo do Tempo Comum - 2 de Fevereiro de 2014 - Ano A (Festa da Apresentação do Senhor)


Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apre-sentarem ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor», e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor. Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava nele. O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria antes de ver o Messias do Senhor; e veio ao tem-plo, movido pelo Espírito. Quando os pais de Jesus trouxe-ram o Menino para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, Simeão recebeu-O em seus braços e ben-disse a Deus, exclamando: «Agora, Senhor, segundo a vos-sa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo». O pai e a mãe do Menino Jesus esta-vam admirados com o que d’Ele se dizia. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações». Havia também uma profetiza, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada e tinha vivido casa-da sete anos após o tempo de donzela e viúva até aos oiten-ta e quatro. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. Estando presente na mes-ma ocasião, começou também a louvar a Deus e a falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. Entretanto, o Menino crescia e tornava-Se robusto, enchendo-Se de sabedoria. E a graça de Deus estava com Ele. (Lc 2, 22-40)
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Toda a oferta pressupõe uma renúncia, 
razão, porque, obedecendo à lei mosaica
a Santa Mãe apresentou Jesus.
E desde aquele momento começou
a renúncia do Justo que havia de culminar
no cimo do Calvário.
Eis, porque, a Apresentação de Jesus no Templo
não é um Mistério Gozoso, mas Doloroso.

Eis, porque, 
desde a cena da Apresentação do Filho, 
Maria, que já tinha feito a sua apresentação
no "Fiat" dado a Deus, renovou o seu oferecimento,
oferecendo-se com Ele.

E agora, eu.

Onde está - ou como está - 
a apresentação que fiz  a Deus,
mercê do meu Baptismo,
da minha Confirmação na Fé,
e dos "sins" que vou dando?
Senhor de todos os "Sins" e de todas as renúncias,
fica comigo neste momento em que me devia rever
na Tua Apresentação.

Ajuda-me a renovar compromissos
e ensina-me - mais uma vez - o modo
como hei-de apresentar-me a Ti,
que um dia, no Templo, foste apresentado
por mim e por todos os meus irmãos!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A palavra PÁTRIA fora do vocabulário!


O tempo abúlico que vivemos aboliu a palavra Pátria do vocabulário como se ela fosse uma velharia sem préstimo e, para vergonha dos sequazes  - onde se incluem tantos de nós - a Pátria foi fechada no fundo do baú de um esquecimento atroz que a todos nos devia envergonhar.
Exilamos a Pátria para o mundo estranho da poeira da História, sem cuidarmos que ela está viva, não se compreendendo o dislate que estamos cometendo, mantendo-a assim adormecida, esquecida e vilipendiada, parecendo que só o facto de  lhe pronunciarmos o nome nos envergonha e apouca .
O esquecimento, porém, não vem de agora, sejamos correctos.




Luis de Camões - o grande épico - disse-a alto e bom som e acabou os seus dias na miséria.

Esta é a ditosa pátria minha amada,
à qual se o Céu me dá que eu sem perigo
torne, com esta empresa já acabada,
acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
de Luso ou Lisa, que de Baco antigo
filhos foram, parece, ou companheiros,
e nela então s íncolas primeiros.

Canto III - estância 21




Do mesmo modo - e embora lhe chamem o Imperador da Língua Portuguesa - disse-a arrebatadamente o Padre António Vieira e a Pátria persegui-o, não o tendo poupado ao vexame inquisitorial.




Se serviste a Pátria, e ela vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, e ela o que costuma. Mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia? Quando fizestes o que devíeis, então vos pagastes.

in,art. 3º do  Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", proferido na na Capela Real, ano 1669.






Guerra Junqueiro cantou-a no livro “Pátria” (1896) e foi ridicularizado, antes de ser glorificado com as honras de merecer figurar no Panteão Nacional.
O Poeta tinha razão
De um certo modo, guardadas as distâncias e as diferenças de regime, a Pátria continua  sem  independência económica, subalterno perante uma União Europeia dominada pelos países, com o nome subalternizado, quando mais que europeus, somos portugueses e, desse modo, mantêm-se a pergunta: para onde foi a consciência da Pátria e o orgulho de ser português que com alguma amargura Junqueiro nas “Anotações” que faz no fim do seu livro, declara:

Desde a crise do “ultimatum” inglês (…) resvala a Nação, dia a dia, ao letargo estúpido da indiferença. Estará morta? Estará cataléptica?






Leonardo Coimbra disse-lhe bem alto o nome da Pátria e não foi ouvido, a ponto das actuais gerações não saberem, sequer, a valia da  obra de quem foi uma das figuras mais gradas da Renascença Portuguesa - um movimento cultural nascido em 1912 - que no pós-República tinha subjacente um ideal nacionalista ligado, no plano literário e filosófico e a um sebastianismo quase messiânico.
Doutrinador do criacionismo - uma filosofia de liberdade que ia beber às infinitas fontes do pensamento - a Pátria nova nascida da Revolução encontrou nele um paladino acérrimo de que se deu conta a revista “ A Águia” (1910-1932).






