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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Picardia ou maldade política de António Costa?

                                  in, jornal online "Observador"


Num certo dia - já longe, há 21 anos - Cavaco Silva disse que era preciso ajudar Mário Soares a acabar o mandato de Presidente da República com dignidade.
Com razão ou sem ela, estas palavras foram ditas, mas manda a verdade dizer que Mário Soares com as suas "Presidências Abertas" fez a vida negra ao então Primeiro-Ministro Cavaco Silva.

António Costa, segundo as notícias de hoje devolve a Cavaco Silva as mesmas palavras, pelo que é gritante a picardia ou a maldade política deste candidato a Primeiro.Ministro.
Tendo ou não razão, a devolução não lhe fica bem. É uma brincadeira tolerável pelo tempo que passa e que rouba alguma lucidez aos mais sisudos.


E assim vamos a caminho das eleições legislativas do dia 4 de Outubro de 2015, mas a ver pelo conteúdo, parece que António Costa ou tem falta de Imaginação ou no ultrapassado juízo dos israelitas ortodoxos segue a linha do Livro do Êxodo 21,24 - "olho por olho dente por dente" - o que não lhe fica bem,  depois de tanta água ter passado debaixo das pontes, vir sofrer as antigas e esquecidas dores de Mário Soares... que afinal estavam a aguardar a oportunidade de serem saldadas não por ele, mas por outro...

Pois bem. 
Que todos nós - o povo que somos - ajudemos a dignidade comportamental a imperar e a  fazer a sua lei.
Isso é que conta. Quanto a estas maldades políticas... caixote do lixo!

domingo, 19 de julho de 2015

Agradecer à Natureza pela "casa comum"!


«Crescei, multiplicai--vos, enchei e submetei a terra.
Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais 
que se movem na terra.» (Gn 1,28)




Agradecer à Natureza pela "casa comum"!
É o que esta bela foto sugere.

A sua força, de certo modo, faz que a nossa mente quando interpreta o Princípio dos Tempos se volte para aquele desiderato de Deus relatado no Livro de Génesis acima referido e no gesto humano - olhando os braços abertos da personagem - atentemos que estes nos dão a noção de sermos no tempo presente, reflexos do que aconteceu na Origem, tendo  por direito próprio o poder do domínio sobre a Natureza.

No entanto, é conveniente entender que este domínio não é o de posse absoluta de um bem que é de todos, mas da posse que nos cabe, individualmente, sobre uma pequena migalha do Universo que deve ser preservada, e como tal, cumpre agradecer a Deus o facto de no-la ter concedido.

A gravura diz-nos algo sobre isto mesmo.

De braços abertos o que se lê no humano do gesto é que, aquela personagem agradece a Deus pela Natureza que tem em frente, como se esta fosse um livro aberto, sabendo que uma das páginas por lhe pertencer, é nela que tem de deixar a sua acção para bem da Ecologia sobre o cuidado da "casa comum", de que o Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis é o maior exemplo que temos desde o ano 1224, data em que se crê ter surgido este cântico de louvor à Natureza - com Deus na Origem - tendo o mesmo sido escrito e cantado pelo celebrado frade católico.

in, Jornal "Acção Missionária" de Julho 2015


CÂNTICO DAS CRIATURAS

Altíssimo, Omnipotente, Bom Senhor
Teus são o Louvor, a Glória, a Honra e toda a Bênção.

Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as Tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol,
que clareia o dia e que, com a sua luz, nos ilumina.
Ele é belo  e radiante, com grande esplendor;
de Ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã Lua e pelas estrelas,
que no céu formaste, claras,  preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor.
pelo irmão vento, pelo ar e pelas nuvens,
pelo sereno e por todo o tempo
em que dás sustento às Tuas criaturas.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã água, útil e humilde, preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão fogo, com o qual iluminas a noite.
Ele é belo e alegre, vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa,
produz frutos diversos, flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelos que perdoam pelo Teu amor
e suportam as enfermidades e  tribulações.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela nossa irmã, a morte corporal,
da qual homem algum pode  escapar.

