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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Olhar em Frente!


 
É acreditando nas rosas que as fazemos desabrochar.
Anatole  France

 
Olhando a mirada em frente do barqueiro, dir-se-á que ele leva nos olhos a crença de que  por entre o verde das margens ou, até, no basalto rochoso dos montes - e, quem sabe, no azul nublado do céu - só ele é que vê a rosa  de que nos fala o feliz pensamento de Anatole France, e que ele sabe, vai desabrochar pela força da sua vontade.
Impressiona esta imagem.
Olhando-a atenciosamente, vê-se que o barco corta a direito a água do rio, estando o remo pousado horizontalmente sob as pernas do barqueiro, o que nos transmite o poder da crença do seu olhar em frente.
Não é, pois, a força do remo que dirige o barco.
É, antes, a força do seu olhar e o poder da sua vontade!

 
Vauvenargues, a este propósito, falo deste modo:
 
Não temos vontade que não seja produzida por alguma reflexão ou por alguma paixão. Quando levanto a mão, é para fazer uma experiência com a minha liberdade ou por alguma outra razão. Quando me propõem um jogo de escolha entre par ou ímpar, durante o tempo em que as ideias de um e de outro se sucedem no meu espírito com rapidez, mescladas de esperança e temor, se escolho par, é porque a necessidade de fazer uma escolha se apresenta ao meu pensamento no momento em que par está aí presente. Proponha-se o exemplo que se quiser, demonstrarei a qualquer homem de boa-fé que não temos nenhuma vontade que não seja precedida por algum sentimento ou por algum arrazoado que a faz nascer. É verdade que a vontade tem também o poder de excitar as nossas ideias; mas é necessário que ela própria seja antes determinada por alguma causa. (...)
in, "Discurso Sobre a Liberdade"
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É esta causa que tem de fazer com que se sonhe a existência da rosa e se veja o seu desabrochar, ainda que seja no meio do maior lamaçal.
Efectivamente, não existe nenhuma vontade que não seja precedida por algum sentimento, razão, porque - voltando à feliz imagem do barqueiro a olhar em frente - existe em qualquer um de nós, o sentimento da necessidade de nos ultrapassarmos em busca da realização da crença, seja ela material ou espiritual, por ser por aqui que passa o caminho mais recto para encontrar a rosa sonhada, ou seja, aquele momento da vida em que, vencido o caminho se descansa e se dá graças a Deus pela meta alcançada.
Eis, porque, olhar em frente é o que se impõe em cada dia ou em qualquer uma das jornadas que ele nos apresenta, porque no fim, a rosa - ou seja, o sonho procurado - há-de desabrochar!
E tudo isto resulta de se acreditar... e porfiar!
 

32º Domingo do Tempo Comum - Ano "C" - 10 de Novembro de 2013

Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e fizeram-lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?». Disse-lhes Jesus: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». (Lc, 20, 27-38)
Senhor:
paciência, eis o que nos devemos ter
com todos os homens que negam
a Ressureição.
Assim aconteceu, com a explicação que deste
aos saduceus, que negando a Ressureição
resolveram pô-la a ridículo
com aquela artimanha que inventaram
da mulher casada com sete irmãos.

Aqueles homens para Te atrapalhar
basearam-se na lei de Moisés
 - que ignorava a ressureição -
mas Tu atacaste-os no seu próprio campo
fazendo-lhes ver que até ele,
ao ver Deus na "sarça ardente" e ter ouvido
que Ele era o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacob
que, embora, tendo morrido, haviam, ressuscitado,
deixaste vincado, que depois da vida neste mundo
há "outro mundo",
um mundo novo onde não se morre;
porque há uma outra vida nos ressuscitados,
vivendo como Anjos de Deus.

E, desse modo, os ressuscitados
não se casam
nem se dão em casamento.


31º Domingo do Tempo Comum - Ano "C" - 3 de Novembro de 2013


Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido». (Lc 19, 1-10)

Zaqueu, perante a sociedade do seu tempo,
dada a sua profissão odiosa,
poder-se-ia dizer: era um caso perdido,
por conviver com gente pagã ede maus costumes
e, sobretudo, por estar arregimentado
com o exército invasor
e ter amealhado pela extorsão que fazia
aos seus compatriotas uma imensa fortuna.

Diz o texto que ele era, fisicamente, de pequena estatura,
- igualando no aspecto a moral pouco recomendável -
mas tendo ouvido falar que Jesus, ia passar por Jericó
subiu ao alto para ver melhor o forasteiro, cuja estatura
 - em qualquer dos sentidos -
ao invés do que acontecia com ele era admirada pelo povo.

Estremeceu, Zaqueu,
àquele inusitado convite: Desce depressa
que Eu hoje devo ficar em tua casa.
E relata-se que o publicano, amigo da folia com os pecadores,
desceu e recebeu Jesus com alegria.
e converteu-se.