A Pátria ergueu-a Fernando Pessoa nesse livro simbólico onde se misturam as imagens herméticas de fundo esotérico e todas mobilizadas para a assunção de um nacionalismo místico, nem sempre devidamente compreendido, na fusão épica e lírica que faz do Brasão, do Mar Português e do Encoberto a tripeça da heroicidade da raça, que não raro se funde com a epopeia camoniana, com a diferença de Pessoa lhe dar uma visão messiânica sobre o destino português, em que o rei vencido nos areais de Alcácer-Kibir havia de voltar para tirar Portugal da decadência e conduzi-lo à glória.

Referindo-se aos períodos da formação de Portugal, das grandes navegações, de D. Sebastião, o autor tenta celebrar a grandeza de seu país.

Ao lembrar Viriato, aparece desde logo, a Nação:

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, o de que eras a haste -
Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.


22-1-1934

Mas é no "Monstrengo" que surge com todo o esplendor da alma do Poeta o poder da Pátria por detrás da resposta firme do destemido mareante ao ver-se confrontado com aquela figura aberrante que quer tolher-lhe o destino grandioso:


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar, E disse,
''Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?''
E o homem do leme disse, tremendo,
''El-Rei D. João Segundo!''

''De quem são as velas onde me roço?
De quem são as quilhas que vejo e ouço?''
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
''Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?''
E o homem do leme tremeu, e disse,
''El-Rei D. João Segundo!''

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
''Aqui ao leme sou mais do que eu;
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!''



Estes exemplos nos deviam bastar para não nos envergonharmos da Pátria que fomos - e somos! - porque ao ser das mais antigas com fronteiras consolidadas na Europa, este facto, de per si só, nos devia encher de orgulho e, de novo, nos havia de dar a força da raça para voltar a por a PÁTRIA portuguesa no vocabulário, onde parece, se perdeu, como o rei D. Sebastião que há-de voltar, porque não morreu de vez na alma de Portugal.

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Pela palavra se ganha, pela palavra se perde!




Aconteceu na Praia de Pedrógão  (concelho de Leiria) no passado dia 9 de Fevereiro.
E mais uma vez aconteceu o estribilho do mesmo fado, ou seja, António José Seguro que sonha ser Primeiro-Ministro - e tem todo o direito - usa a demagogia do seu verbo emproado, como se a sua vontade, já não tivesse sido a de outros governantes e a dos actuais, mas a que falta o indispensável: o dinheiro que não temos para colmatar agora, com despesas fabulosas as asneiras territoriais que as Câmaras Municipais com o beneplácito dos vários Governos têm assentido, ao aprovar projectos de construções esteticamente "bonitas" - com o mar em frente dos olhos - mas fundadas em terrenos falsos, muitas vezes roubados à margem marítima, esquecendo-se que a natureza se vinga sempre das malfeitorias dos homens.

A opinião de António José Seguro faz sentido e coaduna-se com a actuação que lhe cabe fazer, mas deita tudo a perder ao afirmar que o Governo anda um pouco às aranhas nesta questão, como noutras.
E caiu-lhe a máscara ao dizer isto. 
Era aqui que ele queria chegar, zurzindo no Poder central e chamando a atenção para a Câmara de Leiria que se substituía ao Governo, andando co máquinas a descarregar areia na praia de Pedrógão, quando é esse, precisamente, o papel descentralizado que se pede ao poder local, cujos orçamentos anuais tem de prever imprevistos.

Apelou, ainda, a uma acção estrutural, de modo a permitir que Portugal conserve os areais e as praias com qualidade para continuar a atrair turistas.
É evidente que a defesa do cordão dunar é um desafio que temos pelas alterações climatéricas e naturais que estão a acontece, pelo que, ficamos á espera que se este senhor vier a ser Primeiro-Ministro se não esqueça do que disse no passado dia 9 de Fevereiro de 2014 na praia de Pedrógão.
Tememos, porém, que isso venha a acontecer e, se cumpra com ele - como tem acontecido com outros - a famosa estrofe do poeta popular António Aleixo - um filósofo da vida - que disse coisas sérias como esta:


Vós que lá, do vosso império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos que pode o povo
Querer um mundo novo, a sério!


Por isso, recomenda-se a este senhor que não ande a defender a necessidade de virar Portugal ao contrário... mas o ajude a pôr direito e deixe a caça ao voto, servindo-se, inclusive, de um fenómeno da Natureza revoltada clamando pelo espaço que ao longo da costa de Portugal lhe tem sido roubado.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Mirós p´raqui, Mirós p'rali...




No campo da nossa trauliteira política - mirós p'raqui, mirós p'rali... miram, mirando uns certos senhores e senhoras que passam a vida na mira de assuntos, que longe de serem importantes, são por eles julgados capazes de dar dividendos no banco dos votos do povo, e, por isso, não se coibem de imitar aquele procedimento popular que diz  - andam sempre aos caídos - porque não são capazes de ter agenda política que valha a pena seguir para tirar Portugal da bancarrota em que - eles mesmos e outros parecidos com eles - meteram este velho e honrado País.