Louvai todos e bendizei o meu Senhor!
Dai-Lhe graças e servi-O com grande humildade!


Este cuidado da "casa comum" que se pressente em cada verso inspirou a segunda Epístola do Papa Francisco - Laudato Si - Louvado sejas, meu Senhor - que, ao longo dos seus 246 artigos o que se pretende é chamar a nossa atenção pelos maus tratos que damos à mãe terra, exemplarmente exaltada por S, Francisco de Assis, pelo que o gesto de braços abertos da foto é uma prefiguração do que é cantado no Cântico das Criaturas, como se naquele gesto se abjurasse o pérfido conceito de nos julgarmos proprietários da mãe terra e seus dominadores, indo ao ponto de nos sentirmos autorizados - pela nossa própria e malévola autoridade - a saqueá-la, permitindo-nos possuir só para nós um bem que é de todos.

O Mandato do Domínio no versículo do Génesis acima referido no rodapé da foto, embora nos autorize a deitar mão de três Mandamentos, 
  • Crescei e multiplicai-vos,
  • Enchei e submetei a Terra,
  • Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre os animais que se movem,
Em nenhum deles se infere a posse dos bens só para si, ao belo prazer de cada criatura, mas usufruindo cada uma da parte que lhe cabe, pelo que, convém referir que todos aqueles que se focam, sobretudo, nos dois últimos Mandamentos o que fazem perante os seus iguais é apresentar uma face mutilada do Mandato do Domínio, quando este, o que pretende é que cada homem ao apresentar os braços abertos para a Natureza que é de todos - a "casa comum" de que nos fala o Papa Francisco - saiba que no agradecimento que lhe é devido, vai inteiro o sentido, de nos sabermos irmãos de:
  • Todas as criaturas,
  • Do Sol, 
  • Das estrelas.
  • Do vento,
  • Do ar e das nuvens,
  • Da água,
  • Do fogo,
  • Da nossa irmã terra,
E, assim, o que temos de reter é que cada coisa criada se irmana connosco e, portanto, cada uma delas deve merecer não a posse avara do nosso domínio sobre ela, mas sim, a posse racional de um bem que sendo parte comum da casa de todos, faz que todos sejamos arrendatários e não senhorios dos bens que a Natureza colocou ao nosso dispor.

Voltando ao braços abertos da foto o que aquela imagem sugere, não é só um agradecimento a Deus Criador, mas é, no nosso mundo hedonista um sinal profundo por ter sido assim que Jesus expirou na Cruz, deixando implícito no gesto, o amor que sentia por todos os homens, que, ou se voltam para todos e para Mãe Natureza onde Deus habita ou este Mundo cansado da destruição que está a causar à "casa comum", há-de ver - mas tarde - que a sua falta de amor pelos irmãos seus semelhantes e pelos outros irmãos expressos no Cântico das Criaturas, se há-de deixar vencer pelo excesso de posse, quando aquilo que havia de estar presente era o equilíbrio que é devido à sua justa repartição.

Que os nossos braços, vezes demais em baixo para poderem abraçar melhor as coisas da Terra, se ergam - como os da bela foto - e agradeçam os momentos que nos são dados viver, tendo a noção que é largo o horizonte, mas nosso, apenas é, o solo que pisamos como arrendatários e não donos da "casa comum".

sábado, 18 de julho de 2015

Afinal, há solução para as cheias de Lisboa!





Aquando das últimas cheias ocorridas na na cidade de Lisboa no passado mês de Outubro de 2014, o então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa e actual pretendente à conquista do lugar de Primeiro-Ministro, nas próximas eleições legislativas, disse esta coisa que soou muito mal em sectores ligados à engenharia hidráulica:

