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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Poemas de Natal "roubados" por mim aos Poetas de Portugal




Andei à procura de textos poéticos sobre o Menino-Deus, que desde todo o sempre mereceu dos Poetas de Portugal recordações do seu nascimento profético do qual  Isaías, 700 anos antes do magno acontecimento de Belém, havia falado deste modo: Pois bem, o Senhor mesmo dar-vos-á um sinal: eis a Virgem que concebe e dá à luz um Filho ao qual será dado o nome de Emanuel - que quer dizer: Deus connosco - (7, 14) e que, Miqueias na mesma época, ao profetizar o mesmo acontecimento esperado desde a primeira aurora dos tempos, apontou a cidade de Belém como a terra  natal de Jesus: E tu, Belém de Éfrata tão pequena entre as primeiras cidades de Judá, de ti sairá para mim, Aquele que há-de dominar em Israel. (5, 1).

Nessa procura gratíssima encontrei uma mão-cheia de poemas de Natal que deixo aqui como homenagem, em primeiro lugar a Jesus e, depois, aos Poetas que lhe ergueram hinos de louvor, lembrando-O, enternecidamente. 

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

CARTA DE NATAL A MURILO MENDES

Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no Verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez deste postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal

Para ligar o eterno a este dia.

Sophia de Mello Breyner Andresen
POEMA DE NATAL

Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen


A NOITE DE NATAL

Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.

Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.

Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.

Mário de Sá-Carneiro


HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre


NATAL

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Manuel Maria Barbosa du Bocage


NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio


PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira




quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Crê no que lês. Ensina o que crês.Vive o que ensinas.





O pensamento de Galileu Galilei bem pode pelo sentido do conselho que nos dá, dar-nos uma pista de reflexão sobre a tríade de palavras que serve de título para este apontamento: 

Crê no que Lês. Ensina o que crês. Vive o que ensinas.

Encontrei estas três verdades postadas num velho livro da minha estante, a fazer de separador de páginas, e por elas, cheguei ao conselho do grande sábio, sobretudo, quando tratamos com pessoas empertigadas, cheias de si mesmas, porque a essas pessoas nada se ensina por causa da sua vaidade de pouco importando discordar com elas, mas tem de ser com aquelas - que por vezes sentimos pouco firmes nas suas convicções - que lhes devemos fazer sentir a necessidade de serem elas mesmas, dentro de si, a procurar o modo que as possa levar a ter respostas sensatas.

Fazer isto é um acto lícito, na linha da amizade humana que todos devemos uns aos outros e, assim, teremos como proposições adequadas:

- Crê no que lês, como uma primeira condição de acerto intelectual, porquanto, nem todas as leituras se enquadram connosco, no nosso sentir mais profundo.

- Ensina o que crês, pois só deste modo seremos autênticos em tudo aquilo que afirmamos, que não pode deixar de ter a nossa anuência a uma causa ou a um princípio pelo qual o nosso entendimento se possa inebriar.

- Vive o que ensinas, que não existe mal maior e anti-social que pregar aos outros aquilo que não fazemos, porque a termos este procedimento nos comparamos aos velhos fariseus do tempo de Jesus Cristo e contra os quais se rebelou.


Todos sabemos quão difícil é mostrar ao outro a necessidade de num dado tempo do dia entrar dentro dele mesmo, tentando levar-lhe o sentido do conselho de Gaileu Galilei, na sua parte final, mas todos temos de saber, que tem de ser em nós mesmos que havemos, um dia, de encontrar as respostas que porventura, hoje, nos estão faltando, cheios como andamos com leituras e audições que sem nos pedir licença, como acontece, especialmente, com as audições, entram em nossas casas e, quantas vezes, em lugar de nos preencherem têm o péssimo hábito de não nos ilustrar.