Andam agora entretidos com os quadros do pintor catalão Miró, "muito preocupados", mas sem cuidar que os milhões da venda - embora irrisórios tendo em conta o "buraco" que a nacionalização socialista do BPN custou ao País - iriam reduzir  o esforço do Estado, o que eles tentam impedir com a sua proverbial demagogia... só, porque, julgam desfeitear o Governo... e, por isso, mirós, p'raqui..,mirós p'rali... miram, mirando!

É uma lástima.

Foi assim que os nossos "Mirós" miraram mais um modo de zurzir no Governo e, então, porque se avizinham as eleições europeias - mirós p'raqui, mirós p'rali - de tudo serve para a baixa política. 
É o desnorte completo dos "Mirós", sem se aperceberem que ao povo esta questão nada lhe diz.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Miguel Trigueiros (1918 - )



in, livro "Deus"


INVOCAÇÃO

Senhor, dá-me as palavras exactas!
Nem mais nem menos do que deva ser.
Nada de frases torcidas e abstractas;
Nada de imagens de cores baratas:
Abrir a alma como um livro
   e ler.



Miguel Trigueiros nasceu em 1918.
É um poeta que faz da sua obra um profundo sinal de religiosidade cristã.
Em 1939 o seu livro "Resgate" obteve o "Prémio Antero de Quental", contando à época três edições, um caso raro em Portugal, tratando-se de um livro de poesia.

Em 1959 dirigiu na então designada Emissora Nacional um programa, que intitulou:  "Páginas de Poesia", tendo  merecido dos responsáveis, estas palavras: Um dos programas que antecederam este, intitulava-se "Poesia, Música e Sonho". Durante dois anos, deu aos nossos ouvintes uma imagem viva da nossa criação poética. E poder-se-ia dizer que não houve poeta de real valor dos nossos dias que nele não tivesse figurado, se não ocorresse pelos menos uma, e flagrante excepção: a do próprio autor desse programa, Miguel Trigueiros, poeta lírico do maior valor (...) 

Defendendo para a poesia caminhos de amor que não fossem  o predomínio materialista do amor profano, nem o círculo vicioso do amor-inquietação, nem a torre de marfim do amor angelista, em palavras que proferiu para as "Páginas de Poesia" referiu: Se me perguntarem - "Que é a Poesia?" - responderei que Poesia, como toda a Arte em geral, é para mim uma forma especial de vidência, aquilo a que chamarei vidência prismática. E se me pedirem para explicar melhor o meu pensamento - disse o seguinte: - O artista, como qualquer outro vidente, capta ou vê, para além da medida normal dos sentidos, determinadas mensagens que são testemunhos do Criador ou da criação.

Nestas últimas palavras, Miguel Trigueiros, deixou expressa e de um modo penetrante todo o sentimento religioso que o animou ao longo da vida, que na época fez dele um dos grandes cultores da poesia cristã em Portugal, pelo vincado teocentrismo da sua mensagem onde não faltou a pura luminosidade do seu verbo, onde se descobre a para e passo o Divino Criador, presente em todas as facetas existenciais que lhe deram o proveito de ser admirado pelo seu sentimento que foi beber bem fundo, numa espiritualidade que era um anseio voltado para a purificação do Mundo, tarefa de que lhe coube uma parte e ele se encarregou de a desenvolver.

Não quis fazer teologia - diz do Poeta, D. Manuel Trindade Salgueiro - e, no entanto, há teologia de vida em toda a obra. (o livro Deus) A demonstração é feita pela exposição poética da verdade. Deus está em toda a parte - no Homem e no Universo (...) acrescentando a seguir: Mais uma vez se verifica, e de forma eloquente, que os temas divinos, longe de prejudicarem a arte, a iluminam e enobrecem.

Bem se pode dizer que Miguel Trigueiros - como é dito por Ferreira da Silva na aba da contracapa do seu livro "Deus", na peugada da afirmação do Bispo - foi um cruzado para levar a todo o lado, na arte da sua Poesia,  a mensagem da sempre bela e imortal Verdade cristã, algo  que é um valor inestimável em que se fundem todas as forças do Bem - que para ele - se entroncava em Deus, a ponto de ao falar, um dia, sobre Frei Agostinho da Cruz, ter dito:

Só os versos feitos de alma
Trazem noticias de Deus.

São estas notícias que ele dá à estampa do seguinte modo no poema PARA ALÉM, que foi recitado por João Villaret, no seu programa radiofónico - já aludido - "Páginas de Poesia", nesta exaltação da sua alma, que aninhada no colo de Deus nada podia temer.

Minha alma: não temas a ninguém.
Palpitam medos sob a tarde mansa?
Abre as asas do sonho e da esperança
E voa para além, mais para além!

O caminho dos poetas é infinito.
O país do seu espírito? O Universo.
É mais inteiro, quanto mais disperso
Em turbilhões de gritos, o seu grito!

Minha alma:não temas a ninguém.
Bocejam tédios sob a tarde calma?
Abre as asas da fé, oh, minha alma
E voa para além, mais para além!

A presença dos poetas é a distância.
A verdade dos poetas é a miragem.
A paisagem dos poetas é a paisagem
De mil abismos a florir na ânsia!

Minha alma: não temas a ninguém.
Desdobra-se a planície à tua volta?
Abre as asas do amor e voa à solta
Para além, cada vez mais para além!