Não existe solução para as cheias em Lisboa

O presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, disse hoje que «não existe solução» para as cheias na cidade, refutando as críticas dos partidos da oposição que pedem a execução do plano de drenagem.
«O plano de drenagem não faz desaparecer estas situações. A solução não existe», afirmou hoje o autarca, à entrada para a assembleia municipal, quando questionado pelos jornalistas sobre a possibilidade de ocorrência de inundações como as que se registaram na segunda-feira e o impacto que poderá ter o plano.
Segundo o socialista «não haverá nenhum sistema de drenagem que permitirá evitar situações deste género», podendo apenas «minimizar» o problema.
António Costa reforçou ainda que a situação verificada na segunda-feira nada teve a ver com a falta de limpeza das sarjetas e dos sumidouros.
Na segunda-feira, PSD, CDS-PP e PCP (com assento na Câmara de Lisboa) solicitaram a execução do plano de drenagem da cidade, aprovado em reunião camarária em 2008 e com um prazo de 20 anos, para minorar as inundações em Lisboa
http://www.tsf.pt/

Nota: O sublinhado do título é nosso.

Da suas explicações dadas publicamente, destacamos:
  • O plano de drenagem não faz desaparecer estas situações.
  • A solução não existe.

Afinal existia um "plano de drenagem" aprovado em 2008 e que agora, com a mudança da Presidente da Câmara Municipal de Lisboa vai ser implementado com a construção de dois túneis de grane diâmetro que permitem recolher as águas pluviais a montante, no sentido transversal e direccioná-las para escoamento no Rio Tejo em Santa Apolónia e no Beato.

Donde se infere que a afirmação de António Costa - A solução não existe - falha verdadeiramente em todo o sentido, porquanto a solução existe e tecnicamente é possível, pelo que se aplaude o facto de levar à prática uma solução que existia e que pode ajudar a resolver o problema endémico das cheias de Lisboa, porquanto, mesmo que as cheias existam com as marés cheias do Tejo, as águas recolhidas pelos túneis aguardam que a maré baixe e façam escoar no rio os caudais represados.

No mínimo o problema ficará mais suavizado e entre o nada fazer como parece deduzir-se do que afirmou, porque - o plano de drenagem não faz desaparecer estas situações ou a solução não existe - fazer algo para minimizar o problema devia ter sido explicitado.

Esta hipótese nunca poderia ter sido abandonada, como vemos.
Bastou, apenas, mudar o Presidente da autarquia lisboeta.

Pelo que as suas afirmações extremas de não haver solução foram um pontapé no pé e se na altura soaram mal, agora com a publicação da construção dos dois túneis soam a falso, o que para alguém que quer ser Primeiro-Ministro de Portugal, ao debitar frases destas pondo em causa a engenharia hidráulica e a técnica que a sustenta, deixa-nos a pensar se ele merece ganhar as eleições para as quais se candidata, tendo pela frente os mil e um problemas do País.

O povo, porém, é soberano e ditará a sua lei.


Chega de demagogia!




A imagem e o que ela representa está desactualizada no que se refere ao celebrado Ministro das Finanças da Grécia - pós eleições demagógicas - Yánis Varoufákis, vale por aquilo que ela representa.

Farta de não haver adultos na sala com quem se pudesse negociar a senhora Lagarde pelo gesto pareceu ter dito:

- Chega de demagogia!

E chegou. 

Esta esquerda grega radical que conquistou o poder dizendo cumprir o que não tinha ao seu alcance - não merecia outro tratamento pelo facto de ter enganado o povo grego -  tão ao jeito da nossa esquerda radical, onde o PS se intrometeu pela voz de António Costa que agora se arrepia de ter dito em Janeiro que o Syriza - o partido do senhor Varoufáskis - era um caminho a seguir - ainda não entendeu que a Europa tem regras a cumprir, pelo que o caminho que Pedro Passos Coelho seguiu, foi aquele, porque não havia outro.

Por isso, o gesto de Lagarde bem pode entender-se como - se não tivermos juízo - repetir-se, um dia, pelo que se aconselha a seguir o velho ditado bem português: cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Canção - Um poema de Guerra Junqueiro (1850-1923)



Canção

Que durmam, muito embora, os pálidos amantes
Que andam contemplando a lua branca e fria;
Levantai-vos, heróis e despertai  gigantes!
Já canta pelo azul sereno a cotovia
E já rasga o arado  as terras fumegantes.