Leão XIII - O Papa que aproximou a Igreja com o mundo-pós Revolução Industrial



O Papa Leão XIII (1878~1903)

Foto publicada pela Revista "Occidente" xxv volume, nº 833 - 20 de Fevereiro de 1902


De seu nome de baptismo Vicenzo Gioacchino Pecci, este pleclaro cristão católico desde Carpineto a sua terra natal do território de Siena, subiu toda a escala de formação e ordenação eclesiástica até ao dia 18 de Fevereiro de 1878, em que o conclave cardinalício o elegeu Papa, tendo escolhido para o exercício do seu alto magistério o nome de Leão XIII.

A sua Encíclica "Rerum Novarum" de 15 de Maio de 1891 que o levou a tecer sábias considerações sobre a miserável condição do operariado, foi, sobretudo, uma Cata Aberta que ele dirigiu aos Bispos de todo o mundo, onde as questões levantadas no decurso da Revolução Industrial em desfavor dos operários, tendo na devida conta as sociedades que iam acolhendo a Democracia em finais do século XIX, o levou a apoiar o direito dos trabalhadores em formarem os seus próprios Sindicatos - sem contudo deixar de verberar as tendências socialistas e sociais-democratas da época - mas, pondo como questão fundamental a discussão das relações entre os governos, os negócios, o trabalho e a Igreja.

Para tanto, Leão XIII criticou veementemente a falta de princípios éticos e valores morais da sociedade que via laicizar-se perigosamente, donde resultavam em grande parte a causa dos graves problemas sociais, propondo uma melhor justiça na vida social, económica e industrial, com uma melhor distribuição da riqueza, advogando a intervenção do Estado a favor dos mais desprotegidos, bem como a existência dos patronatos no sentido de educar, proteger e alimentar a população mais carente.

A "Rerum Novarum" é unanimemente considerara a "Carta Magna" do Magistério Social da Igreja, ficando-se-lhe a dever uma sistematização mais actuante do pensamento social católico, onde, ainda hoje, vai "beber" a Doutrina Social da Igreja, sendo aquela Encíclica o primeiro pilar - e o mais importante - que permitiu à Igreja Católica erigir o belo Edifício do Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa S. João XXIII em 25 de Dezembro de 1961 e terminado em 8 de Dezembro de 1965, pelo Papa Paulo VI.


No nº 2 da Introdução da "Rerum Novarum",  Leão XIII, expõe com clareza aquilo a que ele chamou, as
Causas do conflito

Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários.



Quando, hoje, vemos alguns Sindicatos, mormente os que se tornam elos da corrente que os liga a forças partidárias de protesto social - como acontece entre nós com a CGTP - é-nos lícito pensar que o Papa Leão XIII, com a Encíclica "Rerum Novarum" lhes deu lições sociais que eles aproveitaram, a par de outros documentos do Concílio Vatican II - como a Constituição Pastoral "Gaudium et Spes"-  que é uma tomada de posição do alto Magistério da Igreja Católica sobre o mundo actual, contra os desvios relativamente aos mais pobres.

É assim, que na Introdução - no capítulo "A Condição do Homem no Mundo Actual", no nº 4. é dito o seguinte:  Nunca o género humano teve ao seu dispor tão grande abundância de riquezas, possibilidades e poderio económico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra é atormentada pela fome e pela miséria, e inúmeros são ainda os analfabetos. Nunca os homens tiveram um tão vivo sentido da liberdade como hoje, em que surgem novas formas de servidão social e psicológica. Ao mesmo tempo que o mundo experimenta intensamente a própria unidade e a interdependência mútua dos seus membros na solidariedade necessária, ei-lo gravemente dilacerado por forças antagónicas; persistem ainda, com efeito, agudos conflitos políticos, sociais, económicos, «raciais» e ideológicos, nem está eliminado o perigo duma guerra que tudo subverta. Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado.

Pena e, por isto, que alguns Sindicatos - e mormente a CGTP -  não tenham aproveitado os ensinamentos cristãos para serem mais próximos destes mestres católicos, continuando a propor o método marxista da "luta pela luta", na certeza que, uma certa humildade no reconhecimento  - que foi a todos os modos uma revolução com incidências sociais dentro da Igreja Católica a partir de Leão XIII - traria mais paz social que os seus desacatos de linguagem e de protestos populares, que não deixam de ser, apenas, um modo de se protagonizarem a eles mesmos.