Olha, Senhor: posso não o parecer,
mas, porque mal Te conheço,
sou como Zaqueu.
Passa ao pé de mim e chama-me, mas não te faças convidado.
Vem, Senhor. 
aloja-te em minha casa!
E pela alegria de Te receber
ensina-me como devo agir,
para que, tudo o que tenho demais
seja repartido com os meus irmãos!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Uma reflexão sobre Diógenes.


 
Gravura publicada pelo Jornal "O António Maria" de 7 de Setembro de 1882
 
 
O novo Diógenes que se impõe existir e actuar no tempo que passa, se não houver ainda despertado atendendo à corrupção do tempo,  é uma necessidade absoluta que venha a acontecer, porque os homens estão a caminhar por um caminho perigoso da moral e da honra na sua vivência diária e da qual nos dão conta os jornais, os noticiários e, até, muitos dos homens públicos que tinham o dever de ser exemplo.
Certamente - que a um novo Diógenes -  não se lhe vai pedir que imite na perfeição o velho filósofo da Grécia antiga (404-42 a.C.) no aspecto andrajoso de um qualquer mendigo da rua, como ele se tornou ao percorrer Atenas de lamparina na mão, em pleno dia, dizendo que andava à procura de um homem íntegro, de honestidade irrepreensível - mas têm de lhe imitar o propósito, ou seja, encontrar um homem que cumpre estes dons.
Há quem sustente, que o homem que Diógenes procurou pelas ruas de Atenas só veio a existir com o advento de Jesus Cristo, séculos depois, concentrando na integridade moral que trazia, enquanto enviado de Deus, os dons naturais da beleza humana em relação ao dever de olhar os semelhantes e ver neles irmãos, como tal merecedores de serem olhados como fez Plínio na célebre carta que dirigiu a Trajano, dizendo que o que encontrava nos cristãos - que se diziam irmãos - era a obrigação feita por juramento de se absterem do roubo, do adultério, do perjúrio, de faltar á sua palavra, algo que hoje está perdido - em muitas mentes - pela adulteração de um tempo paganizado.
Razão suficiente para que surja, aí, num dia qualquer, um novo Diógenes.
E a pergunta que fica é, se, como então aconteceu, vamos ficar séculos à espera que apareça um homem honesto, parecido com Jesus Cristo.
É evidente que construímos uma fábula e tudo isto não passa de uma imagem.
Mas que o tempo que passa precisa de ser repensado na honra e na moral que deve dirigir os passos do homem, parece não haver dúvidas, pelo combate que é feito as linhas do Evangelho por todos aqueles que têm o desplante de dizer aos quatro ventos: graças a Deus sou ateu, deitando lama no caminho que pisam, com a agravante de levarem outros homens a pisar a sua própria lama.
Descristianizamos a sociedade, mas não somos felizes.
Que isto nos sirva de reflexão.
E, por isso, se amanhã, nos aparecer num dos muitos caminhos da cidade um homem de lanterna na mão e com aspecto estranho  - como quem procura algo por entre o bulício e os passos apressados da multidão - não o tomemos de tolo: mas entendamos que ele incarna a figura do velho filósofo de Atenas...que procurou e não conseguiu encontrar um homem honesto.



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Sobre um pensamento de Francisco Arámburo

 

   Fotografei este pedaço de sabedoria a partir de um diaporama que a amizade fez chegar até ao meu correio electrónico. Não conheço o autor desta frase, mas cumpre-me dizer se há alguma ilicitude em tê-la retratado e fazer dela o tema para o que vou escrever, peço desculpa, mas não me foi possível resistir à sua beleza, que deixa às claras todo um mundo de contornos belíssimos, onde a velhice é exaltada de um modo exemplar e, de tal modo único e em tão breves - mas concisas palavras - que são uma profunda e bela lição de Humanidade. Ao seu autor tiro o meu chapéu e agradeço.
 
  
Começo por fazer esta pergunta: - o que é a velhice?
E respondo, citando um texto eloquente de filosofia de Kierkegaard, intitulado:

 
Memória vs Recordação
As Armas da Juventude e da Velhice


   Recordar-se não é o mesmo que lembrar-se; não são de maneira nenhuma idênticos. A gente pode muito bem lembrar-se de um evento, rememorá-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a recordação. A memória não é mais do que uma condição transitória da recordação: ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recordação. Esta distinção torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho perde a memória, que geralmente é de todas as faculdades a primeira a desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imaginação popular vê no velho um profeta, animado pelo espírito divino. Mas a recordação é a sua melhor força, a consolação que os sustenta, porque lhe dá a visão distante, a visão de poeta. Ao invés, o moço possui a memória em alto grau, usa dela com facilidade, mas falta-lhe o mínimo dom de se recordar.  Em vez de dizer: «aprendido na mocidade, conservado na velhice», poderíamos propor: «memória na mocidade, recordação na velhice». Os óculos dos velhos são graduados para ver ao perto; mas o moço que tem de usar óculos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da recordação, que tem por efeito afastar, distanciar.
A feliz recordação do velho é, como a feliz facilidade do moço, um gracioso dom da natureza, da natureza que protege com seus cuidados maternais as duas idades da vida que mais precisam de socorro, se bem que, em certo sentido, sejam também as mais favorecidas. Mas é por isso também que a recordação, tal como a memória, muitas vezes não passa de portadora dos dados mais acidentais.
    Apesar de se distinguirem por grande diferença, a recordação e a memória são por vezes tomadas uma pela outra. A recordação é efectivamente idealidade, mas como tal, implica uma responsabilidade muito maior do que a memória, que é indiferente ao ideal.