Entra-nos pelo peito em borbotões joviais
Este sangue de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que somos nós? Ferreiros de arsenais:
É bater, bater com alma na bigorna
As estrofes de bronze - as lanças e os punhais!

Acendei a fornalha imensa - a inspiração.
Dai-lhe lenha: a verdade, a justiça, o direito.
O entusiasmo, a loucura, a febre, a indignação;
E, p'ra que a labareda irrompa, abri o peito
E atirai à fornalha em brasa - o coração!

Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio, embora!
O poeta é como o sol: o fogo que ele encerra
É quem espalha a luz nessa amplidão sonora;
Queimemo-nos a nós iluminando a terra!
Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!

Guerra Junqueiro
in, Revista "Occidente"1º ano - volume 1 - nº 11
                       1 de Junho de 1878 


Quando se lê Guerra Junqueiro, ninguém fica indiferente à força rítmica e à pureza literária dos seus versos, que são - como estes que fui descobrir na antiga publicação acima referida - onde ele se fez ferreiro dentro daquela liberdade literária que só é concedida à Poesia e aos seus cultores, e por isso, bateu com alma em cima da bigorna da sua inspiração todos os versos, como se eles fossem lanças e punhais.

Assim escreveu, porque assim viveu!
Quando escreveu esta poesia - levando em conta o ano da sua publicação - Guerra Junqueiro teria 28 anos.

Vivia a idade dos grandes combates que ele travou com o mundo que conheceu numa Monarquia Constitucional que já suspirava pela República e os "ares" que ele bebeu na "Geração de 70" fê-lo abandonar o regime monárquico, e logo após o Ultimatum Inglês, desiludido, abraçou o republicanismo.

Espírito ardente, este poema é bem o retrato do homem que ele foi enquanto combatente das ideias e das crenças, mesmo das mais sagradas, pelo que, se poderá parecer um exaltamento indevido do poeta quando afirma aos seus iguais: Queimemo-nos nós iluminado a terra / Somos lava, e a lava é que produz a aurora, Junqueiro deixa-nos a pensar no que quis transmitir, parecendo que, pese embora, tudo quanto nos escapa da sobrenaturalidade que nos faz existir, compete-nos produzir um pouco da luz da "aurora" e ajudá-la a romper, sendo esta "aurora" aquilo que se ilumina em nós, quando deixamos que tal aconteça.

Guerra Junqueiro, no seu íntimo, sabia muito bem que que a lava - a parte divina que habita o coração do homem e ele atirou à fornalha em brasa - era bem capaz de em si mesmo e naqueles a quem dirige o poema, produzir a "aurora" com a chama que cabe a cada um ajudar a acender na grande fornalha do Mundo.

Pena que andemos distraídos e não saibamos que somos uma lava capaz de produzir as "auroras" para que fomos criados e para as quais devemos viver!

                                          É bater, bater com alma na bigorna. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Que fazer à casa de todos nós?


in. Google Earth

in, http://greensavers.sapo.pt

Com o título "Laudato Si" - Louvado Seja - no dia 18 de Junho, inspirado no "Cântico das Criaturas" de S. Francisco de Assis, que nele enaltece o Senhor Deus pela Natureza e pela Obra da Criação, o Papa Francisco publicou a sua segunda Carta Encíclica, fazendo dela um cântico à Natureza intitulado  - A CASA DE TODOS - tendo a pessoa humana em primeiro lugar, lembrando que Deus lhe ofertou o Mundo criado para ela continuar a Sua Obra e não para a destruir.