A Igreja actual - passadas que estão épocas de alguns desvios doutrinais incompreensíveis e de que já se penitenciou - é,hoje, a todos os títulos, uma Instituição que tendo chamado a si com sentimento renovado a pregação do seu fundador - Jesus Cristo - vive melhor com a sociedade de onde imergem os homens que a servem e fundamentalmente empenhados na difusão da doutrina evangélica, mas partindo dela para uma atenta defesa social da sociedade, sobretudo, para os cuidados a ter com uma certa ganância mercantilista que Leão XIII denunciou e a actual Doutrina Social da Igreja não deixa de apontar como um dos graves defeitos sociais do nosso tempo.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Uma bela cartada!




Gravura de M.M. Bordalo Pinheiro
publicada pela Revista "Occidente" 1º ano - vol.I - nº 22 - 15 de Novembro de 1875


UMA BELA CARTADA


Olho esta velha gravura e o que ela traduz, hoje, numa apreciação livre - que me permito fazer - dos gestos dos personagens apostados no jogo de cartas, bem ao contrário do que o autor lhe quis dar, que não fosse outro motivo, que o entretenimento de dois amigos num qualquer botequim da época, onde não falta a linda serviçal, é, para nosso mal, o seguinte:

A personagem de fraque dasabotoado, de lacinho ao pescoço, pelo gesto das penas descontraídas e do rosto onde existe um riso alvar, fez uma cartada de mestre e colocou o adversário, de traje simplório na negrura das vestes, a coçar na cabeça, dando mostras de não saber como responder ao outro, de tal modo que a serviçal o olha com alguma piedade.

Na tal interpretação livre que já falei, atrevo-me a dizer o seguinte:

O jogador da bela cartada - com ar de gozo - personifica o CAPITAL estrangeiro que pela terceira vez depois do 25 de Abril, fomos obrigados a pedir em 2011, depois do canhestro consulado de um Governo de má memória, para continuarmos a ter ordenados pagos à Função Pública, mantendo em funcionamento o Serviço Nacional de Saúde (SNS), as Escolas, todo a Aparelho Judicial e tudo o mais dependente do Estado.

O jogador enrascado, com uma das mãos na cabeça, tem o pesado encargo de representar todo o povo português, coma agravante de não assumir na sua geração o pagamento da DÍVIDA que é devida ao CAPITAL que nos foi emprestado, porque ele sabe que o respectivo pagamento vai recair nos seus filhos e netos.

A serviçal, parece estanha à cena, mas não é. Representa a Pátria com fronteiras definidas mais velha da Europa e tem no olhar meigo como olha o jogador enrascado, embora com a jovialidade que costuma ter a PIEDADE, uma censura velada, vendo-o naquela postura de não saber o modo como se há-de livrar do aperto em que o pôs - mas sem qualquer culpa da sua parte - o CAPITAL manhoso que quer receber de volta e o mais depressa possível os juros respectivos.

Lastimo, ao olhar esta velha gravura ter omitido um encontro lúdico de amigos e ver, nela, o que acima ficou dito.

É o que sinto, por me rever no jogador enrascado a coçar a cabeça, com pena não só de mim mesmo, mas dos meus descendentes que vão pagar sem terem culpa, os desacatos económicos de uns maus políticos que nos apareceram com cravos a florir as espingardas e, agora, nos dão espinhos, porque eles mesmos já não sabem como hão-de fazer florir as rosas...


Já lá vão 99 anos e ainda estamos a aprender!




in, jornal "O Zé" de 7 de Setembro de 1915


E já lá vão 99 anos!
E a aprendizagem onde está?