 
Soren Kierkegaard, in "O Banquete"

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   O filósofo Kierkegaard (1) diz num dado passo que a imaginação popular vê no velho um profeta, animado do espírito divino, uma asserção que faz todo o sentido cristão se cotejarmos aquela frase com a prece do ancião, de que se faz eco o salmista: Não me rejeites no tempo da velhice, não me desampares, quando se for acabando a minha força (Sl 70, 9) e de um modo mais explícito quanto à sabedoria acumulada - de muitas juventudes vividas - no mesmo Livro bíblico, um pouco mais adiante, sobre o espírito divino de que nos fala o filósofo está expresso - com toda a carga sobrenatural que alimenta a alma de todo o homem - este conceito sábio sobre todos aqueles que praticam o bem: Até na velhice dão frutos e hão-de manter-se sempre fortes e sadios. (Sl 91, 14).
   Se analisarmos com o espírito despido dos preconceitos do mundo profano que não vê na velhice a carga de sabedoria que o filósofo lhe atribuiu na reflexão que nos deixou e, do mesmo modo, o que está escrito na mensagem de Arámburo, e, por fim, a entendermos à luz divina que lhe deu em feixes largos o Livro dos Salmos nos dois exemplos referidos, o que sentimos é que há no homem velho um gracioso dom da natureza que faz intuir nele a graça do tempo que passou, porque os velhos até na velhice dão frutos, pela simples razão que todos aqueles que não deixaram morrer a raiz, serão sempre e até ao fim árvores sadias, à sombra das quais as aves da "floresta humana" fazem os seus ninhos e é a partir dos seus galhos, apesar de gastos, que os "pardais" costumam partir para a aventura da vida, estribados na sua força.
   Pensando bem, efectivamente, nenhum de nós é velho, "o que acontece é que temos muita juventude acumulada".
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(1) - Søren Aabye Kierkegaard (Copenhague, 5 de Maio de 1813 — Copenhague, 11 de Novembro de 1855) foi um filósofo e teólogo dinamarquês. Kierkegaard criticava fortemente quer o hegelianismo do seu tempo quer o que ele via como as formalidades vazias da Igreja da Dinamarca. Grande parte da sua obra versa sobre as questões de como cada pessoa deve viver, focando sobre a prioridade da realidade humana concreta em relação ao pensamento abstracto, dando ênfase à importância da escolha e compromisso pessoal. A sua obra teológica incide sobre a ética cristã e as instituições da Igreja. (in, Wikipedia)
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sobre um pensamento de Victor Hugo

 


Há, a par das Palavras Divinas - que hão-de ficar para sempre, por terem sido inspiradas por Deus - palavras que se parecem com Aquelas, sendo, embora de homens, mas que, por ttasportarem o divino da criatura a que Deus chamou  "seu semelhante" hão-de ficar na memória dos homens por largo tempo.
O pensamento de Victor Hugo que encheu o mundo de palavras assim, deu-nos a maravilha lapidar que acima se reproduz, algo que levou, o talento e a serenidade do olhar da grande poetisa que foi Fernanda de Castro a escrever este soneto.

Alma Serena
 
Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

Fernanda de Castro, in "Ronda das Horas Lentas"
 
 
Fernanda de Castro acaba o poema, sobre a vida que lhe resta, dizendo: Eu não canto, porém, atrás dum muro / eu canto para toda a gente - porque ela foi sempre e, também, nos tempos da sua velhice uma luz, tal como podemos depreender da prosa seguinte, de Júlio Dantas, que afirma convictamente: Nada menos exacto do que supor que o talento constitui privilégio da mocidade, porque há muita luz na ciência dos mais velhos.
Se a juventude tem chamas é nos velhos que existe a luz maior.
Aquela que não queima, mas ilumina.
Vejamos Júlio Dantas a espraiar no seu texto, a luz que consegue iluminar à rectaguarda o tempo que passou.
 