Tomando como lema orientador o fundador dos Franciscanos que comparou a terra ora a uma irmã com quem partilhamos a existência, ora a uma mãe que nos acolhe nos seus braços, este pensamento de S. Francisco sente-se presente nesta Carta Encíclica que leva o Papa a convidar a Humanidade a uma "conversão" no campo da ecologia, apontando a necessidade de uma mudança de rumo no sentido da protecção que nos deve merecer a "casa comum".
Alguns pontos-chave desta Carta Encíclica:

  • «As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, e constituem um dos principais desafios atuais para a humanidade». 
  • Como «o clima é um bem comum, um bem de todos e para todos» a sua alteração desenfreada é um desordenamento que atinge os mas vulneráveis.
  • Refere o Papa que «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos», pelo que privar ou dificultar este bem natural  «negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável».
  • Aponta-se que na relação entre os países mais ridos e pobres existe uma "dívida ecológica", frisando o Norte e o Sul do planeta, que diante das mudanças climáticas há  «responsabilidades diversificadas». Impressiona o Papa a  «fraqueza das reações» perante o drama actual de pessoas e das próprias populações.
  • Não deixa de se apontar a raiz humana que sustenta a crise ecológica que o Mundo vive centrada no poder, donde deriva o "descartável".
  • Retomando a linha mestra da "Evangelli Gaudium" afirma o Papa que a  «A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora», propondo mudanças no modo como se vive, princípio que não pode ficar à margem da educação ambiental e da espiritualidade.
  • Crítica às "grandes Cimeiras" onde são tomadas muitas medidas e, depois, pouco se vê que tenda a reduzir os problemas da ecologia.

Por fim, o Papa Francisco, não deixa de abordar a cultura do "usar e deitar fora" que é a grande responsável pelo aborto e pelo abandono dos idosos.

Esta súmula é amplamante explanada ao longo de seis Capítulos, frisando-se no nº 13 da apresentação da Carta Encíclica este apelo do Papa: O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.(...) e, nesta linha, ao referir que o Criador ama as suas criaturas, aponta o Papa que: A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. 

Que todos nós, individualmente e no todo, possamos estar atentos a esta asserção de confiança a que somos convidados pelo Papa Francisco e olhemos a "casa comum" como ela merece, deixando de ver, apenas no conjunto da universalidade, a nossa casa e tenhamos a capacidade humana de nos sentirmos arrendatários não da casa que nos pertence, mas da tal propriedade que é de todos.

Isto não é fácil de fazer - sabe-se, e o Papa também o sabe - mas é preciso, como ele fez, mandar a pedra para criar movimento nos charcos que em muitos lados abundam de águas estagnadas pela falta de respeito da ecologia universal.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dois poemas de Almeida Garrett (1799-1854)


                                                                       
                                                                                            Gravura publicada pela Revista 
                                                                     "Occidente" nº 24 de 15 de Dezembro de 1878


A colectânea de poesias "Folhas Caídas" foram publicadas em 1853 tendo merecido do seu autor uma justificação, advertindo os leitores que mesmo no Inverno da vida - Almeida Garrett tinha então 54 anos - havia de ser-se poeta até ao fim.

Com o Poeta assim aconteceu. A morte ceifou-o no ano seguinte ao da publicação deste livro emblemático, deixando-nos a pensar do motivo porque naquela idade já se sentia no Inverno da vida, algo que nunca saberemos.

Testemunho que é de um grande homem que ele foi, na vida política e literária, bem merece a transcrição que a seguir se apresenta da "Advertência" com que abre as "Folhas Caídas" fazendo jus à fidelidade do seu pensamento e, sobretudo, à verdade que nos quis deixar.



Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória.
A outros versos chamei eu já as últimas recordações da minha vida poética. Enganei o público, mas de boa-fé, porque me enganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro - às vezes imaginário, porque ninguém os coroa.

Eu pouco mais tinha de vinte anos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos versos que fazia. Que juramentos!
Se dos meus se rirem, têm razão; mas saibam que eu também primeiro me ri deles. Poeta na primavera, no estio e no outono da vida, hei-de sê-lo no inverno, se lá chegar, e hei-de sê-lo em tudo. Mas dantes cuidava que não, e nisso ia o erro.

Os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções.
Essas mais ou menos mostram o poeta que canta diante do público. Das Folhas Caídas ninguém tal dirá, ou bem pouco entende de estilos e modos de cantar.

Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que de nenhuns outros que fizesse. Porquê? É impossível dizê-lo, mas é verdade. E, como nada são por ele nem para ele, é provável que o público sinta bem diversamente do autor. Que importa?
Apesar de sempre se dizer e escrever há cem mil anos o contrário, parece-me que o melhor e mais recto juiz que pode ter um escritor é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio. Eu sei que tenho os olhos abertos, ao menos agora.

Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças.
Enfim, eu não queimo estes. Consagrei-os ignoto deo. E o deus que os inspirou que os aniquile, se quiser: não me julgo com direito de o fazer eu.

Ainda assim, no ignoto deo não imaginem alguma divindade meia velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia para que todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.

Imaginação que porventura se não realiza nunca. E daí, quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta de mais. Saúde, riqueza, miséria, pobreza e ainda coisas mais materiais, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, aproximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a ele.

Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossível. Não sei. Essa é uma disputação mais longa. 
Mas sei que as presentes Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito, que, tendendo ao seu fim único, a posse do Ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a ele, ora ri amargamente porque reconhece o seu engano, ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã.
Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória. Ele não entende bem disso, e vós não entendeis nada dele.
Deixai-o passar, porque ele vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis dele, que o calunieis, que o assassineis. Vai, porque é espírito, e vós sois matéria.

E vós morrereis, ele não. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta, que é a mesma de Adão, também será punida com a morte.
Mas não triunfeis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta.


As "Folhas Caídas" respeitam, como se pode ver, de uma época da sua vida íntima, onde  -é ele que o diz - consagrou os seus versos ao Ignoto Deo, envolvendo-O num manto de mistério,  e no impossível de que ele nos fala não se inibe de dizer que o poeta é louco, o que, para quem o queira entender, as poesias deste livro correspondem a estados de alma e sem escusar de nos dar uma explicação mais concisa, logo acrescenta: nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito, que é algo de que damos conta à medida que vamos lendo os seus poemas.

Como acontece com os grandes Poetas, neles só o corpo é mortal.
A sua poesia, não!
Vejamos dois exemplos desta asserção:


IGNOTO DEO

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu.
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência!, a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirado se afasta,
Ignoto Deus, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prosto e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro – confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só ‘spera.


É a este Deus Desconhecido - ao pés do qual depõe as "Folhas Caídas" que ele se entrega, aspirando chegar ao infinito donde veio, entregando-lhe  a confissão sincera da sua alma, razão suficiente para lermos com o desvelo que pudemos cada um dos seus versos na sinceridade como a sua mente os concebeu.


AVE, MARIA

Maria, doce Mãe dos desvalidos,
A ti clamo, a ti brado!
A ti sobem, Senhora, os meus gemidos,
A ti ó hino sagrado
Do coração de um pai voa, ó Maria,
Pela filha inocente.
Com sua débil voz que balbucia,
Piedosa mãe clemente,
Ela já sabe, erguendo as mãos tenrinhas,
Pedir ao Pai dos Céus
O pão de cada dia. As preces minhas
Como irão ao meu Deus,
Ao meu Deus que é teu filho e tens nos braços,
Se tu, mãe de piedade,
Me não tomas por teu? Oh!, rompe os laços
Da velha humanidade;
Despe de mim todo outro pensamento
E vã tenção da Terra;
Outra glória, outro amor, outro contento
De minha alma desterra.
Mãe, oh!, Mãe, salva o filho que te implora
Pela filha querida.
De mais tenho vivido, e só agora
Sei o preço da vida,
Desta vida, tão mal gasta e prezada
Porque minha só era...
Salva-a, que a um santo amor está votada,
Nele se regenera.



Todos nós, algum dia, teremos erguido as mãos a Maria, à doce mãe dos desvalidos como o Poeta lhe chama para acudir a um filho doente.
É isto que encontramos em cada um dos versos desta invulgar - AVE MARIA - espelhada na aflição de Almeida Garrett, que num dado momento da sua oração de súplica, fala deste modo:
Despe de mim todo outro pensamento
E vã tenção da Terra; 

E é, a esta luz que se pressente na manifestação de abandono das coisas da Terra - sempre vãs se nelas não pomos a beleza do espírito - que o Poeta na sua verdade, olhando a vida, tão mal gasta e prezada, nos dá a sabedoria de que, num dia qualquer tomamos consciência, vivendo a vida - mal gasta - sendo que é, ao mesmo tempo, tão prezada, porque só temos uma para viver... e gastá-la mal gasta é um desperdício.