É que a situação em que nos encontramos por causa da tal política - ver último verso - continua a ser um engulho nacional, mercê das correntes políticas mais responsáveis não se entenderem em questões que deviam ultrapassar os tempos legislativos e constituírem leis de âmbito nacional que de modo algum deviam ficar dependentes de quem, num dado momento gere a coisa pública.

E não digo mais nada, a não ser que o poeta Vid'alegre, lendo o que ele nos diz em versos breves e ligeiros, certamente, tinha toda a razão e interpretava uma parte importante do povo, naquele recuado ano de 1915, como hoje, parece haver quem diga o mesmo, ou seja:
                                            Nada se faz a valer
                                            com acerto e com vontade (...)

É que, o fazer a valer seria mesmo para ser a valer e não para mudar quando muda o Governo, como não raro, acontece entre nós, onde - o que eu faço é que é bom - só, porque, está na linha da caça ao voto...

Ou será que me falta a razão?


Um amor para sempre - Conto de Natal





UM AMOR PARA SEMPRE!



     Naquele fim de tarde andava pelas ruas do bairro um ruído de pessoas apressadas fazendo as compras de Natal, ora entrando, ora saindo das lojas onde abundavam numa amálgama milhares de brinquedos e de outro comércio que nesta época – mais que em nenhuma outra – oferece ao público, abundantemente, todas as colecções da época de roupas e agasalhos, juntando-se a tudo isto, como era costume, sobre os passeios das ruas  enfeitadas do bairro a venda dos pinheiros de Natal com todos os elementos decorativos para enfeitar o Presépio.

Manuel Justino olhava tudo à sua volta, mas sem se deter, um momento que fosse.
De cima dos seus oitenta anos, lembrava os Natais antigos e os momentos vividos com a sua companheira de toda a vida, a sua querida Gertrudes, que lhe dera seis filhos dedicadíssimos e, hoje, com os seus casamentos, um montão de netos que ele muito estimava.
O ancião que havia vivido toda a sua juventude naquele bairro do centro da grande cidade, era uma referência de honestidade e rigor de atitudes, sendo, por isso, estimado por todos, quer os velhos da sua idade, quer pelos mais novos. Todos conhecia pelos nomes.

Naquele fim de tarde, Manuel Justino levava, de facto, um passo apressado.
Apressado demais para a sua idade, o que lhe causava algum desajeito no modo como caminhava, torcendo o corpo magro em cada passada, fazendo crer em todos aqueles que o saudavam que avançava preocupado, dando ares de quem não queria perder a meta que todos os dias alcançava, no passeio costumado que o levava à Casa de Saúde onde estava internada a sua querida Gertrudes.
     Ia de tal modo absorto nos seus pensamentos íntimos que todo o barulho e todas as luzes não eram bastantes para lhe prende a atenção, durando isto até ao momento em que o Gonçalo, o seu velho companheiro, ao cruzar-se com ele, o interpelou deste jeito:

- Que pressa a tua hoje, Manuel... para onde vais assim... quase a correr?
- Olha, sabes, aquela gente da Casa de Saúde, com estas coisas do Natal, alteraram a hora da visita diária para mais cedo. Como o soube a destempo, apresso-me para não faltar à minha Gertrudes...
- E ela, como está?
- Continua muito mal – responde de olhos no chão, Manuel Justino – Sabes, a doença dela é daquelas que incapacitam de todo... o Alzheimer é terrível, sabes lá... está assim há cinco anos, mas  agora já nem sabe quem eu sou...

O Gonçalo, preocupado com o tom da conversa e sabendo que o não podia demorar, ainda assim, fez uma última pergunta seguida desta recomendação desajeitada:

- Mas, então, se ela já não te conhece... porque vais tão depressa? Se hoje a não visitasses, que mal teria?

Manuel Justino olhou o amigo de alto a baixo e sem responder àquelas palavras que eram uma ofensa ao seu grande amor pela esposa, com um modo onde apesar de tudo mostrou algum desagradado, num tom de voz o mais sereno de que foi capaz, respondeu-lhe:
- Adeus, Gonçalo, tenho de ir. Não posso perder a hora da visita...