 
O Talento na Juventude e na Velhice


Nada menos exacto do que supor que o talento constitui privilégio da mocidade. Não. Nem da mocidade, nem da velhice. Não se é talentoso por se ser moço, nem genial por se ser velho. A certidão de idade não confere superioridade de espírito a ninguém. Nunca compreendi a hostilidade tradicional entre velhos e moços (que aliás enche a história das literaturas); e não percebo a razão por que os homens se lançam tantas vezes reciprocamente em rosto, como um agravo, a sua velhice ou a sua juventude.
 Ser idoso não quer dizer que se seja necessariamente intolerante e retrógrado; e engana-se quem supuser que a mocidade, por si só, constitui garantia de progresso ou de renovação mental. As grandes descobertas que ilustram a história da ciência e contribuíram para o progresso humano são, em geral, obra dos velhos sábios; e a mocidade literária, negando embora sistematicamente o passado, é nele que se inspira, até que o escritor adquire (quando adquire) personalidade própria.
(...) A mocidade, em geral, não cria; utiliza, transformando-o, o legado que recebeu. Juventude e velhice não se opõem; completam-se na harmonia universal dos seres e das coisas. A vida não é só o entusiasmo dos moços; nem só a reflexão dos velhos; não está apenas na audácia de uns, nem apenas na experiência dos outros; realiza-se pela magnífica integração das virtudes contrárias, sem a qual não seria possível, em todo o seu esplendor, a marcha da humanidade. Que se ganha em cavar um abismo entre mocidade e velhice, se uma é, fatalmente, o prolongamento da outra; se o que passa de mão em mão é, afinal, o mesmo facho aceso, como na corrida ritual da Grécia antiga; e se, bem vistas as coisas, não está de nenhum modo provado que os novos sejam intelectualmente os mais novos, e os velhos os mais velhos?
Júlio Dantas, in "Páginas de Memórias"

domingo, 3 de novembro de 2013

Armando Côrtes Rodrigues (1891-1971)



Foto gentilmente cedida e autorizada a sua publicação
pelo Ex.mo Senhor João Rebelo,
neto de dois grandes amigos do Poeta, a quem este ilustre açoriano
a ofereceu e dedicou no ano de 1924.



Armando César Côrtes Rodrigues nasceu em Vila Franca do Campo (Açores) em 1891 e faleceu em 1971, tendo ficado órfão, pela morte da mãe, desde o seu nascimento.
Frequentou os estudos liceais em Ponta Delgada, tendo-se dirigido a Lisboa onde se licenciou em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, entre 1910-1915, período da vida em que contactou com Fernando Pessoa, tendo com ele feito parte do movimento intelectual da Revista "Orpheu", onde publicou alguns trabalhos sob o pseudónimo Violante de Cysneiros (1)

Regressado aos Açores em 1917, foi Professor dos liceus de Ponta Delgada e de Angra do Heroísmo, tendo mantido com Pessoa abundante troca de correspondência, enquanto o seu labor literário se debruça sobre estudos de etnografia açoriana - oral e popular - campo em que viria a gozar de uma grande aura, cultivando ao mesmo tempo o seu estro poético, mergulhando-o em poesia de um acentuado pendor religioso.

É o celebrado autor teatral da famosa peça "Quando o Mar Galgou a Terra", a qual, com as adaptações que lhe foram feitas, foi tema de um filme português que deu algum brado no acanhado meio fílmico português.
Com toda a justiça em 1953 ganhou o Prémio Antero do Quental através do seu livro "Horto Fechado e Outros Poemas", trabalho literário que foi buscar às suas próprias raízes o devido merecimento.
Homem de grande cultura, o Instituto Cultural de Ponta Delgada, honra-se de o ter e honrar como um dos seus sócios fundadores, afirmando-se, com todo o mérito um dos intelectuais de maior nomeada do séc. XX, não só nos Açores, como no Continente.

A toponímia de Ponta Delgada não o esqueceu, existindo em sua memória a "Morada da Escrita/Casa Armando Côrtes Rodrigues" um espaço de cultura inaugurado na sua derradeira morada em terra açoriana, em Janeiro de 2007, tendo como finalidade proporcionar um Centro de Convívio com pessoas da cultura, mas aberta ao público em geral, recebendo actividades, como: conferências, exposições, ateliers direccionados à incentivação da escrita e interpretações de obras literárias e sessões de cinema.
Da sua vasta obra, contam-se as seguintes:

Pela sua ligação profunda a Fernando Pessoa, transcreve-se "ipsis-verbis" uma carta recebida deste seu ilustre confrade do "Orpheu" que bem merece a leitura pela demonstração da grande amizade que uniu os dois poetas.

[Carta a Armando Côrtes-Rodrigues - 19 Jan. 1915]

Lisboa, 19 de Janeiro de 1915.
               Meu querido Amigo:
Há tempos que lhe ando prometendo uma extensa carta. Não sei mesmo se, especificando, lhe não falei numa carta de género psicológico, a meu próprio respeito. Em todo o caso, é disso que se trata.