Mãe, oh!, Mãe, salva o filho que te implora
Pela filha querida.
De mais tenho vivido, e só agora
Sei o preço da vida,
Desta vida, tão mal gasta e prezada
Porque minha só era...
Salva-a, que a um santo amor está votada,
Nele se regenera.


domingo, 28 de junho de 2015

Penso em ti - Um poema de Júlio Dinis



Penso em Ti

Surge a manhã! Tudo é festa
Tudo no campo é prazer,
Trinam as aves na floresta
Hinos de sol ao nascer,
Nestas horas misteriosas,
Em que dos jasmins e rosas
Sobem perfumes aos céus,
Nestas horas de magia
Em que tudo tem poesia,
Meus pensamentos... são teus.

Leva o sol seu curso em meio,
Tudo inunda em clara luz
E só das selvas no seio
Branda sombra se produz.
Mal se ouvem os zumbidos
Dos insectos e os gemidos
Da fonte caindo além;
Nesta hora de ardente calma
De amor só me fala a alma
E este amor - é teu também.

Já vai desmaiado o dia,
Aumenta o grato frescor,
E na alameda sombria
Gorjeia o alado cantor;
Soltam-se os diques às presas,
Da rega é a hora, e às rezas
Convida o bronze cristão;
Cede o trabalho ao descanso
Nestas horas de remanso,
Meus pensamentos teus são.

Noite é já. A lua alta
Dos ares cruza a amplidão.
Longe, ao longe, o mar exalta
Aos céus a vaga canção;
E do arvoredo a folhagem
Quer na sua linguagem,
Seus bramidos imitar;
O sono a terra domina
E a tua imagem divina
Me enleia em brando sonhar!

Penso em ti a toda a hora,
De manhã, pelo arrebol,
Depois, quando à luz da aurora
Sucede o fulgor do sol;
Penso em ti na hora amena
Em que a tarde vai serena
Envolver-se em ténue véu;
Penso em ti de noite escura,
E é toda a minha ventura;
A mais não aspiro eu.

in, Poesias


Em rodapé deste poema, lê-se:


Aspirar, aspiro, mas... Esta poesia (perdoem-me o nome) não é um simples jogo de fantasia. O que ela é, escuso de o dizer. Os que a entenderam dispensam explicações.
Os outros não sei se feliz se infelizmente para eles, nem com um volume inteiro de notas a entenderiam melhor.
Em quanto a este tique que nela figura, se me perguntarem quem é. colocam-me em sérias dificuldades. Não saberei responder talvez satisfatoriamente.


Ao tom intimista dos sofrimentos da alma, a que todos estamos sujeitos, não se furtou Joaquim Guilherme Gomes Coelho - de seu pseudónimo Júlio Dinis - que deixou ficar para a posteridade esta nota que bem merece o nosso respeito pelo homem que ele foi, médico de profissão e que morreu tuberculoso, na plena idade em que, se não fora a doença  - tinha 32 anos - esta lhe matou todos os sonhos, incluindo os sentimentais referentes à constituição de família.

Penso em ti...

E quando se vivem dramas como o que tomou de assalto a vida de Júlio Dinis, este pensar como ele o refere passa a ser um infiel companheiro da vida desde o romper do dia até que este se feche na abóboda celeste e continua de noite a martelar os sentidos, pelo que este "Penso em ti", enquanto testemunho que é, e verdadeiro do homem que foi o ameno e bucólico escritor das gentes e paisagens da nossa ruralidade nortenha do século XIX, é um momento de rara beleza humana e, por isso, bem merece ser lembrado.

O liberalismo - dito democrático - dos nossos dias...