E um pouco a frente, voltando-se para trás, rematou deste jeito o diálogo:

- É que, se ela já não me conhece eu sei bem quem ela é... e isso me basta para ir lá todos os dias, assim o Senhor me ajude. É comigo...

Gonçalo ficou apreensivo e de mal consigo mesmo.
Ao penitenciar-se das suas palavras, que  pela postura do velho amigo lhe pareceram inadequadas e duras de coração, veio-lhe à lembrança um velho conceito de Stendhal: O amor é o milagre da civilização, parecendo-lhe, imediatamente, que agira como se fosse um homem das cavernas, longe de qualquer sentimento próprio de um homem civilizado, que até era.

Lembrou-se que no dia seguinte era Dia de Natal, uma época em que o Amor, por um mistério de Deus está mais vivo, sentindo martelar na sua consciência as últimas palavras do Manuel Justino: É que se ela já não me conhece eu sei bem quem ela é... e deu consigo a pensar como é bom sentir um amor assim, dando graças a Deus pelo amor do amigo para com a velha esposa.
De imediato, correu atrás do amigo que ofendera, levando no íntimo um sentido arrependimento e um desejo de lhe pedir perdão. Só que, entretanto, ele já se sumira por entre a amálgama dos transeuntes, não lhe restando outra hipótese, senão a mais evidente: ir no seu encalço até à Casa de Saúde.
Assim aconteceu.

Ali chegado, logo à entrada estava armado o Presépio.
Nossa Senhora e S. José sorriam e o Menino entre palhas, olhava em redor, parecendo dar a todos os pormenores um profunda reparo e, de tal modo assim pareceu ao Gonçalo que ele sentiu no mais fundo do seu íntimo que aquele Menino o olhava profundamente, verberando-lhe as palavras infelizes que dera ao Manuel Justino, e que lhe martelavam a consciência, ouvindo distintamente dentro de si a resposta do amigo à sua falta de respeito pela esposa que a doença privara do conhecimento das pessoas, incluindo as mais queridas.

- É que se ela já não me conhece eu sei bem quem ela é...

      Ajoelhou-se ali mesmo, sem quaisquer respeitos humanos e entrou numa bela oração, só interrompida muito tempo depois, quando deu que ao pé de si estava ajoelhado o Manuel Justino que acabada a hora da visita dera com o Gonçalo naquela postura de grande recato e adoração à  Sagrada Família, que ali no átrio da Casa de Saúde, erguia um hino de Amor à gruta de Belém, onde nem faltavam ovelhas e muito menos os Reis Magos.
Os dois, ficaram ali, ainda um momento, num silêncio muito doce, mas onde foi possível ouvir, no fim, esta prece muita sentida do Gonçalo:

- Menino Jesus... se for possível – e contigo tudo é possível – faz que a Gertrudes volte a conhecer o Manuel - e uma lágrima rolou quente sobre a sua face até se diluir e esconder na sua barba espessa.

Na rua, de regresso ao bairro onde ficavam as suas casas, o Gonçalo, roído de remorsos, passou o braço pela cintura do velho amigo e disse-lhe:
- Manuel, há pouco fui inconveniente contigo ao dizer-te palavras que o teu amor pela Gertrudes não podiam consentir. Peço-te humildemente desculpa e agradeço-te a tua grande lição de amor... afinal, que mais não é, que a continuação do que tens dito e praticado ao longo da tua vida.

Manuel, de frente, com um sorriso cândido, ripostou-lhe:

- Sabes... amanhã é Dia de Natal... e neste tempo não pode haver discórdias. E até aquelas que existem entre os homens – que não são anjos – deviam ser sanadas, lembrando o nascimento de Jesus, que veio a este mundo para dar a paz a todos nós...
E os dois amigos, companheiros de uma vida inteira que começou nos bancos da Escola Primária que agora apodrece numa das ruas do seu bairro, seguiram rua fora, serenamente, um deles reconciliado consigo e o outro, feliz pelo amor que continuava a dar à sua querida Gertrudes e àquele amigo, a quem desculpara as palavras infelizes, fazendo-o em nome daquele Menino, cujo nascimento o mundo inteiro se aprestava por festejar.