Eu ando há muito - desde que lhe prometi esta carta — com vontade de lhe falar intimamente e fraternalmente do meu «caso», da natureza da crise psíquica que há tempos venho atravessando. Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a alguém, e não pode ser a outro senão a você — isto porque só você, de entre todos quantos eu conheço, possui de mim uma noção precisamente no nível da minha realidade espiritual. Dá-se esta sua capacidade para me compreender porque você é, como eu, fundamentalmente um espírito religioso; e, dos que de perto literariamente me cercam, você sabe bem que (por superiores que sejam como artistas) como almas, propriamente, não contam, não tendo nenhum deles a consciência (que em mim é quotidiana) da terrível importância, da Vida, essa consciência que nos impossibilita de fazer arte meramente pela arte, e sem a consciência de um dever a cumprir para com nós-próprios e para com a humanidade.

Nesta explicação aparentemente preliminar vai já exposta uma grande parte do problema. Não sei como lho hei-de expor ordenadamente; de modo perfeitamente lúcido. Mas, como isto é uma carta, eu irei expondo conforme possa; e você ordenará, em seu espírito, depois, os dispersos e alterados elementos.
A minha crise é do género das grandes crises psíquicas, que são sempre crises de incompatibilidade, quando não com os outros, por certo com nós-próprios. A minha, agora, não é de incompatibilidade comigo próprio; a minha, gradualmente adquirida, auto disciplina, tem conseguido unificar dentro de mim quantos divergentes elementos do meu carácter eram susceptíveis de harmonização. Ainda tenho muito a empreender dentro do meu espírito; disto ainda muito de uma unificação como eu a quero. Mas, como disse, não é dessa banda que sopra o vento do meu desconsolo actual.

A crise de incompatibilidade com os outros — não, entenda-se desde já, uma incompatibilidade violenta, como a que resultasse de divergências declaradas, nítidas, de ambas as partes. Trata-se de outra coisa. A incompatibilidade é sentida por mim, dentro de mim, e é comigo que está o peso todo da minha divergência de aqueles que me cercam. O facto de eu estar agora vivendo só, por não ter aqui família próxima (minha tia, em cuja casa eu estava, está na Suíça, onde foi ficar com a filha, que casou há pouco com um rapaz estudante, pensionista do Estado) vem agravar este estado de espírito, por me deixar a nu com a minha alma, sem afeições e interesses familiares próximos a desviar de mim a minha atenção.
Temos pois que vivo há meses numa continua sensação de incompatibilidade profunda com as criaturas que me cercam - mesmo com as próximas, amigos, literários é claro, porque os outros não são indivíduos com quem eu tenha que poder ter intimidade espiritual e por isso — como, em matéria de relações sociais, me dou bem com toda a gente, dou-me bem com eles.

Em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude para com a vida que bata certo com a minha íntima sensibilidade, com as minhas aspirações e ambições, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu íntimo ser espiritual. Encontro, sim, quem esteja de acordo com actividades literárias que são apenas dos arredores da minha sinceridade. E isso não me basta. De modo que, à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma acção sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a civilização vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida. 
E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante coisa, mais terrível missão — dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador-de-civilização de toda a obra artística. E por isso o meu próprio conceito puramente estético da arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim muita mais perfeição e elaboração cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo à missão que me sinto uma perfeição absoluta no realizado, uma seriedade integral no escrito.

Passou de mim a ambição grosseira de brilhar por brilhar, e essa outra, grosseiríssima, e de um plebeísmo artístico insuportável, de querer épater. Não me agarro já à ideia do lançamento do Interseccionismo com ardor ou entusiasmo algum. É um ponto que neste momento analiso e reanaliso a sós comigo. Mas, se decidir lançar essa quase-blague, será já, não a quase-blague que seria, mas outra coisa. Não publicarei o Manifesto «escandaloso». O outro — aquele dos gráficos — talvez. A blague só um momento, passageiramente, a um mórbido período transitório, de grosseria (felizmente incaracterístico), me pôde agradar ou atrair. Será talvez útil — penso — lançar essa corrente como corrente, mas não com fins meramente artísticos, mas, pensando esse acto a fundo, como uma série de ideias que urge atirar para a publicidade para que possam agir sobre o psiquismo nacional, que precisa trabalhado e percorrido em todas as direcções por novas correntes de ideias e emoções que nos arranquem à nossa estagnação. Porque a ideia patriótica, sempre mais ou menos presente nos meus propósitos, avulta agora em mim; e não penso em fazer arte que não medite fazê-lo para erguer alto o nome português através do que eu consiga realizar. É uma consequência de encarar a sério a arte e a vida. Outra atitude não pode ter para com a sua própria noção-do-dever quem olha religiosamente para o espectáculo triste e misterioso do Mundo.
Tenho-lhe explicado tudo isto muito mal. Quase que me tenta a ideia de rasgar esta carta onde, até, pouca justiça fiz a mim próprio. Mas você deve compreender o que eu sinto, e, creio, regozijar comigo, através da sua amizade, por esta minha evolução ascendente dentro de mim.

Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras-de-sentir. Agora, tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me [não] desvie disto o meu perigoso feitio demasiado multilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si.
Mantenho, é claro, o meu propósito de lançar pseudonicamente a obra Caeiro-Reis-Campos. Isso é toda uma literatura que eu criei e vivi, que é sincera, porque é sentida, e que constitui uma corrente com influência possível, benéfica incontestavelmente, nas almas dos outros. O que eu chamo literatura insincera não é aquela análoga à do Alberto Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos (o seu homem, este último, o da poesia sobre a tarde e a noite). Isso é sentido na pessoa de outro; é escrito dramaticamente, mas é sincero (no meu grave sentido da palavra) como é sincero o que diz o Rei Lear, que não é Shakespeare, mas uma criação dele. 

Chamo insinceras às coisas feitas para fazer pasmar, e às coisas, também — repare nisto, que é importante — que não contêm uma fundamental ideia metafísica, isto é, por onde não passa, ainda que como um vento uma noção da gravidade e do mistério da Vida. Por isso é sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer destes pus um profundo conceito da vida, diverso em todos três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir. E por isso não são sérios os Paúis, nem seria o Manifesto interseccionista de que uma vez lhe li trechos desconexos. Em qualquer destas composições a minha atitude para com o público é a de um palhaço. Hoje sinto-me afastado de achar graça a esse género de atitude.

Que pouco lúcido e explícito tudo isto! Mas eu tenho que lhe escrever tudo rapidamente; é hoje o dia 19 e eu não quero deixar de conversar com o seu espírito sobre estas coisas. Como já disse, você é o único dos meus amigos que tem, a par daquela apreciação das minhas qualidades que lhe permitirá não julgar esta carta um documento de megalómano, a profunda religiosidade, e a convicção do doloroso enigma da Vida, para simpatizar comigo em tudo isto.
Escuso agora de lhe explicar o quanto esta atitude — que eu, aliás, não revelo, por várias razões, desde a de ser uma coisa íntima até à de ser incompreensível às sensibilidades dos que me cercam — me incompatibiliza surdamente com os que estão em meu redor. Não é uma incompatibilidade violenta, disse; mas é uma impaciência para com todos quantos fazem arte para vários fins inferiores, como quem brinca, ou como quem se diverte, ou como quem arranja uma sala com gosto — género de arte este que dá bem o que eu quero exprimir, porque não tem Além nem outro propósito que o, por assim dizer, decorativamente artístico. E daí a minha «crise» toda. Não é crise para eu me lamentar. É a de se encontrar só quem se adiantou de mais aos companheiros de viagem — desta viagem que os outros fazem para se distrair e acho tão grave, tão cheia de termos de pensar no seu fim, de reflectir no aqui diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa inconsciência guia os nossos passos... Viagem essa, meu querido Amigo, que é entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores... e Deus, fim da estrada infinita, à espera no silêncio da Sua grandeza...

Bem ou mal — mal, por certo — expus-lhe tudo. Sinto-me contente por lhe ter falado assim, e porque sei que o seu espírito acolhe com simpatia e amizade estas minhas tristezas de altura. Tudo isto, escuso dizer-lhe, é segredo... De resto, a quem o poderia você contar?...
Termino, a tempo felizmente. Mande-me quando puder, cuidadosamente copiados dos originais, os inéditos de Antero de que me fala. Pode ser que, tendo-os aqui, seja conveniente publicá-los nalguma parte. Haverá autorização para isso? É bom saber-se.
Mando-lhe alguns versos meus... Leia-os e guarde-os para si... A seu Pai, se quiser, pode lê-los, mas não espalhe porque são inéditos. Amo especialmente a última poesia, a da Ceifeira onde consegui dar a nota paúlica em linguagem simples. Amo-me por ter escrito
               «Ah, poder ser tu, sendo eu!
                Ter a tua alegre inconsciência
                E a consciência disso!...
e enfim, essa poesia toda.
Tenho escrito mais, mas mando o que está completo e é mais fácil copiar. É pena que vá tudo em letra de máquina, que torna a poesia pouco poética, mas assim é mais rápido e nítido.
Escreva-me sempre, meu caro Côrtes-Rodrigues. Dê cumprimentos meus a seu Pai e receba um grande e fraterno abraço do seu
               Fernando Pessoa


in, http://arquivopessoa.net/textos/3510

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Obras poéticas e contos


(1922), Ode a Minerva. Angra do Heroísmo.
(1922), Conto do Natal para a Fernanda in Os Açores, Revista Ilustrada, Ponta Delgada, Barbosa e Irmão.
(1924), Em Louvor da Humildade. Poemas da Terra e dos Pobres. Ponta Delgada, Artes Gráficas.
(1934), Cântico das Fontes. Ponta Delgada, Gráfica Regional.
(1942), Cantares da Noite Seguidos dos Poemas de Orpheu. Ponta Delgada, Gráfica Regional.
(1948), Quatro Poemas Líricos. Porto.
(1953), Horto fechado e Outros Poemas. Porto, Imprensa Portuguesa.
(1956), Antologia de Poemas de Armando Côrtes-Rodrigues (org. Eduíno de Jesus). Coimbra, Arquipélago.
(1957), Em Louvor da Redondilha. Atlântida, 1, n.º 6: 341-342.
(1957), Auto do Espírito Santo. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada.
(1965), Auto do Natal. Atlântida, 9, n.º 6: 195-211.