O coração dos poetas não tem fundo.
Deita-se amor e pede mais amor;
Deita-se a dor e gasta a própria dor;
Deita-se o mundo e não lhes chega o mundo!

in, "DEUS"
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Do mesmo livro, são os poemas que se seguem:

SABEDORIA

Não sei como, nem porquê,
Nem de onde vens até mim;
Mas sei que vens - e é assim
Que a minha alma te vê...

Um saber sem explicação,
Um saber feito de amor...
- Tal como as fontes do chão,
Jorras, inteiro, Senhor,
Do meu próprio coração
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DEUS NO POETA, dedicado ao frade arrábido Frei Agostinho da Cruz e à paisagem paradisíaca do Portinho e do Convento da Arrábida.

O tapete da estrada foi bordado
Pelas rendas da sombra da folhagem.
E um tronco dolorido, esfarrapado,
Aponta, lá no fundo do montado,
Um sorriso de Deus, feito paisagem.

Paira no Espaço uma oração discreta.
Frei Agostinho! Andam teus versos no ar!
A voz de Deus é o som na voz do poeta...
(Sem o Sol, onde estava a luz do luar?)

Por isso, com as grutas escondidas,
Humildes
São teus versos.
E são puros,
Como o primeiro soeeiso
Da manhã;
Transparentes, 
Como as águas
Da alegria azul,
Onde os teus olhos brincavam
Quando voltavam do céu;
Tão suaves
Como um segredo de brisa
Contado, devagarinho,
Às pedras virgens da Serra
E às areias do Portinho.

A vida que tu viveste, 
Ah! quem pudera vivê-la!
Por companheiros tiveste
Os mais fiéis amigos do Universo:
- Arbustos - eremitas
De braços torturados,
Erguidos 
Para o Infinito;
O Sol,
Anjo de asas abertas sobre o Mundo;
Nuvens - Freiras de branco, em romaria,
E o Mar, um monge velhinho,
Com seus cabelos de espuma
E a sua voz de Mistério...

- Minha santa Natureza
Toda vestida de luz!

AH, quem pudera viver
A vida que tu viveste
Frei Agostinho da Cruz!
Humildes, como as grutas escondidas
São teus versos.
Mas profundos, como a alma
Que os criou...
Só os versos feitos de alma
Trazem notícias de Deus,
Ficam para além do instante.

E assim ficaram os teus.
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E é num profundo arrebatamento interior, louvando a Deus pelo nascimento de um dos seus filhos que Miguel Trigueiros - cheio de uma grande luz - escreveu o poema HORIZONTE, que mais não é, que um desafio que ele lançou ao mundo dos homens inebriado como estava pela dádiva tão grande, espelhada no corpo pequenino que lhe veio encher a sua casa.

Hoje, tudo pode vir.
Tudo, até mesmo um desgosto,
Que a tudo eu hei-de sorrir,
Como o luar ao florir
No canteiro do sol-posto...

Hoje, não temo ninguém.
E todos podem olhar-me
Com torvo olhar de desdém,
Que nem por isso hão-de dar-me
Qualquer tristeza também!

- Não há nada que desarme
A luz que minha alma tem...

Hoje não sei bem se existe
O Estilo ou a Literatura...
Não tenho imagens em riste;
Não sou alegre nem triste:
Sinto a poesia em ternura.

Que sonho assim me serena?
Queram saber? Pois aí vai:

- Uma boquinha pequena
Deu-me um beijo e disse: Pai...
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Como um produto sazonado e apetecível - onde Miguel Trigueiros colocou sempre ao longo da vida o Altar de Deus - foi para Ele que escreveu, numa toada sentida, a lindíssima CANÇÃO DE EMBALAR, começando - como se fosse um menino - a pedir que Deus o estreitasse nos seu braços e o adormecesse na terna canção como os pais embalam os filhos.

Embala a minha alma nos Teus braços
E canta-lhe, baixinho,
A canção de ninar da eternidade!
Oh, meu bom Pai, embala-a, até que os passos
Do orgulho e da vaidade,
Se percam no caminho
Que vai de mim a mim!

Devagarinho,
Suavemente.
Mais docemente.
- Assim. 

Ah, dorme, dorme, em outro espaço,
Alma dorida...
Ah dorme, dorme, no regaço
Da vida!

Ah, dorme, dorme entre as estrelas,
Alma doente!
E que o teu sonho sejam elas;
E, tal como elas, seja ardente,
Refulgente
E enorme...

Dorme...
Dorme...
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Miguel Trigueiros, para além do livro "Deus" publicou, ainda:
"Resgate" - já citado.
"Diálogo entre o Céu e a Terra"
"Sete Poemas de Natal"
"Monólogo da Terra"

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Os ventos da História




Os acontecimentos, antigamente impensáveis de acontecer e que na actualidade enchem os media nacionais e internacionais de notícias alarmantes sobre a falta de segurança que se sente, no individual e no colectivo dos grupos, sociedades e nações.
Os conflitos não estão apenas latentes mas em franca ebulição pela acção de terroristas que agem congregados e com o poder de mobilizar povos inteiros para aquilo que eles chamam de "guerra santa", contra a qual os meios das nações mais poderosas se estão a tornar impotentes, pela ausência de uma guerra convencional.
As grandes nações se tornaram fragilizadas e vulneráveis.