"HORAS DE PAZ" é uma obra publicada em dois volumes - e, hoje, pouco conhecida - do grande e multifacetado talento de Camilo Castelo Branco, que assim a chamou para ilustrar, no tempo em que a escreveu (1855) - tinha então 30 anos - alguma paz interior, que é algo que num dia qualquer da existência, por muito tumultuosa que seja, se sente, pelo facto do homem ser um misto de carne e espírito e, quando este, se alteia por cima dos desmandos da carne é o fautor, por excelência, da formusura da sua condição natural.

No 1º volume desta Obra - Cap. VII - sob o título "Do Papa e do seu poder temporal", dando veia larga ao polemista que ele foi, refutando um aritgo publicado com o mesmo título nos nºs 4 e 5  do jornal literário de ideias liberais "A Península" que se publicou no Porto, Camilo Castelo Branco num dado passo escreve assim:

Se abris um livro, se estudais um artigo, se dissecais um pensamento dessa prodigiosa biblioteca de modernos civilizadores, para logo se vos aclara a ideia inspiradora de seus sistemas,  e vedes o desvelo incansável e fervoroso de todos eles, resumido na palavra ASSOCIAÇÃO todas as venturas constituintes da felicidade do povo.
Associação industrial, associação agrícola, associação comercial, associação mercantil, associação literária, associação à luz do dia, associação nas trevas da noite - é tudo associação, menos "associação religiosa".

E sarcástico como era seu timbre, Camilo continua a zurzir nas ideias liberais de cariz coercitivas, dizendo:

Nisto, manda a razão confessar que não são contraditórios os que se intitulam amigos do "género humano".
Apostados em desviar os discípulos da escola estacionária dum espiritualismo sobre-humano, convém aos "mestres" fazê-los carne, embrutecê-los na vida dos sentidos, acorrentá-los às sensações externas, materializá-los, enfim. (...)



Passaram 160 anos desta crítica de Camilo aos "mestres" do Liberalsmo e todas as suas palavras estão mais actuais que nunca, porque nestes tempos "democráticos" - que deviam ser e não o são na pureza que a verdadeira Democracia defende - as ideias liberais continuam a ser a cama onde se deita esta "democracia" doente.

E, ainda, que sejam permitidos movimentos religiosos gregariamente associativos - porque deles depende, em grande medida o bem colectivo às pessoas marginalizadas que o Estado esquece - este mesmo Estado liberal que se diz "democrático" faz a todo o custo tentativas de desviar os discípulos da escola estacionária dum espiritualismo sobre-humano, no dizer de Camilo, que ao falar deste modo, diz às claras - para quem o quer entender - que a escola estacionária nos aspectos da matriz em que assenta o seu "Credo" não pode ir além dos ditames do seu Fundador que lhe ditou Leis Eternas que têm de resistir aos liberalismos de qualquer tempo.

Pelo que é um "crime" que o nosso Estado ou qualquer outro dos nossos dias comete:

  • Quando aposta em desviar o homem do espiritualismo sobre-humano, ou seja, aquele que está acima da razão do cálculo matemático das sebentas escolares,
  • Quando aposta em fazer do homem um arcaboiço metido num pedaço de carne,
  • Quando aposta  em embrutecê-los na vida dos sentidos,
  • Quando aposta em acorrentá-los às sensações externas.

Prova esta pequena análise em cima dum velho escrito das "HORAS DE PAZ" do grande escritor, que ele - que conheceu tantas horas amargas - num dado momento da sua vida aquietou a turbulência da sua vida para ter um encontro de paz com Deus e que as suas velhas palavras continuam a ser setas atiradas ao nosso tempo, apostado, sobremaneira, em matar toda a vida do sentido religioso e em seu lugar, enchê-la dos prazeres da carne que depois de morta é um monte de pó sem qualquer valor, enquanto o sentido religioso do homem e a sua abertura ao transcendente não morre com a finitude da carne.

Um facto que os "mestres" dos liberalismos de ontem e de hoje, propositadamente esquecem para impor a sua "lei" aos distraídos e, manhosamente, aos que se apegam à escola estacionária de que nos falou e bem, Camilo Castelo Branco.