Teatro e cinema

(1926), Auto do Natal. Lisboa, s.n..
(1932), O Milhafre. Angra do Heroísmo, Liv. Editora Andrade.
(1940), Quando o Mar Galgou a Terra. Ponta Delgada, Papelaria Âmbar.
(1942), Cantares da Noite Seguidos dos Poemas de Orpheu. Ponta Delgada, Gráfica Regional (poesia, foi argumento de filme em 1954, realizado pela produtora Filmes Albuquerque, Lisboa).

Crónicas

(1961-1966), Voz do Longe. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada.

Etnografia

(1937), Poesia Popular Açoriana. Angra do Heroísmo, Tipografia Editora Andrade.
(1942), Cantar às Almas, Açoriana, Angra do Heroísmo, 3, n.º 1: 17-35.
(1982), Cancioneiro Geral dos Açores. Angra do Heroísmo, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 3 volumes.
(1982), Adagiário Popular Açoriano. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 2 volumes

in, Wikipédia

Vamos da sua obra poética exaltar as seguintes composições através das quais se pode aquilatar da alma grande que habitou e impulsionou o homem no seu profícuo labor intelectual, que de tão grande que foi, deixou sinais perduráveis no tempo.


A VOZ DO SILÊNCIO


Silenciosa,

A noite calma,
Ó quantas coisas
Me diz à alma!

Cessai, ó fontes
A ladainha;
Deixai a noite
Falar sozinha.

Quanto mistério,
Quanto segredo,
No ar perpassa
Como que a medo...

Ó voz da noite,
Que comoção!
Como o teu, bate
Meu coração.

E a treva funda,
A treva densa
Tem um martírio
De mágoa imensa.

Treva da vida,
Quem não sofreu?
Ó céu azul
Que escureceu...

Por isso ecoa
Dentro da minh'alma
A voz silente
Da noite calma.

in, "Em Louvor da Humanidade"


Há um conceito popular muito difundido nas regiões montanhosas,  ou isoladas, que diz: ao olhar a imensidão daquilo que nos dodeia ouve-se o silêncio, como se o observador situasse o seu pensamento na abertura do sétimo selo de que nos fala o Apocalipse (8,1), quando houve pelo espaço de meia hora silêncio no Céu, significando isso, que se esperava as grandes coisas que iriam acontecer e, por isso, tal como o observador "escuta o silêncio" na expectativa de acordar desse êxtase para a realidade, o leitor do Apocalipse ao ouvir o silêncio que se fez no Céu, fica à espera do que Deus desvende o mistério.
O Poeta Armando Côrtes Rodrigues, quando nos fala da noite calma e do que esta lhe diz, ao pedir que deixem a noite falar sozinha, não esconde o que pretende saber: a raiz do mistério que perpassa no ar, como se fosse um segredo escondido na treva funda, deixando ficar patente o sofrimento que a treva da vida impõe, ao ponto de levar a fechar-se o céu azul / que escureceu... havendo nestes dois versos uma alusão ao céu que se fechou na hora em Cristo agonizava na Cruz.
É por isso que neste poema simples mas profundo, o Poeta pede que deixem a noite falar sozinha. Precisava entender a voz silente - a forma poética de chamar o silêncio - em que na interrogação de si mesmo, feita já noite calma, se revelasse, como o fizeram as trombetas do Apocalipse o anúncio de uma nova e definitiva jornada da sua própria vida de um crente convicto no Crucificado.


(POEMA 8º DO LIVRO)


Canto.
E neste silêncio adormecido
A minha voz ganhou outro encanto,
Parece uma outra voz ao meu ouvido.

Canto.
O que disse, o que digo, o que direi?...
A minha voz vai ter à voz do mar. No entanto,
Qual é depois a minha voz, nem eu sei.

Para quê?
Deixa o meu canto andar errando à revelia...
Ninguém por ele dê,
Nem quando acaba ou quando principia.

Orquestração da vida!
Quanto ardor nela ponho!
Em que alma há-de ecoar, enternecida,
A canção do meu sonho?...

in, "Cantares da Noite"



OUTRO (Nº 7)


Nada em mim é necessário,
Nem mesmo o que foi sonhado:
Ó contas do meu rosário
Dum sonho não acabado!

Tudo tão feito de Mim,
Só o longe do passado
É como um sonho sem fim
Que outro tivesse sonhado.