A História age, por vezes, contra a corrente dos mais fortes, pois quando estes se sentiam seguros na exploração dos mais pequenos, tudo corria de feição, porque é próprio dos pequenos não terem voz para se fazerem ouvir.
Este estado de coisas não podia durar indefinidamente. Os pequenos estão a tomar consciência da sua situação de injustiça. Só que os meios violentos, utilizados para reclamarem um lugar de dignidade neste mundo, poderão não servir ninguém, mas destruir a todos.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada com tão boas intenções pela ONU, poderia constituir essa plataforma comum de entendimento. Mas todos sabemos que uma boa parte das suas normas são sistematicamente desconhecidas e violadas por aqueles que detêm o poder. Enquanto o homem não for visto como um fim, para ser considerado apenas um meio para alguns poderosos, será difícil conseguir o acordo necessário para a formulação de normas básicas para uma ética mundial. Hoje tornou-se evidente que esta sociedade civilizada e detentora do progresso, que tem tudo quanto se refere a bens materiais, que dificilmente pode alimentar utopias, convencida de que tudo está ao seu alcance, confiada no prodigioso desenvolvimento técnico-científico, afinal esta sociedade parece ter dado início a um processo de implosão, para utilizar a expressão de Pierre Thuillier, que a poderá conduzir ao seu próprio aniquilamento.

H. Küng analisa o que se passa com a única super potência da actualidade e afirma: "A crise da principal potência ocidental é já uma crise moral de todo o ocidente, incluindo a Europa: desmoronamento das tradições, de um sentido global da vida, de critérios éticos absolutos e de carência de novos fins, com todos os danos psíquicos que daí derivam". E mais adiante: "O ocidente encontra-se perante um vazio de sentido, de valores e normas, que não só afecta aos indivíduos, como também constitui um problema político de enorme grandeza".

H. Küng pretende então que se adopte um conjunto de valores de âmbito universal, que permita um consenso social e que respeite o homem como fim em si mesmo. Isto fundamentaria uma ética autonômica de consenso, aceite por crentes e não crentes. Mas como chegar a este consenso sem a referência a algo de absoluto? Poderá ser o homem esse absoluto? Dada, no entanto, a sua consciência de carente, de limitado, o homem não pode ser esse absoluto, pois busca fora de si a sua razão de ser e a sua realização. Então, diz Küng, só as religiões podem fundamentar o incondicional no Incondicional Absoluto, que é Deus. Desta forma a ética deixa de ser autónoma, de precisar de consensos, já que deve referir-se ao Absoluto. Há aqui, como se vê, uma contradição.

Por outro lado, todas as religiões fazem, por sua própria natureza, referência ao Absoluto. Isto obriga a colocar o problema da verdade, não entre religião e religião, mas também dentro de cada uma das religiões, como diz Küng, porque todas correm o risco de se afastar da verdade, como a própria história o demonstra. O critério para discernir a verdade em cada uma das religiões seria a realização do humano. Assim, um Absoluto que não respeite o humano, que sacrifique a vida do homem e que premeie quem destrua a própria vida ou a vida dos outros não é verdadeira. Não haverá aqui mais uma contradição, na medida em que o Absoluto encontraria a sua justificação no não absoluto? Não, porque é a nossa compreensão do Absoluto que precisa de encontrar justificação no não absoluto. Por outras palavras: a ideia de um deus que desprezasse a sua criação, que tivesse criado a vida para depois premiar aqueles que se empenhassem em a destruir não pode ser verdadeira. Isto pode ser justamente um critério de verdade.

Mas será então possível encontrar princípios aceites por todos, para um diálogo ecuménico, que garanta o entendimento e a paz entre os homens e entre as nações?



Os perigos da democracia



 C. Lahr, no seu célebre “Manual de Filosofia” , Cap. VI, apresenta-nos duas vertentes da democracia, consubstanciadas nas suas vantagens e nos seus perigos.

Se nas vantagens nos assinala que ela concede aos governados a maior parte das liberdades que são compatíveis com a ordem pública (...)  e que,  pelo facto de não admitir nenhuma distinção entre os cidadãos, a não ser a que provém do mérito pessoal, a todos concede a possibilidade de desempenhar as mais altas funções, acrescentando, a seguir, que essa vantagem permite a cada um contribuir com o máximo do seu esforço para utilidade social.

O autor, cita a seguir, Aristóteles e um seu conceito democrático, quando disse que a forma democrática é a mais sólida de todas, porque nela domina a maioria, e a igualdade que se disfruta gera o amor de constituição, razão que levou o mundo moderno a assistir à queda das monarquias absolutas ou, das que, metendo-se nos novos tempos, deixaram  que imperasse o liberalismo e o parlamentarismo, adaptando-se ao sufrágio universal.
Contudo, ao fechar este capítulo, C. Lahr, não deixa de apontar e de nos chamar a atenção para os perigos da democracia, o que faz, dizendo que não basta decretar o sufrágio universal e conceder subitamente as liberdades para realizar de improviso obra perfeita. (...)
E fundamenta esta asserção em cinco pontos, dos quais tomamos, apenas, dois, como amostra que nos deve fazer pensar.