Com mais vagar o Manuel Justino admirava, agora, as iluminações das ruas do seu bairro onde havia anjos, estrelas e sinos de luzes multicores, sentindo que havia no coração do Gonçalo, como havia no seu, um desejo ardente de Paz e Amor entre os homens.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Estou na gruta de Belém!




Adoração dos Magos de Domingos Sequeira




Estou na gruta de Belém!
Sou um simples pastor que desceu o monte,
trazendo o alforge cheio de  presentes
para os dar ao Menino.

Dei-lhos todos, um por um.

Vim, especialmente, à gruta de Belém
para oferecer os préstimos
do rebanho pequenino que o seu Amor me deu.
Penso que o Menino ficou contente
ao ver-me feito pastor de mim e dos meus.

Mas, vi no Seu modo, que me pedia mais:
pedia-me
para ser pastor no meu emprego
e, até, na rua onde passo todos os dias.

Olhei-o com ternura.
e depois, pensei, que pastores, afinal,
são todos os homens.
E vieram-me à mente os que o não são.
e a ser assim
são as ovelhas perdidas do Seu rebanho
onde devo ir. 




Esta reflexão de uma quase poesia de Natal que faz parte da colaboração que dou à RR, sugere que o pastor que sou, veio um dia pelo monte abaixo da existência e tomou sobre si mesmo a incumbência de se abeirar do presépio, e mostrar disponibilidade ao Menino para O servir.
Ser pastor, é isto: servir.

Foi o que fez o Menino do Presépio. Pediu-nos a graça de O servir na obra do resgate para a luz dos que vivem nas trevas.
É esta uma das mensagem que o presépio nos pede, porque, podemos construir presépios lindos, com papéis coloridos, luzes, sons, caminhos, com São Josés, Nossas Senhoras, Reis-Magos e camelos, mas se no presépio pomos o Menino a dormir em vez de sentirmos que a Sua voz interpela, o nosso  presépio é uma encenação a mais no grande teatro do mundo.

É disto que nos devemos precaver.
Aquele Menino rosado e loiro, de olhinhos redondos e límpidos, se repararmos nunca os fecha no seu leito de palhas porque é assim que Ele quer ser visto: sempre acordado a ver o mundo que passa, donde será uma falta se O julgamos a dormir.
No presépio o Menino está atento ao modo como quer ser interrogado pelos homens que o deitaram naquela posição de sono à espreita, quando, afinal, Ele olha para todos de olhos nos olhos para ver e sentir o que vamos fazer com Ele neste Natal.

Já pensamos nisto?
Agradava-lhe, certamente, que ouvíssemos o que Ele tem para nos dizer a nós que somos pastores não ordenados, mas também responsáveis pelas ovelhas perdidas da casa de Israel. (1)
Como quem semeia, mesmo em chão duro, vamos procura-las.
Neste Natal com a alegria de sentirmos que a voz do Menino nos chama, partamos pelos nossos caminhos e, embora imperfeitamente, tentemos imitar o que ele disse e fez relativamente aos que andavam longe da Casa do Pai.

Que o presépio nos inspire e nos leve àqueles que conhecemos e – talvez por nossa culpa – não se deixaram enxertar na vide verdadeira e não são sementes de bênçãos.
Semeemos, pois, tendo em mente este poema de Miguel Torga:

Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.  (2)

Que seja assim.

Que o Menino nos dê a coragem de semear contra o presente, que é um tempo duro, todos o sabemos, mas não podemos deixar de semear a seara do futuro.
É a voz do Menino que nos vai interpelar, neste sentido, no próximo Dia de Natal que se aproxima!




(1)  - Mt 15, 24
(2) - in, “Nihil Sibi”