Cruzo os meus braços. Não falo.
Ouço uma voz dolorida
Dentro de mim, evocá-lo

Marinheiro! Ilha perdida!
E o meu sentido, a sonhá-lo
É a verdade da vida.

in, "Cantares da Noite"


(SONETILHO 3º DE VIOLANTE DE CISNEIROS) (1)

Quando a paisagem recolhe
Seus olhos, na tarde calma,
É como alguém que se olhe
Com olhos de alma p'ra alma.

Se a paisagem esmorece,
Fechando os olhos doridos,
É como alguém que perdesse
A noção dos seus sentidos.

Não vê... não ouve... não fala...
Paisagem de si ausente,
Fico-me ausente de olhá-la.

Caminho. Noite cerrada!
Sou a paisagem de ausente
Toda em mim transfigurada.

in, "Cantares da Noite"

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(1) - Pseudónimo do autor nos tempos da Revista "Orpheu"

Alfredo Guisado (1891-1975)


Foto de autor não identificado, in, Ruas de Lisboa com Alguma História
 
 
Placa evocativa descerrada no dia 22 de Janeiro de 2000
pela CML, no nº 108 da Praça D. Predo IV (Rossio)
  
 
Alfredo Guisado nasceu em 1891 em Lisboa, na antiga freguesia de Santa Justa, no nº 108 da Praça D. Pedro IV, no 4º andar deste prédio, onde se pode ler uma placa evocativa e faleceu na mesma cidade, freguesia de S. Domingos de Benfica, em 1975.
Filho de pais galegos, formou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa.
Foi militante do Partido Republicano Português e exerceu vários cargos políticos: deputado, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e Governador Civil, em substituição do detentor do cargo.
Desde muito cedo se interessou pelo municipalismo e pelo jornalismo, tendo colaborado com assiduidade na "Répública" de que foi Sub-Diector no tempo em que este conceituado jornal  - hoje, infelizmente desaparecido pela maldade dos homens - foi o único órgão da imprensa que se opunha ao ideário do Estado Novo.
Como literato a sua actividade fez-se sentir na sua aderência ao movimento modernista encabeçado pela Revista Trimestral de Literatura "Orpheu" - nos únicos dois números publicados referentes aos dois primeiros trimestres de 1915 - não tendo continuado a partir de Julho, pelo encerramento da Revista devido a dificuldades económicas.
Publicou obras, como:
 "Rimas da Noite e da Tristeza (1913)", "As Treze Baladas das mãos Frias (1916)", "Mais alto (1917)", "Ânfora (1918)", "A Lenda do Rei Boneco (1920)", "As cinco Chagas de Cristo (1927)", sendo algumas obras de Poesia escrita com o pseudónimo de «PEDRO MENEZES». O seu último trabalho " A Pastora e o Lobo", editado em 1974, um ano antes da sua morte.

 
Este livro antologia o melhor da poesia de Alfredo Guisado, cidadão exemplar e poeta de mérito que, em vida, nunca se preocupou com a publicação da sua obra poética. Tempo de Orpheu (1915-1918), inclui sonetos como “Cair da Tarde” que são, na opinião de Urbano Tavares Rodrigues: “... autênticas obras-primas, dentro da. corrente simbolista e da sua estética.”. Xente d’Aldea, escrito na língua materna de Guisado, o Galego, e publicado pela primeira vez em 1921, é um livro no qual, segundo Eloísa Alvarez, “... o poeta responde ao apelo de umas raízes que aninhava na alma, [...] um livro que é uma confissão de amor à terra, à cultura, à sentida voz do povo galego.” (in, contra-capa deste Livro)
 
 
Poeta de grande sensibilidade, a ele se ficam devendo composições de rara beleza como as que a seguir se reproduzem:
 
BALADA DAS HORA VELHAS
 
Olho. Passa na alameda
Tua Alma de mãos erguidas
De tarde a rezar por mim.
E entre camélias vencidas
Tuas rezas são de seda,
Teus pedidos de marfim.
 
E no teu passar acordam
Os lírios estremunhados
P'ra beijar os dedos teus...
E ao ver os lírios, recordam
Rolhas de frascos cansados
De guardar perfume-Deus.
 
Deus te abençoe nos lírios
E te conduza entre círios
Ao jardim do meu Sonhar.
Que os lírios num gesto exangue
Sei que são gotas de sangue
Que perdeu Jesus-Luar.
 
E eu sinto que rezam cor
Os lábios da minha Dor...
Cor, religião dos olhos.
Desmaia a tarde, envelhece.
É quando a cor endoidece
E quer fugir p'ra os teus olhos.
 
É quando sonho de ver-te.
E quando meu coração
Te lembra a forma morena
Dum boneco que em pequena
Deixaste cair no chão
E se quebrou de perder-te.
 
É quando os montes são quietos,
Quando não há quem se afoite
Com medo de encontrar Deus.
É quando os lábios são pretos,
Deus só se sente na Noite
E é Noite só para Deus.

in, "As Treze Baladas das Mãos Frias"


O BALOIÇO

Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.

Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.

Neste baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.

E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.

in, "A Lenda do Rei Boneco"