1 – No regime democrático em que todas as forças individuais se podem exercer sem obstáculos, e onde os meios de repressão são menos enérgicos, a desordem tem fácil entrada e o vício encontra as mais temíveis facilidades de expansão
2 – Por outra parte, a possibilidade que todos têm de chegar a exercer os cargos públicos traz consigo o perigo de abrir a porta às ambições menos justificadas. Em lugar dos mais capazes e dos mais dignos apresenta-se a multidão, sempre medíocre e pretensiosa. À força de se repetir que todos podem chegar a tudo, cada um acaba por se persuadir de que é efectivamente idóneo para todos os empregos e digno de todas as honras (...)

São, efectivamente, perigos e reais.
Portugal não foi e continua a não ser excepção e a nossa democracia bem precisa de repensar o caminho, porque se torna urgente que os mais capazes, de currículos profissionais e académicos irrepreensíveis se sintam atraídos pela coisa pública, ou continuaremos a promover os que pensam que podem chegar a tudo, com a agravante de se persuadirem de serem os melhores, sendo, apenas, os que se chegaram à frente pela força do voto, que os legitima, mas podendo não ser os mais capazes.
Até quando continuaremos com os mais dotados fora de cena, indiferentes aos assuntos da Rex Publica , que é Coisa de todos... Casa de todos... País de todos... e não, de alguns que até se tornam arrogantes, como se o Poder fosse eterno ou, eles mesmos se eternizassem na política?

Esta reflexão tem um sentido, porque a não ser assim, perdia-se o tempo.
O sentido é este: olhando a nossa jovem caminhada democrática começada com uma Revolução, imergiram quando o tempo o permitiu, alguns vultos de prestígio onde o povo se revia. Esta asserção, parece, consensual.
- E agora? O que aconteceu?
- Será que deixámos abrir a porta às ambições menos justificadas?
A ser assim, foi um erro, porque andamos a promover os que não mereciam.

A dúvida é se não nos dão hipóteses de o corrigir...

O Pântano que nós criamos!



O pântano que nós criámos é a consequência directa do abandono de ideais nobres que, por incúria, cobardia, ou simplesmente, por omissão, os dois grandes Continentes, Europa e América (Norte e Sul), impantes nas suas democracias algo libertárias, onde a bandeira nobre da liberdade anunciada aos homens está  a dar lugar a distorções sem freio, onde a moral se afunda à vista de todos e a voz suplicante que ainda tem a coragem de se fazer ouvir, é tida como vinda de um ser estranho a essas duas partes do mundo que mata a moral um pouco todos os dias.

Uma dessas vozes é a da filha de Billy Graham (1) cujo testemunho tendo-me chegado por mão amiga, por ser tão profundo e de tal modo metido no desleixo colectivo do nosso tempo, com incidência especial na nossa velha Europa  – mãe de Pátrias – me parece, deva ser transmitido e lido com a atenção que ele merece.
Entrevistada no Programa “The Early Show” da CBS NEWS, por Jane Clayson, foi-lhe posta a seguinte questão:
- Como é que Deus permitiu que acontecesse algo tão horroroso no dia 11 de Setembro? (2)
Anne Graham deu esta resposta longa e pausada, de tal modo tão profunda e bela nos seus conceitos éticos e espirituais que  não pode deixar de inquietar os homens que têm a “ousadia” contra ventos e marés de levar uma leira de água límpida ao pântano infecto onde andam mergulhados a Europa e as Américas:

- Eu creio que Deus ficou profundamente triste com o que aconteceu, tanto quanto nós.
E, após uma reflexão, continuou:
- Por muitos anos temos dito para Deus não interferir nas nossas escolhas, sair do nosso Governo e sair das nossas vidas. Sendo um cavalheiro, como Deus é, eu creio que ele nos deixou calmamente. Como podemos esperar que Deus nos dê a sua bênção e sua protecção se nós exigimos que Ele não se envolva mais connosco?
À vista de tantos acontecimentos recentes: ataques de terroristas, tiroteio nas Escolas, etc., eu creio que tudo começou quando Madeline Murray O’Hara, se queixou que era impróprio fazer oração nas Escolas americanas como se fazia tradicionalmente.
 Nós concordamos com isso.

Depois, alguém disse que seria melhor, também não ler mais a Bíblia nas Escolas... a Bíblia que nos ensina que não devemos matar, roubar e devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos.
E nós concordamos.

Logo, depois, o Dr. Benjamim Spock, disse que não devíamos castigar os nossos filhos quando eles se comportassem mal, porque as suas personalidades em formação ficariam distorcidas e poderíamos prejudicar a sua auto-estima, e nós dissemos:
Um perito nesse assunto deve saber o que está a dizer...
E então, concordamos com ele.

Depois, alguém disse que os professores e directores das Escolas não deviam disciplinar os nossos filhos nos seus maus comportamos.
Então foi decidido que nenhum professor poderia tocar nos alunos.
E, depois, alguém sugeriu que as nossas filhas fizessem abortos, se elas assim o quisessem.
E nós aceitamos, sem ao menos questionar.

E foi dito que deveríamos dar aos nossos filhos tantos preservativos quantos eles quisessem, para que eles se pusessem divertir à vontade.
E nós dissemos: - Então, está bem.

E, ainda aconteceu, que alguém sugeriu que imprimíssemos revistas com fotografias de mulheres nuas e dissemos que isso era são e uma natural apreciação do corpo feminino.
E houve alguém, que levou um passo mais adiante e publicou fotografias de crianças nuas e para chegar mais longe pô-las à disposição na Internet.

E nós continuamos a dizer:
Está bem, isto é, democracia e eles têm o direito de ter liberdade de se expressar – de qualquer modo – e fazer isso.
Agora, nós perguntamo-nos porque é que os nossos filhos não têm consciência e porque é que não sabem distinguir o Bem do Mal, e entre o Certo e o Errado; porque é que não lhes incomoda matar pessoas estranhas ou seus próprios colegas de classe ou a si próprios.
Provavelmente, se nos analisarmos seriamente, iremos facilmente compreender:
Nós colhemos aquilo que semeamos.
Chegada aqui, na sua longa resposta, Anne Graham acrescentou este pormenor idealizado pelo seu espírito, numa ficção que lhe pareceu ilustra bem todas as suas considerações:

Uma menina escreveu um bilhetinho para Deus, dizendo o seguinte:
- “Senhor, porque é que não salvaste aquela criança na Escola?”
Deus respondeu:
- “Querida criança, não me deixam entrar nas Escolas!”

E, após, este desvio pelo campo do divino, retomou o fio da conversa, dirigindo-se ao entrevistador que havia passado a ouvinte interessado:

É triste como as pessoas simplesmente culpam Deus e não entendem porque é que o Mundo está a ir a passos largos para o abismo.
É triste como cremos em tudo que os jornais e a televisão dizem e duvidamos da Bíblia, ou da sua religião, que você diz que segue e ensina.
É triste como toda a gente quer ir para o Céu desde que não precise de crer, nem pensar ou dizer qualquer coisa que a Bíblia ensina.
É triste como alguém dia: “Eu creio em Deus”e vive ao invés do que proclama.
É triste como podemos mandar centenas de piadas por e-mail e elas se espalham como fogo, mas quando tentamos algum a falar de Deus, as pessoas têm medo de compartilhar.
É triste como o material imoral, obsceno e vulgar corre livremente na Internet, mas um discurso público a respeito de Deus é suprimido rapidamente na Escola e no Trabalho.
É triste como as pessoas ficam inflamadas de Cristo aos Domingos, mas depois transformam-se em cristãos invisíveis pelo resto da semana.

Acabou com esta sentença a resposta à única pergunta do entrevistador, mas, parece importante que as suas palavras sejam divulgadas, pelo laxismo da sociedade doente que habita os dois grandes Continentes.
Os comentários ficam para aqueles que me lerem.



(1) - Billy Graham é é um pregador evangélico norte-americano. Nasceu em 7 de Novembro de 1918 em Charlotte, Carolina do Norte. Foi conselheiro espiritual de vários presidentes americanos. Foi ainda o mais proeminente  membro da "Covenção Batista Sulista dos EUA".
(2)  - Alusão ao ataque suicida de quatro aviões sequestrados, tendo dois deles colidido contra as torres do World Trade Center em Manhattan, Nova York.

E cá vamos... de crise em crise!



A má vivência do tempo que temos

É da lógica dos factos que o tempo não sofre aceleração no seu fluir constante como nos diz a Filosofia, mantendo-se inalterável no seu transcurso diário, numa sucessão ininterrupta, dentro da qual todas as coisas nascem, existem e morrem.
A sua lei é irreversível e nenhum esforço humano o pode deter, retardar ou acelerar.
Sobre o modo como o tempo deve ser vivido, disse Vieira: Nem todos os anos que passam se vivem: uma coisa é contar os anos, outra é vivê-los e, mais perto de nós, Mons. Balaguer aconselha: Que a tua vida não seja estéril. Sê útil. Deixa rasto, conselho avisado, porque nunca uma vida será avaliada pelo número de anos que viveu, mas sim, pelo modo como os viveu, plena e intensamente em acções que se projectarão num outro tempo com o propósito de deixar rasto, que é ou devia ser a meta de todo o homem e das sociedades.

A primeira grande crise do capitalismo

Aquilo a que assistimos, hoje, com o problema da economia em colapso é porque andamos todos a perder tempo, sem termos a nível individual e colectivo aprendido a dura lição do crash  de 1929, porque na aceleração em que o Mundo se meteu não deixou que os homens cumprissem, quer o pensamento de Vieira e, muito menos, o de Balaguer, porque as nossas sociedades mercantilistas não deixaram rasto, ou seja, um caminho de vivência, onde não se cruzassem, apenas as leis selvagens do mercado, mas, também, as leis da moral social dos indivíduos e das nações.
Efectivamente, se em 1929 - era que marcou a primeira crise aguda de um capitalismo cuja superprodução levou ao pico o sistema bolsista e cujo frenesi fez esquecer o adágio: tudo o que sobe tem de descer - se o Mundo tivesse aprendido com a gravidade dos acontecimentos que geraram o declínio das cotações bolsistas, as consequentes falências e dificuldades macroeconómicas severas com fecho de empresas e despedimento de trabalhadores e outras medidas de repressão económica, certamente, ter-se-ia evitado o que está a acontecer, com algumas similitudes, ao nosso Mundo, no alvor do ano de 2009.

A dolorosa crise dos nossos dias

O homem e as sociedades esqueceram-se disto e, assim, oitenta anos depois, estamos a braços com algo semelhante, porque a crise de 1929 não foi só, como agora, de um  capitalismo desenfreado e especulativo, mas sim, de uma profunda crise de valores morais e éticos das sociedades modernas.
O que aconteceu, agora – e mais uma vez com começo nos EUA – prendeu-se com a valorização imobiliária que os juros baixos e o fácil acesso ao crédito tornou possível, até ao ponto em que para combater a inflacção as taxas de juro começaram a subir, enquanto que os preços dos imóveis caíram, donde resultou que quando as prestações das casas subiram, começou a verificar-se o incumprimento das famílias e os títulos das hipotecas a perder valor.
A banca começou, então, a ter de suportar os prejuízos do incumprimento mais a perda de valor dos títulos, com os bancos a não concederem créditos e a reter o capital, mas, como sem liquidez não é possível gerar riqueza, a situação veio a repercutir-se em todo o Mundo, instalando-se uma grave crise de confiança, o que gerou a intervenção estatal.

A falta que faz às sociedades as palavras da Igreja

Um dos problemas do nosso tempo é o facto de se ter utilizado a despropósito o desenvolvimento das sociedades, ao arrepio do que disse a Encíclica “Populorum Progressio”, onde Paulo VI, tendo compreendido profundamente a necessidade de ultrapassar os limites da dimensão económica e política do desenvolvimento, pôs em evidência o seu carácter ético e cultural, propondo como norma que o desenvolvimento para ser real teria de ser um compromisso de todos os homens e do homem todo.
Sem esquecer a questão social, aventou-se naquele importante documento papal que a solução se havia de encontrar a partir do equilíbrio universal, baseado na justiça e no dever de solidariedade entre os povos, culminando o seu pensamento com a célebre intuição profética: o desenvolvimento é o novo nome da paz.

Vinte anos depois, João Paulo II, ao fazer o balanço dos efeitos que a “Populorum Progressio” causou na sociedade humana, concluiu por um valor positivo, mas não deixou de apontar algumas sombras, pelo facto de ter aumentado o fosso entre ricos e pobres, geograficamente entre o Norte e o Sul, como se o desenvolvimento tivesse parado a meio do caminho, em virtude do má utilização dos recursos económicos que deixou para segundo plano o desenvolvimento dos povos.
Continuaram, irresponsavelmente, as sociedades de pé no acelerador, a vestir a moda do século XX – ser sem ter -  no prosseguimento de um desenvolvimento falacioso das sociedades, há que pôr em evidência a sabedoria da Igreja, quando diz que o mundo contemporâneo leva-nos a verificar, primeiro que tudo, que o desenvolvimento não é um processo rectilíneo, quase automático e de per si ilimitado, como se, com certas condições, o género humano tivesse de caminhar expeditamente para uma espécie de perfeição indefinida. (1)

Eis, porque, com todo o propósito, João Paulo II afirmou que havia entrado  em crise a própria concepção «económica» ou «economicista», ligada à palavra desenvolvimento. Hoje, de facto, compreende-se melhor que a mera acumulação de bens e de serviços, mesmo em benefício da maioria, não basta para realizar a felicidade humana. E, por conseguinte, também a disponibilidade dos multíplices benefícios reais, trazidos nos últimos tempos pela ciência e pela técnica, incluindo a informática, não comporta a libertação de toda e qualquer forma de escravidão. A experiência dos anos mais recentes demonstra, pelo contrário, que se toda a massa dos recursos e das potencialidades, postos à disposição do homem, não for regida por uma intenção moral e por uma orientação no sentido do verdadeiro bem do género humano, ela volta-se facilmente contra ele para o oprimir. (2)
Profeticamente, João Paulo II acertou no alvo.

Quando a economia se esquece que a sua função não é só a de produzir riqueza, mas que esta deve reger-se por uma intenção moral e por uma orientação no sentido do verdadeiro bem do género humano, o que acontece é aquilo a que assistimos, actualmente.
Os homens, ostensivamente entranhados no primado da razão – que julgam um valor absoluto - viram as costas aos ensinamentos da Igreja, mas sem cuidarem que o fazem contra si mesmos, ignorando ou desprezando os motivos fortes que a norteou, quando ela, fiel depositária de um saber milenar condenou o Iluminismo e o capitalismo sem rosto humano, geradores das grandes crises pela falta da intenção moral, que devia estar implícita e não está, nas atitudes balizadas só pela razão, mas esquecendo  a orientação no sentido do verdadeiro bem do género humano.





(1) - Papa João Paulo II . Encíclica “Solicitudo Rei Socialis”, nº 27 – Cap. IV: O Desenvolvimento Humano Autêntico.
(2)  - idem, nº 28